{"id":1591,"date":"2006-03-20T00:00:00","date_gmt":"2006-03-20T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=1591"},"modified":"2006-03-20T00:00:00","modified_gmt":"2006-03-20T00:00:00","slug":"ambiente-quem-tem-acesso-a-biodiversidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/03\/america-latina\/ambiente-quem-tem-acesso-a-biodiversidade\/","title":{"rendered":"Ambiente: Quem tem acesso \u00e0 biodiversidade?"},"content":{"rendered":"<p>RIO DE JANEIRO, 20\/03\/2006 &ndash; Brasil, M\u00e9xico e Col\u00f4mbia lideram a press\u00e3o por um regime obrigat\u00f3rio global para a riqueza biol\u00f3gica. Um rascunho da proposta ser\u00e1 discutido em um encontro em Curitiba, mas os avan\u00e7os ser\u00e3o limitados. <!--more--> Brasil, M\u00e9xico, Col\u00f4mbia e outros pa\u00edses megadiversos promover\u00e3o a ado\u00e7\u00e3o de um regime global obrigat\u00f3rio, que regule quem tem acesso \u00e0 biodiversidade, durante a VII Confer\u00eancia das Partes da Conven\u00e7\u00e3o sobre Diversidade Biol\u00f3gica (COP8), que come\u00e7a no dia 20 de mar\u00e7o, na cidade brasileira de Curitiba. Por\u00e9m, a meta ainda est\u00e1 distante. &quot;A negocia\u00e7\u00e3o foi dif\u00edcil e este processo pode durar mais uns dois anos&quot;, disse ao Terram\u00e9rica Hesiquio Ben\u00edtez, membro da delega\u00e7\u00e3o mexicana na Confer\u00eancia, que tem em sua agenda um rascunho do regime proposto.<\/p>\n<p>S\u00e3o esperados avan\u00e7os limitados durante a reuni\u00e3o, n\u00e3o um acordo, j\u00e1 que o tema n\u00e3o faz mais do que exacerbar as disputas Norte-Sul. Em fevereiro, durante a \u00faltima reuni\u00e3o preparat\u00f3rio para a COP8, em Granada, na Espanha, as partes s\u00f3 conseguiram produzir um documento cheio de par\u00eanteses, um reflexo da falta de consenso. O regime estabeleceria regras para o uso dos recursos gen\u00e9ticos derivados de conhecimento tradicional e para a distribui\u00e7\u00e3o justa dos benef\u00edcios que proporcionam, tal como estabelece a Conven\u00e7\u00e3o sobre Diversidade Biol\u00f3gica (CDB), acordada no Rio de Janeiro, em 1992. A maior parte dos pa\u00edses em desenvolvimento ricos em biodiversidade defende que esse regime seja obrigat\u00f3rio, id\u00e9ia que muitas na\u00e7\u00f5es industrializadas recha\u00e7am.<\/p>\n<p>A negocia\u00e7\u00e3o \u00e9 lenta por envolver &quot;interesses econ\u00f4micos&quot;, reconheceu Eduardo V\u00e9lez, diretor de Patrim\u00f4nio Gen\u00e9tico do Minist\u00e9rio do Meio Ambiente do Brasil, pa\u00eds anfitri\u00e3o e presidente da COP8. Entretanto, assegurou, otimista, que &quot;em Curitiba ser\u00e3o dados passos importantes&quot;. Segundo V\u00e9lez, Estados Unidos, Jap\u00e3o e Uni\u00e3o Europ\u00e9ia n\u00e3o dizem se opor ao regime, mas adotam &quot;estrat\u00e9gias postergadoras&quot;, reclamando mais estudos sobre seus poss\u00edveis efeitos nas cadeias produtivas. Esses pa\u00edses tamb\u00e9m sugerem um regime volunt\u00e1rio, &quot;que \u00e9 inaceit\u00e1vel porque \u00e9 o mesmo que nada; o que queremos \u00e9 um acordo vinculante com san\u00e7\u00f5es&quot;, acrescentou.<\/p>\n<p>No debate est\u00e3o em jogo neg\u00f3cios milion\u00e1rios, que tendem a se expandir aceleradamente diante do desenvolvimento das ci\u00eancias e tecnologias biol\u00f3gicas. Nos \u00faltimos anos, bact\u00e9rias enxertadas em plantas para fixar o nitrog\u00eanio do ar permitiram \u00e0 agricultura brasileira economizar dezenas de milhares de milh\u00f5es de d\u00f3lares em fertilizantes e controlar biologicamente numerosas pragas. Entretanto, apesar de ser fundamental para manter a vida no planeta, a explora\u00e7\u00e3o da biodiversidade carece de regulamenta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A CDB abriu caminhos, que precisam concretizar-se em regras pr\u00e1ticas. O Protocolo de Cartagena sobre Biosseguran\u00e7a, aprovado em 2000 e vigente desde 2003, \u00e9 um primeiro resultado. Menos de 20 pa\u00edses j\u00e1 aprovaram leis nacionais de acesso \u00e0 biodiversidade, segundo V\u00e9lez. O governo brasileiro se prepara para enviar um projeto ao Congresso. Boa parte do acesso \u00e0 biodiversidade de um pa\u00eds por parte de estrangeiros ainda \u00e9 feita ilegalmente. Patentes e produtos resultam de materiais gen\u00e9ticos usados sem a permiss\u00e3o nem proveito do pa\u00eds de origem, observou V\u00e9lez. Sem um regime internacional, a Conven\u00e7\u00e3o \u00e9 letra morta, sentenciou.<\/p>\n<p>&quot;Queremos evitar a biopirataria&quot;, acrescentou o mexicano Ben\u00edtez, que dirige os assuntos internacionais na governamental Comiss\u00e3o Nacional para o Conhecimento e Uso da Biodiversidade (Conabio). Os recursos gen\u00e9ticos, explicou, podem estar associados a conhecimentos tradicionais que n\u00e3o s\u00e3o reconhecidos quando se concede a patente de produtos nos pa\u00edses desenvolvidos. &quot;O M\u00e9xico quer regulamentar o acesso legal e que se pe\u00e7a, se for o caso, o consentimento das comunidades ind\u00edgenas&quot;, o que implica regalias ou outros benef\u00edcios para o pa\u00eds de origem dos recursos, segundo Ben\u00edtez.<\/p>\n<p>Na COP8, o M\u00e9xico vai propor &quot;um mandato claro para que um grupo intergovernamental de negocia\u00e7\u00e3o impulsione o regime internacional com a maior velocidade poss\u00edvel&quot;, afirmou Ben\u00edtez. O governo do presidente Vicente Fox tamb\u00e9m prop\u00f5e um &quot;certificado de proced\u00eancia legal&quot; como requisito para patentes a partir da biodiversidade. O fato de que os Estados Unidos patenteiem a ayahuasca, uma planta sagrada de comunidades ind\u00edgenas da Amaz\u00f4nia com propriedades alucin\u00f3genas, comprova que &quot;hoje a biopirataria \u00e9 uma realidade&quot;, afirmou Juan Mayr, ex-ministro de Meio Ambiente da Col\u00f4mbia.<\/p>\n<p>As na\u00e7\u00f5es industrializadas querem um acesso f\u00e1cil, por meio de &quot;um sistema fraco que n\u00e3o protege nosso patrim\u00f4nio cultural e muito menos o conhecimento tradicional&quot;, alertou Mayr. Brasil, Col\u00f4mbia e M\u00e9xico seriam muito beneficiados por um regime obrigat\u00f3rio, j\u00e1 que lideram os 17 pa\u00edses megadiversos que concentram 70% das esp\u00e9cies vegetais e animais conhecidas no mundo. O grupo tamb\u00e9m est\u00e1 composto por Equador, Peru, Venezuela, Estados Unidos, China, \u00cdndia e outras na\u00e7\u00f5es da \u00c1frica e \u00c1sia.<\/p>\n<p>O Brasil, com 200 mil esp\u00e9cies catalogadas, 10% das que se estima existirem no pa\u00eds, concentra de 15% a 20% do total mundial. Col\u00f4mbia e M\u00e9xico, com cerca de 10%, tamb\u00e9m est\u00e3o entre os quatro mais diversos, junto com a Indon\u00e9sia. Na Col\u00f4mbia, a flora, sua maior riqueza biol\u00f3gica, tem entre 45 mil e 55 mil esp\u00e9cies, um ter\u00e7o delas end\u00eamicas. Destacam-se as orqu\u00eddeas, com cerca de 3,5 mil esp\u00e9cies, ou 15% das existentes no mundo.<\/p>\n<p>O Brasil se orgulha do seu maior endemismo e de ser campe\u00e3o em biodiversidade. Suas tr\u00eas mil esp\u00e9cies de peixes de \u00e1gua doce s\u00e3o o triplo das de qualquer outro pa\u00eds. Seus principais produtos agr\u00edcolas (caf\u00e9, a\u00e7\u00facar, soja, arroz e laranja) prov\u00eam do exterior, mas s\u00e3o nacionais algumas plantas economicamente importantes, como o abacaxi, a mandioca, o caju, a castanha e o amendoim. Numerosos produtos, subprodutos e subst\u00e2ncias de sua gigantesca biodiversidade foram patenteados no exterior. Cinco plantas amaz\u00f4nicas geraram, cada uma, cerca de 20 dessas patentes, de legitimidade question\u00e1vel, segundo V\u00e9lez.<\/p>\n<p>Por estes problemas e interesses comuns, a Am\u00e9rica Latina tende a se unir em favor do regime internacional. Inclusive a Argentina, vacilante como o Chile, surpreendeu ao apoiar a proposta na \u00faltima reuni\u00e3o preparat\u00f3ria para a COP8. A Argentina busca &quot;acertar estrat\u00e9gias comuns dentro do Grulac&quot; (Grupo Latino-Americano e do Caribe), disse ao Terram\u00e9rica Homero Bibiloni, subsecret\u00e1rio de Recursos Naturais da Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustent\u00e1vel desse pa\u00eds. &quot;Apesar de n\u00e3o sermos megadiversos, como Brasil ou M\u00e9xico, queremos estar em harmonia com as posturas da regi\u00e3o e chegar a uma proposta de consenso. N\u00e3o queremos ter nossa natureza patenteada&quot;, afirmou.<\/p>\n<p> * O autor \u00e9 correspondente da IPS. Com as colabora\u00e7\u00f5es de Marcela Valente (Argentina), Yadira Ferrer (Col\u00f4mbia) e Diego Cevallos (M\u00e9xico).<\/p>\n<p>Artigo produzido para o Terram\u00e9rica, projeto de comunica\u00e7\u00e3o dos Programas das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribu\u00eddo pela Ag\u00eancia Envolverde.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>RIO DE JANEIRO, 20\/03\/2006 &ndash; Brasil, M\u00e9xico e Col\u00f4mbia lideram a press\u00e3o por um regime obrigat\u00f3rio global para a riqueza biol\u00f3gica. 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