{"id":1651,"date":"2006-04-05T00:00:00","date_gmt":"2006-04-05T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=1651"},"modified":"2006-04-05T00:00:00","modified_gmt":"2006-04-05T00:00:00","slug":"trabalho-futebol-jogo-mais-limpo-na-oficina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/04\/mundo\/trabalho-futebol-jogo-mais-limpo-na-oficina\/","title":{"rendered":"Trabalho-Futebol: Jogo mais limpo na oficina"},"content":{"rendered":"<p>Berlim, 05\/04\/2006 &ndash; A proximidade da Copa do Mundo na Alemanha faz com que milh\u00f5es de torcedores acalmem sua ansiedade comprando camisetas, brinquedos e bolas. Mas, poucos sabem das condi\u00e7\u00f5es muitas vezes abusivas que enfrentam os trabalhadores que fabricam esses artigos. <!--more--> A enorme demanda de produtos relacionados ao maior torneio de futebol entre na\u00e7\u00f5es, que come\u00e7ar\u00e1 dia 9 de julho em Munique, uma das 12 sedes, implica que as oficinas dos pa\u00edses em desenvolvimento trabalhem a toque de caixa para cumprirem as obriga\u00e7\u00f5es impostas pelas grandes companhias, segundo dirigentes de uma organiza\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria. <\/p>\n<p>Pressionadas por esses pedidos, as multinacionais de artigos esportivos admitem que \u00e9 dif\u00edcil fazer com que sejam respeitadas as condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas de trabalho para pessoas humildes que confeccionam as bolas de futebol e outros artigos, a milhares de quil\u00f4metros dos majestosos est\u00e1dios alem\u00e3es. &quot;Muitas vezes, h\u00e1 f\u00e1bricas que n\u00e3o conseguem melhorar as condi\u00e7\u00f5es de trabalho, e nesses casos deixamos de trabalhar com elas&quot;, disse \u00e0 IPS Reiner Hengstmann, diretor-geral de Assuntos Sociais e de Meio Ambiente da empresa alem\u00e3 Puma. Grande parte de sua tarefa \u00e9 verificar a situa\u00e7\u00e3o das f\u00e1bricas que em todo mundo trabalham para a Puma.<\/p>\n<p>No ano passado, a companhia rescindiu contratos com 33 fornecedores, em grande parte devido aos baixos sal\u00e1rios que pagavam e ao tempo de trabalho adicional, mais de 60 horas semanais, que impunham aos seus empregados, afirmou Hengstmann. O nome da bola que ser\u00e1 usada no Mundial da Fifa \u00e9 &quot;Teamgeist&quot; (esp\u00edrito de grupo, em alem\u00e3o), fabricadas pela firma alem\u00e3 Adidas na Tail\u00e2ndia e que tem as pe\u00e7as coladas a quente.<\/p>\n<p>Mas no resto do mundo, a maioria das bolas de futebol \u00e9 costurada \u00e0 m\u00e3o. Cerca de 80% das bolas fabricadas pelas multinacionais t\u00eam origem em Sialkot, nordeste do Paquist\u00e3o, um centro-chave na exporta\u00e7\u00e3o de produtos esportivos, mas cujas condi\u00e7\u00f5es de trabalho s\u00e3o duras. Companhias, como Adidas, Puma e a norte-americana Nike apuraram a produ\u00e7\u00e3o das f\u00e1bricas de Sialkot diante do not\u00e1vel aumento das vendas devido \u00e0 febre do futebol que a Copa do Mundo desperta. <\/p>\n<p>No ano passado, a Adidas duplicou os centros de costura das bolas de futebol na regi\u00e3o, mas este r\u00e1pido crescimento gerou problemas no ambiente de trabalho. Descobriu-se que v\u00e1rios deles n\u00e3o cumpriam os requisitos m\u00ednimos e, por isso, fecharam. A preocupa\u00e7\u00e3o da Adidas pelas condi\u00e7\u00f5es de trabalho a levou a controlar mais rigidamente alguns temas-chave, com idade, sal\u00e1rio e seguran\u00e7a dos trabalhadores, informou a empresa em seu \u00faltimo relat\u00f3rio sobre as condi\u00e7\u00f5es sociais e de meio ambiente.<\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o em Sialkot de artigos relacionados ao futebol chegou \u00e0s manchetes da imprensa antes da Copa da Fran\u00e7a, em 1998, quando se descobriu que o trabalho infantil era uma pr\u00e1tica corrente, e freq\u00fcentemente as condi\u00e7\u00f5es de trabalho para eles e para os adultos eram atrozes. O esc\u00e2ndalo desencadeou uma mudan\u00e7a de t\u00e1tica por parte das multinacionais. Foi proibida a produ\u00e7\u00e3o a domic\u00edlio, por considerar-se que favorecia a multiplica\u00e7\u00e3o do trabalho infantil, e os trabalhadores foram levados para novas oficinas de costura. Esta mudan\u00e7a acabou com o trabalho infantil, mas piorou as condi\u00e7\u00f5es de muitas fam\u00edlias, segundo a organiza\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria alem\u00e3 Brot F\u00fcr die Welt.<\/p>\n<p>Por causa da cria\u00e7\u00e3o das oficinas de costura, as mulheres perderam uma importante renda, pois na cultura isl\u00e2mica do Paquist\u00e3o elas n\u00e3o podem trabalhar no mesmo local que os homens. Os sal\u00e1rios n\u00e3o foram alterados e muitas fam\u00edlias n\u00e3o puderam comprar produtos fundamentais. A maioria dos consumidores n\u00e3o considera o custo social que existe por tr\u00e1s de suas novas bolas de futebol. Em meio \u00e0 ansiedade gerada pelo Mundial, a organiza\u00e7\u00e3o alem\u00e3 por um com\u00e9rcio justo Gepa procura aumentar o conhecimento das pessoas sobre as condi\u00e7\u00f5es de trabalho nas quais esses produtos s\u00e3o fabricados.<\/p>\n<p>Sob o lema &quot;Fair Pay-Fair Play&quot; (Pagamento justo-Jogo limpo) esta organiza\u00e7\u00e3o tenta fazer com que os trabalhadores de Sialkot recebem uma contrapartida justa por seu trabalho. Costurar os gomos que formam as bolas de futebol demora cerca de uma hora e meia. A Gepa paga \u00e0 sua s\u00f3cia paquistanesa Talon Sports um pr\u00eamio entre US$ 0,40 e US$ 1 por bola, de acordo com qualidade, al\u00e9m do pre\u00e7o acertado para cada unidade. Esta organiza\u00e7\u00e3o diz que pagou ao seu s\u00f3cio US$ 260 mil em pr\u00eamios. As bolas de futebol &quot;limpas&quot; da Gepa s\u00e3o vendidas entre US$ 12 e US$ 68, incluindo as pequenas para crian\u00e7as e as profissionais que levam a marca da Fifa.<\/p>\n<p>Porta-vozes da Gepa indicam que esses pr\u00eamios permitiram aumentar os sal\u00e1rios. Al\u00e9m disso, esta organiza\u00e7\u00e3o alem\u00e3 concede pequenos empr\u00e9stimos para que os trabalhadores possam iniciar outros empreendimentos e, assim, n\u00e3o dependerem da produ\u00e7\u00e3o sazonal de bolas de futebol. Tamb\u00e9m implementou centros de sa\u00fade e escolas, incluindo educa\u00e7\u00e3o pr\u00e9-prim\u00e1ria para os filhos dos trabalhadores e centros de sa\u00fade gratuitos para eles e suas fam\u00edlias. Por sua vez, dirigentes da Talon Sports afirmam que o plano \u00e9 um ant\u00eddoto para os consumidores que buscam pre\u00e7os baixos.<\/p>\n<p>&quot;Na Europa, as pessoas procuram comprar as bolas de futebol pelo menor pre\u00e7o poss\u00edvel, repercutindo nos lucros&quot;, disse Ammar Faisal al-Assad, administrador da Talon Sports em entrevista \u00e0 imprensa. &quot;Gra\u00e7as ao com\u00e9rcio justo, muita gente se conscientizou das pessoas que est\u00e3o por tr\u00e1s das bolas&quot;, acrescentou. As vendas disparam antes da Copa do mundo, porque as bolas &quot;limpas&quot; representam uma pequena porcentagem em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s que s\u00e3o usadas nos est\u00e1dios e nas casas de todo o mundo. <\/p>\n<p>Os pequenos empreendimentos s\u00e3o um problema porque freq\u00fcentemente exploram seus trabalhadores para manter os pre\u00e7os baixos, disse B\u00e1rbara Schimmelpfennig, da Gepa. &quot;A zona cinza est\u00e1 ocupada pelas bolas baratas sem marca e fabricadas sem os controles normais das grandes f\u00e1bricas&quot;, disse \u00e0 IPS. &quot;Estes centros s\u00e3o abertos antes dos acontecimentos importantes como a Copa do Mundo e desaparecem logo depois&quot;, acrescentou. Nos \u00faltimos anos, algumas multinacionais tomaram medidas para limpar suas linhas de produ\u00e7\u00e3o de roupa e bolas de futebol. Seus departamentos ambientais e sociais publicam extensos relat\u00f3rios anuais sobre seus avan\u00e7os. Isto atende \u00e0s exigentes campanhas dos consumidores e defensores dos direitos humanos durante a \u00faltima d\u00e9cada.<\/p>\n<p>&quot;As organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o-governamentais t\u00eam impulsionado esta tem\u00e1tica&quot; e denunciado os problemas existentes como os fornecedores, disse \u00e0 IPS a porta-voz da Adidas, Anne Putz. No in\u00edcio do ano, a Puma deu um passo importante ao vincular-se a ongs, convertendo-se na primeira grife de roupa esportiva a forjar alian\u00e7as deste tipo. Tamb\u00e9m anunciou que o grupo de press\u00e3o Campanha por Roupa Limpa (CCC, sigla em ingl\u00eas) controlar\u00e1 as condi\u00e7\u00f5es de trabalho nas instala\u00e7\u00f5es dos fornecedores em El Salvador durante um ano. Apesar de a CCC e a Puma darem as boas-vindas a esta iniciativa, o bra\u00e7o alem\u00e3o deste grupo pediu cautela.<\/p>\n<p>A cont\u00ednua busca por pre\u00e7os mais baixos e menor prazo de entrega por parte das companhias repercute negativamente nas condi\u00e7\u00f5es de trabalho, afirmou \u00e0 IPS Maik Pflaum, da CCC. Isto significa que a tarefa de manter as condi\u00e7\u00f5es de trabalho de acordo com as normas \u00e9 tit\u00e2nica. &quot;O problema \u00e9 a dist\u00e2ncia que existe entre o que est\u00e1 no papel e o que acontece na pr\u00e1tica&quot;, disse Pflaum. &quot;As grandes firmas agora produzem relat\u00f3rios ambientais e sociais, mas ainda h\u00e1 muito trabalho pela frente com rela\u00e7\u00e3o ao mercado europeu&quot;, advertiu. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Berlim, 05\/04\/2006 &ndash; A proximidade da Copa do Mundo na Alemanha faz com que milh\u00f5es de torcedores acalmem sua ansiedade comprando camisetas, brinquedos e bolas. 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