{"id":16445,"date":"2013-08-27T14:33:19","date_gmt":"2013-08-27T14:33:19","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=97031"},"modified":"2013-08-27T14:33:19","modified_gmt":"2013-08-27T14:33:19","slug":"todos-perdem-na-guerra-pelas-hidreletricas-amazonicas-parte-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/08\/ultimas-noticias\/todos-perdem-na-guerra-pelas-hidreletricas-amazonicas-parte-1\/","title":{"rendered":"Todos perdem na guerra pelas hidrel\u00e9tricas amaz\u00f4nicas \u2013 Parte 1"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_97032\" class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"width: 539px\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/PedroBara.jpg\"><img class=\" wp-image-97032 \" alt=\"PedroBara Todos perdem na guerra pelas hidrel\u00e9tricas amaz\u00f4nicas \u2013 Parte 1\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/PedroBara.jpg\" width=\"529\" height=\"318\" title=\"Todos perdem na guerra pelas hidrel\u00e9tricas amaz\u00f4nicas \u2013 Parte 1\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Pedro Bara explica a ind\u00edgenas e ativistas a ferramenta desenvolvida pelo WWF para orientar negocia\u00e7\u00f5es diante do avan\u00e7o de hidrel\u00e9tricas e outros grandes projetos na Amaz\u00f4nia. Foto: Cortesia Denise Oliveira\/WWF Iniciativa Amaz\u00f4nia Viva<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>S\u00e3o Paulo, Brasil, 27\/8\/2013 \u2013\u00a0Os grandes projetos amaz\u00f4nicos repercutem hoje mais pelos seus conflitos que pelo desenvolvimento que podem propiciar. Na guerra pelas grandes usinas hidrel\u00e9tricas perdem todos, inclusive os vencedores, que conseguem constru\u00ed-las mas com atrasos, custos est\u00e9reis e a imagem abalada.<\/p>\n<p>\u201cA polariza\u00e7\u00e3o empobrece o debate\u201d sobre o aproveitamento e a conserva\u00e7\u00e3o dos recursos naturais, lamenta Pedro Bara Neto, l\u00edder de Estrat\u00e9gia da Infraestrutura, na Iniciativa Amaz\u00f4nia Viva do Fundo Mundial para a Natureza (WWF).<\/p>\n<p>O WWF se destaca no meio ambientalista por buscar sa\u00eddas negociadas para a disputa entre a l\u00f3gica econ\u00f4mica e a natureza. No caso das hidrel\u00e9tricas, prop\u00f5e um di\u00e1logo para resolver confrontos entre os empreendedores, a\u00ed inclu\u00eddo o governo, e uma variada oposi\u00e7\u00e3o de atingidos, movimentos sociais, ind\u00edgenas e ambientalistas.<\/p>\n<p>O objetivo seria tra\u00e7ar uma estrat\u00e9gia para a Amaz\u00f4nia, ou pelo menos para bacias inteiras, superando a abordagem projeto a projeto, sem par\u00e2metros validados. Para isso o bra\u00e7o brasileiro do WWF desenvolveu uma ferramenta baseada em pesquisas cient\u00edficas que permite ter uma ideia do que \u00e9 necess\u00e1rio preservar de \u00e1guas e biodiversidade para manter vivo o sistema amaz\u00f4nico.<\/p>\n<p>Bara explicou \u00e0 IPS como se elaborou essa plataforma e as propostas da sua organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><b>IPS: Como proteger a natureza amaz\u00f4nica ante o avan\u00e7o das hidrel\u00e9tricas, do gado, soja, madeireiras, minera\u00e7\u00e3o, estradas?<\/b><\/p>\n<p><b>PEDRO BARA: <\/b>N\u00f3s fizemos essa pergunta h\u00e1 seis anos. Resolvemos nos perguntar: o que precisamos conservar da Amaz\u00f4nia l\u00e1 na frente? N\u00e3o \u00e9 100% do remanescente de hoje, mas tamb\u00e9m n\u00e3o pode ser tudo para o desenvolvimento. Se conhec\u00eassemos toda a biodiversidade, seria f\u00e1cil definir \u00e1reas priorit\u00e1rias a conservar. Mas a informa\u00e7\u00e3o sobre biodiversidade amaz\u00f4nica n\u00e3o oferece dados suficientes para isso. Quando muito, acho que conhecemos uns 40%, no geral. Fomos obrigados a inferir a biodiversidade por meio da heterogeneidade do ambiente. Ambientes diferentes v\u00e3o ter esp\u00e9cies diferentes. Faz-se uma aproxima\u00e7\u00e3o. Fizemos v\u00e1rios testes em Madre de Dios (regi\u00e3o do sudeste do Peru), sobre como planejar a conserva\u00e7\u00e3o da \u00e1gua em \u00e1reas pobres de dados. Conclu\u00edmos que cruzando declividade com escoamento superficial e vaz\u00e3o, com vegeta\u00e7\u00e3o e origem da \u00e1gua, consegue-se uma boa explica\u00e7\u00e3o da heterogeneidade aqu\u00e1tica e classifica\u00e7\u00e3o dos rios por segmentos. Expandimos esse modelo para a Amaz\u00f4nia inteira.<\/p>\n<p><b>IPS: Escolheram Madre de Dios porque sua ecologia \u00e9 representativa da Amaz\u00f4nia?<\/b><\/p>\n<p><b>PB: <\/b>N\u00e3o, usamos Madre de Dios como piloto porque tem caracter\u00edsticas bastante diversas. Se fosse homog\u00eanea n\u00e3o serviria. T\u00ednhamos que trabalhar com bastante diversidade de ambientes, para testar v\u00e1rios modelos e escolher o melhor para aplicar na Amaz\u00f4nia toda, onde identificamos 299 classes de ecossistemas aqu\u00e1ticos. Ao mesmo tempo a The Nature Conservancy e a NatureServe (organiza\u00e7\u00f5es criadas por cientistas norte-americanos) desenvolveram um modelo de heterogeneidade terrestre baseado em relevo, tipo de solo, cobertura vegetal e clima. Identificaram 423 ecossistemas terrestres na Amaz\u00f4nia. Conclus\u00e3o: a Amaz\u00f4nia \u00e9 mais diversa sob o ponto de vista terrestre que do aqu\u00e1tico. \u00c9 tamb\u00e9m uma aproxima\u00e7\u00e3o porque h\u00e1 esp\u00e9cies animais que se movem muito. Mas com os dois modelos posso decidir o que conservar. Se posso conservar uma amostra representativa, funcional, resiliente, das 299 classes aqu\u00e1ticas e 423 terrestres, teoricamente conservo a heterogeneidade e a biodiversidade amaz\u00f4nicas.<\/p>\n<p><b>IPS: Mas como escolher \u00e1reas priorit\u00e1rias para a conserva\u00e7\u00e3o? <\/b><\/p>\n<p><b>PB: <\/b>Pela melhor rela\u00e7\u00e3o custo-benef\u00edcio, minimizando a \u00e1rea, numa decis\u00e3o puramente econ\u00f4mica. Se consigo conservar uma amostra com menor custo e maior beneficio.<\/p>\n<p><b>IPS: Como se mede o custo e o benef\u00edcio?<\/b><\/p>\n<p><b>PB: <\/b>Beneficio \u00e9 a oportunidade, s\u00e3o por exemplo as \u00e1reas protegidas e terras ind\u00edgenas, onde \u00e9 menor o custo de conservar. Custo s\u00e3o as amea\u00e7as. Desmatamento, avan\u00e7o de fronteiras agr\u00edcolas e da pecu\u00e1ria s\u00e3o custos terrestres. O modelo elege dentro da mesma classe de ecossistema a \u00e1rea mais distante dessas amea\u00e7as que aumentam os custos da conserva\u00e7\u00e3o. Trata-se de um software montador de quebra-cabe\u00e7as de milhares de\u00a0 microbacias, cada uma com seus atributos, como pertencer a esta ou aquela classe aqu\u00e1tica ou terrestre, a proximidade de estradas, o seu grau de degrada\u00e7\u00e3o atual. Foge do vermelho, onde o custo \u00e9 alto, e escolhe a amostra de ecossistema em \u00e1rea protegida. Fez milhares de intera\u00e7\u00f5es para apontar a melhor solu\u00e7\u00e3o. N\u00e3o inventamos nada, usamos metodologias de trabalhos cient\u00edficos. A Ag\u00eancia Nacional de \u00c1guas (ANA) fez um trabalho parecido, o \u201cPlano estrat\u00e9gico dos rios da margem direita do Amazonas\u201d, o que nos deu seguran\u00e7a. Mas h\u00e1 casos em que n\u00e3o tenho op\u00e7\u00f5es. A classe 214 aqu\u00e1tica, por exemplo, s\u00f3 ocorre num lugar. Se atingida, estar\u00e1 definitivamente perdida. \u00c9 a \u201cinsubstituibilidade\u201d. H\u00e1 muitas \u00e1reas insubstitu\u00edveis.<\/p>\n<p><b>IPS: Ent\u00e3o o que voc\u00eas prop\u00f5em conservar?<\/b><\/p>\n<p><b>PB: <\/b>Estabelecemos uma meta, conservar 30% de cada classe de ecossistema. Mas \u00e9 s\u00f3 um exerc\u00edcio, a decis\u00e3o depende de quem est\u00e1 na mesa discutindo os par\u00e2metros. Trinta por cento dos ecossistemas aqu\u00e1ticos mais 30% dos terrestres teoricamente somam 60%, mas como h\u00e1 um pouco de superposi\u00e7\u00e3o, cai para uns 55%. \u00c9 razo\u00e1vel, porque hoje j\u00e1 temos 40% definidos em unidades de conserva\u00e7\u00e3o e terras ind\u00edgenas. \u00c9 um n\u00famero arbitr\u00e1rio, mas com valor t\u00e9cnico.<\/p>\n<p><b>IPS: Um \u00edndice para balizar a negocia\u00e7\u00e3o?<\/b><\/p>\n<p><b>PB: <\/b>Come\u00e7a por a\u00ed, chegamos \u00e0 defini\u00e7\u00e3o do que queremos, em resposta ao desafio das hidrel\u00e9tricas. Se concordamos que uma \u00e1rea deve ser conservada para o futuro, \u00e9 preciso que tenha uma liga\u00e7\u00e3o livre com o canal principal, o rio Amazonas, j\u00e1 que a bacia \u00e9 \u00fanica. A conserva\u00e7\u00e3o depende de conectividade h\u00eddrica. Se o setor el\u00e9trico quer represar todos os rios (de uma bacia), o futuro de uma Amaz\u00f4nia viva ser\u00e1 comprometido. Mas tudo \u00e9 negoci\u00e1vel, nossa ferramenta \u00e9 para propiciar o di\u00e1logo, n\u00e3o uma solu\u00e7\u00e3o pronta. \u00c9 uma plataforma de avalia\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica, para olhar o todo, contextualizar os projetos e decidir com melhores informa\u00e7\u00f5es. Algu\u00e9m pode introduzir amanh\u00e3 a quest\u00e3o dos s\u00edtios arqueol\u00f3gicos, dos quilombolas, de atributos especiais. \u00c9 um sistema aberto \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o da sociedade.<\/p>\n<p><b>IPS: Como reagiu o governo a essa proposta?<\/b><\/p>\n<p><b>PB: <\/b>Apresentamos nossa metodologia a muitos \u00f3rg\u00e3os do governo, estatais, bancos de desenvolvimento. O governo gostou. A receptividade \u00e9 sempre boa, at\u00e9 que se toca num interesse espec\u00edfico. Para n\u00f3s o ideal seria discutir a bacia amaz\u00f4nica inteira, mas n\u00e3o consegu\u00edamos organizar um f\u00f3rum. O caminho foi aberto por uma portaria interministerial de dezembro de 2010, que criou um grupo de trabalho para \u201canalisar aspectos ambientais e socioecon\u00f4micos\u201d visando \u201csubsidiar a sele\u00e7\u00e3o dos aproveitamentos hidroenerg\u00e9ticos\u201d. Era tudo o que quer\u00edamos. Por isso a Empresa de Pesquisa Energ\u00e9tica (EPE), do Minist\u00e9rio de Minas e Energia, quis conhecer nossa ferramenta, capacitamos gente dos minist\u00e9rios. Eles fizeram sua an\u00e1lise. Mas j\u00e1 se passaram dois anos. Assim, decidimos divulgar nossas propostas, antes que avancem mais os projetos para o rio Tapaj\u00f3s.<\/p>\n<p><b>IPS: E no setor privado, alguma rea\u00e7\u00e3o interessante?<\/b><\/p>\n<p><b>PB: <\/b>Dirigentes de um banco internacional elogiaram nossas ideias, dizendo que morrem de medo de entrar num projeto e por isso ter de encarar uma passeata na porta do banco.\u00a0 O Banco Nacional de Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Social (BNDES) n\u00e3o poder\u00e1 financiar tudo sozinho.<\/p>\n<p><b>IPS: Pode citar um caso em que a ferramenta teria apontado melhores alternativas?<\/b><\/p>\n<p><b>PB: <\/b>No rio Teles Pires (afluente do rio Tapaj\u00f3s), soube que se pensou em fazer uma s\u00f3 usina, maior que a atual, a Teles Pires, sem duas outras em prepara\u00e7\u00e3o, S\u00e3o Manoel e Foz do Apiac\u00e1s. Poderia ter sido melhor, com mais pot\u00eancia e menos impacto cumulativo, al\u00e9m de um reservat\u00f3rio plurianual. O rio tem uma barreira natural e a quest\u00e3o da conectividade n\u00e3o se coloca de forma t\u00e3o aguda. H\u00e1 o mito de usinas menores impactarem menos, mas uma sucess\u00e3o delas fragmenta mais o ecossistema aqu\u00e1tico. (Envolverde\/IPS)<\/p>\n<p><em>* Editado em 29 de agosto de 2013.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; S&atilde;o Paulo, Brasil, 27\/8\/2013 &ndash;&nbsp;Os grandes projetos amaz&ocirc;nicos repercutem hoje mais pelos seus conflitos que pelo desenvolvimento que podem propiciar. 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