{"id":1577,"date":"2006-03-15T00:00:00","date_gmt":"2006-03-15T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=1577"},"modified":"2006-03-15T00:00:00","modified_gmt":"2006-03-15T00:00:00","slug":"agricultura-transgenicos-deixam-pegadas-na-america-latina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/03\/america-latina\/agricultura-transgenicos-deixam-pegadas-na-america-latina\/","title":{"rendered":"Agricultura: Transg\u00eanicos deixam pegadas na Am\u00e9rica Latina"},"content":{"rendered":"<p>Montevid\u00e9u, 15\/03\/2006 &ndash; Os organismos geneticamente modificados, mais conhecidos como transg\u00eanicos, est\u00e3o deixando uma marca indel\u00e9vel em v\u00e1rios pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, mais al\u00e9m das normas e tentativas de adotar um regime internacional sobre sua produ\u00e7\u00e3o e transporte. Grandes extens\u00f5es plantadas com soja transg\u00eanica marcam paisagens no Brasil e na Argentina, e se expandem no Paraguai, Uruguai e na Bol\u00edvia. Argentina, Estados Unidos e Canad\u00e1 respondem por 90% da produ\u00e7\u00e3o de transg\u00eanicos do mundo. A soja \u00e9 vital para a economia argentina neste momento. O pa\u00eds \u00e9 o terceiro produtor mundial (com 32 milh\u00f5es de toneladas em 2004, depois dos EUA e do Brasil) e o primeiro exportador de \u00f3leo de soja. Esta oleaginosa constitui a metade da colheita na Argentina, segundo o Minist\u00e9rio da Agricultura desse pa\u00eds. <!--more--> A Funda\u00e7\u00e3o Produzir Conservando, financiada por companhias biotecnol\u00f3gicas, afirma que at\u00e9 95% desse gr\u00e3o s\u00e3o transg\u00eanicos. O ponto de partida foi a variedade Roundup Ready da empresa Monsanto, resistente ao seu pesticida de mesmo nome. Mas as empresas produtoras de sementes que a adquiriram em meados dos anos 90 deram origem a mais de cem variedades na Argentina. Agricultores e Estados argentinos est\u00e3o em batalha legal contra a Monsanto, que quer cobrar retroativamente lucro de anos. O Minist\u00e9rio da Agricultura reconhece que a exporta\u00e7\u00e3o de soja \u00e9 &quot;a fonte mais importante de renda fiscal&quot;. Mas o monocultivo &quot;atenta contra a sustentabilidade dos agro-ecosistemas&quot; e h\u00e1 &quot;grandes riscos de contamina\u00e7\u00e3o&quot;, sobretudo pela degrada\u00e7\u00e3o dos solos, admite.<\/p>\n<p>Desde 2001, a Comiss\u00e3o Nacional de Biotecnologia Agropecu\u00e1ria autorizou 788 pesquisas, a grande maioria com milho. Trata-se de testes em campo, dos quais alguns poucos chegam a ser comercializados. Estes correspondem a filiais das empresas norte-americanas Monsanto, DuPont e Dow AgroScienses; da holandesa Nidera e do laborat\u00f3rio su\u00ed\u00e7o Novartis. A pesquisa para resolver problemas pr\u00f3prios \u00e9 fomentada por produtores nacionais e pelo Instituto Nacional de Tecnologia Agropecu\u00e1ria, que estuda, entre outros, um milho resistente ao v\u00edrus do mal de Rio Cuarto, end\u00eamico deste pa\u00eds, cujo custo \u00e9 dividido por produtores mediante a compra de quotas de sua patente.<\/p>\n<p>A Argentina n\u00e3o ratificou o Protocolo de Cartagena sobre Seguran\u00e7a na Biotecnologia, em vigor desde setembro de 2003, destinado a proteger a diversidade biol\u00f3gica dos riscos dos organismos vivos modificados pela moderna biotecnologia. O tratado estabelece o consentimento informado para autorizar a entrada de transg\u00eanicos nos pa\u00edses e o princ\u00edpio de precau\u00e7\u00e3o, pelo qual os governos podem apelar para suspender a produ\u00e7\u00e3o ou o com\u00e9rcio, enquanto n\u00e3o se prove que os transg\u00eanicos s\u00e3o in\u00f3cuos para o meio ambiente ou a sa\u00fade humana. N\u00e3o h\u00e1 pesquisa categ\u00f3rica sobre os riscos destas variedades obtidas em laborat\u00f3rio atrav\u00e9s da introdu\u00e7\u00e3o de genes de outras esp\u00e9cies animais ou vegetais.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m no Brasil, a estrela transg\u00eanica \u00e9 a soja, mas h\u00e1 planta\u00e7\u00f5es ilegais de algod\u00e3o e sementes de milho contrabandeada da Argentina, seguindo os passos da oleaginosa. A soja constitui quase a metade da produ\u00e7\u00e3o brasileira de gr\u00e3os, que chega a cerca de 120 milh\u00f5es de toneladas. \u00c9 o maior item da pauta de exporta\u00e7\u00e3o, sobretudo em gr\u00e3o, e, em menor medida, em farinhas e \u00f3leos. Hoje, estima-se que 90% da soja plantada no Rio Grande do Sul s\u00e3o transg\u00eanicos, e entre 10% e 20% em outros Estados do Sul e Centro-Oeste. Em temporadas normais, o Rio Grande do Sul responde por um sexto da colheita nacional, mas a seca de 2005 reduziu muito a produ\u00e7\u00e3o no Sul do Pa\u00eds.<\/p>\n<p>A principal caracter\u00edstica dos transg\u00eanicos brasileiros \u00e9 sua ilegalidade, com sementes de soja contrabandeadas desde 1996. A pol\u00edtica oficial foi acusada de omiss\u00e3o diante de fatos consumados. Em 2004, se resolveu autorizar por decreto o plantio, e em 2005 entrou em vigor a Lei de Bioseguran\u00e7a para dar um contexto definitivo \u00e0 quest\u00e3o. Embora o Brasil seja parte do Protocolo de Cartagena, n\u00e3o cumpriu seus princ\u00edpios, especialmente o de precau\u00e7\u00e3o. A ministra de Meio Ambiente, Marina Silva, insistiu inutilmente na necessidade de estudos pr\u00e9vios da soja e demais transg\u00eanicos, argumentando que os realizados em outros pa\u00edses n\u00e3o valem no Brasil, por sua grande diversidade biol\u00f3gica.<\/p>\n<p>A ilegalidade continua caracterizando a soja, pois os agricultores evitam pagar \u00e0 Monsanto. Enquanto isso, a Comiss\u00e3o Nacional T\u00e9cnica de Bioseguran\u00e7a tem mais de 500 pedidos de autoriza\u00e7\u00e3o para pesquisas. Outra prova da informalidade \u00e9 a quest\u00e3o dos r\u00f3tulos. Um decreto presidencial o exige quando h\u00e1 mais de 1% de ingrediente transg\u00eanico, mas isso n\u00e3o \u00e9 cumprido. &quot;Todo o Protocolo de Cartagena depende da rotulagem, \u00e9 um ponto central porque o torna vi\u00e1vel, ou invi\u00e1vel&quot;, disse \u00e0 IPS Gabriel Fernandes, t\u00e9cnico de Assessoria e Servi\u00e7os para Projetos de Agricultura Alternativa e um dos coordenadores da campanha Por um Brasil Livre de Transg\u00eanicos.<\/p>\n<p>Um r\u00f3tulo que diga &quot;cont\u00e9m OVM&quot; (organismo vivo modificado) obriga toda a cadeia produtiva, desde a planta\u00e7\u00e3o, a informar de forma transparente a exist\u00eancia de transg\u00eanicos. &quot;O agroneg\u00f3cio usa argumentos contradit\u00f3rios&quot; sobre as dificuldades e altos custos para a rotulagem. Mas h\u00e1 estudos segundo os quais esses custos s\u00e3o muito baixos, afirmou Fernandes. &quot;O acompanhamento estar\u00e1 assegurado com a planta\u00e7\u00e3o legal porque a Monsanto controlar\u00e1 suas sementes para poder cobrar por elas&quot;, afirmou. \u00c9 quest\u00e3o de n\u00e3o pretender seguir na ilegalidade, acrescentou. Al\u00e9m disso, &quot;deve-se considerar os compradores. Os grandes mercados importadores ratificaram o Protocolo e t\u00eam direito de saber se est\u00e3o, ou n\u00e3o, importando transg\u00eanicos&quot;, argumentou Fernandes.<\/p>\n<p>O Brasil n\u00e3o exporta apenas gr\u00e3os, tamb\u00e9m importa trigo e milho transg\u00eanico da Argentina, e tem interesse em contar com informa\u00e7\u00e3o precisa. A pol\u00edtica brasileira &quot;tende a ceder ao peso econ\u00f4mico do agroneg\u00f3cio&quot;, disse o especialista. Apesar de ser anfitri\u00e3o da terceira Confer\u00eancia das Partes do Protocolo de Cartagena, que acontece esta semana em Curitiba (PR), o governo ainda n\u00e3o decidiu se apoiaria um regime firme de rotulagem.<\/p>\n<p>Em um ambiente econ\u00f4mico e jur\u00eddico muito diferente, Cuba pesquisa variedades transg\u00eanicas de, pelo menos, oito alimentos. Batata, mam\u00e3o, tomate, milho, batata doce, arroz, pl\u00e1tanos e banana resistente a insetos, v\u00edrus ou herbicidas poder\u00e3o estar dispon\u00edveis para agricultores cubanos se as pesquisas tiverem \u00eaxito. Tr\u00eas institui\u00e7\u00f5es cubanas trabalham neste campo, mas nenhum produto foi liberado para o mercado. &quot;Para isso ainda falta muito&quot;, disse \u00e0 IPS Merardo Pujol, chefe do departamento de Plantas do Instituto de Engenharia Gen\u00e9tica e Biotecnologia, de Havana.<\/p>\n<p>No momento, a ci\u00eancia cubana se concentra na busca de variedades resistentes a enfermidades virais e causadas por fungos, \u00e0 salinidade do solo, seca e pragas. Em alguns casos, os testes s\u00e3o pequenos cultivos em condi\u00e7\u00f5es de confinamento e sob observa\u00e7\u00e3o do Centro Nacional de Seguran\u00e7a Biol\u00f3gica, entidade fiscalizadora. Cuba \u00e9 parte do Protocolo de Cartagena e afirma que o cumpre rigorosamente. Mas os cubanos n\u00e3o parecem preocupados com os potenciais efeitos nocivos dos transg\u00eanicos. &quot;N\u00e3o existe nenhum informe cient\u00edfico, documentado, sobre problemas para a sa\u00fade causados por plantas transg\u00eanicas que s\u00e3o comercializadas atualmente no mundo&quot;, afirmou Pujol.<\/p>\n<p>Humberto Rios, do Instituto Nacional de Ci\u00eancias Agr\u00edcolas (Inca), aponta outro tipo de desvantagem: o gradual aumento da depend\u00eancia econ\u00f4mica dos agricultores e o fato de estas variedades n\u00e3o responderem \u00e1 diversidade cultural dos camponeses. Rios trabalha para melhorar sementes atrav\u00e9s de outras t\u00e9cnicas fitogen\u00e9ticas com participa\u00e7\u00e3o de camponeses, como &quot;uma alternativa para n\u00e3o depender dos transg\u00eanicos e uma maneira de sermos soberanos na alimenta\u00e7\u00e3o&quot;, disse \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>Tampouco o M\u00e9xico possui cultivos comerciais transg\u00eanicos e a superf\u00edcie plantada para experi\u00eancias \u00e9 m\u00ednima. Mas em 2001, se descobriu que em alguns lugares do pa\u00eds o milho crioulo havia sido contaminado com variedades transg\u00eanicas, embora desde 1999 vigore nesse pa\u00eds a proibi\u00e7\u00e3o de cultivar esta esp\u00e9cie modificada. Autoridades afirmam que novas an\u00e1lises feitas em 2005 em campos cultivados n\u00e3o encontraram sinais dessa presen\u00e7a. A contamina\u00e7\u00e3o foi causada por carregamentos sem r\u00f3tulos procedentes dos Estados Unidos, o maior produtor mundial de transg\u00eanicos. O M\u00e9xico compra cerca de tr\u00eas milh\u00f5es de toneladas de milho norte-americano por ano e aproximadamente 25% s\u00e3o transg\u00eanicos, segundo ambientalistas.<\/p>\n<p>A riqueza de variedades de milho mexicanas, base de sua alimenta\u00e7\u00e3o, poderia se ver amea\u00e7ada pelo fen\u00f4meno da contamina\u00e7\u00e3o, potencializado pela poliniza\u00e7\u00e3o aberta da esp\u00e9cie, na qual a dispers\u00e3o gen\u00e9tica \u00e9 freq\u00fcente. Durante s\u00e9culos os camponeses aproveitaram essa caracter\u00edstica para cruz\u00e1-lo com parentes silvestres ou ervas daninhas e obter novas variedades melhoradas. O M\u00e9xico \u00e9 parte do Protocolo de Cartagena, mas um acordo assinado com Estados Unidos e Canad\u00e1, em outubro de 2004, determina que se considerasse &quot;n\u00e3o-transg\u00eanica&quot; uma importa\u00e7\u00e3o com at\u00e9 5% de organismos modificados, e que uma presen\u00e7a &quot;n\u00e3o-intencional&quot; em um carregamento obrigaria a colocar r\u00f3tulos. Este acordo e a Lei de Bioseguran\u00e7a de Organismos Geneticamente Modificados de 2005 se afastam do previsto no Protocolo, afirmam os ecologistas. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n<p>* Com colabora\u00e7\u00f5es de Mario Osava (Brasil), Patricia Grogg (Cuba), Diego Cevallos (M\u00e9xico) e Marcela Valente (Argentina). Agricultura: Transg\u00eanicos deixam pegadas na Am\u00e9rica Latina Por Diana Cariboni*<\/p>\n<p>Montevid\u00e9u, 15\/03\/2006 &#8211; Os organismos geneticamente modificados, mais conhecidos como transg\u00eanicos, est\u00e3o deixando uma marca indel\u00e9vel em v\u00e1rios pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, mais al\u00e9m das normas e tentativas de adotar um regime internacional sobre sua produ\u00e7\u00e3o e transporte. Grandes extens\u00f5es plantadas com soja transg\u00eanica marcam paisagens no Brasil e na Argentina, e se expandem no Paraguai, Uruguai e na Bol\u00edvia. Argentina, Estados Unidos e Canad\u00e1 respondem por 90% da produ\u00e7\u00e3o de transg\u00eanicos do mundo. A soja \u00e9 vital para a economia argentina neste momento. O pa\u00eds \u00e9 o terceiro produtor mundial (com 32 milh\u00f5es de toneladas em 2004, depois dos EUA e do Brasil) e o primeiro exportador de \u00f3leo de soja. Esta oleaginosa constitui a metade da colheita na Argentina, segundo o Minist\u00e9rio da Agricultura desse pa\u00eds.<\/p>\n<p>A Funda\u00e7\u00e3o Produzir Conservando, financiada por companhias biotecnol\u00f3gicas, afirma que at\u00e9 95% desse gr\u00e3o s\u00e3o transg\u00eanicos. O ponto de partida foi a variedade Roundup Ready da empresa Monsanto, resistente ao seu pesticida de mesmo nome. Mas as empresas produtoras de sementes que a adquiriram em meados dos anos 90 deram origem a mais de cem variedades na Argentina. Agricultores e Estados argentinos est\u00e3o em batalha legal contra a Monsanto, que quer cobrar retroativamente lucro de anos. O Minist\u00e9rio da Agricultura reconhece que a exporta\u00e7\u00e3o de soja \u00e9 &quot;a fonte mais importante de renda fiscal&quot;. Mas o monocultivo &quot;atenta contra a sustentabilidade dos agro-ecosistemas&quot; e h\u00e1 &quot;grandes riscos de contamina\u00e7\u00e3o&quot;, sobretudo pela degrada\u00e7\u00e3o dos solos, admite.<\/p>\n<p>Desde 2001, a Comiss\u00e3o Nacional de Biotecnologia Agropecu\u00e1ria autorizou 788 pesquisas, a grande maioria com milho. Trata-se de testes em campo, dos quais alguns poucos chegam a ser comercializados. Estes correspondem a filiais das empresas norte-americanas Monsanto, DuPont e Dow AgroScienses; da holandesa Nidera e do laborat\u00f3rio su\u00ed\u00e7o Novartis. A pesquisa para resolver problemas pr\u00f3prios \u00e9 fomentada por produtores nacionais e pelo Instituto Nacional de Tecnologia Agropecu\u00e1ria, que estuda, entre outros, um milho resistente ao v\u00edrus do mal de Rio Cuarto, end\u00eamico deste pa\u00eds, cujo custo \u00e9 dividido por produtores mediante a compra de quotas de sua patente.<\/p>\n<p>A Argentina n\u00e3o ratificou o Protocolo de Cartagena sobre Seguran\u00e7a na Biotecnologia, em vigor desde setembro de 2003, destinado a proteger a diversidade biol\u00f3gica dos riscos dos organismos vivos modificados pela moderna biotecnologia. O tratado estabelece o consentimento informado para autorizar a entrada de transg\u00eanicos nos pa\u00edses e o princ\u00edpio de precau\u00e7\u00e3o, pelo qual os governos podem apelar para suspender a produ\u00e7\u00e3o ou o com\u00e9rcio, enquanto n\u00e3o se prove que os transg\u00eanicos s\u00e3o in\u00f3cuos para o meio ambiente ou a sa\u00fade humana. N\u00e3o h\u00e1 pesquisa categ\u00f3rica sobre os riscos destas variedades obtidas em laborat\u00f3rio atrav\u00e9s da introdu\u00e7\u00e3o de genes de outras esp\u00e9cies animais ou vegetais.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m no Brasil, a estrela transg\u00eanica \u00e9 a soja, mas h\u00e1 planta\u00e7\u00f5es ilegais de algod\u00e3o e sementes de milho contrabandeada da Argentina, seguindo os passos da oleaginosa. A soja constitui quase a metade da produ\u00e7\u00e3o brasileira de gr\u00e3os, que chega a cerca de 120 milh\u00f5es de toneladas. \u00c9 o maior item da pauta de exporta\u00e7\u00e3o, sobretudo em gr\u00e3o, e, em menor medida, em farinhas e \u00f3leos. Hoje, estima-se que 90% da soja plantada no Rio Grande do Sul s\u00e3o transg\u00eanicos, e entre 10% e 20% em outros Estados do Sul e Centro-Oeste. Em temporadas normais, o Rio Grande do Sul responde por um sexto da colheita nacional, mas a seca de 2005 reduziu muito a produ\u00e7\u00e3o no Sul do Pa\u00eds.<\/p>\n<p>A principal caracter\u00edstica dos transg\u00eanicos brasileiros \u00e9 sua ilegalidade, com sementes de soja contrabandeadas desde 1996. A pol\u00edtica oficial foi acusada de omiss\u00e3o diante de fatos consumados. Em 2004, se resolveu autorizar por decreto o plantio, e em 2005 entrou em vigor a Lei de Bioseguran\u00e7a para dar um contexto definitivo \u00e0 quest\u00e3o. Embora o Brasil seja parte do Protocolo de Cartagena, n\u00e3o cumpriu seus princ\u00edpios, especialmente o de precau\u00e7\u00e3o. A ministra de Meio Ambiente, Marina Silva, insistiu inutilmente na necessidade de estudos pr\u00e9vios da soja e demais transg\u00eanicos, argumentando que os realizados em outros pa\u00edses n\u00e3o valem no Brasil, por sua grande diversidade biol\u00f3gica.<\/p>\n<p>A ilegalidade continua caracterizando a soja, pois os agricultores evitam pagar \u00e0 Monsanto. Enquanto isso, a Comiss\u00e3o Nacional T\u00e9cnica de Bioseguran\u00e7a tem mais de 500 pedidos de autoriza\u00e7\u00e3o para pesquisas. Outra prova da informalidade \u00e9 a quest\u00e3o dos r\u00f3tulos. Um decreto presidencial o exige quando h\u00e1 mais de 1% de ingrediente transg\u00eanico, mas isso n\u00e3o \u00e9 cumprido. &quot;Todo o Protocolo de Cartagena depende da rotulagem, \u00e9 um ponto central porque o torna vi\u00e1vel, ou invi\u00e1vel&quot;, disse \u00e0 IPS Gabriel Fernandes, t\u00e9cnico de Assessoria e Servi\u00e7os para Projetos de Agricultura Alternativa e um dos coordenadores da campanha Por um Brasil Livre de Transg\u00eanicos.<\/p>\n<p>Um r\u00f3tulo que diga &quot;cont\u00e9m OVM&quot; (organismo vivo modificado) obriga toda a cadeia produtiva, desde a planta\u00e7\u00e3o, a informar de forma transparente a exist\u00eancia de transg\u00eanicos. &quot;O agroneg\u00f3cio usa argumentos contradit\u00f3rios&quot; sobre as dificuldades e altos custos para a rotulagem. Mas h\u00e1 estudos segundo os quais esses custos s\u00e3o muito baixos, afirmou Fernandes. &quot;O acompanhamento estar\u00e1 assegurado com a planta\u00e7\u00e3o legal porque a Monsanto controlar\u00e1 suas sementes para poder cobrar por elas&quot;, afirmou. \u00c9 quest\u00e3o de n\u00e3o pretender seguir na ilegalidade, acrescentou. Al\u00e9m disso, &quot;deve-se considerar os compradores. Os grandes mercados importadores ratificaram o Protocolo e t\u00eam direito de saber se est\u00e3o, ou n\u00e3o, importando transg\u00eanicos&quot;, argumentou Fernandes.<\/p>\n<p>O Brasil n\u00e3o exporta apenas gr\u00e3os, tamb\u00e9m importa trigo e milho transg\u00eanico da Argentina, e tem interesse em contar com informa\u00e7\u00e3o precisa. A pol\u00edtica brasileira &quot;tende a ceder ao peso econ\u00f4mico do agroneg\u00f3cio&quot;, disse o especialista. Apesar de ser anfitri\u00e3o da terceira Confer\u00eancia das Partes do Protocolo de Cartagena, que acontece esta semana em Curitiba (PR), o governo ainda n\u00e3o decidiu se apoiaria um regime firme de rotulagem.<\/p>\n<p>Em um ambiente econ\u00f4mico e jur\u00eddico muito diferente, Cuba pesquisa variedades transg\u00eanicas de, pelo menos, oito alimentos. Batata, mam\u00e3o, tomate, milho, batata doce, arroz, pl\u00e1tanos e banana resistente a insetos, v\u00edrus ou herbicidas poder\u00e3o estar dispon\u00edveis para agricultores cubanos se as pesquisas tiverem \u00eaxito. Tr\u00eas institui\u00e7\u00f5es cubanas trabalham neste campo, mas nenhum produto foi liberado para o mercado. &quot;Para isso ainda falta muito&quot;, disse \u00e0 IPS Merardo Pujol, chefe do departamento de Plantas do Instituto de Engenharia Gen\u00e9tica e Biotecnologia, de Havana.<\/p>\n<p>No momento, a ci\u00eancia cubana se concentra na busca de variedades resistentes a enfermidades virais e causadas por fungos, \u00e0 salinidade do solo, seca e pragas. Em alguns casos, os testes s\u00e3o pequenos cultivos em condi\u00e7\u00f5es de confinamento e sob observa\u00e7\u00e3o do Centro Nacional de Seguran\u00e7a Biol\u00f3gica, entidade fiscalizadora. Cuba \u00e9 parte do Protocolo de Cartagena e afirma que o cumpre rigorosamente. Mas os cubanos n\u00e3o parecem preocupados com os potenciais efeitos nocivos dos transg\u00eanicos. &quot;N\u00e3o existe nenhum informe cient\u00edfico, documentado, sobre problemas para a sa\u00fade causados por plantas transg\u00eanicas que s\u00e3o comercializadas atualmente no mundo&quot;, afirmou Pujol.<\/p>\n<p>Humberto Rios, do Instituto Nacional de Ci\u00eancias Agr\u00edcolas (Inca), aponta outro tipo de desvantagem: o gradual aumento da depend\u00eancia econ\u00f4mica dos agricultores e o fato de estas variedades n\u00e3o responderem \u00e1 diversidade cultural dos camponeses. Rios trabalha para melhorar sementes atrav\u00e9s de outras t\u00e9cnicas fitogen\u00e9ticas com participa\u00e7\u00e3o de camponeses, como &quot;uma alternativa para n\u00e3o depender dos transg\u00eanicos e uma maneira de sermos soberanos na alimenta\u00e7\u00e3o&quot;, disse \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>Tampouco o M\u00e9xico possui cultivos comerciais transg\u00eanicos e a superf\u00edcie plantada para experi\u00eancias \u00e9 m\u00ednima. Mas em 2001, se descobriu que em alguns lugares do pa\u00eds o milho crioulo havia sido contaminado com variedades transg\u00eanicas, embora desde 1999 vigore nesse pa\u00eds a proibi\u00e7\u00e3o de cultivar esta esp\u00e9cie modificada. Autoridades afirmam que novas an\u00e1lises feitas em 2005 em campos cultivados n\u00e3o encontraram sinais dessa presen\u00e7a. A contamina\u00e7\u00e3o foi causada por carregamentos sem r\u00f3tulos procedentes dos Estados Unidos, o maior produtor mundial de transg\u00eanicos. O M\u00e9xico compra cerca de tr\u00eas milh\u00f5es de toneladas de milho norte-americano por ano e aproximadamente 25% s\u00e3o transg\u00eanicos, segundo ambientalistas.<\/p>\n<p>A riqueza de variedades de milho mexicanas, base de sua alimenta\u00e7\u00e3o, poderia se ver amea\u00e7ada pelo fen\u00f4meno da contamina\u00e7\u00e3o, potencializado pela poliniza\u00e7\u00e3o aberta da esp\u00e9cie, na qual a dispers\u00e3o gen\u00e9tica \u00e9 freq\u00fcente. Durante s\u00e9culos os camponeses aproveitaram essa caracter\u00edstica para cruz\u00e1-lo com parentes silvestres e obter novas variedades melhoradas. O M\u00e9xico \u00e9 parte do Protocolo de Cartagena, mas um acordo assinado com Estados Unidos e Canad\u00e1, em outubro de 2004, determina que se considerasse &quot;n\u00e3o-transg\u00eanica&quot; uma importa\u00e7\u00e3o com at\u00e9 5% de organismos modificados, e que uma presen\u00e7a &quot;n\u00e3o-intencional&quot; em um carregamento obrigaria a colocar r\u00f3tulos. Este acordo e a Lei de Bioseguran\u00e7a de Organismos Geneticamente Modificados de 2005 se afastam do previsto no Protocolo, afirmam os ecologistas. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n<p>* Com colabora\u00e7\u00f5es de Mario Osava (Brasil), Patricia Grogg (Cuba), Diego Cevallos (M\u00e9xico) e Marcela Valente (Argentina).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Montevid\u00e9u, 15\/03\/2006 &ndash; Os organismos geneticamente modificados, mais conhecidos como transg\u00eanicos, est\u00e3o deixando uma marca indel\u00e9vel em v\u00e1rios pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, mais al\u00e9m das normas e tentativas de adotar um regime internacional sobre sua produ\u00e7\u00e3o e transporte. Grandes extens\u00f5es plantadas com soja transg\u00eanica marcam paisagens no Brasil e na Argentina, e se expandem no Paraguai, Uruguai e na Bol\u00edvia. Argentina, Estados Unidos e Canad\u00e1 respondem por 90% da produ\u00e7\u00e3o de transg\u00eanicos do mundo. A soja \u00e9 vital para a economia argentina neste momento. O pa\u00eds \u00e9 o terceiro produtor mundial (com 32 milh\u00f5es de toneladas em 2004, depois dos EUA e do Brasil) e o primeiro exportador de \u00f3leo de soja. Esta oleaginosa constitui a metade da colheita na Argentina, segundo o Minist\u00e9rio da Agricultura desse pa\u00eds. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/03\/america-latina\/agricultura-transgenicos-deixam-pegadas-na-america-latina\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":57,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8,2,7],"tags":[],"class_list":["post-1577","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiente","category-america-latina","category-saude"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1577","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/57"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1577"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1577\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1577"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1577"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1577"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}