{"id":15798,"date":"2013-07-03T13:18:00","date_gmt":"2013-07-03T13:18:00","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=91866"},"modified":"2013-07-03T15:13:41","modified_gmt":"2013-07-03T15:13:41","slug":"um-laboratorio-vivo-de-boa-convivencia-com-a-seca-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/07\/ultimas-noticias\/um-laboratorio-vivo-de-boa-convivencia-com-a-seca-no-brasil\/","title":{"rendered":"Um laborat\u00f3rio vivo de boa conviv\u00eancia com a seca no Brasil"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_91867\" class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"width: 539px\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/tanque.jpg\"><img class=\" wp-image-91867 \" alt=\"tanque Um laborat\u00f3rio vivo de boa conviv\u00eancia com a seca no Brasil\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/tanque.jpg\" width=\"529\" height=\"372\" title=\"Um laborat\u00f3rio vivo de boa conviv\u00eancia com a seca no Brasil\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Abel Manto mostra em sua propriedade um tanque de \u00e1gua de chuva e os feij\u00f5es que planta apesar dos anos de persistente seca. Foto: Mario Osava\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Riach\u00e3o do Jacu\u00edpe, Brasil, 3\/7\/2013 \u2013 A primeira surpresa ao chegar \u00e0 propriedade de Abel Manto \u00e9 o verde da vegeta\u00e7\u00e3o, que contrasta com os arredores castigados pela escassez de chuva. Seus feij\u00f5es e suas \u00e1rvores frut\u00edferas parecem ignorar a insistente seca que atinge o interior semi\u00e1rido do nordeste brasileiro, a pior em 50 anos. Uma \u201crepresa subterr\u00e2nea\u201d, feita com folhas de pl\u00e1stico estendidas sob o solo para conter a \u00e1gua mant\u00e9m a terra \u00famida por longo tempo, permitindo a Abel plantar feij\u00f5es em cerca de mil metros quadrados em plena seca.<\/p>\n<p>V\u00e1rias t\u00e9cnicas de coleta e armazenagem de \u00e1gua pluvial, como charcos, cisternas, \u201cpequenas represas sucessivas\u201d e \u201ccal\u00e7ad\u00e3o de concreto\u201d, armazenam, quando chove normalmente, quase 1,9 milh\u00e3o de litros de \u00e1gua por ano, em sua propriedade de dez hectares, segundo Abel. Para beber e cozinhar, ele, sua mulher e a filha pequena consomem 277 mil litros. O restante \u00e9 destinado a pequenos animais dom\u00e9sticos e para irrigar as planta\u00e7\u00f5es. No entanto, este ano a seca reduziu suas reservas h\u00eddricas e o for\u00e7ou a \u201cescolher prioridades\u201d. Abel optou por salvar cultivos que exigem menos \u00e1gua, como os de maracuj\u00e1 e melancia.<\/p>\n<p>Outra surpresa \u00e9 a quantidade de conhecimentos acumulados por Abel, que se define como \u201cagricultor familiar em transi\u00e7\u00e3o para a agroecologia\u201d. Aos 40 anos de idade, ficou conhecido como inventor de solu\u00e7\u00f5es para conviver com as peri\u00f3dicas secas do semi\u00e1rido brasileiro. Seu grande \u00eaxito \u00e9 a bomba hidr\u00e1ulica que denominou de \u201cMalha\u00e7\u00e3o\u201d, por ser manual e exigir algum esfor\u00e7o f\u00edsico. Trata-se de um aparelho de 80 cent\u00edmetros de altura e componentes baratos, como tubos e garrafas de pl\u00e1stico, bolas de vidro e a parte de pl\u00e1stico de canetas esferogr\u00e1ficas.<\/p>\n<p>Cada bomba custa R$ 116 (US$ 53), incluindo as tubula\u00e7\u00f5es para irriga\u00e7\u00e3o por gotejamento, e 70% mais se o usu\u00e1rio preferir uma manivela met\u00e1lica para oper\u00e1-la com menos esfor\u00e7o. Neste \u00faltimo caso, se perde at\u00e9 40% do fluxo em rela\u00e7\u00e3o ao modelo comum, que bombeia por eleva\u00e7\u00e3o e abaixamento do volante em forma de T e alcan\u00e7a 1.233 litros por hora. A press\u00e3o permite captar \u00e1gua a at\u00e9 quatro metros de profundidade e lan\u00e7\u00e1-la a centenas de metros, variando segundo o declive do terreno. \u201cUm comprador disse que conseguiu irrigar 600 metros\u201d, contou Abel.<\/p>\n<p>Este campon\u00eas inventor acrescentou que vendeu mais de duas mil bombas no Nordeste e alguns para a \u00c1frica do Sul, empregando em sua produ\u00e7\u00e3o 15 pessoas. H\u00e1 interessados na Europa, destacou. Atualmente, tenta adaptar um biodigestor que conheceu na \u00cdndia, aproveitando materiais e insumos locais. Ele j\u00e1 produz biog\u00e1s para seu fog\u00e3o, mas sem alcan\u00e7ar a autossufici\u00eancia. Desde jovem, Abel busca tornar mais produtivo e menos cansativo o trabalho no campo. \u201cMe chamavam de louco ou de pregui\u00e7oso. Diziam que inventava coisas para n\u00e3o trabalhar\u201d, recordou.<\/p>\n<p>Hoje \u00e9 reconhecido por suas inova\u00e7\u00f5es e por fazer de sua propriedade um laborat\u00f3rio e uma vitrine de tecnologias para o desenvolvimento da agricultura familiar no semi\u00e1rido. As visitas s\u00e3o numerosas e ajudam a disseminar experi\u00eancias de sucesso. \u201cNossa vida melhorou 100%\u201d, disse sua mulher, Jacira de Oliveira, mostrando seu fog\u00e3o de chama azul e mais forte quando consome biog\u00e1s. \u201cH\u00e1 alguns anos eu tinha dificuldade para comprar uma bicicleta, mesmo a prazo. Agora temos um autom\u00f3vel e duas motocicletas\u201d, ressaltou Abel.<\/p>\n<p>Sua atividade produtiva se baseia em dados precisos. A seca, que j\u00e1 dura 27 meses, lhe custou a perda de 60% de suas 147 \u00e1rvores frut\u00edferas de diversas esp\u00e9cies, como laranja, goiaba e fruta-do-conde. Sobreviveram os exemplares mais adultos e de ra\u00edzes profundas\u201d, explicou. Para alimentar suas 38 cabras e ovelhas, converte em forragem tudo o que encontra, inclusive esp\u00e9cies consideradas ervas daninhas. E conhece suas qualidades nutricionais.<\/p>\n<p>A folha da catingueira, \u00e1rvore t\u00edpica do bioma local, a Caatinga, tem 14% de prote\u00edna, o mesmo que o \u201cpau de rato\u201d. O mata pastagem, mato odiado pela popula\u00e7\u00e3o local, apresenta 20% a 22% de prote\u00ednas, detalhou Abel. \u201cS\u00e3o muitas as esp\u00e9cies consideradas daninhas\u201d cujo potencial aliment\u00edcio se perde devido \u00e0s cren\u00e7as tradicionais, afirmou, mostrando as 11 esp\u00e9cies secando na pequena casa que usa como silo.<\/p>\n<p>A velha cultura trava a inova\u00e7\u00e3o e o esp\u00edrito empreendedor sob o argumento de que \u201cmeu pai sempre fez assim\u201d, lamentou Abel. Inclusive em sua pr\u00f3pria fam\u00edlia h\u00e1 resist\u00eancias entre os sete irm\u00e3os que vivem em propriedades vizinhas. Sua esperan\u00e7a s\u00e3o as crian\u00e7as. Atualmente Abel d\u00e1 aula sobre meio ambiente para 27 crian\u00e7as de sua comunidade rural, e deseja ter sua pr\u00f3pria escola, para ampliar a iniciativa em um projeto ecol\u00f3gico que batizou de Vida do Solo.<\/p>\n<p>Esse sonho ficou mais pr\u00f3ximo agora que \u00e9 um qualificado funcion\u00e1rio da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econ\u00f4mico-Social e Meio Ambiente de Riach\u00e3o do Jacu\u00edpe, cujo secret\u00e1rio, Esa\u00fa da Silva, um jovem de 23 anos, identificou em Abel os conhecimentos adequados para desenvolver a agricultura local com uma vis\u00e3o ambiental.<\/p>\n<p>O principal problema n\u00e3o \u00e9 a \u00e1gua, mas a \u201cfalta de assist\u00eancia t\u00e9cnica\u201d para os agricultores do munic\u00edpio, onde 40% de seus 33 mil habitantes vivem no campo, disse Esa\u00fa. Jacu\u00edpe, o riacho local, est\u00e1 muito contaminado, mas \u00e9 perene, uma vantagem no Nordeste do pa\u00eds onde a maioria dos rios seca na estiagem. Al\u00e9m disso, \u201ctemos muitas represas\u201d, acrescentou, ressaltando que difundir a experi\u00eancia de Abel resultar\u00e1 em melhor aproveitamento dessa \u00e1gua.<\/p>\n<p>Contudo, a provis\u00e3o de \u00e1gua de chuva \u00e9 fundamental para a pequena agricultura em todo o semi\u00e1rido. Em Riach\u00e3o do Jacu\u00edpe, no interior da Bahia, chove pouco, entre 590 e 660 mil\u00edmetros por ano, em m\u00e9dia, e no ano passado caiu para 176 mil\u00edmetros, segundo Abel. Os sistemas usados por ele s\u00e3o as chamadas tecnologias sociais promovidas h\u00e1 14 anos pela Articula\u00e7\u00e3o Semi\u00e1rido Brasileiro (ASA), uma rede de mais de 800 organiza\u00e7\u00f5es. Sua primeira meta, de construir um milh\u00e3o de cisternas de 16 mil litros de \u00e1gua pot\u00e1vel, est\u00e1 pela metade.<\/p>\n<p>O governo de Dilma Rousseff decidiu acelerar e superar a meta, com a distribui\u00e7\u00e3o de 750 mil cisternas este ano e no pr\u00f3ximo. No entanto, optou pela produ\u00e7\u00e3o industrial, em material pl\u00e1stico, subvertendo o programa da ASA. O novo plano oficial substituiu as tradicionais placas de concreto, que custam a metade, e excluiu a participa\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria na autoconstru\u00e7\u00e3o, que capacita para o melhor uso e fortalece a economia local e a cidadania.<\/p>\n<p>As experi\u00eancias de Abel e da ASA constituem tamb\u00e9m um contraponto ao projeto de transposi\u00e7\u00e3o do rio S\u00e3o Francisco, com que o governo pretende melhorar o fornecimento de \u00e1gua para 12 milh\u00f5es de habitantes do Nordeste. Esse megaprojeto est\u00e1 com pelo menos quatro anos de atraso e seu custo j\u00e1 chega a US$ 4 bilh\u00f5es, quase o dobro do or\u00e7amento inicial. Al\u00e9m disso, n\u00e3o atender\u00e1 as fam\u00edlias camponesas dispersas do semi\u00e1rido, que concentra a pobreza e a maior vulnerabilidade \u00e0s secas. \u00c9 onde as cisternas e os programas sociais do governo foram decisivos para evitar agora as rebeli\u00f5es sociais registradas em secas anteriores. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Riach&atilde;o do Jacu&iacute;pe, Brasil, 3\/7\/2013 &ndash; A primeira surpresa ao chegar &agrave; propriedade de Abel Manto &eacute; o verde da vegeta&ccedil;&atilde;o, que contrasta com os arredores castigados pela escassez de chuva. 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