{"id":1617,"date":"2006-03-27T00:00:00","date_gmt":"2006-03-27T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=1617"},"modified":"2006-03-27T00:00:00","modified_gmt":"2006-03-27T00:00:00","slug":"entrevista-com-jose-ramos-horta-suez-faz-as-malas-para-nao-voltar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/03\/america-latina\/entrevista-com-jose-ramos-horta-suez-faz-as-malas-para-nao-voltar\/","title":{"rendered":"Entrevista com Jos\u00e9 Ramos-Horta: Suez faz as malas para n\u00e3o voltar"},"content":{"rendered":"<p>M\u00c9XICO, 27\/03\/2006 &ndash; Ap\u00f3s a rescis\u00e3o de seu contrato na Argentina, a multinacional da \u00e1gua espera que sua sa\u00edda da Bol\u00edvia seja menos conflitiva. E, por algum tempo, a Am\u00e9rica Latina n\u00e3o ser\u00e1 um de seus destinos favoritos. <!--more--> A multinacional francesa da \u00e1gua Suez, vil\u00e3 favorita do movimento global contra a privatiza\u00e7\u00e3o, entrou na reta final de sua retirada da Argentina e da Bol\u00edvia, onde vem preparando as malas faz tempo. E, tanto quanto demorou para partir, poder\u00e1 demorar para regressar \u00e0 Am\u00e9rica Latina. O governo argentino do presidente N\u00e9stor Kirchner anunciou, no dia 21 de mar\u00e7o, a rescis\u00e3o do contrato de 30 anos com a \u00c1guas Argentinas, subsidi\u00e1ria da Suez, a qual acusou de &quot;reiterados descumprimentos&quot;. A medida causou uma escalada de tens\u00e3o na conturbada negocia\u00e7\u00e3o entre as autoridades argentinas e a companhia que j\u00e1 durava tr\u00eas anos, prejudicando as rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas com a Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Sem a concess\u00e3o na capital argentina, pela qual fornecia \u00e1gua a cerca de dez milh\u00f5es de pessoas, e com um decreto presidencial de 2005 que rescinde seu contrato na Bol\u00edvia, restam \u00e0 multinacional neg\u00f3cios h\u00eddricos em apenas dois pa\u00edses da regi\u00e3o: Brasil e M\u00e9xico. Embora se trate das economias mais poderosas da Am\u00e9rica Latina, suas concess\u00f5es nesses pa\u00edses s\u00e3o de pequena envergadura e, inclusive, em algumas aparece como acionista minorit\u00e1ria. A Suez \u00e9 um gigante da energia e do g\u00e1s, cujos lucros chegaram a US$ 3 bilh\u00f5es em 2005, 48% mais do que em 2004, e tamb\u00e9m \u00e9 uma das empresas de \u00e1gua mais poderosas do mundo, com sua divis\u00e3o Suez Environnement.<\/p>\n<p>H\u00e1 v\u00e1rios anos, a divis\u00e3o aposta em concess\u00f5es h\u00eddricas em pa\u00edses da \u00c1sia e Europa, considerados mais est\u00e1veis do que os latino-americanos. A Suez explica o fracasso de seus neg\u00f3cios de \u00e1gua na Argentina e na Bol\u00edvia por riscos financeiros e pol\u00edticos que a impediram de obter lucros em um setor com baixas taxas de retorno de investimento (cerca de 5%). &quot;Na Argentina foi o choque macroecon\u00f4mico e a desvaloriza\u00e7\u00e3o do peso que impediram cumprir algumas cl\u00e1usulas do contrato, e na Bol\u00edvia foi a impossibilidade do governo, por quest\u00f5es pol\u00edticas, de aumentar as tarifas depois de cinco anos&quot;, disse ao Terram\u00e9rica Jacques Labre, diretor de Rela\u00e7\u00f5es Institucionais da Suez, que participou do IV F\u00f3rum Mundial da \u00c1gua, realizado no M\u00e9xico, em mar\u00e7o.<\/p>\n<p>A Suez insistiu reiteradamente em aumentar suas tarifas, congeladas na Argentina em 2002, do mesmo modo que na Bol\u00edvia. Por\u00e9m, os dois pa\u00edses recha\u00e7aram os aumentos por consider\u00e1-los exorbitantes (at\u00e9 400%) e acusaram a empresa de n\u00e3o fornecer servi\u00e7os de qualidade, enquanto milhares de enfurecidos habitantes foram \u00e0s ruas exigir a sa\u00edda da empresa. O golpe da divulga\u00e7\u00e3o nos meios de comunica\u00e7\u00e3o da onda de marchas ind\u00edgenas contra a Suez, na empobrecida cidade boliviana de El Alto, que acabou na ren\u00fancia do presidente Carlos Mesa, no ano passado, foi especialmente implac\u00e1vel. Em meio a esta ruidosa hostilidade contra as multinacionais da \u00e1gua, o investimento privado no setor entrou em queda na Am\u00e9rica Latina na \u00faltima d\u00e9cada.<\/p>\n<p>Segundo Labre, esta tend\u00eancia se explica pelas enormes car\u00eancias em infra-estrutura na regi\u00e3o que obrigam a ajustar as tarifas para cima e a impossibilidade de garantir os subs\u00eddios p\u00fablicos por or\u00e7amentos expostos a m\u00faltiplas press\u00f5es. As autoridades bolivianas acusam a Suez de pensar apenas em lucro e deixar sem acesso \u00e0 \u00e1gua cerca de 350 mil fam\u00edlias, enquanto na Argentina qualificam de &quot;p\u00e9ssimo&quot; seu servi\u00e7o e denunciam que aproximadamente 300 mil pessoas correm risco de contamina\u00e7\u00e3o da \u00e1gua com nitratos. Alexander Brailowsky, diretor de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel da \u00c1guas Argentinas desde 1999, defendeu os \u00eaxitos da concess\u00e3o e lamentou a falta de uma pol\u00edtica estatal de gest\u00e3o da \u00e1gua na Am\u00e9rica Latina, sem a qual &quot;o setor privado, por mais eficiente que seja, n\u00e3o pode cumprir suas metas&quot;.<\/p>\n<p>&quot;Nossas tarifas eram as mais baixas em todo o pa\u00eds, em dez anos cerca de dois milh\u00f5es de pessoas tiveram acesso \u00e0 \u00e1gua pela primeira vez e demonstramos que os pobres querem pagar&quot;, disse Brailowsky ao Terram\u00e9rica. &quot;Aprendemos com o passado e vamos a outros projetos (na regi\u00e3o) quando tivermos um m\u00ednimo de garantia de que nossa participa\u00e7\u00e3o ser\u00e1 para benef\u00edcio de todo mundo&quot;, acrescentou, assinalando que sua empresa sempre apostou em uma sa\u00edda pac\u00edfica da Argentina. No entanto, tudo indica que haver\u00e1 batalha legal. Durante tr\u00eas anos de aperta e afrouxa, o governo argentino disse estar disposto a promover uma sa\u00edda ordenada da Suez, ao estilo da Electricit\u00e9 de France, em 2005.<\/p>\n<p>Entretanto, a decis\u00e3o de Kirchner de retirar a concess\u00e3o provocou um giro inesperado nas negocia\u00e7\u00f5es e a Suez respondeu de imediato que ir\u00e1 \u00e0 luta. A empresa continuar\u00e1 com a demanda, que apresentou no tribunal de arbitragem ligado ao Banco Mundial, para recuperar U$ 1,7 bilh\u00e3o que afirma ter investido no pa\u00eds desde 1993. Esta postura aumentou a indigna\u00e7\u00e3o em diversos setores dentro e fora da Argentina. &quot;Est\u00e3o pedindo compensa\u00e7\u00f5es muito altas e injustificadas quando trouxeram mais problemas do que benef\u00edcios, n\u00e3o cumpriram com o acesso ao servi\u00e7o, nem resolveram a quest\u00e3o da contamina\u00e7\u00e3o&quot;, disse ao Terram\u00e9rica Danielle Mitterrand, ex-primeira dama da Fran\u00e7a e ativista.<\/p>\n<p>Pode ser que na Bol\u00edvia as coisas evoluam de outra forma. Abel Mamani, que liderou as marchas contra a Suez em El Alto e agora \u00e9 ministro da \u00c1gua, assegurou ao Terram\u00e9rica que ser\u00e1 garantida uma retirada &quot;ordenada&quot; da companhia. No final de mar\u00e7o, estar\u00e3o prontos os resultados de uma auditoria na \u00c1guas do Illimani, concession\u00e1ria da Suez, e se decidir\u00e1 o cronograma de sa\u00edda. A Suez, no entanto, mant\u00e9m um discurso conciliat\u00f3rio e, inclusive, est\u00e1 aberta a explorar um novo tipo de contrato na Bol\u00edvia. Por\u00e9m, o presidente Evo Morales aposta em outro s\u00f3cio: o Banco Mundial, organismo que no passado qualificou de &quot;terrorista&quot;. Mamani se reuniu com o chefe de Energia e \u00c1gua, Jamal Saghir, durante o F\u00f3rum da \u00c1gua no M\u00e9xico, para buscar acordos.<\/p>\n<p>&quot;Gostaria de trabalhar com o setor p\u00fablico na Bol\u00edvia, eu lhes dou as boas-vindas, mas minha primeira pergunta \u00e9: quem pode oferecer servi\u00e7o de \u00e1gua eficiente aos pobres ao menor custo? Se voc\u00ea me demonstrar que o setor p\u00fablico pode faz\u00ea-lo, eu o financio&quot;, disse Saghir ao Terram\u00e9rica.<\/p>\n<p>Nos anos 90, o Banco Mundial afirmava que as associa\u00e7\u00f5es com o setor privado eram a via mais id\u00f4nea para levar \u00e1gua limpa aos mais desfavorecidos. A institui\u00e7\u00e3o investiu em diversas empresas, incluindo a \u00c1guas do Illimani. Depois da busca, sem sucesso, por s\u00f3cios privados para uma nova concess\u00e3o, Kirchner anunciou, por sua parte, a cria\u00e7\u00e3o da empresa p\u00fablica \u00c1guas e Saneamento Argentinos para assumir o servi\u00e7o que a Suez deixar\u00e1. O escrut\u00ednio p\u00fablico \u00e0s experi\u00eancias de Kirchner e Morales ser\u00e1 intenso. O desafio n\u00e3o \u00e9 pequeno: dever\u00e3o conseguir fornecer \u00e1gua a pre\u00e7os baixos aos mais pobres, tarefa que &#8211; acrescentam &#8211; a multinacional francesa n\u00e3o conseguiu cumprir.<\/p>\n<p>* A autora \u00e9 diretora editorial do Terram\u00e9rica.<\/p>\n<p>Artigo produzido para o Terram\u00e9rica, projeto de comunica\u00e7\u00e3o dos Programas das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribu\u00eddo pela Ag\u00eancia Envolverde.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00c9XICO, 27\/03\/2006 &ndash; Ap\u00f3s a rescis\u00e3o de seu contrato na Argentina, a multinacional da \u00e1gua espera que sua sa\u00edda da Bol\u00edvia seja menos conflitiva. 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