{"id":16087,"date":"2013-07-31T15:40:39","date_gmt":"2013-07-31T15:40:39","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=94816"},"modified":"2013-07-31T15:40:39","modified_gmt":"2013-07-31T15:40:39","slug":"combate-a-seca-e-causa-de-divorcio-politico-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/07\/ultimas-noticias\/combate-a-seca-e-causa-de-divorcio-politico-no-brasil\/","title":{"rendered":"Combate \u00e0 seca \u00e9 causa de div\u00f3rcio pol\u00edtico no Brasil"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_94817\" class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"width: 539px\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/construcao3.jpg\"><img class=\" wp-image-94817 \" alt=\"construcao3 Combate \u00e0 seca \u00e9 causa de div\u00f3rcio pol\u00edtico no Brasil\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/construcao3.jpg\" width=\"529\" height=\"372\" title=\"Combate \u00e0 seca \u00e9 causa de div\u00f3rcio pol\u00edtico no Brasil\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">A transposi\u00e7\u00e3o do rio S\u00e3o Francisco, em processo, implica a constru\u00e7\u00e3o de 713 quil\u00f4metros de canais para levar \u00e1gua a 12 milh\u00f5es de habitantes do interior do semi\u00e1rido. Foto: Mario Osava\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Paulo Afonso, Brasil, 31\/7\/2013 \u2013 As decis\u00f5es do governo brasileiro para combater a seca na regi\u00e3o Nordeste s\u00e3o um exemplo das desaven\u00e7as entre o poder pol\u00edtico e parte da sociedade, que explodiram em junho em inesperados protestos nas ruas. Ainda que abra\u00e7ando uma solu\u00e7\u00e3o nascida da popula\u00e7\u00e3o, de disseminar reservat\u00f3rios para armazenar \u00e1gua da chuva, o governo de Dilma Rousseff o fez de tal forma que nega aspectos essenciais da iniciativa, desconhecendo uma experi\u00eancia bem-sucedida de uma d\u00e9cada, segundo autores dessa ideia.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o nos ouviram\u201d, lamentou Naidison Baptista, coordenador da Articula\u00e7\u00e3o Semin\u00e1rio Brasileiro (ASA), a rede que re\u00fane quase mil organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais, comunit\u00e1rias, sindicais, religiosas e camponesas, criada em 1999 para garantir \u00e1gua pot\u00e1vel \u00e0s fam\u00edlias rurais pobres e vulner\u00e1veis \u00e0s secas. A presidente Dilma anunciou, em julho de 2011, que at\u00e9 o final de seu mandato, em 2014, o Estado distribuir\u00e1 750 mil cisternas na zona do semi\u00e1rido, por meio do programa \u00c1gua para Todos, inclu\u00eddo em seu plano de erradica\u00e7\u00e3o da mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>Isso teria representado o triunfo definitivo e com juros do movimento iniciado pela ASA, que registra 476.040 cisternas rurais constru\u00eddas at\u00e9 o dia 17 deste m\u00eas, quase metade de sua meta. Com as prometidas pelo governo, se universalizaria o benef\u00edcio entre a popula\u00e7\u00e3o necessitada. No semi\u00e1rido, o interior do Nordeste de escassas chuvas, cuja extens\u00e3o supera os territ\u00f3rios somados de Alemanha e Fran\u00e7a, vivem 22 milh\u00f5es dos 198 milh\u00f5es de brasileiros. Quase 8,6 milh\u00f5es deles s\u00e3o camponeses, segundo o censo de 2010.<\/p>\n<p>Entretanto, as cisternas oferecidas pelo Minist\u00e9rio de Integra\u00e7\u00e3o Nacional, encarregado do programa do governo, s\u00e3o de pl\u00e1stico, feitas industrialmente e distribu\u00eddas por interm\u00e9dio dos governos estaduais e municipais. \u201c\u00c9 o velho modelo sem participa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o\u201d, observou Baptista \u00e0 IPS. Volta-se \u00e0 rela\u00e7\u00e3o paternalista das doa\u00e7\u00f5es de governantes, gerando depend\u00eancia dos beneficiados, pois n\u00e3o conhecem a origem nem sabem como manter o produto. Sem se envolver no processo de sua constru\u00e7\u00e3o, n\u00e3o cuidam, ressaltou.<\/p>\n<p>J\u00e1 as cisternas da ASA s\u00e3o feitas de cimento por pedreiros locais e instaladas pelos pr\u00f3prios moradores, que se capacitam na gest\u00e3o da \u00e1gua para que dure os oito meses de estiagem e permane\u00e7a sempre pot\u00e1vel. Assim, as obras dinamizam a economia local, ao consumir material e servi\u00e7o de fornecedores pr\u00f3ximos, ampliando o trabalho remunerado em um mercado que carece de empregos. \u00c9 uma solu\u00e7\u00e3o \u201cend\u00f3gena, aut\u00f4noma\u201d, que contribui para a conviv\u00eancia com o semi\u00e1rido e distribui renda, ressaltou Baptista.<\/p>\n<p>Por sua vez, o programa governamental concentra a renda em poucas empresas distantes e refor\u00e7a a tradicional \u201cind\u00fastria da seca\u201d, express\u00e3o que designa a explora\u00e7\u00e3o da trag\u00e9dia, cobrando altos pre\u00e7os pela \u00e1gua suja que \u00e9 entregue em caminh\u00f5es-tanque ou trocando por votos. Al\u00e9m disso, uma cisterna de pl\u00e1stico custa R$ 5.090, reconhece o Minist\u00e9rio de Integra\u00e7\u00e3o, mais que o dobro do custo de uma de cimento. Isso, multiplicado por centenas de milhares, resulta em \u201cum mercado de grande lucro\u201d para a ind\u00fastria, apontou Baptista.<\/p>\n<p>A ASA lan\u00e7ou a campanha Cisternas de Pl\u00e1stico PVC \u2013 Somos Contra, depois da decis\u00e3o do governo em 2011. \u00c9 uma \u201carmadilha\u201d porque exclui a popula\u00e7\u00e3o local do processo e da reprodu\u00e7\u00e3o da t\u00e9cnica, acrescentou Baptista. O governo federal diz que a produ\u00e7\u00e3o industrial em grande escala \u00e9 necess\u00e1ria para acelerar a dissemina\u00e7\u00e3o dos sistemas de armazenagem de \u00e1gua pot\u00e1vel e agr\u00edcola, em um momento de forte e prolongada seca. Mas \u00e9 uma \u201cfalsa\u201d justificativa, j\u00e1 que a ASA pode mobilizar at\u00e9 tr\u00eas mil organiza\u00e7\u00f5es locais e multiplicar suas a\u00e7\u00f5es se contasse com financiamento correspondente, responde Baptista.<\/p>\n<p>A decis\u00e3o federal exigiu um ajuste institucional, que transferiu o protagonismo aos governos locais, em detrimento das organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil. Como primeira consequ\u00eancia, o Minist\u00e9rio de Desenvolvimento Social (MDS) suspendeu sua ajuda ao Programa Um milh\u00e3o de Cisternas (P1MC), que a ASA realizava desde 2003 com apoio diversificado de bancos, empresas e doadores estrangeiros, al\u00e9m do governo nacional.<\/p>\n<p>Contudo, uma mobiliza\u00e7\u00e3o de aproximadamente 15 mil pessoas, no dia 20 de dezembro de 2011, em Petrolina, polo de fruticultura irrigada do Nordeste, fez o MDS voltar atr\u00e1s e assinar novos acordos com a ASA. As cisternas de polietileno proliferaram desde o ano passado, mas s\u00e3o rejeitadas em certas comunidades. Algumas prefeituras, como a de Serra Talhada, em Pernambuco, tamb\u00e9m n\u00e3o as aceitaram.<\/p>\n<p>O pl\u00e1stico deforma com o Sol forte e \u201ca \u00e1gua fica muito quente, afetando o est\u00f4mago\u201d, se queixou Rosalina Maria de Jesus, uma ind\u00edgena com \u201cmais ou menos 70 anos\u201d, do povo Pankarar\u00fa, tamb\u00e9m de Pernambuco. As cisternas industriais afetadas pelo calor foram substitu\u00eddas e corrigidas nas f\u00e1bricas, mas restou a desconfian\u00e7a de que n\u00e3o resistir\u00e3o muito tempo ao Sol tropical. Em alguns munic\u00edpios lotam pra\u00e7as durante semanas ou meses diante da lentid\u00e3o das prefeituras em entreg\u00e1-las \u00e0s fam\u00edlias.<\/p>\n<p>Em um desses casos, Marac\u00e1s, na Bahia, 830 cisternas de PVC pegaram fogo depois de 40 dias de perman\u00eancia em um terreno municipal. As de cimento, que duram muitas d\u00e9cadas, foram criadas por um jovem campon\u00eas que, em 1955, emigrou para S\u00e3o Paulo, onde aprendeu a construir piscinas. Depois de voltar para a Bahia, inventou as placas pr\u00e9-moldadas que permitem, em poucas horas, fazer o dep\u00f3sito que est\u00e1 matando a sede e salvando vidas infantis antes ceifadas pela \u00e1gua contaminada.<\/p>\n<p>Os dois tipos de cisterna convivem na aldeia Pankarar\u00fa como em muitos munic\u00edpios. As de pl\u00e1stico refletem um avan\u00e7o, dentro do governo, da velha concep\u00e7\u00e3o de \u201ccombate \u00e0 seca\u201d, que acumulou fracassos na hist\u00f3ria do Nordeste. Sua maior obra atual \u00e9 a transposi\u00e7\u00e3o do rio S\u00e3o Francisco, criado para levar \u00e1gua a 12 milh\u00f5es de pessoas, principalmente urbanas.<\/p>\n<p>O megaprojeto iniciado em 2007 assombra a opini\u00e3o p\u00fablica por seu custo crescente, hoje de R$ 8,2 bilh\u00f5es e cont\u00ednuas interrup\u00e7\u00f5es na constru\u00e7\u00e3o de seus 713 quil\u00f4metros de canais a c\u00e9u aberto, fazendo temer um novo \u201celefante branco\u201d no semi\u00e1rido. J\u00e1 a ASA promove a \u201cconviv\u00eancia com o semi\u00e1rido\u201d, cujo exemplo mais not\u00e1vel s\u00e3o as cisternas para a popula\u00e7\u00e3o rural difusa, a mais afetada pelas secas.<\/p>\n<p>A ambiguidade do atual governo, que destina a iniciativas da sociedade, como a ASA, recursos \u00ednfimos em compara\u00e7\u00e3o com os elevados investimentos em megaprojetos, estimula os atuais protestos de rua. Na popula\u00e7\u00e3o cresce a desconfian\u00e7a e se cr\u00ea que as decis\u00f5es nacionais se converteram em neg\u00f3cios entre governantes e grandes empresas. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Paulo Afonso, Brasil, 31\/7\/2013 &ndash; As decis&otilde;es do governo brasileiro para combater a seca na regi&atilde;o Nordeste s&atilde;o um exemplo das desaven&ccedil;as entre o poder pol&iacute;tico e parte da sociedade, que explodiram em junho em inesperados protestos nas ruas. 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