{"id":1536,"date":"2006-03-02T00:00:00","date_gmt":"2006-03-02T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=1536"},"modified":"2006-03-02T00:00:00","modified_gmt":"2006-03-02T00:00:00","slug":"ciencia-bioterrorismo-versus-biotecnologia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/03\/mundo\/ciencia-bioterrorismo-versus-biotecnologia\/","title":{"rendered":"Ci\u00eancia: Bioterrorismo versus biotecnologia"},"content":{"rendered":"<p>Toronto, 02\/03\/2006 &ndash; Al\u00e9m de provocar virulentas e terr\u00edveis enfermidades, o uso da biotecnologia com fins terroristas pode enfraquecer a luta contra a fome e as doen\u00e7as, alertam especialistas em \u00e9tica aplicada \u00e0s ci\u00eancias. Avan\u00e7os cient\u00edficos de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o, como a biotecnologia e a nanotecnologia, &quot;sup\u00f5em s\u00e9rios riscos potenciais para o p\u00fablico&quot;, disse \u00e0 IPS Peter Singer, diretor do Centro Conjunto para a Bio\u00e9tica em Toronto. Mas &quot;se o que nos preocupa s\u00e3o apenas a biosseguran\u00e7a e os riscos, dever\u00edamos criar um grande muro para impedir o desenvolvimento destas novas tecnologias&quot;, afirmou Singer, co-autor do informe &quot;ADN para a paz. Reconciliando biodesenvolvimento e biosseguran\u00e7a&quot;. <!--more--> O estudo enfatiza as possibilidades que a biotecnologia oferece na luta contra as doen\u00e7as, a fome e a pobreza, especialmente no Sul em desenvolvimento. &quot;Nosso maior temor \u00e9 a perda de oportunidade para o mundo em desenvolvimento que sofrer\u00edamos como conseq\u00fc\u00eancia de uma rea\u00e7\u00e3o exagerada do p\u00fablico e dos pa\u00edses a algum incidente bioterrorista&quot;, disse outro co-autor do relat\u00f3rio, Abdallah S. Daar. N\u00e3o se trata de uma amea\u00e7a iminente, mas para o futuro, acrescentou Daar, que \u00e9 co-diretor do Programa sobre Gen\u00f4mica e Sa\u00fade Mundial do Centro Conjunto para a Bio\u00e9tica.<\/p>\n<p>De todo modo, a preocupa\u00e7\u00e3o diante de tais eventualidades poderia levar os pa\u00edses a impor controles r\u00edgidos, regulamenta\u00e7\u00f5es ou proibi\u00e7\u00f5es que abortem o desenvolvimento das novas tecnologias, afirmou o especialista. Os laborat\u00f3rios de biotecnologia e nanotecnologia surgem como fungos por todo o planeta. Somente no Brasil h\u00e1 cerca de 400 companhias de pesquisa e desenvolvimento biotecnol\u00f3gico. Cingapura e Mal\u00e1sia investem dezenas de milh\u00f5es de d\u00f3lares em pesquisa. E cientistas vietnamitas acabam de anunciar a cria\u00e7\u00e3o de um arroz transg\u00eanico resistente ao ataque de insetos. Mas ativistas alertam que os governos e Estados deveriam exercer um controle mais rigoroso sobre as empresas privadas de biotecnologia e nanotecnologia, que resistem a compartilhar suas descobertas por raz\u00f5es comerciais.<\/p>\n<p>Estes ativistas consideram que o relat\u00f3rio do Centro se coloca favor\u00e1vel ao setor privado, ao desestimular as regulamenta\u00e7\u00f5es e os controles com o argumento de que det\u00eam o avan\u00e7o cient\u00edfico, sem levar em conta os riscos. Os chefes de Estado e de governo do Grupo dos Oito pa\u00edses mais poderosos decidiram em julho, na sua \u00faltima reuni\u00e3o, criar uma rede internacional para resolver poss\u00edveis conflitos entre o controle do bioterrorismo e o desenvolvimento da biotecnologia. Estas preocupa\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m estar\u00e3o na agenda da pr\u00f3xima reuni\u00e3o das Partes do Protocolo sobre Seguran\u00e7a da Biotecnologia, que \u00e9 parte do Conv\u00eanio sobre Diversidade Biol\u00f3gica. Os delegados dos pa\u00edses signat\u00e1rios se reunir\u00e3o em Curitiba entre 13 e 17 deste m\u00eas.<\/p>\n<p>Este acordo da Conven\u00e7\u00e3o sobre Biodiversidade, tamb\u00e9m chamado de Protocolo sobre Biosseguran\u00e7a, ou de Cartagena, \u00e9 o acordo internacional que regulamenta o movimento fronteiri\u00e7o de organismos transg\u00eanicos. Estados Unidos, Argentina e Canad\u00e1, que somam 90% da produ\u00e7\u00e3o de transg\u00eanicos, n\u00e3o o ratificaram. A biotecnologia \u00e9 um conjunto de t\u00e9cnicas que implicam a manipula\u00e7\u00e3o ou engenharia das c\u00e9lulas de organismos vivos. J\u00e1 s\u00e3o produzidas sementes transg\u00eanicas e, num futuro pr\u00f3ximo, ser\u00e3o fabricados novos medicamentos, vacinas e reagentes para diagn\u00f3sticos. A nanotecnologia, por sua vez, se refere \u00e0 manipula\u00e7\u00e3o de mat\u00e9ria n\u00e3o-biol\u00f3gica e biol\u00f3gica em n\u00edvel de \u00e1tomos e mol\u00e9culas. At\u00e9 agora, \u00e9 usada na fabrica\u00e7\u00e3o de telas mais resistentes e cosm\u00e9ticos mais suaves.<\/p>\n<p>Em 2004, os cientistas chineses divulgaram mais informes sobre pesquisas em nanotecnologia do que seus pares norte-americanos. &quot;As preocupa\u00e7\u00f5es sobre bioterrorismo s\u00e3o leg\u00edtimas. \u00c9 mais f\u00e1cil criar uma bact\u00e9ria resistente aos antibi\u00f3ticos do que desenvolver um novo antibi\u00f3tico&quot;, disse \u00e0 IPS Gig Kwik Gronvall, professora de medicina do Centro de Biosseguran\u00e7a da Universidade de Pittsburg, nos Estados Unidos. As barreiras cient\u00edficas, t\u00e9cnicas e de custos \u00e0 biotecnologia diminuem e a tornam mais acess\u00edvel e simples. Ao mesmo tempo, acrescentou, aumentem o poder e os riscos, segundo Gronvall.<\/p>\n<p>&quot;Os acidentes ser\u00e3o o grande problema no futuro&quot;, afirmou. A acelerada prolifera\u00e7\u00e3o dessas tecnologias \u00e9 muito preocupante, segundo a ativista Pat Mooney, da organiza\u00e7\u00e3o ambientalista ETC Group, que se pergunta quem pagar\u00e1 a pesquisa e a infra-estrutura necess\u00e1rias para regulament\u00e1-las no Sul em desenvolvimento. &quot;Os governos do Canad\u00e1 e dos Estados Unidos carecem de capacidade para regular adequadamente a biotecnologia e a nanotecnologia em seu pr\u00f3prio territ\u00f3rio&quot;, afirmou Mooney. &quot;Acredito que n\u00e3o devemos confiar que o setor privado far\u00e1 tudo o que for necess\u00e1rio para proteger o meio ambiente e a sa\u00fade humana&quot;, acrescentou.<\/p>\n<p>A maior parte da pesquisa em biotecnologia corresponde a companhias privadas que trabalham em segredo para proteger seus interesses comerciais. Esse \u00e9 um obst\u00e1culo enorme para que os cientistas compartilhem a informa\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria a fim de impedir acidentes e mau uso desses avan\u00e7os, afirmou Singer. As empresas est\u00e3o a par dessa situa\u00e7\u00e3o e se mostram dispostas a participar de uma rede mundial para a cria\u00e7\u00e3o de uma cultura de boa ci\u00eancia e boas regulamenta\u00e7\u00f5es, acrescentou o especialista. &quot;Os pa\u00edses nem mesmo podem manejar material nuclear, mas a biotecnologia \u00e9 aterradora porque envolve mat\u00e9ria viva&quot;, disse \u00e0 IPS a especialista Anuradha Mittal, do n\u00e3o-governamental Instituto Oakland, com sede nos Estados Unidos que estimula a ajuda ao desenvolvimento do Sul.<\/p>\n<p>Os vegetais ou v\u00edrus criados atrav\u00e9s da manipula\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica s\u00e3o dif\u00edceis de se rastrear e imposs\u00edveis de deter uma vez liberados no meio ambiente, acrescentou Mittal. &quot;O Protocolo sobre Seguran\u00e7a da Biotecnologia. Por que n\u00e3o us\u00e1-lo para arbitrar a biotecnologia?&quot;, perguntou. A propaganda a favor da biotecnologia como uma necessidade dos pa\u00edses em desenvolvimento representa um sinal do despreparo das companhias do setor diante dos crescentes questionamentos do p\u00fablico, segundo Mittal, para quem &quot;continuam prometendo melhores alimentos e melhores rem\u00e9dios, mas nunca os forneceram&quot;.<\/p>\n<p>Mittal recordou que a \u00cdndia \u00e9 o terceiro produtor mundial de alimentos, por isso, a forme n\u00e3o deve ser atribu\u00edda \u00e0 disponibilidade material, mas \u00e0 pobreza. Esse pa\u00eds, segundo a especialista, n\u00e3o precisa de novas tecnologias para deter as enfermidades, mas de ajuda e investimentos em sa\u00fade. &quot;J\u00e1 que se sup\u00f5e que s\u00e3o especialistas em \u00e9tica, por que os membros do Centro Conjunto para a Bio\u00e9tica n\u00e3o trabalham em um assunto como a justi\u00e7a social?&quot;, perguntou Mooney. &quot;Parecem mais interessados em promover a libera\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica&quot;, acrescentou. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Toronto, 02\/03\/2006 &ndash; Al\u00e9m de provocar virulentas e terr\u00edveis enfermidades, o uso da biotecnologia com fins terroristas pode enfraquecer a luta contra a fome e as doen\u00e7as, alertam especialistas em \u00e9tica aplicada \u00e0s ci\u00eancias. Avan\u00e7os cient\u00edficos de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o, como a biotecnologia e a nanotecnologia, &quot;sup\u00f5em s\u00e9rios riscos potenciais para o p\u00fablico&quot;, disse \u00e0 IPS Peter Singer, diretor do Centro Conjunto para a Bio\u00e9tica em Toronto. Mas &quot;se o que nos preocupa s\u00e3o apenas a biosseguran\u00e7a e os riscos, dever\u00edamos criar um grande muro para impedir o desenvolvimento destas novas tecnologias&quot;, afirmou Singer, co-autor do informe &quot;ADN para a paz. 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