{"id":1584,"date":"2006-03-16T00:00:00","date_gmt":"2006-03-16T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=1584"},"modified":"2006-03-16T00:00:00","modified_gmt":"2006-03-16T00:00:00","slug":"ambiente-vitimas-do-glifosato","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/03\/america-latina\/ambiente-vitimas-do-glifosato\/","title":{"rendered":"Ambiente: V\u00edtimas do glifosato"},"content":{"rendered":"<p>Curitiba, 16\/03\/2006 &ndash; O sofrimento invadiu nesta quarta-feira as negocia\u00e7\u00f5es internacionais sobre biotecnologia que acontecem em Curitiba (OR), com os relatos de uma m\u00e3e paraguaia que perdeu o filho contaminado por agrot\u00f3xico e de um bairro inabit\u00e1vel por causa de venenos agr\u00edcolas em C\u00f3rdoba, na Argentina. Esta semana acontece na capital paranaense a III Reuni\u00e3o das Partes do Protocolo de Cartagena sobre Seguran\u00e7a na biotecnologia (MOP-3). <!--more--> A paraguaia Petrona Villasboa explicava \u00e0 IPS as circunst\u00e2ncias da morte de seu filho, Silvino Talavera, de 11 anos, 90 minutos antes do painel &quot;V\u00edtimas do agroneg\u00f3cio na C\u00fapula da Biodiversidade&quot;, quando a pol\u00edcia entrou no recinto. Os policiais procuravam dois ativistas estrangeiros das organiza\u00e7\u00f5es que promoveram o painel, o Grupo de Reflex\u00e3o Rural e a Rede por uma Am\u00e9rica Latina Livre de Transg\u00eanicos, acusados de terem entrado ilegalmente no pa\u00eds. A pol\u00edcia alegou que diferentes pessoas entravam na sede da MOP-3 com a mesma credencial, por isso decidiu exigir vistos autorizados das &quot;v\u00edtimas do agroneg\u00f3cio&quot;. A a\u00e7\u00e3o policial foi suspensa com a interven\u00e7\u00e3o diplomatas brasileiros e funcion\u00e1rios da Secretaria Geral da Conven\u00e7\u00e3o sobre Diversidade Biol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Por ser pobre e viver em uma comunidade sem assist\u00eancia m\u00e9dica, Petrona n\u00e3o p\u00f4de salvar seu filho envenenado por tr\u00eas tipos de agrot\u00f3xicos. A crian\u00e7a sofreu um &quot;banho qu\u00edmico&quot; quando um bra\u00e7o de uma m\u00e1quina de espalhar pesticidas invadiu a estrada por onde ela caminhava, com uma compra de carne. O fato ocorreu no dia 2 de janeiro de 2003 em Itap\u00faa, no sul do Paraguai, em uma propriedade plantada com soja transg\u00eanica pertencente ao brasileiro Herman Relender. A carne contaminada foi consumida pela fam\u00edlia. Depois de almo\u00e7ar, Silvino sentiu dores no est\u00f4mago e n\u00e1useas, os primeiros sintomas da contamina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Petrona, m\u00e3e de 10 filhos, pensou que havia resolvido o problema com um medicamento caseiro. Mas quatro dias depois, uma nova aspers\u00e3o de agrot\u00f3xicos a 15 metros de sua casa, feita por outro agricultor, contaminou toda sua fam\u00edlia. Com o ac\u00famulo de veneno, Silvino n\u00e3o resistiu. &quot;Ele me disse pela noite que j\u00e1 n\u00e3o sentia dor no est\u00f4mago, mas nos ossos&quot;, recordou a m\u00e3e. Na madrugada apareceram manchas de sangue no corpo do garoto. Desesperada, a m\u00e3e pediu transporte a um vizinho e o levou a um posto de sa\u00fade. O m\u00e9dico diagnosticou a contamina\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o p\u00f4de fazer nada por falta de medicamentos e equipamentos. Algumas horas depois, a crian\u00e7a j\u00e1 tinha o corpo paralisado e foi transferido para um hospital da cidade de Encarnaci\u00f3n. Uma lavagem estomacal n\u00e3o deu resultado e Silvino morreu diante de sua m\u00e3e. <\/p>\n<p>Aterrorizada, ele voltou para casa para levar a filha de 2 anos ao hospital, e conseguiu salv\u00e1-la. Fez o mesmo com os outros filhos, transportados em ambul\u00e2ncia um dia depois. Uma an\u00e1lise do sangue revelou a contamina\u00e7\u00e3o por tr\u00eas tipos de veneno, um deles o herbicida glifosato, usado no cultivo da soja transg\u00eanica Roundup Ready, da multinacional norte-americana Monsanto. O caso est\u00e1 na justi\u00e7a paraguaia. Petrona decidiu contar seu drama na MOP-3 para pedir ajuda internacional diante do poder dos produtores rurais que envenenaram sua fam\u00edlia. Depois de ganhar na primeira inst\u00e2ncia na justi\u00e7a, come\u00e7ou a receber amea\u00e7as de morte, contou. Hoje, dirige em seu departamento a Coordena\u00e7\u00e3o de Mulheres Ind\u00edgenas do Paraguai, que re\u00fane quatro mil camponeses. <\/p>\n<p>As v\u00edtimas s\u00e3o mais numerosas no outro caso denunciado. S\u00e3o 500 moradores de todo um bairro da cidade argentina de C\u00f3rdoba, Ituzaing\u00f3 Anexo. \u00c9 um bairro condenado pela aspers\u00e3o de glifosato. Os casos de c\u00e2ncer, leucemia e m\u00e1 forma\u00e7\u00e3o cong\u00eanita aumentam desde que se viu cercado de planta\u00e7\u00f5es de soja sobre as quais avi\u00f5es espalham veneno. &quot;H\u00e1 menos de um m\u00eas o m\u00e9dico Edgardo Schinden divulgou um estudo independente afirmando que nosso bairro n\u00e3o pode ser habitado. O governo de C\u00f3rdoba n\u00e3o o reconhece e se prop\u00f5e pavimentar ruas e instalar um posto de sa\u00fade, em lugar de eliminar a fonte da contamina\u00e7\u00e3o&quot;, protestou Sofia Gatica, l\u00edder de um grupo de m\u00e3es. Exames comprovaram a presen\u00e7a de diferentes tipos de veneno no sangue de 30 crian\u00e7as, afirmou Gatica. <\/p>\n<p>&quot;As autoridades nos disseram que a contamina\u00e7\u00e3o est\u00e1 dentro de limites aceit\u00e1veis. Temos limite como contaminados? E as doen\u00e7as que invadem nossas fam\u00edlias?&quot;, questionou a ativista argentina. A soja transg\u00eanica \u00e9 &quot;um cultivo sem agricultores, onde s\u00f3 se ouve o vento&quot;, disseram os organizadores do painel de testemunhos. Uma publicidade da multinacional de sementes Syngenta, exibido no in\u00edcio do encontro, mostra um mapa que apresenta Brasil, Argentina, Bol\u00edvia e Paraguai com a &quot;Rep\u00fablica Unida da Soja&quot;. Isso &quot;antecipou nossa interpreta\u00e7\u00e3o. As multinacionais do agroneg\u00f3cio est\u00e3o promovendo um novo colonialismo na Am\u00e9rica Latina, e o pior \u00e9 que todos os preju\u00edzos se produzem para alimentar animais na Europa e na China&quot;, lamentou o argentino Jorge Ruli, do Grupo de Reflex\u00e3o Rural. <\/p>\n<p>Uma coaliz\u00e3o global de organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o-governamentais aproveitou o terceiro dia da MOP-3 para protestar contra a Nova Zel\u00e2ndia, pois seus delegados estariam defendendo nas negocia\u00e7\u00f5es a posi\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos, que n\u00e3o assinou o Protocolo de Cartagena e se op\u00f5e \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o dos transg\u00eanicos no com\u00e9rcio internacional, mas adota um r\u00edgido controle destes organismos em suas importa\u00e7\u00f5es. O Protocolo, em vigor desde setembro de 2003, est\u00e1 destinado a proteger a diversidade biol\u00f3gica dos riscos potenciais dos organismos vivos modificados (OVM) pela moderna biotecnologia, tamb\u00e9m conhecidos como transg\u00eanicos. Os Estados Unidos s\u00e3o o maior produtor mundial destas variedades obtidas em laborat\u00f3rio atrav\u00e9s da introdu\u00e7\u00e3o de genes de outras esp\u00e9cies animais ou vegetais.<\/p>\n<p>Os ambientalistas pediram \u00e0 Nova Zel\u00e2ndia que n\u00e3o crie obst\u00e1culos nas negocia\u00e7\u00f5es, negando-se a explicar sua posi\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o e documenta\u00e7\u00e3o dos carregamentos internacionais de transg\u00eanicos destinados a alimenta\u00e7\u00e3o humana e animal. &quot;As leis de importa\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria Nova Zel\u00e2ndia est\u00e3o entre as mais rigorosas do mundo. Com rela\u00e7\u00e3o ao OVM, exige \u00edndice zero de contamina\u00e7\u00e3o e oferece uma rotulagem compreens\u00edvel para o consumidor. Por que esse pa\u00eds impede que outros tenham controles semelhantes?&quot;, questionaram os ativistas em nota distribu\u00edda aos jornalistas. A coaliz\u00e3o sugere que os cidad\u00e3os de todo o mundo rejeitem essas atitudes, protestando com o envio de e-mails para a primeira ministra da Nova Zel\u00e2ndia, Helen Clark.<\/p>\n<p>Brasil e Su\u00ed\u00e7a presidem o Grupo de Contato criado para destravar as negocia\u00e7\u00f5es sobre rotulagem de transg\u00eanicos no \u00e2mbito do Protocolo de Cartagena. O embaixador brasileiro Luiz Figueiredo Machado disse \u00e0 IPS que uma proposta de Bras\u00edlia servia de base para a busca de um consenso sobre o par\u00e1grafo do Protocolo que trata da rotulagem de OVM, o mais pol\u00eamico. Machado, que co-preside o Grupo de contato, esperava concluir as negocia\u00e7\u00f5es nesta quinta-feira. O Paraguai \u00e9 o pa\u00eds que op\u00f5e maior resist\u00eancia \u00e0 ado\u00e7\u00e3o de um r\u00f3tulo com a frase &quot;cont\u00e9m OVM&quot;, alegando que n\u00e3o poder\u00e1 cumprir essa norma. A proposta brasileira prev\u00ea prazo de quatro anos de transi\u00e7\u00e3o para que os pa\u00edses possam implantar sistemas de separa\u00e7\u00e3o, armazenagem e identifica\u00e7\u00e3o dos produtos transg\u00eanicos. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Curitiba, 16\/03\/2006 &ndash; O sofrimento invadiu nesta quarta-feira as negocia\u00e7\u00f5es internacionais sobre biotecnologia que acontecem em Curitiba (OR), com os relatos de uma m\u00e3e paraguaia que perdeu o filho contaminado por agrot\u00f3xico e de um bairro inabit\u00e1vel por causa de venenos agr\u00edcolas em C\u00f3rdoba, na Argentina. 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