{"id":16515,"date":"2013-09-11T12:27:51","date_gmt":"2013-09-11T12:27:51","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=98003"},"modified":"2013-09-25T17:33:55","modified_gmt":"2013-09-25T17:33:55","slug":"africa-em-divida-com-o-brasil-o-perdao-nem-sempre-e-gratis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/09\/ultimas-noticias\/africa-em-divida-com-o-brasil-o-perdao-nem-sempre-e-gratis\/","title":{"rendered":"\u00c1frica em d\u00edvida com o Brasil: o perd\u00e3o nem sempre \u00e9 gr\u00e1tis"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_98004\" class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"width: 539px\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/angolita-629x472.jpg\"><img class=\" wp-image-98004 \" alt=\"angolita 629x472 \u00c1frica em d\u00edvida com o Brasil: o perd\u00e3o nem sempre \u00e9 gr\u00e1tis\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/angolita-629x472.jpg\" width=\"529\" height=\"372\" title=\"\u00c1frica em d\u00edvida com o Brasil: o perd\u00e3o nem sempre \u00e9 gr\u00e1tis\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Os investimentos brasileiros na \u00c1frica em cont\u00ednuo crescimento. A empresa Odebrecht encabe\u00e7a as empresas que constroem o complexo hidrel\u00e9trico de Cambambe, no rio Kwanza, em Angola. Foto: Mario Osava\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Rio de Janeiro, Brasil, 11\/9\/2013 \u2013 Perdoar a d\u00edvida de quase US$ 900 milh\u00f5es de uma d\u00fazia de pa\u00edses africanos \u00e9 para o governo do Brasil um gesto solid\u00e1rio. Outros veem apenas a inten\u00e7\u00e3o de ampliar a influ\u00eancia econ\u00f4mica e pol\u00edtica do pa\u00eds. A decis\u00e3o do governo de Dilma Rousseff, agora em exame no parlamento, beneficia especialmente a Rep\u00fablica do Congo, com d\u00edvidas de US$ 350 milh\u00f5es, Tanz\u00e2nia com US$ 237 milh\u00f5es e Z\u00e2mbia com US$ 113 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>Os demais s\u00e3o Costa do Marfim, Gab\u00e3o, Guin\u00e9 Bissau, Maurit\u00e2nia, Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo, Rep\u00fablica da Guin\u00e9, S\u00e3o Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe, Senegal e Sud\u00e3o. Explicada pela presidente Dilma como \u201cuma via de m\u00e3o dupla\u201d que \u201cbeneficia os pa\u00edses africanos e o Brasil\u201d, a decis\u00e3o n\u00e3o foi interpretada do mesmo modo pela oposi\u00e7\u00e3o. Alguns senadores pretendem frear a aprova\u00e7\u00e3o no Congresso. Em xeque est\u00e3o, entre outros, Rep\u00fablica do Congo, Gab\u00e3o e Sud\u00e3o, que enfrentam processos internacionais por casos de corrup\u00e7\u00e3o e at\u00e9 genoc\u00eddio.<\/p>\n<p>As autoridades desses pa\u00edses \u201cs\u00e3o figuras corruptas, compradoras de Louis Vuitton (car\u00edssima marca de acess\u00f3rios pessoais) e de autom\u00f3veis exclusivos Mercedez Benz. \u00c9 uma simbologia perdoar d\u00edvidas de governos que gozam desses privil\u00e9gios\u201d, argumentou o senador Jos\u00e9 Agripino, do Partido Democrata. Um comunicado da chancelaria brasileira, por\u00e9m, assegura que o perd\u00e3o se baseia em diretrizes do Clube de Paris, de pa\u00edses ricos credores, para aliviar o peso da d\u00edvida de economias pobres.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o se trata de voluntarismo brasileiro, mas de uma pr\u00e1tica concertada internacionalmente com objetivos claros para permitir que o peso da d\u00edvida n\u00e3o seja impedimento de crescimento econ\u00f4mico e de supera\u00e7\u00e3o da pobreza\u201d, diz a nota. Em entrevista \u00e0 IPS o especialista pol\u00edtico Williams Gon\u00e7alves, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, considerou que o argumento esgrimido contra ditaduras e governos \u201csupostamente corruptos\u201d \u00e9 \u201ccompletamente estranho \u00e0s rela\u00e7\u00f5es internacionais\u201d.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alves observou que os cr\u00edticos \u201cn\u00e3o se escandalizaram\u201d quando os Estados Unidos e outras grandes pot\u00eancias \u201cprotegeram ou financiaram ditaduras\u201d latino-americanas. \u201cS\u00e3o os mesmos que hoje protegem regimes similares do Oriente M\u00e9dio, e tampouco levantam as vozes os defensores dos direitos humanos e da democracia\u201d, comparou. A pol\u00edtica externa brasileira defende o respeito \u00e0 soberania.<\/p>\n<p>\u201cExigir contrapartidas pol\u00edticas, interferindo no sistema pol\u00edtico local \u00e9 pr\u00e1tica comum dos Estados Unidos e de outras grandes pot\u00eancias. Como n\u00e3o desejamos interfer\u00eancias em nossa vida pol\u00edtica, supomos que os demais alimentem o mesmo desejo\u201d, afirmou Gon\u00e7alves. A pol\u00eamica se estende a outras quest\u00f5es. O senador \u00c1lvaro Dias, do PSDB, afirma que existem objetivos econ\u00f4micos. O perd\u00e3o reabriria novos cr\u00e9ditos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Social (BNDES) para favorecer a presen\u00e7a de grandes cons\u00f3rcios empresariais brasileiros nos pa\u00edses beneficiados.<\/p>\n<p>O interc\u00e2mbio comercial entre Brasil e \u00c1frica aumentou de US$ 5 bilh\u00f5es em 2000 para cerca de US$ 26,5 bilh\u00f5es em 2012, segundo dados da chancelaria brasileira. O pa\u00eds investiu na \u00c1frica em setores como petr\u00f3leo, minera\u00e7\u00e3o e grandes obras de infraestrutura por interm\u00e9dio de empresas p\u00fablicas e privadas. Segundo Marcelo Carreiro, historiador da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a pol\u00edtica do Brasil para a \u00c1frica tem \u201cobjetivos estrat\u00e9gicos\u201d, por exemplo, \u201ca extens\u00e3o de uma \u00e1rea de seguran\u00e7a estrat\u00e9gica e a amplia\u00e7\u00e3o de acesso aos mercados\u201d, disse \u00e0 IPS. A escolha dos pa\u00edses favorecidos, todos no oeste africano e em frente ao agora din\u00e2mico nordeste brasileiro, acompanha essa teoria.<\/p>\n<p>Essa aproxima\u00e7\u00e3o \u201cpoderia concretizar a cria\u00e7\u00e3o de um entorno geoestrat\u00e9gico brasileiro no sul do Oceano Atl\u00e2ntico, respons\u00e1vel por expandir conceitualmente a fronteira deste pa\u00eds at\u00e9 a costa africana\u201d, afirmou Carreiro. Dessa forma resguardaria \u201cn\u00e3o s\u00f3 sua \u00e1rea estrat\u00e9gica do pr\u00e9-sal (o subsolo profundo do oceano rico em petr\u00f3leo, na zona econ\u00f4mica exclusiva do Brasil), mas toda a vasta extens\u00e3o da costa atl\u00e2ntica, em um <i>mare brasiliensis<\/i>\u201d, blindando este pa\u00eds contra o eventual acesso de inimigos ao seu territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>Para o historiador, esta \u201cnova divis\u00e3o da \u00c1frica\u201d seria evidente com a inclus\u00e3o do \u201c\u00fanico pa\u00eds do planeta governado por um acusado de genoc\u00eddio\u201d, o presidente do Sud\u00e3o, Omar al Bashir, que \u00e9 reclamado pelo Tribunal Penal Internacional para julgamento. \u201cO Sud\u00e3o apresenta uma dupla atra\u00e7\u00e3o para o Brasil: \u00e9 rico em petr\u00f3leo, deficit\u00e1rio em constru\u00e7\u00e3o civil e faminto por bens industriais e agr\u00edcolas. Talvez seja o mercado mais vantajoso da \u00c1frica para a economia brasileira\u201d, destacou Carreiro.<\/p>\n<p>Essa aproxima\u00e7\u00e3o traria vantagens adicionais, como apoio para o Brasil ocupar um lugar permanente no Conselho de Seguran\u00e7a da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU). Gon\u00e7alves n\u00e3o se surpreende por esta perspectiva. \u201cO perd\u00e3o de d\u00edvidas de pequenos Estados por parte de grandes economias \u00e9 algo comum\u201d, pontuou. \u201cA explica\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica para este perd\u00e3o \u00e9 limpar a ficha desses pa\u00edses para viabilizar empr\u00e9stimos do BNDES que favore\u00e7am a a\u00e7\u00e3o de grandes empresas\u201d, enfatizou.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, o especialista n\u00e3o acredita que isso contrarie os princ\u00edpios da ajuda. \u201cA solidariedade e a coopera\u00e7\u00e3o se fazem por meio de empr\u00e9stimos e execu\u00e7\u00e3o de projetos\u201d, detalhou. \u201c\u00c9 que as rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas internacionais ocorrem sob o signo do capitalismo, o que significa que a finalidade \u00e9 sempre o lucro\u201d, ressaltou. Por\u00e9m, ao contr\u00e1rio de outros tipos de ajuda, o analista acredita que \u201ctais projetos ser\u00e3o realizados sob condi\u00e7\u00f5es financeiras e com objetivos sociais que n\u00e3o despertam o interesse das grandes economias industrializadas\u201d.<\/p>\n<p>Os investimentos do Brasil tamb\u00e9m chegaram \u00e0 \u00c1frica por meio da Ag\u00eancia Brasileira de Coopera\u00e7\u00e3o (ABC), totalizando em 2020 US$ 50 milh\u00f5es em projetos de agricultura, sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o. Carreiro recordou que em maio, pouco antes do an\u00fancio do perd\u00e3o da d\u00edvida, o governo da presidente Dilma comunicou que reformularia a ABC, e nesse contexto aumentou em US$ 300 milh\u00f5es os recursos previstos, especialmente para a \u00c1frica.<\/p>\n<p>\u201cEntretanto, parece que foi pouco e Dilma decidiu acelerar a decis\u00e3o, comprando diretamente influ\u00eancia sobre os mais importantes pa\u00edses da \u00c1frica\u201d, opinou Carreiro. \u201cDestinar US$ 300 milh\u00f5es a projetos de coopera\u00e7\u00e3o, perdoando US$ 900 milh\u00f5es de d\u00edvida de governos corruptos s\u00e3o duas estrat\u00e9gias antag\u00f4nicas de uma pol\u00edtica externa ca\u00f3tica\u201d, ressaltou. Um estudo da Funda\u00e7\u00e3o Don Cabral mostra em 2012 uma ascendente expans\u00e3o do Brasil na \u00c1frica, onde operam 34 empresas multinacionais de origem brasileira. Para 44,4% das empresas consultadas, a pol\u00edtica externa governamental na \u00faltima d\u00e9cada favoreceu essa internacionaliza\u00e7\u00e3o. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Rio de Janeiro, Brasil, 11\/9\/2013 &ndash; Perdoar a d&iacute;vida de quase US$ 900 milh&otilde;es de uma d&uacute;zia de pa&iacute;ses africanos &eacute; para o governo do Brasil um gesto solid&aacute;rio. Outros veem apenas a inten&ccedil;&atilde;o de ampliar a influ&ecirc;ncia econ&ocirc;mica e pol&iacute;tica do pa&iacute;s. 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