{"id":16550,"date":"2013-09-20T12:22:41","date_gmt":"2013-09-20T12:22:41","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=98825"},"modified":"2013-09-25T17:32:24","modified_gmt":"2013-09-25T17:32:24","slug":"onde-a-guerra-siria-atinge-os-afegaos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/09\/ultimas-noticias\/onde-a-guerra-siria-atinge-os-afegaos\/","title":{"rendered":"Onde a guerra S\u00edria atinge os afeg\u00e3os"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_98826\" class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"width: 539px\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/afegaos.jpg\"><img class=\" wp-image-98826 \" alt=\"afegaos Onde a guerra S\u00edria atinge os afeg\u00e3os\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/afegaos.jpg\" width=\"529\" height=\"252\" title=\"Onde a guerra S\u00edria atinge os afeg\u00e3os\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Afeg\u00e3os radicados em Ceylanpinar, pequena cidade da fronteira turca com a S\u00edria. Foto: Karlos Zurutuza\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ceylanpinar, Turquia, 20\/9\/2013 \u2013 As pessoas correm para suas casas ao anoitecer, justamente quando a intensidade dos combates aumenta. Contudo, para Sha Mehmed tudo \u00e9 dolorosamente familiar. Tinha 11 anos em 1982, quando abandonou sua aldeia natal no Afeganist\u00e3o para instalar-se nesta pequena cidade turca, na fronteira com a S\u00edria. Mehmed, origin\u00e1rio de Baglan, a 200 quil\u00f4metros de Cabul, confessa \u00e0 IPS que todos est\u00e3o assustados em Ceylanpinar, porque \u201cca\u00edram tr\u00eas bombas muito perto\u201d.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma pequena localidade que fica 800 quil\u00f4metros a sudeste de Ancara e que atualmente \u00e9 o local da Turquia mais castigado pela guerra interna na S\u00edria. Na realidade, Ceylanpinar n\u00e3o \u00e9 mais do que o nome turco para a \u00e1rea norte da cidade curda de Serekaniye. O lado sul, j\u00e1 em solo s\u00edrio, se chama Ras al Ayn. Excetuando as dist\u00e2ncias, pode-se dizer que se trata da vers\u00e3o local de Berlim dividida, na \u00e9poca da Guerra Fria, embora aqui o muro seja substitu\u00eddo por uma ferrovia com alambrados dos dois lados.<\/p>\n<p>Foi a famosa linha f\u00e9rrea do Expresso do Oriente, que determinou a fronteira entre S\u00edria e Turquia em 1921. O pre\u00e7o de ligar Berlim a Bagd\u00e1 passava por dividir fam\u00edlias curdas e \u00e1rabes dos dois lados da via. Hoje, viver na fronteira s\u00edria implica, ainda, ser v\u00edtima de balas e demais proj\u00e9teis \u201cperdidos\u201d lan\u00e7ados do outro lado. Yadigar Arzupinar contou \u00e0 IPS que \u201cn\u00e3o tinha mais que tr\u00eas anos\u201d quando chegou a este lugar, por isso \u201ctem lembran\u00e7as apenas do Afeganist\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Seja como for, este artes\u00e3o do couro conhece perfeitamente as raz\u00f5es da exist\u00eancia desta inesperada comunidade de quase dois mil afeg\u00e3os em Ceylanpinar. \u201cKenan Evren (general golpista e presidente da Turquia entre 1980 e 1989) visitou o Afeganist\u00e3o em 1982. Ao retornar decidiu construir 300 casas para nossas fam\u00edlias e desde ent\u00e3o vivemos aqui\u201d, disse Arzupinar, lembrando que a falta de oportunidades, e sobretudo a guerra a poucos metros de dist\u00e2ncia, obriga muitos a emigrarem para Istambul e Antalya, a meca do turismo de praia turco, 500 quil\u00f4metros a sudoeste de Ancara.<\/p>\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel saber se aqueles que partiram ter\u00e3o saudades deste bairro na entrada norte de Ceylanpinar, uma esp\u00e9cie de barrac\u00f5es cinzas e distribu\u00eddos entre ruas retil\u00edneas e sem asfalto. \u201cQue Deus maldiga aqueles que fazem a guerra\u201d, exclama Gulshan, uma mulher de 75 anos natural de Kunduz, 230 quil\u00f4metros ao norte de Cabul. \u201cMe diga, \u00e9 certo a Turquia apoiar a rede Al Qaeda do outro lado da ferrovia?\u201d, pergunta esta idosa de olhos puxados, repassando um boato que circula com for\u00e7a na \u00e1rea h\u00e1 alguns meses.<\/p>\n<p>Verdade, ou n\u00e3o, o certo \u00e9 que a conviv\u00eancia nesta cidade fronteiri\u00e7a est\u00e1 visivelmente afetada pela guerra do outro lado da estrada de ferro. Ismail Arslan, prefeito de Ceylanpinar, lamenta \u201cprofundamente\u201d a atual conjuntura. \u201cTemos quatro mortos e mais de 40 feridos at\u00e9 agora. As pessoas t\u00eam medo de sair \u00e0 rua e, frequentemente, pedimos para que todos fiquem em suas casas, mas alguns s\u00e3o feridos mesmo dentro delas\u201d, conta este advogado dirigente do Partido Paz e Democracia, o grupo dominante entre os curdos da Turquia.<\/p>\n<p>E o prefeito vai al\u00e9m: \u201cA regi\u00e3o est\u00e1 repleta de extremistas isl\u00e2micos. A Turquia lhes d\u00e1 apoio log\u00edstico para atravessarem a fronteira e inclusive evacua seus feridos em ambul\u00e2ncias para hospitais locais\u201d. Arslan afirmou \u00e0 IPS que seu objetivo \u00e9 impedir que os curdos da S\u00edria consigam controlar seu territ\u00f3rio. Desde o come\u00e7o das revoltas, em mar\u00e7o de 2011, os curdos da S\u00edria, que somam entre tr\u00eas e quatro milh\u00f5es de pessoas, mant\u00eam uma posi\u00e7\u00e3o neutra, se distanciando tanto de Damasco quanto da oposi\u00e7\u00e3o, mas enfrentando ambos pelo controle das \u00e1reas onde s\u00e3o maioria, no norte do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Musa \u00c7eri, governador do distrito turco e membro do governante Partido da Justi\u00e7a e do Desenvolvimento, reconhece que Ancara n\u00e3o v\u00ea com bons olhos que a principal minoria da S\u00edria construa uma regi\u00e3o aut\u00f4noma em sua fronteira, semelhante \u00e0 do norte do Iraque. Em todo caso, nega terminantemente as acusa\u00e7\u00f5es do prefeito. \u201cMeu governo nunca seria capaz de tal coisa\u201d, disse \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>Apesar de suas diferen\u00e7as em um tema t\u00e3o sens\u00edvel, tanto Arslan com \u00c7eri concordam que os afeg\u00e3os locais s\u00e3o uma comunidade tranquila e trabalhadora e, portanto, o resto da popula\u00e7\u00e3o nunca teve queixa alguma contra eles. N\u00e3o \u00e9 comum, mas alguns inclusive se casaram com moradores locais. Emirhan Celikale \u00e9 prova disso. \u201cMeu pai \u00e9 afeg\u00e3o e minha m\u00e3e \u00e9 curda, mas em casa todos falamos o uzbeque\u201d, explicou o jovem \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>Precisamente, a comunidade afeg\u00e3 em sua totalidade \u00e9 de etnia uzbeque, terceiro povo majorit\u00e1rio no Afeganist\u00e3o, ap\u00f3s pastunes e tayikos. A origem comum centro-asi\u00e1tica dos idiomas turco e uzbeque faz com que ambos sejam mutuamente intelig\u00edveis, facilitando a integra\u00e7\u00e3o deste coletivo no pa\u00eds. No entanto, para os habitantes mais idosos, a lembran\u00e7a de sua terra natal torna as coisas bastante dif\u00edceis. Como todos os de sua gera\u00e7\u00e3o, Abdullah \u00d6nder usa enorme barba branca e turbante, em total sintonia com seu \u201cshalwar kamiz\u201d, o conjunto de camisa e cal\u00e7a folgadas hegem\u00f4nicos em sua regi\u00e3o de origem.<\/p>\n<p>\u00d6nder recorda que tinha 27 anos quando chegou, \u201crec\u00e9m-casado\u201d, a Ceylanpinar. \u201cViv\u00edamos bem na fronteira do Tajiquist\u00e3o, em uma casa bonita junto a um riacho\u201d, detalhou este homem em seu pequeno estabelecimento de alimenta\u00e7\u00e3o. \u201cAbandonamos minha aldeia para fugir para Helmand\u201d, 731 quil\u00f4metros a sudoeste de Cabul. \u201cDe l\u00e1 cruzamos para o Ir\u00e3, onde vivemos um ano e meio, para, finalmente, chegarmos aqui\u201d, afirmou. \u00d6nder n\u00e3o tem inten\u00e7\u00e3o de voltar para sua terra natal. \u201cMorrerei em Ceylanpinar\u201d, garantiu. \u201cVoc\u00ea viu alguma melhora no Afeganist\u00e3o?\u201d, questionou este homem, antes de fechar sua loja para as ora\u00e7\u00f5es do anoitecer. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Ceylanpinar, Turquia, 20\/9\/2013 &ndash; As pessoas correm para suas casas ao anoitecer, justamente quando a intensidade dos combates aumenta. Contudo, para Sha Mehmed tudo &eacute; dolorosamente familiar. Tinha 11 anos em 1982, quando abandonou sua aldeia natal no Afeganist&atilde;o para instalar-se nesta pequena cidade turca, na fronteira com a S&iacute;ria. 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