{"id":16438,"date":"2013-08-27T14:07:43","date_gmt":"2013-08-27T14:07:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=16438"},"modified":"2013-08-27T14:07:43","modified_gmt":"2013-08-27T14:07:43","slug":"no-quenia-ser-pequeno-e-ficar-vulneravel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/08\/africa\/no-quenia-ser-pequeno-e-ficar-vulneravel\/","title":{"rendered":"No Qu\u00e9nia, Ser Pequeno \u00e9 Ficar Vulner\u00e1vel"},"content":{"rendered":"<p>NAIROBI , 27 de agosto de 2013 \u2013 Com a seguran\u00e7a alimentar e os meios de subsist\u00eancia dos agricultores em risco devido \u00e0s altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, o Qu\u00e9nia tem op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas divergentes. Uma dessas op\u00e7\u00f5es est\u00e1 dependente da utiliza\u00e7\u00e3o de novas tecnologias e da melhoria e expans\u00e3o de fertilizantes e pesticidas, enquanto que a outra op\u00e7\u00e3o est\u00e1 virada para os conhecimentos locais e a biodiversidade natural do pa\u00eds.<\/p>\n<p><!--more-->Em jogo est\u00e1 a sobreviv\u00eancia dos pequenos agricultores do pa\u00eds perante condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas sem precedentes.<\/p>\n<p>Segundo o Minist\u00e9rio da Agricultura, estima-se que cinco milh\u00f5es dos cerca de oito milh\u00f5es de agregados familiares no Qu\u00e9nia dependem directamente da agricultura para seu sustento. Mas os agricultores quenianos \u2013 particularmente os pequenos agricultores \u2013 enfrentam tempos dif\u00edceis devido \u00e0s condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas extremas.<\/p>\n<p>Os dados relativos \u00e0 \u00faltima \u00e9poca vegetativa continuam a tend\u00eancia preocupante recente segundo a qual as principais fontes de \u00e1gua do pa\u00eds produzem menos agora do que no passado.<\/p>\n<p>\u201cMuitos dos rios e riachos alimentados no Monte Qu\u00e9nia, Complexo Mau, Aberdares, Colinas Cherangani e Monte Elgon produzem agora menos \u00e1gua, ou ent\u00e3o ficam completamente secos durante a esta\u00e7\u00e3o seca,\u201d afirmou \u00e0 IPS Joshua Kosgei, um funcion\u00e1rio de extens\u00e3o agr\u00edcola em Elburgon, na prov\u00edncia do Vale do Rift.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio nacional sobre o Qu\u00e9nia compilado pela Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Alimenta\u00e7\u00e3o e Agricultura (FAO) relativo ao per\u00edodo 2012\/2013 indica que a precipita\u00e7\u00e3o entre Outubro e Dezembro, ou esta\u00e7\u00e3o das \u201cpequenas chuvas\u201d, esteve muito abaixo da m\u00e9dia. Al\u00e9m disso, explica o relat\u00f3rio: \u201cUma s\u00e9rie de per\u00edodos secos tamb\u00e9m causou uma fraca capacidade germinativa, aumentando as necessidades de replanta\u00e7\u00e3o (at\u00e9 tr\u00eas vezes mais) e levando \u00e0 murchid\u00e3o e secagem das colheitas.\u201d<\/p>\n<p>De acordo com o Instituto de Investiga\u00e7\u00e3o Agr\u00edcola do Qu\u00e9nia (KARI), mais de 10 milh\u00f5es de um total de 40 milh\u00f5es de pessoas no Qu\u00e9nia vivem em situa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a alimentar, e a maioria destas pessoas sobrevive da ajuda alimentar.<\/p>\n<p>O sector agr\u00edcola \u00e9 respons\u00e1vel por cerca de 25 por cento do PIB deste pa\u00eds da \u00c1frica Oriental e por pelo menos 60 por cento das suas exporta\u00e7\u00f5es. As estat\u00edsticas governamentais indicam ainda que a produ\u00e7\u00e3o em pequena escala representa pelo menos 75 por cento da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola total e 70 por cento dos produtos agr\u00edcolas vendidos no mercado.<\/p>\n<p>O ch\u00e1, uma das principais exporta\u00e7\u00f5es do pa\u00eds e que, segundo o Gabinete Nacional de Estat\u00edsticas do Qu\u00e9nia, est\u00e1 avaliado em 1.17 bili\u00f5es de d\u00f3lares, encontra-se entre as colheitas em maior risco. Os especialistas calculam que as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas possam custar aos produtores de ch\u00e1 mais de 30 por cento das receitas de caixa.<\/p>\n<p>\u201cO ch\u00e1 \u00e9 muito sens\u00edvel \u00e0s altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas,\u201d afirmou Kiama Njoroge, um funcion\u00e1rio de extens\u00e3o agr\u00edcola no centro do Qu\u00e9nia, \u00e0 IPS. \u201cEm resultado, 500.000 pequenos agricultores enfrentam incertezas quanto \u00e0 sua subsist\u00eancia.\u201d<\/p>\n<p>Joel Nduati, um pequeno agricultor do centro do Qu\u00e9nia, acrescentou: \u201cA falta de informa\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a interven\u00e7\u00f5es que consigam fazer face \u00e0s altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas s\u00e3o o nosso problema principal.\u201d<\/p>\n<p>Nduati disse \u00e0 IPS que um outro problema que os agricultores tinham de enfrentar era a escassez de \u00e1gua. \u201cH\u00e1 demasiada \u00e1gua quando n\u00e3o precisamos dela e depois esta\u00e7\u00f5es prolongadas com per\u00edodos de seca. Precisamos de uma variedade de culturas que resistam a estas mudan\u00e7as.\u201d<\/p>\n<p>Contudo, de acordo com Kosgei, j\u00e1 foram desenvolvidas interven\u00e7\u00f5es destinadas a combater as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas. O que falta \u00e9 uma maneira eficaz de comunicar essa informa\u00e7\u00e3o aos agricultores.<\/p>\n<p>\u201cPor exemplo, a Funda\u00e7\u00e3o do Qu\u00e9nia para a Pesquisa do Ch\u00e1 desenvolveu 45 variedades de ch\u00e1 mas muitos agricultores ainda n\u00e3o as adoptaram porque n\u00e3o sabem que elas existem,\u201d declarou Kosgei.<\/p>\n<p>Acrescentou que o Instituto de Investiga\u00e7\u00e3o Agr\u00edcola do Qu\u00e9nia desenvolveu cinco novas variedades de batatas e diversas variedades de couves. \u201cMas quantos agricultores sabem disto ou adoptaram estas novas variedades?\u201d<\/p>\n<p>A divulga\u00e7\u00e3o deste tipo de informa\u00e7\u00e3o \u00e9 dificultada pela escassez de funcion\u00e1rios de extens\u00e3o agr\u00edcola. Segundo a Associa\u00e7\u00e3o Internacional para a Agricultura e Desenvolvimento Rural, embora a FAO recomende que deve haver um funcion\u00e1rio de extens\u00e3o agr\u00edcola para cada 400 agricultores, actualmente o Qu\u00e9nia apenas tem um funcion\u00e1rio de extens\u00e3o agr\u00edcola para cada 1.500 agricultores.<\/p>\n<p>De acordo com Njoroge, funcion\u00e1rio de extens\u00e3o agr\u00edcola, os pequenos agricultores no Qu\u00e9nia s\u00f3 produzem um quinto daquilo que podiam produzir.<\/p>\n<p>Mas nem todas as pessoas concordam com as afirma\u00e7\u00f5es de Kosgei.<\/p>\n<p>\u201cA solu\u00e7\u00e3o \u00e9 regressarmos aos conhecimentos locais que promovem um movimento de base agro-ecol\u00f3gico alargado, uma abordagem que aproxima estrat\u00e9gias agr\u00edcolas que n\u00e3o recorrem a qu\u00edmicos,\u201d afirmou \u00e0 IPS Gathuru Mburu, coordenador da Rede de Biodiversidade Africana.<\/p>\n<p>\u201cOs agricultores produzem de forma inadequada devido ao uso excessivo de qu\u00edmicos. A agro-ecologia usa estrume. Os restos das colheitas anteriores podem tamb\u00e9m ser utilizados como estrume,\u201d explicou Mburu.<\/p>\n<p>Njoroge concordou, afirmando que pa\u00edses como o Ruanda, a Eti\u00f3pia e o Gana est\u00e3o a alcan\u00e7ar progressos significativos no sentido de melhorar a seguran\u00e7a alimentar e os meios de vida devido \u00e0 utiliza\u00e7\u00e3o dos conhecimentos locais.<\/p>\n<p>Mas a op\u00e7\u00e3o agro-ecol\u00f3gica \u00e9 vista por alguns como virar as pr\u00f3prias costas \u00e0s novas tecnologias que t\u00eam enorme potencial.<\/p>\n<p>\u201cCriminalizar os qu\u00edmicos n\u00e3o \u00e9 solu\u00e7\u00e3o. Os agricultores t\u00eam de adoptar as inova\u00e7\u00f5es cient\u00edficas,\u201d disse \u00e0 IPS John Kamangu, investigador de biodiversidade. \u201cPrecisamos de modifica\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas que nos permitam produzir sementes resistentes a temperaturas mais elevadas e \u00e0 precipita\u00e7\u00e3o mais intensa.\u201d<\/p>\n<p>Mas Mburu \u00e9 contra a depend\u00eancia das grandes multinacionais do sector agro-industrial para delinear as estrat\u00e9gias de combate \u00e0s altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, avisando que essa postura n\u00e3o tinha sido proveitosa em \u00c1frica.<\/p>\n<p>\u201cOs governos africanos est\u00e3o a abdicar da sua responsabilidade financeira para com o sector agr\u00edcola, criando margem de manobra para que as multinacionais proporcionem financiamento ao mesmo tempo que exploram \u00c1frica,\u201d lamentou.<\/p>\n<p>\u201cEstas s\u00e3o as companhias que desenvolvem e vendem qu\u00edmicos. As suas sementes t\u00eam tend\u00eancia para precisar de muitos qu\u00edmicos para se desenvolver. Tamb\u00e9m crescem s\u00f3 em \u00e1reas espec\u00edficas,\u201d acrescentou Mburu.<\/p>\n<p>Kosgei concordou, afirmando que estas multinacionais apenas se preocupam com as margens de lucro e n\u00e3o com a alimenta\u00e7\u00e3o dos africanos.<\/p>\n<p>Mburu est\u00e1 preocupado tamb\u00e9m com o facto de,que ao abrir caminho para as multinacionais, o governo adopte pol\u00edticas que ir\u00e3o prejudicar os pequenos agricultores que ainda produzem pelo menos 70 por cento dos alimentos no pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u201cAs multinacionais est\u00e3o por detr\u00e1s de diversas pol\u00edticas que criminalizam o sector informal, ou seja, os pequenos agricultores. Algumas das pol\u00edticas que est\u00e3 a ser consideradas s\u00e3o a lei das sementes e a lei contra a contrafac\u00e7\u00e3o,\u201d explicou Mburu. \u201cA lei contra a contrafac\u00e7\u00e3o est\u00e1 a exercer press\u00e3o a favor das sementes certificadas. Os quenianos que utilizam sementes locais (n\u00e3o certificadas) deixar\u00e3 de poder utiliz\u00e1-las quando esta lei entrar em vigor.\u201d<\/p>\n<p>Mburu declarou que estas sementes \u201cnada t\u00eam a ver com as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas. Estas sementes s\u00e3o controladas por seis companhias no mundo e representam um investimento de v\u00e1rios bili\u00f5es de d\u00f3lares. N\u00e3o s\u00e3o apropriadas ao nosso ecossistema quando comparadas \u00e0s sementes aut\u00f3ctones.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>NAIROBI , 27 de agosto de 2013 \u2013 Com a seguran\u00e7a alimentar e os meios de subsist\u00eancia dos agricultores em risco devido \u00e0s altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, o Qu\u00e9nia tem op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas divergentes. 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