{"id":1563,"date":"2006-03-10T00:00:00","date_gmt":"2006-03-10T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=1563"},"modified":"2006-03-10T00:00:00","modified_gmt":"2006-03-10T00:00:00","slug":"jornalismo-portugal-sombras-no-horizonte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/03\/mundo\/jornalismo-portugal-sombras-no-horizonte\/","title":{"rendered":"Jornalismo-Portugal: Sombras no horizonte"},"content":{"rendered":"<p>Lisboa, 10\/03\/2006 &ndash; A invas\u00e3o da reda\u00e7\u00e3o de um jornal por ordem da Procuradoria Geral do Estado e uma lei que cria a Entidade Reguladora para a Comunica\u00e7\u00e3o Social (ERC) s\u00e3o dois atos sem precedentes no Portugal que chegou \u00e0 democracia em 1974, quando foi restaurada pelos capit\u00e3es esquerdistas do ex\u00e9rcito. Esta \u00e9 a vis\u00e3o comum de analistas e jornalistas que alertam para &quot;amea\u00e7as&quot; \u00e0 liberdade de imprensa sem paralelo nos pa\u00edses da Uni\u00e3o Europ\u00e9ia. Mais do que censura, s\u00e3o formas de intimida\u00e7\u00e3o e controle&quot;, afirma Rui Costa Pinto, respons\u00e1vel por grandes reportagens do seman\u00e1rio Vis\u00e3o. <!--more--> Costa Pinto reconhece que &quot;os jornalistas n\u00e3o podem reivindicar direitos absolutos&quot;, mas devem &quot;exigir uma lei clara&quot;, disse se referindo ao artigo 135 da norma que cria a ERC, pela qual um juiz pode ordenar o fim do segredo profissional durante uma investiga\u00e7\u00e3o, instru\u00e7\u00e3o ou julgamento. Apesar do questionamento da compet\u00eancia da ERC, cujos funcion\u00e1rios ter\u00e3o um estatuto compar\u00e1vel ao dos agentes de autoridade, a pol\u00eamica subiu de tom nos \u00faltimos dias pela apreens\u00e3o de material existentes nos computadores da reda\u00e7\u00e3o do jornal 24 Horas, por ordem do procurador-geral do Estado, Jos\u00e9 Souto Moura.<\/p>\n<p>No final de fevereiro, dezenas de agentes da Pol\u00edcia Judici\u00e1ria irromperam na reda\u00e7\u00e3o ordenando, em voz alta &quot;tirem as m\u00e3os dos teclados&quot; e confiscando os computadores. A hist\u00f3ria remonta a 13 de janeiro, quando o peri\u00f3dico sensacionalista revelou o conte\u00fado de um disquete no qual aparecia uma longa lista de telefonemas recebidos e feitos por altos funcion\u00e1rios, come\u00e7ando pelo presidente da Rep\u00fablica, Jorge Sampaio, no contexto de investiga\u00e7\u00f5es no processo da Casa P\u00eda, um esc\u00e2ndalo de pedofilia que estremece Portugal h\u00e1 tr\u00eas anos.<\/p>\n<p>Na rela\u00e7\u00e3o de chamadas, enviada pela companhia Portugal Telecom \u00e0 promotoria, apareciam dezenas de pessoas que nada t\u00eam a ver com o processo da Casa P\u00eda e cujo \u00fanico ponto comum era sua atividade pol\u00edtica. Quando o jornal divulgou a lista, Sampaio chamou Souto Moura e o instruiu para que investigasse o caso. Em um discurso \u00e0 na\u00e7\u00e3o, o mandat\u00e1rio advertiu o procurador de que n\u00e3o toleraria m\u00e9todos que constitu\u00edssem uma invas\u00e3o devida \u00e0 privacidade das pessoas e lhe deu um &quot;prazo muito curto&quot; para determinar todas as responsabilidades disciplinares e penais correspondentes.<\/p>\n<p>Entretanto, o \u00fanico processo aberto pelo procurador foi contra tr\u00eas jornalistas, os dois autores da mat\u00e9ria e o diretor do 24 Horas, constitu\u00eddos r\u00e9us por ordem do juiz de instru\u00e7\u00e3o que autorizou a a\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio P\u00fablico. O escritor Miguel de Sousa Tavares, colunista do influente seman\u00e1rio Expresso de Lisboa, disse que n\u00e3o d\u00e1 nenhuma vontade de ser solid\u00e1rio com um jornal como o 24 Horas, mas h\u00e1 momentos em que o mais importante \u00e9 escolher contra quem se est\u00e1, e n\u00e3o com quem&quot;. A invas\u00e3o do jornal \u00e9 &quot;um ensaio da magistratura contra a imprensa para medir as rea\u00e7\u00f5es, ver se h\u00e1 terreno livre para avan\u00e7ar e criar jurisprud\u00eancia&quot;, ressaltou. Por outro lado, &quot;Souto Moura confia que o novo presidente de Portugal, An\u00edbal Cavaco e Silva, n\u00e3o ir\u00e1 tocar no assunto&quot;, disse.<\/p>\n<p>A decis\u00e3o judicial mostra &quot;o desprezo do magistrado pelo sigilo profissional dos jornalistas, sem o qual nunca existiria o jornalismo de investiga\u00e7\u00e3o&quot;, diz o escritor. O diretor do jornal Publico, de Lisboa, Jos\u00e9 Manuel Fernandes, intitulou seu editorial de sexta-feira de &quot;Assalto \u00e0 liberdade&quot;. O que ocorreu no 24 Horas &quot;\u00e9 um sinal: em Portugal, a liberdade de informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem muitos amigos&quot;, deplorou Fernandes, qualificando o caso de &quot;muito mais grave do que pode parecer&quot;, porque se est\u00e1 instalando no sistema de justi\u00e7a &quot;um clima favor\u00e1vel \u00e0 limita\u00e7\u00e3o da liberdade de informa\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, \u00e0 limita\u00e7\u00e3o da liberdade de todos os portugueses, do mais humilde cidad\u00e3o ao mais ilustre ministro&quot;.<\/p>\n<p>A procuradoria &quot;n\u00e3o quer saber sobre o mal, mas matar o mensageiro que o revela&quot;, e isto afeta &quot;todo o jornalismo de investiga\u00e7\u00e3o&quot;, disse Fernandez. A opini\u00e3o \u00e9 compartilhada por Octavio Ribeiro, colunista do Correio da Manh\u00e3, o jornal de maior circula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, o qual afirmou que &quot;pelo caminho que se avizinha, um jornalista em Portugal que investigar um esc\u00e2ndalo semelhante ao Watergate jamais poder\u00e1 torn\u00e1-lo p\u00fablico, porque provavelmente iria parar na cadeia &quot;pelo bem&quot; da na\u00e7\u00e3o&quot;. Entre os ju\u00edzes, a voz dissonante partiu de Eurico Reis, magistrado do tribunal de apela\u00e7\u00f5es de Lisboa, que em um artigo publicado no dia 2 deste m\u00eas no Correio da Manh\u00e3 adverte sobre as amea\u00e7as que se fecham sobre os meios de comunica\u00e7\u00e3o. &quot;N\u00e3o pode haver imprensa livre sem a salvaguarda dos direitos dos jornalistas&quot;.<\/p>\n<p>Diante da avalanche de cr\u00edticas ao Poder Judici\u00e1rio, a IPS consultou o analista Jos\u00e9 Carlos de Vasconcelos, advogado, escritor e coordenador editorial do grupo Imprensa, o principal do ramo da comunica\u00e7\u00e3o social em Portugal. Vasconcelos expressou sua &quot;indigna\u00e7\u00e3o pela impunidade dos respons\u00e1veis por inadmiss\u00edveis e inqualific\u00e1veis escutas telef\u00f4nicas, enquanto s\u00f3 parecem perseguir os que revelam sua exist\u00eancia, ou seja, os jornalistas&quot;. Em Portugal, &quot;Somente o Poder Judici\u00e1rio n\u00e3o responde a ningu\u00e9m&quot;, porque os ju\u00edzes s\u00e3o avaliados pelo Conselho Superior da Magistratura, composto por ju\u00edzes, isto \u00e9, trata-se de autocontrole&quot;, afirmou.<\/p>\n<p>&quot;A frase tirem as m\u00e3os dos teclados permanecer\u00e1 como uma caricatura triste e violenta de certa justi\u00e7a que, n\u00e3o sendo capaz de investigar e punir os respons\u00e1veis do essencial, se preocupa simplesmente com o acess\u00f3rio&quot;, lamentou Vasconcelos. O tamb\u00e9m escritor Francisco Jos\u00e9 Viegas diz em uma coluna do Jornal de Not\u00edcias, da cidade do Porto, que a ERC permitir\u00e1 vigiar os comportamento da imprensa, atrav\u00e9s de investiga\u00e7\u00f5es, al\u00e9m de acesso aos equipamentos e servi\u00e7os das reda\u00e7\u00f5es sem ordem judicial.<\/p>\n<p>&quot;N\u00e3o se trata de defender a corpora\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica, mas se trata de defender a liberdade de express\u00e3o e de evitar o controle da imprensa, da opini\u00e3o expressada e de nossas op\u00e7\u00f5es como cidad\u00e3os e leitores&quot; e nestes assuntos, &quot;se abdica-se uma vez, abdica-se para sempre&quot;, afirma Viegas. O ministro de Assuntos Parlamentares, Augusto Santos Silva, respons\u00e1vel pela comunica\u00e7\u00e3o social, negou que a ERC seja antidemocr\u00e1tica, j\u00e1 que sua g\u00eanese \u00e9 de natureza &quot;constitucional&quot; e, como tal, sua miss\u00e3o \u00e9 &quot;cumprir os preceitos estabelecidos na lei fundamental, tendo em conta a liberdade de imprensa e o pluralismo&quot;.<\/p>\n<p>Os profissionais do jornalismo de investiga\u00e7\u00e3o ser\u00e3o os mais afetados pela nova legisla\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o parecem dispostos a desistir, segundo se depreende da s\u00edntese que uma rep\u00f3rter de televis\u00e3o fez em nome de seus colegas. &quot;As travas somente v\u00e3o representar mais trabalho para n\u00f3s: em lugar do telefone e do e-mail, passaremos a ter encontros nas esta\u00e7\u00f5es de metr\u00f4 e nos estacionamentos&quot;, ironizou Sofia Pinto Coelho. &quot;Basta que haja um jornalista audaz para que continue existindo uma imprensa livre&quot;, acrescentou. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lisboa, 10\/03\/2006 &ndash; A invas\u00e3o da reda\u00e7\u00e3o de um jornal por ordem da Procuradoria Geral do Estado e uma lei que cria a Entidade Reguladora para a Comunica\u00e7\u00e3o Social (ERC) s\u00e3o dois atos sem precedentes no Portugal que chegou \u00e0 democracia em 1974, quando foi restaurada pelos capit\u00e3es esquerdistas do ex\u00e9rcito. Esta \u00e9 a vis\u00e3o comum de analistas e jornalistas que alertam para &quot;amea\u00e7as&quot; \u00e0 liberdade de imprensa sem paralelo nos pa\u00edses da Uni\u00e3o Europ\u00e9ia. Mais do que censura, s\u00e3o formas de intimida\u00e7\u00e3o e controle&quot;, afirma Rui Costa Pinto, respons\u00e1vel por grandes reportagens do seman\u00e1rio Vis\u00e3o. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/03\/mundo\/jornalismo-portugal-sombras-no-horizonte\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":256,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6,4],"tags":[],"class_list":["post-1563","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-direitos-humanos","category-mundo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1563","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/256"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1563"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1563\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1563"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1563"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1563"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}