{"id":16558,"date":"2013-09-24T18:17:56","date_gmt":"2013-09-24T18:17:56","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=99137"},"modified":"2013-10-09T12:01:04","modified_gmt":"2013-10-09T12:01:04","slug":"da-tanzania-ao-brasil-sem-saber-e-no-porao-de-um-navio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/09\/ultimas-noticias\/da-tanzania-ao-brasil-sem-saber-e-no-porao-de-um-navio\/","title":{"rendered":"Da \u00c1frica para o Brasil sem saber e no por\u00e3o de um navio"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_99138\" class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"width: 539px\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/Ornela.jpg\"><img class=\" wp-image-99138 \" alt=\"Ornela Da Tanz\u00e2nia ao Brasil sem saber e no por\u00e3o de um navio\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/Ornela.jpg\" width=\"529\" height=\"372\" title=\"Da Tanz\u00e2nia ao Brasil sem saber e no por\u00e3o de um navio\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Ornela Mbenga Sebo entrevistada pela IPS no Rio de Janeiro. Foto: Fab\u00edola Ortiz\/IPS<\/p><\/div>\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\nRio de Janeiro, Brasil, 24\/9\/2013 \u2013 A congolesa Ornela Mbenga Sebo escapou em 2011 de um acampamento rebelde em um lugar n\u00e3o identificado da \u00c1frica, onde era escravizada, e se escondeu em um navio mercante. Ali permaneceu no compartimento do lixo, sem saber para onde ia. O barco chegou ao destino duas semanas mais tarde, e ent\u00e3o soube que estava no porto de Santos.\r\n<p>\r\nSua perip\u00e9cia parece romance de aventuras. Como ela, v\u00e1rias centenas de cidad\u00e3os da Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo (RDC) buscam ref\u00fagio no Brasil. Ornela nasceu em Walikale, na prov\u00edncia de Kivu do Norte. A localidade possui ouro, cassiterita e coulumbite-tantalita, cuja explora\u00e7\u00e3o \u00e9 alvo de disputas entre diferentes grupos armados e o ex\u00e9rcito nacional.\r\n<p>\r\nAt\u00e9 2011, sua vida parecia a salvo de toda essa viol\u00eancia. Sua fam\u00edlia tinha uma vida c\u00f4moda. O pai dava aula na universidade e ela estudava jornalismo e trabalhava em um banco. Aprendeu ingl\u00eas e franc\u00eas e viajou ao exterior. Em Walikale come\u00e7ou sua odisseia. Em janeiro de 2011, quando tinha 21 anos, a cidade foi alvo de um violento ataque de insurgentes, que mataram, invadiram e incendiaram casas e pr\u00e9dios p\u00fablicos.\r\n<p>\r\nA jovem estava em seu trabalho quando come\u00e7ou o ataque e ali se abrigou at\u00e9 que as coisas se acalmaram. Ent\u00e3o, correu para casa, que estava incendiada, e n\u00e3o encontrou sua fam\u00edlia. Sozinha, perambulou por semanas com outras pessoas que tamb\u00e9m fugiam. Pretendia chegar \u00e0 capital, Kinshasa, onde vivem seus av\u00f3s. \u201cFui a p\u00e9. Caminhamos duas semanas. Encontrava gente que tamb\u00e9m estava fugindo: doentes, crian\u00e7as, mulheres e homens\u201d, contou \u00e0 IPS.\r\n<p>\r\nA RDC, extenso e rico territ\u00f3rio da \u00c1frica central, h\u00e1 d\u00e9cadas \u00e9 palco de conflitos entre governo e diferentes grupos armados, alguns deles vinculados aos vizinhos Burundi e Ruanda. Em Walikale, a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) vem documentando, desde 2010, a pr\u00e1tica de diversos crimes, incluindo viola\u00e7\u00f5es sexuais maci\u00e7as, por parte de mil\u00edcias e do pr\u00f3prio ex\u00e9rcito.\r\n<p>\r\nO relato de Ornela mostra o terror que sentia ao percorrer cidades fantasmas, abandonadas e destru\u00eddas, cujos \u00fanicos habitantes eram cad\u00e1veres jogados nas ruas. \u201cTenho isso vivo na mem\u00f3ria, e quando conto parece que volto a esse lugar\u201d, afirmou, destacando que o maior perigo era cruzar com grupos armados, \u201cque iam de cidade em cidade buscando gente para matar\u201d.\r\n<p>\r\nPara se proteger, mais de uma vez se fingiu de morta. Mas acabou capturada e levada para um acampamento, onde foi escravizada junto com outras dezenas de pessoas. Os homens armados que a sequestraram eram ruandenses, assegurou. O grupo foi colocado em tr\u00eas helic\u00f3pteros. O trajeto durou cerca de duas horas. O acampamento para onde foram levados n\u00e3o ficava perto de cidades ou zonas povoadas, pelo que viu enquanto estavam no ar.\r\n<p>\r\nCharly Nzalambila, um congolense que trabalha como volunt\u00e1rio da C\u00e1ritas Brasil e ajudou a contar a hist\u00f3ria de Ornela Mbenga para as autoridades brasileiras, acredita que esses homens eram membros das For\u00e7as Democr\u00e1ticas pela Libera\u00e7\u00e3o de Ruanda. Mbenga passava o dia carregando baldes de \u00e1gua para abastecer o acampamento. Os rebeldes obrigavam as mulheres a \u201cdormir com eles, lavar suas roupas e fazer comida. Eu dormia no ch\u00e3o. Apanhei. Sofri moral, f\u00edsica e mentalmente\u201d, disse.\r\n<p>\r\nUm dia conheceu um jovem que se solidarizou com ela e a ajudou a fugir, mostrando que o acampamento ficava perto de um porto. Ele disse que estavam na Tanz\u00e2nia, mas a IPS n\u00e3o p\u00f4de confirmar essa informa\u00e7\u00e3o. Em certa madrugada de fevereiro, a jovem pulou o muro que rodeava o acampamento e chegou a um navio mercante. \u201cEra quest\u00e3o de vida ou morte\u201d, destacou. Para comer, s\u00f3 conseguiu um pouco de amendoim.\r\n<p>\r\nDuas semanas mais tarde, depois de descobrir que chegara ao porto de Santos, a segunda surpresa foi notar que entendia o idioma portugu\u00eas, j\u00e1 que havia passado um ano em Angola com sua fam\u00edlia. Em terras brasileiras logo entrou em contato com angolanos e congoleses que vivem aqui e, pouco depois de sua chegada, j\u00e1 vivia como asilada no Rio de Janeiro.\r\n<p>\r\nO Brasil n\u00e3o possui cotas para admitir refugiados. Segundo a lei de ref\u00fagio, adotada em 1997, inclusive um estrangeiro que entra com documentos falsos tem direito a solicitar essa prote\u00e7\u00e3o. Entretanto, viajar sem conhecer o rumo talvez n\u00e3o seja t\u00e3o raro para os africanos que fogem desesperados da viol\u00eancia.\r\n<p>\r\n\u201cMuitos jovens chegam ao Brasil por casualidade\u201d, disse \u00e0 IPS o angolano Fernando Ngury em 2007, ao completar dez anos da lei de ref\u00fagio. \u201cEntram em um navio acreditando que ir\u00e3o para a Europa e acabam chegando ao Brasil. \u00c0s vezes, no caminho s\u00e3o jogados ao mar\u201d, denunciava o titular do Centro de Defesa dos Direitos Humanos dos Refugiados.\r\n<p>\r\nO pa\u00eds, de 198 milh\u00f5es de habitantes, tem hoje 4.715 refugiados, 1.688 angolanos, 700 colombianos e cerca de 500 da RDC, segundo os \u00faltimos dados oficiais. Do total, 2.012 s\u00e3o assistidos pelo Alto Comissariado das Na\u00e7\u00f5es Unidas para os Refugiados. Al\u00e9m disso, h\u00e1 1.441 solicitantes de ref\u00fagio \u00e0 espera de uma resolu\u00e7\u00e3o. O procedimento exige um tr\u00e2mite que come\u00e7a no Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a, junto ao Comit\u00ea Nacional para os Refugiados.\r\n<p>\r\nOrnela reconstruiu sua vida aos poucos. Hoje divide uma casa com outros quatro congolenses em um sub\u00farbio carioca. Como refugiada, tem direito a trabalhar e gozar de todos os servi\u00e7os p\u00fablicos dispon\u00edveis, como sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o. Agora tem 23 anos. Falar v\u00e1rios idiomas lhe permitiu conseguir um emprego como recepcionista no Parque Tecnol\u00f3gico da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde tamb\u00e9m fez muitas amizades.\r\n<p>\r\nH\u00e1 pouco tempo as redes sociais lhe deram uma grande alegria: descobriu que seus pais e irm\u00e3os n\u00e3o est\u00e3o mortos. Pelo Facebook soube que sua fam\u00edlia conseguiu fugir de \u00f4nibus para o Senegal, levando as economias que tinham em casa. Hoje vivem em Chicago, onde a m\u00e3e trabalha de camareira em um hotel e seu pai est\u00e1 desempregado. Seu sonho \u00e9 se encontrar com a fam\u00edlia.\r\n<p>\r\nSeus amigos e companheiros de trabalho, sensibilizados, decidiram fazer arrecada\u00e7\u00e3o pela internet para custear sua passagem de avi\u00e3o para os Estados Unidos. Por outro lado, Ornela n\u00e3o pretende voltar \u00e0 RDC. \u201cAmo meu pa\u00eds, sou africana, mas s\u00f3 voltaria se mudasse a situa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a. E, mesmo assim, apenas para visitar meus av\u00f3s que continuam l\u00e1\u201d, afirmou.\r\n<p>\r\n\u201cEla \u00e9 um exemplo de for\u00e7a, convic\u00e7\u00e3o e esperan\u00e7a\u201d, disse \u00e0 IPS seu companheiro de emprego, George Pati\u00f1o, que teve a ideia de apelar para o financiamento colaborativo (crowdfunding) no site brasileiro Vakinha para que Ornela viaje a Chicago. \u00c9 necess\u00e1rio conseguir US$ 2.500 e Pati\u00f1o espera consegui-los em tr\u00eas meses.\r\n<p>\r\nNo perfil criado no dia 5, chamado Ornela Mundi, as doa\u00e7\u00f5es somavam 25,9% da quantia necess\u00e1ria at\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o deste artigo. \u201cEla tem uma hist\u00f3ria de supera\u00e7\u00e3o, e no final conseguir\u00e1 ser feliz\u201d, afirmou Pati\u00f1o. Essa hist\u00f3ria merece ser contada em um livro, entendeu uma jornalista brasileira que se prepara para escrever sua biografia. 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