{"id":16251,"date":"2013-08-07T12:38:28","date_gmt":"2013-08-07T12:38:28","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=95503"},"modified":"2013-08-07T12:38:28","modified_gmt":"2013-08-07T12:38:28","slug":"cuba-um-pais-com-o-coracao-partido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/08\/ultimas-noticias\/cuba-um-pais-com-o-coracao-partido\/","title":{"rendered":"Cuba, um pa\u00eds com o cora\u00e7\u00e3o partido"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/baisebol.jpg\"><img class=\"aligncenter  wp-image-95504\" alt=\"baisebol 1024x576 Cuba, um pa\u00eds com o cora\u00e7\u00e3o partido\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/baisebol-1024x576.jpg\" width=\"524\" height=\"276\" title=\"Cuba, um pa\u00eds com o cora\u00e7\u00e3o partido\" \/><\/a><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Havana, Cuba, agosto\/2013 \u2013 Para os cubanos, o beisebol n\u00e3o \u00e9 um esporte e muito menos um jogo: \u00e9 quase uma religi\u00e3o, algo definitivamente muito s\u00e9rio.<\/p>\n<p>Esta pr\u00e1tica competitiva, nascida nos Estados Unidos, chegou \u00e0 ilha na metade do s\u00e9culo 19, trazida por jovens cujas fam\u00edlias os enviavam para estudar nas cidades do norte do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Apenas surgido nas costas cubanas, o ent\u00e3o <i>baseball<\/i> come\u00e7ou um processo de enraizamento que chegaria a convert\u00ea-lo em um dos sinais da identidade cubana.<\/p>\n<p>Naqueles tempos origin\u00e1rios, \u201co jogo de bola\u201d, segundo se qualificaria no pa\u00eds, teve uma import\u00e2ncia crucial em diversos territ\u00f3rios da espiritualidade nacional: como atividade social contestat\u00f3ria, pois trazia consigo os desejos de progresso (o moderno norte-americano em oposi\u00e7\u00e3o ao atrasado espanhol, a metr\u00f3pole colonial), e como manifesta\u00e7\u00e3o de unidade nacional, pois muito rapidamente era praticado em toda a ilha.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m foi ve\u00edculo para a aproxima\u00e7\u00e3o entre as classes sociais e grupos \u00e9tnicos (pois os negros e camponeses logo tamb\u00e9m se apaixonaram pelo jogo); e como espet\u00e1culo, no qual conflu\u00edam o esportivo e o cultural, gra\u00e7as \u00e0 anima\u00e7\u00e3o por parte de orquestras de dan\u00e7as (o baile nacional cubano), os desenhos de seus uniformes, bandeirinhas e elementos gr\u00e1ficos de cunho modernista, e toda a literatura art\u00edstica e jornal\u00edstica que se concretizou na exist\u00eancia de uma longa dezena de publica\u00e7\u00f5es dedicadas a promov\u00ea-lo e coment\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Para os cubanos, o beisebol \u00e9 o esporte mais praticado, mais amado, o que mais mitos criou e o que mais peso social carrega. \u00c9 um s\u00edmbolo e, em conson\u00e2ncia com essa qualidade, sempre teve um papel mais que esportivo nas rela\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticas do pa\u00eds.<\/p>\n<p>O beisebol, para Cuba ou para os Estados Unidos, \u00e9 o que o futebol representa para Espanha, It\u00e1lia, Brasil&#8230;<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos o beisebol tamb\u00e9m tem sido (como n\u00e3o poderia deixar de ser) um campo de batalha no qual se desdobraram alguns dos mais \u00e1lgidos conflitos pol\u00edticos, sociais e econ\u00f4micos que hoje atravessam a sociedade cubana.<\/p>\n<p>O fato de v\u00e1rias dezenas de jogadores cubanos, assumindo o risco de a ret\u00f3rica oficial os qualificar de \u201cdesertores\u201d ou \u201ctraidores\u201d, terem decidido deixar de jogar na ilha para tentar a fortuna no exterior (especialmente no sistema das Grandes Ligas norte-americanas, o mais competitivo e economicamente poderoso), provocou dram\u00e1ticas como\u00e7\u00f5es na sociedade e no esporte cubanos, aferrados aos modelos e \u00e0s pol\u00edticas do amadorismo patenteado nos pa\u00edses socialistas.<\/p>\n<p>O fato de estes jogadores sa\u00edrem do pa\u00eds tem tr\u00eas consequ\u00eancias fundamentais.<\/p>\n<p>Uma esportiva: a sangria sofrida pelas equipes regionais e nacionais, pois a um \u201cdesertor\u201d \u00e9 proibido imediatamente a possibilidade de voltar a representar seu clube ou o pa\u00eds em qualquer evento oficial.<\/p>\n<p>Outra econ\u00f4mica: enquanto os que permanecem na ilha ganham sal\u00e1rio de \u201camador\u201d, os que navegam com sorte no exterior podem chegar a assinar contratos de v\u00e1rios (muitos) milh\u00f5es de d\u00f3lares, e os que navegam com pouca sorte, pelo menos de v\u00e1rias centenas de milhares anuais.<\/p>\n<p>E uma pol\u00edtica: o governo cubano, sem modificar no essencial sua pol\u00edtica para o esporte, come\u00e7ando a permitir a contrata\u00e7\u00e3o de jogadores de beisebol em campeonatos profissionais estrangeiros (mas n\u00e3o nos das Grandes Ligas)&#8230;<\/p>\n<p>A tensa rela\u00e7\u00e3o que o peso da pol\u00edtica deposita sobre o beisebol permite a esta pr\u00e1tica esportiva expressar de maneira quantitativa a dist\u00e2ncia existente entre os cubanos que vivem na ilha e os que partiram em busca de outras possibilidades.<\/p>\n<p>Mas seu enorme peso espec\u00edfico na espiritualidade e sociedade cubanas converte este esporte, junto com as manifesta\u00e7\u00f5es culturais, em uma das facetas da vida em que qualquer solu\u00e7\u00e3o de aproxima\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o pode ganhar conota\u00e7\u00f5es especiais, capazes de incidir em todas as ordens, inclusive a pol\u00edtica. Porque, j\u00e1 disse isso, para os cubanos o beisebol \u00e9 muito mais que um jogo.<\/p>\n<p>Recentemente, um empres\u00e1rio cubano radicado em Miami teve a ousada ideia de realizar no Estado da Fl\u00f3rida duas ou tr\u00eas partidas de beisebol entre jogadores aposentados do clube mais emblem\u00e1tico de Cuba nos \u00faltimos 50 anos, o Industriales de La Habana.<\/p>\n<p>O ponto principal da ideia estava no fato de que se enfrentassem do outro lado do estreito e que os protagonistas do ato fossem ex-esportistas tanto radicados na ilha quando fora dela, ou seja, os at\u00e9 agora chamados desertores.<\/p>\n<p>O primeiro passo do processo seria obter aprova\u00e7\u00e3o das autoridades cubanas para que esses jogadores participassem dos desafios contra seus ex-companheiros e, sem que houvesse nenhum tipo de afirma\u00e7\u00e3o oficial, soube-se que a permiss\u00e3o foi concedida, como n\u00e3o poderia deixar de ocorrer segundo a letra das novas leis migrat\u00f3rias aprovadas no come\u00e7o de 2013. Mas, tudo em sil\u00eancio, como se n\u00e3o estivesse acontecendo.<\/p>\n<p>O segundo passo seria do outro lado do estreito. Os cubanos do ex\u00edlio aceitariam a presen\u00e7a dos cubanos de Cuba na realiza\u00e7\u00e3o de um ato p\u00fablico e, possivelmente, com grande multid\u00e3o?<\/p>\n<p>Desde o princ\u00edpio os ex-jogadores radicados fora do pa\u00eds mostraram sua disposi\u00e7\u00e3o em participar desses encontros com seus colegas da ilha, para alegria da maioria dos exilados cubanos, desejosos de voltarem a ver seus velhos \u00eddolos.<\/p>\n<p>Mas um setor minorit\u00e1rio, embora potente desse ex\u00edlio, se op\u00f4s ao projeto, e entre suas raz\u00f5es diziam que dois dos ex-jogadores convidados haviam agredido, h\u00e1 cerca de 25 anos, um cubano radicado em Miami que invadira o campo de jogo, no Canad\u00e1, carregando um cartaz de cunho pol\u00edtico&#8230;<\/p>\n<p>A partir deste incidente, come\u00e7ou o calv\u00e1rio que os promotores desta atividade (de enorme contexto social e humano) tiveram que atravessar, al\u00e9m de receberem amea\u00e7as de todo tipo, e tiveram que vagar pela cidade de Miami buscando um campo para receber as partidas planejadas. Mas o promotor garante que acontecer\u00e3o, \u201cainda que seja em um canavial\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o ter capacidade para ver o que social e politicamente significa para Cuba e seu futuro que os jogadores emigrados e os que permaneceram no pa\u00eds se confraternizem em um campo de beisebol \u00e9 uma atitude de uma enorme cegueira. Mas, creio, constitui, antes de tudo, a express\u00e3o de uma fratura da alma nacional cubana t\u00e3o profunda, t\u00e3o carregada de ressentimento, que nem mesmo por meio de algo t\u00e3o sagrado como o beisebol ser\u00e1 f\u00e1cil remediar.<\/p>\n<p>Muitos anos de enquistamento, \u00f3dios, necessidade de revanche, insultos e vexames (os de l\u00e1 vermes, ap\u00e1tridas, traidores; os de c\u00e1 comunistas, repressores, c\u00famplices do castrismo, etc.), foram se acumulando e ainda turvam o presente e o futuro das diversas partes em que se partiu o cora\u00e7\u00e3o desta ilha do Caribe. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p><i>* <b>Leonardo Padura<\/b> \u00e9 escritor e jornalista cubano, ganhador do Pr\u00eamio Nacional de Literatura 2012. Suas novelas foram traduzidas para mais de 15 idiomas e sua obra mais recente, <\/i>El Hombre Que Amaba a Los Perros<i>, tem como personagens centrais Leon Trotski e seu assassino, Ram\u00f3n Mercader.<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Havana, Cuba, agosto\/2013 &ndash; Para os cubanos, o beisebol n&atilde;o &eacute; um esporte e muito menos um jogo: &eacute; quase uma religi&atilde;o, algo definitivamente muito s&eacute;rio. 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