{"id":1578,"date":"2006-03-15T00:00:00","date_gmt":"2006-03-15T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=1578"},"modified":"2006-03-15T00:00:00","modified_gmt":"2006-03-15T00:00:00","slug":"al-jazeera-do-mundo-arabe-para-todo-o-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/03\/mundo\/al-jazeera-do-mundo-arabe-para-todo-o-mundo\/","title":{"rendered":"Al Jazeera: Do mundo \u00e1rabe para todo o mundo"},"content":{"rendered":"<p>Roma, 15\/03\/2006 &ndash; Mais al\u00e9m das cr\u00edticas e dos elogios que lhe s\u00e3o atribu\u00eddos, o acalorado debate sobre a rede de televis\u00e3o Al Jazeera costuma omitir uma an\u00e1lise objetiva sobre as raz\u00f5es de sua not\u00e1vel expans\u00e3o, de sua surpreendente influ\u00eancia (suas prim\u00edcias t\u00eam tanta ou mais repercuss\u00e3o do que as da BBC ou da CNN) e dos elementos de inova\u00e7\u00e3o que a caracterizam no universo dos meios de comunica\u00e7\u00e3o. No momento em que o grupo do Qatar, atrav\u00e9s do lan\u00e7amento da Al Jazeera International, est\u00e1 se projetando para fora da regi\u00e3o \u00e1rabe, parecer oportuna uma reflex\u00e3o sobre estes temas. <!--more--> A Al Jazeera possui quatro canais de televis\u00e3o, um informativo, que \u00e9 o mais conhecido, e outros sobre esportes, document\u00e1rios e para as crian\u00e7as; a audi\u00eancia da rede, segundo seus porta-vozes, supera os 35 milh\u00f5es de pessoas. O quinto canal ser\u00e1 o Al Jazeera International, anunciado para a pr\u00f3xima primavera no hemisf\u00e9rio norte, que transmitir\u00e1 informa\u00e7\u00f5es em ingl\u00eas durante 24 horas. Este grupo \u00e9 diferente de todos seus antecessores no mundo \u00e1rabe. Ao falar de suas origens costuma mencionar a forma\u00e7\u00e3o que seus jornalistas receberam da BBC, mas o certo \u00e9 que o modelo da Al Jazeera inspirou o grupo Al Arabiya, de Dubai, e Abu Dhabi Television, dos Emirados \u00c1rabes, e inaugurou um estilo de informar que est\u00e1 significando uma revolu\u00e7\u00e3o cultural em sua regi\u00e3o, mais al\u00e9m de se estar, ou n\u00e3o, de acordo com seus par\u00e2metros.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o poucos os que est\u00e3o de acordo. Em fevereiro assisti a um semin\u00e1rio de tr\u00eas dias em Doha junto com um grande grupo de jornalistas de todo o mundo que se dividiram em duas vis\u00f5es. Os n\u00e3o-\u00e1rabes, sobretudo norte-americanos e brit\u00e2nicos, falaram bem da Al Jazeera, enquanto uma minoria dos \u00e1rabes criticou a rede, afirmando que n\u00e3o se trata de um genu\u00edno produto \u00e1rabe, mas de uma &quot;inven\u00e7\u00e3o do Ocidente&quot;. Os \u00faltimos argumentam que a rede utiliza uma tecnologia que antes n\u00e3o era empregada nesta regi\u00e3o, e que seu formato \u00e9 alheio \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o televisiva regional, ou seja, \u00e9 um produto importado.<\/p>\n<p>A Al Jazeera nasceu h\u00e1 10 anos e come\u00e7ou a ganhar um destaque particular na guerra do Afeganist\u00e3o, onde, em algumas cidades, era o \u00fanico canal presente. Tamb\u00e9m se recordou que durante a destrui\u00e7\u00e3o da cidade de Faluja pela for\u00e7a anglo-norte-americana foi a \u00fanica emissora a transmitir desse lugar. Apoiados nestes e em outros antecedentes, como os bombardeios dos escrit\u00f3rios da Al Jazeera em Cabul e Bagd\u00e1 e a morte de v\u00e1rios de seus jornalistas no Iraque, seus defensores afirmam que bastam estes fatos para demonstrar que a Al Jazeera n\u00e3o \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o ocidental. Acrescentam que se existe uma &quot;resist\u00eancia&quot; do Ocidente \u00e9 porque se est\u00e1 transmitindo um formato informativo que contraria seus interesses e seus valores.<\/p>\n<p>Se por um momento deixarmos de lado o tema da &quot;genuinidade&quot;, aqueles fatos demonstram que o grupo de Qatar \u00e9 um dos que mais &#8211; se n\u00e3o o mais &#8211; investe e arrisca para obter informa\u00e7\u00f5es e focar suas c\u00e2meras onde surgem as not\u00edcias. E isto explica sua not\u00e1vel expans\u00e3o e influ\u00eancia. No semin\u00e1rio, os representantes da Al Jazeera falaram sobre sua miss\u00e3o e sua vis\u00e3o, particularmente sobre os c\u00f3digos de \u00e9tica. Isto desatou uma forte discuss\u00e3o, j\u00e1 que alguns jornalistas \u00e1rabes disseram que a independ\u00eancia de Al Jazeera n\u00e3o \u00e9 total, pois h\u00e1 dois temas praticamente ausentes em sua cobertura: a corrup\u00e7\u00e3o no mundo \u00e1rabe e os fatos internos do Qatar.<\/p>\n<p>A controv\u00e9rsia sobre a originalidade e a identidade da Al Jazeera recorda o debate sobre a excepcional expans\u00e3o do Jap\u00e3o da Segunda P\u00f3s-Guerra. Sua ado\u00e7\u00e3o do sistema cient\u00edfico-t\u00e9cnico ocidental foi inicialmente muito criticada internamente no sentido de que o Jap\u00e3o, ainda conservando muitas de suas tradi\u00e7\u00f5es, havia se ocidentalizado e seguia no caminho de perder sua identidade. Passado o tempo e vistos os resultados a longo prazo, chegou-se \u00e0 descri\u00e7\u00e3o de seu modelo como &quot;t\u00e9cnica ocidental e cultura japonesa&quot;, no qual a primeira est\u00e1 a servi\u00e7o da segunda. Isto faz pensar que o modelo dos criadores da Al Jazeera tem pontos em comum com esse des\u00edgnio. Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Al Jazeera International muito pouco se sabe ainda sobre este projeto, a n\u00e3o ser que, ao contr\u00e1rio do canal destinado ao mundo \u00e1rabe, j\u00e1 contratou numerosos jornalistas ocidentais, alguns muito destacados da CNN, o que contribui para aumentar a inc\u00f3gnita.<\/p>\n<p>Um elemento a se destacar \u00e9 a recente assinatura de um acordo de coopera\u00e7\u00e3o entre a Al Jazeera e a Telesur, a rede de televis\u00e3o latino-americana promovida pelo presidente venezuelano, Hugo Ch\u00e1vez. Isto pode determinar uma incipiente tend\u00eancia \u00e0 inter-rela\u00e7\u00e3o entre cadeias regionais que at\u00e9 agora n\u00e3o tinham v\u00ednculo algum entre si, enquanto mant\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia &#8211; com compradoras e repetidoras &#8211; das grandes redes norte-americanas e de alguma europ\u00e9ia, e da ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica norte-americana. Mais al\u00e9m das violentas rea\u00e7\u00f5es de alguns parlamentares dos Estados Unidos, este passo representa uma novidade no campo da comunica\u00e7\u00e3o no hemisf\u00e9rio sul a ser acompanhada com aten\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que \u00e9 um elemento tang\u00edvel de que em regi\u00f5es absolutamente submersas do ponto de vista informativo &#8211; \u00c1frica, \u00c1sia, Am\u00e9rica Latina &#8211; est\u00e3o surgindo sinais novos.<\/p>\n<p>Se estes sinais dar\u00e3o lugar a um perfil profissional e se conseguir\u00e3o preencher as necessidades de suas respectivas audi\u00eancias \u00e9 parte dos desafios enfrentados por redes como a Al Jazeera. Esta tend\u00eancia se consolidar\u00e1 se no futuro pr\u00f3ximo as novas cadeias ganharem proje\u00e7\u00e3o internacional. Nesse caso, ser\u00e1 natural que estas redes estreitem rela\u00e7\u00f5es de coopera\u00e7\u00e3o e interc\u00e2mbio rec\u00edprocas, com o resultado de uma diversidade informativa &#8211; geogr\u00e1fica e cultural &#8211; que corresponder\u00e1 mais com a realidade plural planet\u00e1ria do que reflete o atual sistema de informa\u00e7\u00f5es dominado por poucos e gigantescos grupos ocidentais. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n<p>(*) Mario Lubetkin \u00e9 diretor-geral da ag\u00eancia informativa IPS.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Roma, 15\/03\/2006 &ndash; Mais al\u00e9m das cr\u00edticas e dos elogios que lhe s\u00e3o atribu\u00eddos, o acalorado debate sobre a rede de televis\u00e3o Al Jazeera costuma omitir uma an\u00e1lise objetiva sobre as raz\u00f5es de sua not\u00e1vel expans\u00e3o, de sua surpreendente influ\u00eancia (suas prim\u00edcias t\u00eam tanta ou mais repercuss\u00e3o do que as da BBC ou da CNN) e dos elementos de inova\u00e7\u00e3o que a caracterizam no universo dos meios de comunica\u00e7\u00e3o. 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