{"id":1523,"date":"2006-02-24T00:00:00","date_gmt":"2006-02-24T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=1523"},"modified":"2006-02-24T00:00:00","modified_gmt":"2006-02-24T00:00:00","slug":"mulheres-com-veu-porem-mais-visiveis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/02\/mundo\/mulheres-com-veu-porem-mais-visiveis\/","title":{"rendered":"Mulheres: Com v\u00e9u, por\u00e9m, mais vis\u00edveis"},"content":{"rendered":"<p>Abbotabad,  Paquist\u00e3o, 24\/02\/2006 &ndash; Mais de quatro meses depois do terremoto que, no dia 8 de outubro, matou cerca de 80 mil pessoas na regi\u00e3o setentrional do Paquist\u00e3o, as vozes das mulheres mais do que nunca s\u00e3o ouvidas, embora suas aspira\u00e7\u00f5es e temores continuem sendo ignorados. O terremoto de 7,8 graus na escala Richter tamb\u00e9m deixou 2,5 milh\u00f5es de pessoas sem teto, e at\u00e9 agora a ajuda tem sido insuficiente, apesar do enorme esfor\u00e7o do governo e das ag\u00eancias humanit\u00e1rias internacionais. A zona mais afetada \u00e9 a que fica pr\u00f3xima da fronteira com o Afeganist\u00e3o, onde a religi\u00e3o e os costumes exigem que as mulheres permane\u00e7am cobertas pelo &quot;purdah&quot; (v\u00e9u) e deixem que os homens tomem todas as decis\u00f5es. <!--more--> Talvez por isso, o frio n\u00e3o tenha intimidado cerca de 600 mulheres que, em uma tarde no final de janeiro, se reuniram em uma enorme barraca de campanha para expressar seus sentimentos sobre o nulo avan\u00e7o dos trabalhos de reabilita\u00e7\u00e3o depois da cat\u00e1strofe. Algumas apenas deixavam ver os olhos atrav\u00e9s dos v\u00e9us nessa &quot;assembl\u00e9ia popular&quot; convocada pela Funda\u00e7\u00e3o Omar Asghar Khan para o Desenvolvimento, uma organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o-governamental que trabalha com as comunidades rurais do distrito de Mansehra, na Prov\u00edncia da Fronteira Noroeste. Algumas clamavam por abrigo e ra\u00e7\u00f5es de alimentos, enquanto outras destacavam a necessidade de m\u00e9dicos e ginecologistas, bem como de escolas para meninas em suas aldeias. Tamb\u00e9m houve muitas que falaram de seu desagrado com o projeto das novas moradias. Por\u00e9m, todas demandaram ser consultadas.<\/p>\n<p>Seu \u00e2nimo expressava a ang\u00fastia em que se encontravam. Nem o clima hostil conseguiu apaziguar seu entusiasmo. &quot;Quem teria pensado que estas mulheres rurais, normalmente vistas como submissas, seriam t\u00e3o batalhadoras&quot;, disse Rashida Dahod, conselheira de programa na Funda\u00e7\u00e3o, que desde o terremoto trabalha nestas regi\u00f5es. &quot;A id\u00e9ia \u00e9 expandir o espa\u00e7o pol\u00edtico dos marginalizados, para que sejam capazes de se comprometerem efetivamente com o Estado&quot;, explicou Dohad. Devido ao sucesso dessa primeira assembl\u00e9ia, a Funda\u00e7\u00e3o realizou outras com resultados semelhantes. &quot;Quer\u00edamos dar \u00e0s mulheres uma plataforma para compartilharem seus pontos de vista, esperan\u00e7as e medos sobre a reconstru\u00e7\u00e3o de suas casas, das instala\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias e para obter alguma seguran\u00e7a em seus meios de vida&quot;, afirmou Dohad.<\/p>\n<p>No per\u00edodo imediatamente posterior ao terremoto, a Funda\u00e7\u00e3o adotou algumas medidas para minimizar a situa\u00e7\u00e3o. Seus volunt\u00e1rios organizaram os alde\u00f5es em grupos e come\u00e7aram a instalar &quot;serais&quot; (ref\u00fagios tempor\u00e1rios), deixando um pacote completo de material de assist\u00eancia, incluindo alimentos e outros produtos essenciais, nas portas das pessoas afetadas. Isto significou o n\u00e3o-deslocamento, maior seguran\u00e7a para as mulheres, capacidade para continuar com a atividade agr\u00edcola, melhor acesso \u00e0 \u00e1gua e \u00e0s instala\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias, possibilidade de custodiar as posses da fam\u00edlia, a colheita, cuidar dos animais e come\u00e7ar a reconstru\u00e7\u00e3o e o planejamento.<\/p>\n<p>Estes fatores e a participa\u00e7\u00e3o na reabilita\u00e7\u00e3o da aldeia, bem como maior solidariedade e coes\u00e3o comunit\u00e1rias, geraram uma demanda muito maior de &quot;serais&quot;. No final de novembro de 2005, a Funda\u00e7\u00e3o havia instalado esses abrigos em 36 aldeias de tr\u00eas distritos, cobrindo mais de 6,1 mil moradias (quase cinco mil pessoas). As mulheres podem ser as mais pobres do Paquist\u00e3o, mas durante essas reuni\u00f5es mostraram que j\u00e1 n\u00e3o estavam dispostas a continuar sem voz. &quot;Esta \u00e9 nossa chance de nos manifestarmos. Podemos viver em aldeias, mas tamb\u00e9m somos paquistanesas&quot;, disse Zarina, uma mulher de 30 anos.<\/p>\n<p>Durante anos, na medida em que os homens migravam para centros urbanos em busca de trabalho, as mulheres se transformavam, silenciosamente, em chefes de fam\u00edlia. &quot;Carregaram em seus ombros a responsabilidade de administrar as fam\u00edlias, inclusive antes do terremoto. A principal fonte de renda local s\u00e3o os animais, que tradicionalmente s\u00e3o manejados pelas mulheres&quot;, explicou Dohad. Quando os homens retornarem para seus locais de trabalho nos centros urbanos, a responsabilidade da reconstru\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m ficar\u00e1 em m\u00e3os das mulheres. Uma primeira preocupa\u00e7\u00e3o foi ter acesso \u00e0 ajuda de 175 mil r\u00fapias paquistanesas (US$ 3 mil) concedida para cada casa destru\u00edda ou danificada.<\/p>\n<p>&quot;Ouvimos sobre o pacote do governo para a reconstru\u00e7\u00e3o de casas, mas n\u00e3o estamos certos de conseguir essa ajuda&quot;, disse Hukumdad, uma mulher de 40 anos, procedente da aldeia Sirla. Muitas expressaram descontetamento pela compensa\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que os custos dispararam. &quot;O dinheiro n\u00e3o \u00e9 suficiente para reconstruirmos nossas casas&quot;, disse Madiha, da aldeia de Buruj. Contudo, o informe da Funda\u00e7\u00e3o diz outra coisa: &quot;Alguns lares verdadeiramente afetados confirmaram que receberam esta soma, embora seja inadequada. Muitos deles que n\u00e3o o mereciam tamb\u00e9m se beneficiaram da ajuda. Os casos de que se tem conhecimento indicam que a distribui\u00e7\u00e3o da compensa\u00e7\u00e3o por morte, de 100 mil r\u00fapias (US$ 1,6 mil), \u00e9 insuficiente e est\u00e1 cheia de corrup\u00e7\u00e3o&quot;.<\/p>\n<p>Outras questionaram o mecanismo de dirigir essa quantia aos homens chefes de fam\u00edlia. &quot;N\u00f3s temos o mesmo direito&quot;, afirmaram muitas mulheres que juntaram coragem suficiente. &quot;O terremoto deixou profundas rachaduras em nossa terra. N\u00e3o \u00e9 adequada para a reconstru\u00e7\u00e3o. Para onde iremos?&quot;, foi o angustiante coment\u00e1rio de uma participante. &quot;Somos arrendat\u00e1rios. O que nos acontecer\u00e1?&quot;, se preocupou outra. As mulheres sugeriram que o governo destinasse terrenos para as fam\u00edlias afetadas.<\/p>\n<p>&quot;O pacote do governo \u00e9 cego em mat\u00e9ria de g\u00eanero. Sua men\u00e7\u00e3o das mulheres diz respeito \u00e0s vi\u00favas, que s\u00e3o colocadas na mesma categoria que os \u00f3rf\u00e3os e incapacitados. Mas, nem todas s\u00e3o vi\u00favas&quot;, disse Dohad. A Funda\u00e7\u00e3o sugeriu \u00e0 Autoridade de Reabilita\u00e7\u00e3o e Reconstru\u00e7\u00e3o ap\u00f3s Terremotos que colocasse o dinheiro para a reconstru\u00e7\u00e3o de moradias em uma conta banc\u00e1ria comum do chefe e da chefe da fam\u00edlia. Iniciativas pol\u00edticas como esta podem ser uma enorme diferen\u00e7a no status familiar das mulheres e garantir que o declarado objetivo do governo de &quot;reconstruir melhor&quot; seja cumprido.<\/p>\n<p>Se, por um lado, houve unanimidade geral quanto a seguir os c\u00f3digos de constru\u00e7\u00e3o para que as casas sejam mais seguras, por outro, muitos participantes lamentaram que os projetos dos modelos pr\u00e9-fabricados n\u00e3o seguissem as tradi\u00e7\u00f5es nem respeitassem sua privacidade. &quot;Necessitamos de um projeto que respeite nossa privacidade e nosso prudah&quot;, foi a reclama\u00e7\u00e3o comum. Muitas jovens que participam das assembl\u00e9ias populares falam apaixonadamente sobre seu direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o. &quot;S\u00e3o as mo\u00e7as menos importantes do que os rapazes? Se somos iguais, por que n\u00e3o se d\u00e1 a devida import\u00e2ncia \u00e0 nossa educa\u00e7\u00e3o?&quot;, perguntou Aasiya, da aldeia Sihali.<\/p>\n<p>&quot;Nossos pedidos para reconstru\u00e7\u00e3o do edif\u00edcio da escola simplesmente foram ignorados. Quem se responsabilizar\u00e1 pelas mortes de estudantes, se ele desabar?&quot;, perguntou Rabya, estudante da Escola para Meninas Garhi Habibullah, onde mais de 200 mo\u00e7as foram enterradas vivas por causa do terremoto. A pr\u00f3pria Rabya ficou presa sob os escombros por mais de duas horas, at\u00e9 ser resgatada. Dohad v\u00ea aqui &quot;uma oportunidade real de mudar as rela\u00e7\u00f5es tradicionais de poder que podem trazer uma mudan\u00e7a duradoura&quot;.<\/p>\n<p>&quot;A reconstru\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 deve reedificar, como tamb\u00e9m melhorar significativamente as condi\u00e7\u00f5es das \u00e1reas rurais devastadas, reduzindo a vulnerabilidade dos pobres do lugar&quot;, disse Ali Asghar Khan, presidente da Funda\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m pediu urg\u00eancia ao governo e outras entidades sociais no sentido de ouvir os afetados, particularmente as mulheres e os pobres. &quot;\u00c9 mais f\u00e1cil dizer do que fazer&quot;, afirmou uma c\u00e9tica Dorothy Blane, diretora para este pa\u00eds da Concern, uma ong irlandesa envolvida na tarefa de reabilita\u00e7\u00e3o na Prov\u00edncia da Fronteira Noroeste, que aposta na mobiliza\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria para incentivar a forma\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es masculinas e femininas.<\/p>\n<p>&quot;Inclusive, mesmo se as organiza\u00e7\u00f5es se formarem, ainda faltar\u00e1 um grande salto para que as mulheres se sintam livres para erguer a voz, e outro ainda maior para que sejam ouvidas&quot;, disse Blane. &quot;Se considero o qu\u00e3o pouco mudou, inclusive em circunst\u00e2ncias nefastas, como mulheres feridas negando-se a aceitar tratamento de m\u00e9dicos homens, mesmo com permiss\u00e3o de seus maridos, n\u00e3o estou de todo convencida de que todas vejam a reconstru\u00e7\u00e3o como uma oportunidade de gerar uma mudan\u00e7a positiva. Mas, n\u00f3s, como uma ong, devemos apoiar aquelas que pensam o contr\u00e1rio&quot;, acrescentou. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Abbotabad,  Paquist\u00e3o, 24\/02\/2006 &ndash; Mais de quatro meses depois do terremoto que, no dia 8 de outubro, matou cerca de 80 mil pessoas na regi\u00e3o setentrional do Paquist\u00e3o, as vozes das mulheres mais do que nunca s\u00e3o ouvidas, embora suas aspira\u00e7\u00f5es e temores continuem sendo ignorados. O terremoto de 7,8 graus na escala Richter tamb\u00e9m deixou 2,5 milh\u00f5es de pessoas sem teto, e at\u00e9 agora a ajuda tem sido insuficiente, apesar do enorme esfor\u00e7o do governo e das ag\u00eancias humanit\u00e1rias internacionais. A zona mais afetada \u00e9 a que fica pr\u00f3xima da fronteira com o Afeganist\u00e3o, onde a religi\u00e3o e os costumes exigem que as mulheres permane\u00e7am cobertas pelo &quot;purdah&quot; (v\u00e9u) e deixem que os homens tomem todas as decis\u00f5es. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/02\/mundo\/mulheres-com-veu-porem-mais-visiveis\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":2025,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[12,4,7],"tags":[21],"class_list":["post-1523","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-desenvolvimento","category-mundo","category-saude","tag-metas-do-milenio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1523","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2025"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1523"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1523\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1523"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1523"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1523"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}