{"id":16513,"date":"2013-09-11T12:39:30","date_gmt":"2013-09-11T12:39:30","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=98010"},"modified":"2013-09-25T17:33:54","modified_gmt":"2013-09-25T17:33:54","slug":"trabalhadores-egipcios-a-pedra-no-sapato-do-poder","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/09\/ultimas-noticias\/trabalhadores-egipcios-a-pedra-no-sapato-do-poder\/","title":{"rendered":"Trabalhadores eg\u00edpcios, a pedra no sapato do poder"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_98011\" class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"width: 539px\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/Trabajadoresegipcios_CamMcGrath_IPS.jpg\"><img class=\" wp-image-98011 \" alt=\"Trabajadoresegipcios CamMcGrath IPS Trabalhadores eg\u00edpcios, a pedra no sapato do poder\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/Trabajadoresegipcios_CamMcGrath_IPS.jpg\" width=\"529\" height=\"366\" title=\"Trabalhadores eg\u00edpcios, a pedra no sapato do poder\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Os governos que sucederam o regime de Mubarak mantiveram as mesmas restri\u00e7\u00f5es aos direitos dos trabalhadores. Foto: Cam McGrath\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Cairo, Egito, 11\/9\/2013 \u2013 Foram as duras restri\u00e7\u00f5es aos direitos trabalhistas impostas no Egito pelo regime de Hosni Mubarak (1981-2011) que transformaram Kareem el Beheiry, antes um oper\u00e1rio pouco comprometido, em um tenaz ativista pelos trabalhadores. Em abril de 2008, El Beheiry foi preso durante manifesta\u00e7\u00f5es em Mahalla el Kubra, cidade industrial cem quil\u00f4metros ao norte do Cairo. A mobiliza\u00e7\u00e3o era uma resposta \u00e0 repress\u00e3o governamental contra as reclama\u00e7\u00f5es dos trabalhadores por melhores sal\u00e1rios.<\/p>\n<p>O jovem oper\u00e1rio utilizava seu celular para fazer imagens dos enfrentamentos entre for\u00e7as de seguran\u00e7a e manifestantes, at\u00e9 ser detido. As autoridades acusaram El Beheiry de usar seu blog sobre direitos trabalhistas para instigar o levante de Mahalla el Kubra, que se originou na f\u00e1brica t\u00eaxtil onde ele trabalhava. Tr\u00eas pessoas morreram e centenas ficaram feridas em dois dias de dist\u00farbios que se estenderam para toda a cidade depois que as for\u00e7as de seguran\u00e7a entraram na f\u00e1brica para desalojar os milhares de grevistas.<\/p>\n<p>El Beheiry, agora com 28 anos, recorda os dois meses que passou na pris\u00e3o, onde as autoridades o maltrataram, o privaram de alimento e o torturaram com choques el\u00e9tricos. Mesmo depois de sua liberta\u00e7\u00e3o teve que travar uma batalha legal para recuperar seu emprego. O gerente da f\u00e1brica o demitira por n\u00e3o ter se apresentado para o trabalho enquanto estava detido.<\/p>\n<p>A justi\u00e7a decidiu a seu favor e, em 2009, foi transferido para o escrit\u00f3rio de uma companhia estatal no Cairo, de onde tr\u00eas meses depois foi demitido sob falsas acusa\u00e7\u00f5es. \u201cEu viajava todos os dias para o Cairo e assinava o ponto, mas a administra\u00e7\u00e3o destruiu meu registro de presen\u00e7a e disse que nunca me apresentei para trabalhar\u201d, contou. \u201cEu tinha uma ordem da justi\u00e7a para ser readmitido, mas o gerente da f\u00e1brica se negou a cumpri-la\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>O caso de El Beheiry mostra at\u00e9 que ponto o regime de Mubarak estava disposto a isolar e intimidar trabalhadores dissidentes. O Estado tolerava certo grau de oposi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, mas, quando se tratava de temas trabalhistas, qualquer a\u00e7\u00e3o que pudesse fortalecer a inten\u00e7\u00e3o dos trabalhadores de criar um movimento unido era rapidamente sufocada.<\/p>\n<p>O regime sempre usou a Federa\u00e7\u00e3o Eg\u00edpcia de Sindicatos, colossal organiza\u00e7\u00e3o apoiada pelo Estado com 24 grupos de trabalhadores filiados, para controlar os oper\u00e1rios. Quando se convocava greves, o regime as sufocava e reprimia com pol\u00edcia e capangas contratados. Se isso falhava, chamava o ex\u00e9rcito. \u201cMubarak s\u00f3 conhecia uma forma de tratar as disputas trabalhistas: a for\u00e7a\u201d, disse El Beheiry.<\/p>\n<p>O oper\u00e1rio, agora gerente de projetos de uma organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental que ajuda os trabalhadores a se sindicalizarem, afirma que a revolta de Mahalla el Kubra em 2008 mudou as regras do jogo com o regime de Mubarak. O movimento que emergiu das f\u00e1bricas dessa cidade despertou toda a classe trabalhadora do Egito, desatando uma onda de greves espont\u00e2neas. Estas, por sua vez, tiveram papel crucial no levante popular que derivou na queda de Mubarak em 2011.<\/p>\n<p>No entanto, as greves n\u00e3o terminaram com a queda de Mubarak. Continuaram e se propagaram durante os 18 meses seguintes, nos quais os militares assumiram o poder transitoriamente, e durante o ano seguinte, em que Mohammad Morsi, da Irmandade Mu\u00e7ulmana, governou. O Centro Eg\u00edpcio de Direitos Sociais registrou 1.400 a\u00e7\u00f5es coletivas de trabalhadores em 2011, e cerca de duas mil em 2012. Al\u00e9m disso, registrou 2.400 protestos nos tr\u00eas primeiros meses deste ano, que coincidiram com o per\u00edodo de governo de Morsi.<\/p>\n<p>Joel Beinin, professor de hist\u00f3ria do Oriente M\u00e9dio na norte-americana Universidade de Stanford, afirmou que, apesar das pequenas concess\u00f5es que fez para acabar com as greves, Morsi dependeu em grande parte do mesmo aparato para reprimir a dissens\u00e3o e n\u00e3o mostrou disposi\u00e7\u00e3o de atender as reclama\u00e7\u00f5es. Os l\u00edderes da Irmandade Mu\u00e7ulmana est\u00e3o \u201ct\u00e3o comprometidos com o fundamentalismo do livre mercado, promovido por institui\u00e7\u00f5es financeiras internacionais, como estava o regime de Mubarak\u201d, escreveu.<\/p>\n<p>\u201cQuando os trabalhadores seguiram fazendo greves e protestos, o governo de Morsi, como o de Mubarak, no geral ouviu suas demandas econ\u00f4micas, mas ignorou suas reclama\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e socavou sua autonomia organizativa\u201d, acrescentou Beinin. Muitas demandas n\u00e3o s\u00e3o novas. Nos \u00faltimos dias do regime de Mubarak, seu programa neoliberal agravou o desemprego, reduziu muitos benef\u00edcios sociais e ampliou a brecha entre ricos e pobres. As condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas continuaram se deteriorando depois da queda do regime.<\/p>\n<p>Os trabalhadores seguem reclamando melhores sal\u00e1rios, mais seguran\u00e7a no trabalho, pagamento de benef\u00edcios pendentes e um sal\u00e1rio m\u00ednimo digno. Tamb\u00e9m exigem que seja reconhecido seu direito de livre associa\u00e7\u00e3o, garantido por tratados internacionais dos quais o Egito \u00e9 signat\u00e1rio. Os trabalhadores eg\u00edpcios se organizam em milhares de sindicatos independentes desde o levante de 2011, mas sua legitimidade \u00e9 questionada por uma legisla\u00e7\u00e3o que data da era Mubarak e que s\u00f3 reconhece os que est\u00e3o filiados \u00e0 Federa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Adel Zakaria, editor da revista sobre temas trabalhistas <i>Kalam Sinaiyya<\/i>, afirmou que, em lugar de reformar ou dissolver essa organiza\u00e7\u00e3o controlada pelo Estado, o governo de Morsi \u201ctentou se associar a ela para controlar seus quatro milh\u00f5es de membros\u201d. Apesar de alguns sinais promissores, como a designa\u00e7\u00e3o de um veterano organizador de sindicatos como ministro do Trabalho, grupos de direitos humanos alertaram que o governo de Morsi j\u00e1 estava adotando a forma de seus antecessores.<\/p>\n<p>Morsi foi derrubado em julho por um golpe militar, mas a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o mudou para os trabalhadores. Em agosto, as for\u00e7as de seguran\u00e7a romperam uma greve de trabalhadores de moinhos que reclamavam sal\u00e1rios e benef\u00edcios n\u00e3o pagos. Dias depois, policiais puseram fim a um protesto em uma companhia de petr\u00f3leo, onde os trabalhadores pediam benef\u00edcios e melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho. L\u00edderes grevistas foram demitidos e v\u00e1rios acusados na justi\u00e7a por violarem leis que limitam as a\u00e7\u00f5es coletivas de trabalhadores.<\/p>\n<p>O mesmo governo tenta apresentar os grevistas como contrarrevolucion\u00e1rios e membros da Irmandade Mu\u00e7ulmana. O novo homem forte do Egito, general Abdel Fatah al Sisi, exortou os trabalhadores a deterem os \u201cinstigadores\u201d das greves e prometeu agir com firmeza contra quem for obst\u00e1culo \u00e0 produ\u00e7\u00e3o. \u201cAjudaremos a sufocar esta sedi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o deixaremos que ningu\u00e9m interrompa a produ\u00e7\u00e3o, porque esta \u00e9 outra forma de derrubar o pa\u00eds\u201d, destacou. Envolverde\/IPS<object id=\"1a88586b-9a39-a9b1-3be9-f88b0880898c\" style=\"font-size: 13px; line-height: 19px;\" width=\"0\" height=\"0\" type=\"application\/gas-events-abn\"><\/object><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Cairo, Egito, 11\/9\/2013 &ndash; Foram as duras restri&ccedil;&otilde;es aos direitos trabalhistas impostas no Egito pelo regime de Hosni Mubarak (1981-2011) que transformaram Kareem el Beheiry, antes um oper&aacute;rio pouco comprometido, em um tenaz ativista pelos trabalhadores. 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