{"id":161,"date":"2005-01-23T00:00:00","date_gmt":"2005-01-23T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=161"},"modified":"2005-01-23T00:00:00","modified_gmt":"2005-01-23T00:00:00","slug":"clima-burocracia-aquece-o-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/01\/mundo\/clima-burocracia-aquece-o-mundo\/","title":{"rendered":"Clima: Burocracia aquece o mundo"},"content":{"rendered":"<p>Buenos Aires, 23\/01\/2005 &ndash; A Confer&ecirc;ncia das Na&ccedil;&otilde;es Unidas sobre Mudan&ccedil;a clim&aacute;tica demonstrou em sua d&eacute;cima edi&ccedil;&atilde;o o vigor como ferramenta para impulsionar a redu&ccedil;&atilde;o das emiss&otilde;es de gases causadores do efeito estufa, mas tamb&eacute;m deixou evidente que o tempo pol&iacute;tico caminha muito mais lento do que o aquecimento global a ser combatido. Haver&aacute; mais quantas inunda&ccedil;&otilde;es, secas ou furac&otilde;es at&eacute; que os acordos de redu&ccedil;&atilde;o de emiss&otilde;es ou de adapta&ccedil;&atilde;o ao aumento da temperatura global sejam ambiciosos a ponte de reduzir os impactos devastadores que recaem em primeiro lugar sobre o mundo em desenvolvimento? Mais quantas ilhas ter&atilde;o de desaparecer do mapa at&eacute; que isso ocorra?<br \/> <!--more--> <br \/> Dez anos depois da entrada em vigor da Conven&ccedil;&atilde;o Marco das Na&ccedil;&otilde;es Unidas sobre a Mudan&ccedil;a Clim&aacute;tica, a incerteza cient&iacute;fica sobre o impacto das emiss&otilde;es dos chamados gases causadores do efeito estufa sobre a atmosfera se reduziu de maneira consider&aacute;vel e, por sua vez, aumentou o conhecimento sobre os danos que as altera&ccedil;&otilde;es clim&aacute;ticas causar&atilde;o nos pa&iacute;ses mais vulner&aacute;veis. Entretanto, o processo burocr&aacute;tico, cada vez mais pesado em institui&ccedil;&otilde;es e normas, continua muito atrasado em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; hora da a&ccedil;&atilde;o preventiva. Promessas v&aacute;rias foi o saldo da X Confer&ecirc;ncia das Partes da Conven&ccedil;&atilde;o Marco das Na&ccedil;&otilde;es Unidas sobre a Mudan&ccedil;a Clim&aacute;tica, mais conhecida como COP-10, que reuniu em Buenos Aires entre o dia 6 e a madrugada do dia 18 deste m&ecirc;s mais de seis mil participantes entre delegados de governos, da sociedade civil, ambientalistas e empres&aacute;rios.<\/p>\n<p> Pouco antes de come&ccedil;ar a COP-10 se desfez o otimismo surgido com a decis&atilde;o da R&uacute;ssia de ratificar o Protocolo de Kyoto, assinado em 1997 nessa cidade japonesa e que obriga os pa&iacute;ses industrializados a reduzir em 5,2% suas emiss&otilde;es de gases que causam o efeito estufa, especialmente o di&oacute;xido de carbono, em rela&ccedil;&atilde;o aos volumes emitidos em 1990, meta a ser cumprida antes de 2012. Essa ratifica&ccedil;&atilde;o pelo parlamento russo permitir&aacute; que no dia 16 de fevereiro entre em vigor esse acordo mundial que incentiva a cumpri-lo diretamente ou atrav&eacute;s dos chamados mecanismos de flexibiliza&ccedil;&atilde;o, que s&atilde;o o com&eacute;rcio de direitos de emiss&atilde;o, a implementa&ccedil;&atilde;o conjunta e o mecanismo de desenvolvimento limpo.<\/p>\n<p> O Protocolo foi subscrito por todos os pa&iacute;ses industrializados, menos Austr&aacute;lia e Estados Unidos, que, al&eacute;m disso, ap&oacute;s a chegada de George W. Bush &agrave; Casa Branca, retirou a assinatura de seu antecessor, Bill Clinton, do documento. Agora, as grandes empresas dever&atilde;o mostrar se s&atilde;o capazes de apresentar projetos de redu&ccedil;&atilde;o das emiss&otilde;es que contribuam para limpar a atmosfera, n&atilde;o se dedicando apenas &agrave; fazer bons neg&oacute;cios com o carbono, o novo bem de mercado criado pelo Protocolo de Kyoto. Os delegados de 180 pa&iacute;ses que participaram da COP-10 conseguiram dois resultados-chave, segundo resumiram no plen&aacute;rio de encerramento da reuni&atilde;o. Aprovaram uma iniciativa da Argentina para colocar de volta os Estados Unidos &agrave; mesa de di&aacute;logo sobre redu&ccedil;&atilde;o, e foi acertado um plano de a&ccedil;&atilde;o sobre adapta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> A colheita foi magra, se comparada com os relat&oacute;rios acad&ecirc;micos e de organismos ambientalistas divulgados amplamente durante a confer&ecirc;ncia, nos quais se alerta sobre os graves efeitos da mudan&ccedil;a clim&aacute;tica que j&aacute; s&atilde;o observados em muitos pa&iacute;ses e, tamb&eacute;m, contendo proje&ccedil;&otilde;es sobre o que vir&aacute;. A Uni&atilde;o Europ&eacute;ia (UE), a qual se reconhece uma certa lideran&ccedil;a governamental nestas negocia&ccedil;&otilde;es, prop&ocirc;s trabalhar para obter o compromisso de evitar que a temperatura aumente mais que dois graus neste s&eacute;culo, mas, este apelo j&aacute; resulta tardio. Os especialistas estimam que mesmo com esse aumento gradual do calor os danos seriam fatais no prazo de cem anos.<\/p>\n<p> Os pa&iacute;ses mais vulner&aacute;veis insistiram com o argumento de que a mudan&ccedil;a clim&aacute;tica &eacute;, para eles, mais catastr&oacute;fica do que o terrorismo internacional, um apelo direto aos Estados Unidos e &agrave; UE para uma conscientiza&ccedil;&atilde;o sobre a necessidade e a urg&ecirc;ncia de colocar esse problema entre as prioridades da agenda mundial. Nesse sentido, a id&eacute;ia de um semin&aacute;rio em 2005 no qual os governos troquem pontos de vista sobre como reduzir o aquecimento da atmosfera &eacute; um passo, mas, para aprovar a proposta precisou deixar claro que por ora n&atilde;o ser&atilde;o exigidos compromissos de redu&ccedil;&atilde;o de emiss&otilde;es nem por parte dos Estados Unidos nem dos grandes pa&iacute;ses do Norte.<\/p>\n<p> Com rela&ccedil;&atilde;o ao Programa de Trabalho de Buenos Aires sobre Adapta&ccedil;&atilde;o e Medidas de Resposta, trata-se apenas de uma agenda de assuntos que requerem aten&ccedil;&atilde;o dos doadores para avan&ccedil;ar no cumprimento dos compromissos assumidos com os pa&iacute;ses em desenvolvimento para a ado&ccedil;&atilde;o de medidas de preven&ccedil;&atilde;o diante da mudan&ccedil;a clim&aacute;tica. Por&eacute;m, n&atilde;o se conseguiu mais do que um compromisso muito modesto por parte da UE, que come&ccedil;ar&aacute; a alimentar, no pr&oacute;ximo ano, um fundo anual de US$ 420 milh&otilde;es para essa finalidade. Esses recursos dever&atilde;o ser repartidos entre os pa&iacute;ses em desenvolvimento nos quais o custo de cada cat&aacute;strofe provocada pela altera&ccedil;&atilde;o do clima seja superior a v&aacute;rios milhares de milh&otilde;es de d&oacute;lares.<\/p>\n<p> A confer&ecirc;ncia se mostrou, uma vez mais, como um f&oacute;rum de debate aberto e democr&aacute;tico no qual os pa&iacute;ses t&ecirc;m representa&ccedil;&atilde;o eq&uuml;itativa mais al&eacute;m das reais possibilidades de participa&ccedil;&atilde;o. Algumas na&ccedil;&otilde;es enviaram apenas um representante, como Bahamas, enquanto outros governos se apresentaram com 100, caso dos Estados Unidos, e at&eacute; com 200 delegados, como o Brasil. &quot;Este n&atilde;o &eacute; um Conselho de Seguran&ccedil;a&quot;, alfinetou um representante argentino ao seu colega norte-americano em uma das sess&otilde;es, se referindo &agrave; capacidade dos pa&iacute;ses mais poderosos de aprovar ou vetar decis&otilde;es que afetam o resto do mundo nesse organismo m&aacute;ximo de execu&ccedil;&atilde;o da Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas ou em outros f&oacute;runs. Mesmo assim, perdeu-se a oportunidade de exercer maior press&atilde;o pol&iacute;tica sobre Washington e cedeu-se &agrave;s suas pretens&otilde;es.<\/p>\n<p> Os delegados se justificaram alegando a necessidade de ter de volta &agrave; mesa de negocia&ccedil;&atilde;o o principal respons&aacute;vel pelas emiss&otilde;es de gases que aquecem a atmosfera, provenientes da queima de combust&iacute;veis f&oacute;sseis, como carv&atilde;o e petr&oacute;leo. Por&eacute;m, se poderia ter conseguido muito mais. A id&eacute;ia de realizar pela primeira vez pain&eacute;is tema?ticos de discuss&atilde;o entre ministros, em lugar da tradicional sucess&atilde;o de discursos perante um p&uacute;blico que vai diminuindo, n&atilde;o foi uma ferramenta utilizada para pressionar publicamente os pa&iacute;ses industrializados no sentido de obter resultados favor&aacute;veis para o mundo em desenvolvimento. Nos encontros de ministros estiveram representantes de pot&ecirc;ncias, como Estados Unidos e China, junto a delegados de pa&iacute;ses de vulnerabilidade cr&iacute;tica, como Tuvalu e Kiribati, dois arquip&eacute;lagos do Pac&iacute;fico que podem desaparecer com a eleva&ccedil;&atilde;o do n&iacute;vel do mar.<\/p>\n<p> Entretanto, n&atilde;o se concretizou o debate esperado porque os funcion&aacute;rios se apegaram a discursos preparados antes de sa&iacute;rem de casa, e evitaram a troca de id&eacute;ias ou de princ&iacute;pios. As organiza&ccedil;&otilde;es ambientalistas lamentaram que, apesar do clima de esperan&ccedil;a que precedeu a reuni&atilde;o, as conclus&otilde;es tenham sido pobres. O f&oacute;rum do Bom Air, que re&uacute;ne mais de uma centena de organiza&ccedil;&otilde;es n&atilde;o-governamentais da Argentina e de alguns outros pa&iacute;ses da Am&eacute;rica Latina, expressou sua &quot;profunda decep&ccedil;&atilde;o&quot; pela falta de progresso e, sobretudo, pela aus&ecirc;ncia de apoio financeiro ao programa sobre adapta&ccedil;&atilde;o, que prometia ser o tema principal da confer&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Para o coletivo de organismos os resultados da reuni&atilde;o &quot;d&atilde;o a entender que existe uma atitude de ouvidos surdos &agrave;s evid&ecirc;ncias cient&iacute;ficas e t&eacute;cnicas de especialistas que apresentaram durante o encontro dram&aacute;ticos resultados atuais e futuros com perdas sociais, econ&ocirc;micas e ambientais enormes&quot;, ressaltaram. Roque Pedace, da ONG Amigos da Terra Internacional, disse &agrave; IPS que, mesmo n&atilde;o sendo poss&iacute;vel avan&ccedil;ar em um semin&aacute;rio com os Estados Unidos, na mesa de debate &quot;observa-se pouco interesse dos negociadores em reconhecer a urg&ecirc;ncia&quot; que existe em mat&eacute;ria de redu&ccedil;&atilde;o e adapta&ccedil;&atilde;o &agrave; mudan&ccedil;a clim&aacute;tica. &quot;Temos pouco tempo e as medidas que est&atilde;o tomando s&atilde;o demoradas, desej&aacute;vamos decis&otilde;es mais r&aacute;pidas, que nos digam quem vai financiar a adapta&ccedil;&atilde;o&quot;, afirmou.<\/p>\n<p> Nesse contexto, Pedace resgatou como &quot;novidade&quot; o conceito de &quot;devedores ambientais&quot; lan&ccedil;ado durante a confer&ecirc;ncia por um orador inesperado, como foi o presidente argentino, Nestor Kirchner. Embora sua administra&ccedil;&atilde;o ambiental seja alvo de severas cr&iacute;ticas por parte de v&aacute;rias ONGs, seu discurso causou um forte impacto. Kirchner identificou os credores da d&iacute;vida externa dos pa&iacute;ses em desenvolvimento como os devedores ambientais das na&ccedil;&otilde;es mais pobres, donas de uma biodiversidade devastada pela demanda crescente e voraz de consumo no Norte. O argumento foi adotado pelos ministros latino-americanos de Meio Ambiente em uma declara&ccedil;&atilde;o em favor de uma acelera&ccedil;&atilde;o dos esfor&ccedil;os para a adapta&ccedil;&atilde;o &agrave; altera&ccedil;&atilde;o do clima, um aval que poderia marcar o eixo de futuras reclama&ccedil;&otilde;es no sentido de dar maior impulso a uma negocia&ccedil;&atilde;o que deveria avan&ccedil;ar mais r&aacute;pido do que o que marca o term&ocirc;metro. (IPS\/Envolverde) <\/p>\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Buenos Aires, 23\/01\/2005 &ndash; A Confer&ecirc;ncia das Na&ccedil;&otilde;es Unidas sobre Mudan&ccedil;a clim&aacute;tica demonstrou em sua d&eacute;cima edi&ccedil;&atilde;o o vigor como ferramenta para impulsionar a redu&ccedil;&atilde;o das emiss&otilde;es de gases causadores do efeito estufa, mas tamb&eacute;m deixou evidente que o tempo pol&iacute;tico caminha muito mais lento do que o aquecimento global a ser combatido. Haver&aacute; mais quantas inunda&ccedil;&otilde;es, secas ou furac&otilde;es at&eacute; que os acordos de redu&ccedil;&atilde;o de emiss&otilde;es ou de adapta&ccedil;&atilde;o ao aumento da temperatura global sejam ambiciosos a ponte de reduzir os impactos devastadores que recaem em primeiro lugar sobre o mundo em desenvolvimento? 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