{"id":15936,"date":"2013-07-10T14:30:43","date_gmt":"2013-07-10T14:30:43","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=92621"},"modified":"2013-07-10T14:30:43","modified_gmt":"2013-07-10T14:30:43","slug":"a-verdadeira-vitima-do-golpe-no-egito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/07\/ultimas-noticias\/a-verdadeira-vitima-do-golpe-no-egito\/","title":{"rendered":"A verdadeira v\u00edtima do golpe no Egito"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_92622\" class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"width: 539px\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/Egito2.jpg\"><img class=\" wp-image-92622 \" alt=\"Egito2 A verdadeira v\u00edtima do golpe no Egito\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/Egito2.jpg\" width=\"529\" height=\"283\" title=\"A verdadeira v\u00edtima do golpe no Egito\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Militares eg\u00edpcios disparam contra civis.<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Berkeley, Estados Unidos, 10\/7\/2013 \u2013 Depois que a junta militar do Egito, armada, equipada e financiada pelos Estados Unidos, realizou seu golpe de Estado contra o primeiro governo livremente eleito na hist\u00f3ria do pa\u00eds, haver\u00e1 muitas v\u00edtimas.<\/p>\n<p>Entretanto, as principais n\u00e3o ser\u00e3o o derrubado presidente Mohammad Morsi, nem os isl\u00e2micos, que s\u00e3o bons sobreviventes por natureza. Ser\u00e3o a democracia e a f\u00e9 popular nela em todo o mundo. A v\u00edtima ser\u00e1 a \u00fanica oportunidade que os eg\u00edpcios tiveram de ser parte deste mundo em seus mais de cinco mil anos de hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Nas elei\u00e7\u00f5es, os eg\u00edpcios, jovens e velhos, mostraram ao mundo seu desejo de mudan\u00e7a e sua esperan\u00e7a, enquanto faziam fila sob o calor do deserto durante horas para tentar depositar seu voto e ter inger\u00eancia, pela primeira vez, no futuro de seu pa\u00eds.<\/p>\n<p>Enquanto cobria a Primavera \u00c1rabe, vi mulheres jovens vestidas \u00e0 moda ocidental, esperando para votar ao lado de outras cobertas dos p\u00e9s \u00e0 cabe\u00e7a pelo <i>neqab<\/i>, vestimenta tradicional das mu\u00e7ulmanas.<\/p>\n<p>A mensagem era: \u201cqueremos democracia, n\u00e3o o regime militar que nos controlou durante 60 anos\u201d. A cidadania votou uma Constitui\u00e7\u00e3o, um parlamento e um presidente, enquanto o mundo observava com surpresa e admira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Luzindo sua pobre vestimenta, o porteiro do meu pr\u00e9dio fez fila junto a ricos propriet\u00e1rios do bairro. Um valor universal de igualdade, liberdade e esperan\u00e7a se percebia no ar.<\/p>\n<p>Morsi foi o presidente que chegou ao governo com muito menos que os usuais e suspeitosos 90% dos votos que costumam receber tantos governantes \u00e1rabes.<\/p>\n<p>Contudo, na noite do dia 3 de julho, vi como ve\u00edculos Humvee fornecidos pelos Estados Unidos eram usados pelas \u201cfor\u00e7as especiais\u201d do Egito enquanto disparavam contra civis que protestavam contra o golpe militar na Pra\u00e7a Nahda, fora da Universidade do Cairo, onde h\u00e1 alguns anos o presidente Barack Obama ofereceu ao mundo mu\u00e7ulmano um discurso sobre a paz e o fim do terrorismo.<\/p>\n<p>Os v\u00eddeos mostram v\u00e1rios feridos, sangue e gente morrendo enquanto diziam suas \u00faltimas palavras em favor da liberdade. Os militares apoiados pelos Estados Unidos tentavam dispersar os partid\u00e1rios de Morsi antes de divulgar uma declara\u00e7\u00e3o formal do golpe de Estado.<\/p>\n<p>Em outro ponto onde se reuniam partid\u00e1rios da democracia, Rabaa Al-Adawia, no distrito cairota de Cidade Nasr, os militares impuseram um estado de s\u00edtio que bloqueou inclusive a passagem de alimentos ou outras provis\u00f5es, obrigando seus moradores a sa\u00edrem para obt\u00ea-los, enquanto franco-atiradores montavam guarda nos terra\u00e7os, com as pessoas nas miras de suas armas.<\/p>\n<p>Enquanto o general do ex\u00e9rcito Abdel Fatah Al-Sissi, treinado pelos Estados Unidos, prometia transpar\u00eancia e liberdade em seu discurso do dia 3, no qual declarou o golpe, v\u00e1rios civis sentados ao seu lado demonstravam seu apoio a um regime militar.<\/p>\n<p>Entretanto, na medida em que Al-Sissi falava, todos os canais de televis\u00e3o que haviam apoiado as elei\u00e7\u00f5es e Morsi eram fechados simultaneamente, e v\u00e1rios de seus funcion\u00e1rios presos, humilhados e obrigados a passar entre colunas de opositores alegres e de outros trabalhadores da m\u00eddia privada, que apoiou o golpe.<\/p>\n<p>As comunica\u00e7\u00f5es por telefone foram cortadas na \u00e1rea onde estavam reunidos os partid\u00e1rios de Morsi, sinal de que tipo de liberdade espera o Egito. Este foi o final tr\u00e1gico da nascente democracia do pa\u00eds, e uma amostra do futuro que tem pela frente sob o comando de for\u00e7as armadas apoiadas pelo Ocidente.<\/p>\n<p>Mas, quem quer uma volta ao regime militar brutal? Bem, muita gente: civis que esperam tirar proveito de um governo militar e que est\u00e3o dispostos a sacrificar a democracia e a dar um rosto civil ao golpe em seu pr\u00f3prio benef\u00edcio.<\/p>\n<p>Obviamente, os militares, que gozam de enormes benef\u00edcios financeiros e da livre propriedade de vastas e caras terras, de clubes sociais exclusivos e de descontos em praticamente cada compra.<\/p>\n<p>Eles n\u00e3o querem inspe\u00e7\u00f5es nos subornos que recebem pelas exorbitantes compras de armamentos. Eles lan\u00e7aram seus partid\u00e1rios nas ruas.<\/p>\n<p>A Igreja Copta do Egito, cada vez mais militante, que controla os cinco milh\u00f5es de crist\u00e3os do pa\u00eds e que possui importantes interesses econ\u00f4micos, tamb\u00e9m quer a volta do governo militar. E lan\u00e7ou seus seguidores, em massa, nas ruas.<\/p>\n<p>Morsi e os isl\u00e2micos haviam introduzido a ideia de legislar para impor controles sobre as finan\u00e7as da Igreja, medida que encontrou forte oposi\u00e7\u00e3o do clero crist\u00e3o. Para o novo e controvertido papa copto Teodoro II foi muito f\u00e1cil enviar centenas de milhares de seus fi\u00e9is \u00e0s ruas para pedir a derrubada de Morsi e misturar a reclama\u00e7\u00e3o com as queixa sobre a seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m h\u00e1 uma conspira\u00e7\u00e3o de ex-membros do regime de Hosni Mubarak (1981-2011) que n\u00e3o t\u00eam est\u00f4mago para um sistema de freios e equil\u00edbrios. Al\u00e9m disso, a for\u00e7a policial, que prosperou com base em assassinatos e que desfrutou dos benef\u00edcios do regime, nunca se sentiu c\u00f4moda com uma mudan\u00e7a de regime e uma democracia.<\/p>\n<p>Muitos de seus integrantes aguardavam julgamentos por abusos dos direitos humanos. Todos eles protestavam contra Morsi, sem paci\u00eancia para esperar uma mudan\u00e7a democr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Certamente h\u00e1 outros pilares do regime de Mubarak, como o grande im\u00e3 da mesquita Al-Azher, xeque Ahmed el-Tayeb, basti\u00e3o do Isl\u00e3 sunita, cujo papel sempre foi branquear os abusos de ditadores como fatos justific\u00e1veis pela religi\u00e3o, por meio de uma s\u00e9rie de controvertidas \u201cfatuas\u201d (decretos religiosos). Ele enfrentava o fantasma de uma eventual destitui\u00e7\u00e3o sob o governo de Morsi.<\/p>\n<p>Outros que queriam o regresso do regime militar sob uma fr\u00e1gil m\u00e1scara civil s\u00e3o os salafistas, que contam com apoio da Ar\u00e1bia Saudita.<\/p>\n<p>Este grupo religioso professa a ideia de \u201cnunca disputar o governante em seu governo\u201d e adere ao lado conservador do Isl\u00e3, de um modo muito semelhante ao sistema religioso saudita, que d\u00e1 maior import\u00e2ncia \u00e0 vestimenta do que \u00e0 forma de governo dos mu\u00e7ulmanos, e em colis\u00e3o direta com a ideologia da Irmandade Mu\u00e7ulmana, que promove a participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Todos eles encontraram seu ponto de conflu\u00eancia em um general de ex\u00e9rcito ambicioso, mas pouco conhecido, que mirou o governo do Egito e planejou erradicar a Constitui\u00e7\u00e3o, a legitimidade e as elei\u00e7\u00f5es segundo seu capricho.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida, Morsi e os isl\u00e2micos cometeram muitos erros. O presidente assim admitiu em seus \u00faltimos discursos e prometeu corre\u00e7\u00f5es na qualidade de presidente democraticamente eleito.<\/p>\n<p>A forma de resolver esses problemas deveria ter sido por interm\u00e9dio das urnas, e n\u00e3o por um golpe de Estado que j\u00e1 \u00e9 sangrento. Agora, a democracia sangra. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p><em>*\u00a0<strong>Emad \u00a0Mekay<\/strong> \u00e9 correspondente da IPS.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Berkeley, Estados Unidos, 10\/7\/2013 &ndash; Depois que a junta militar do Egito, armada, equipada e financiada pelos Estados Unidos, realizou seu golpe de Estado contra o primeiro governo livremente eleito na hist&oacute;ria do pa&iacute;s, haver&aacute; muitas v&iacute;timas. 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