{"id":16684,"date":"2013-10-03T12:34:06","date_gmt":"2013-10-03T12:34:06","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=99831"},"modified":"2013-10-03T12:34:06","modified_gmt":"2013-10-03T12:34:06","slug":"nao-sao-apenas-os-mortos-que-voltam-a-siria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/10\/ultimas-noticias\/nao-sao-apenas-os-mortos-que-voltam-a-siria\/","title":{"rendered":"N\u00e3o s\u00e3o apenas os mortos que voltam \u00e0 S\u00edria"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_99833\" class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"width: 539px\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/kurditos-629x472.jpg\"><img class=\" wp-image-99833 \" alt=\"kurditos 629x472 N\u00e3o s\u00e3o apenas os mortos que voltam \u00e0 S\u00edria\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/kurditos-629x472.jpg\" width=\"529\" height=\"372\" title=\"N\u00e3o s\u00e3o apenas os mortos que voltam \u00e0 S\u00edria\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Embarcando para a S\u00edria no posto de fronteira de Peshjabur. Foto: Karlos Zurutuza\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Derik, S\u00edria, 3\/10\/2013 \u2013 Ap\u00f3s fugir da guerra h\u00e1 tr\u00eas meses, Gulnaz voltou \u00e0 S\u00edria para enterrar seu irm\u00e3o no prazo de 24 horas estipulado pelo Isl\u00e3. Mas, n\u00e3o \u00e9 tarefa f\u00e1cil trasladar o caix\u00e3o desde a margem iraquiana atrav\u00e9s do rio Jabur. Situada 460 quil\u00f4metros a noroeste de Bagd\u00e1, a pequena localidade curda de Peshjabur registra h\u00e1 meses um tr\u00e1fego incomum de pessoas. Embora na maioria sejam refugiados procedentes da S\u00edria, as circunst\u00e2ncias obrigam alguns deles a retornar.<\/p>\n<p>No caso de Gulnaz, impactada pela dor, um jovem que a acompanhava d\u00e1 os detalhes. \u201cFugimos da S\u00edria em julho, ap\u00f3s a ofensiva dos isl\u00e2micos, para nos refugiarmos em Erbil\u201d, a capital administrativa do Curdist\u00e3o Iraquiano, 390 quil\u00f4metros ao norte de Bagd\u00e1, explicou \u00e0 IPS enquanto esperava, impaciente, que os policiais de fronteira curdo-iraquianos conferissem a documenta\u00e7\u00e3o. \u201cA m\u00e1 sorte quis que o irm\u00e3o dela morresse em um acidente de carro\u201d, contou o jovem.<\/p>\n<p>O complexo de edif\u00edcios, a partir dos quais se gerencia o tr\u00e1fego transfronteiri\u00e7o, pouco difere do de qualquer outra aduana: soldados uniformizados revistam as bagagens enquanto funcion\u00e1rios localizados atr\u00e1s de uma pequena janela colocam os dados em seus computadores. Ap\u00f3s espera de uma hora, \u00e9 a falta de um selo novo no passaporte que revela a singular natureza deste controle migrat\u00f3rio.<\/p>\n<p>N\u00e3o em v\u00e3o, nos encontramos na fronteira entre a Regi\u00e3o Aut\u00f4noma Curda do Iraque, o mais parecido a um pa\u00eds que jamais os curdos tiveram, e a regi\u00e3o s\u00edria nordeste, hoje sob controle de fato dos curdos da S\u00edria. Divididos pelas fronteiras de Ir\u00e3, Iraque, S\u00edria e Turquia, cerca de 40 milh\u00f5es de curdos formam atualmente a maior na\u00e7\u00e3o sem Estado do mundo.<\/p>\n<p>Desde o come\u00e7o da revolta, em mar\u00e7o de 2011, os curdos da S\u00edria \u2013 entre tr\u00eas e quatro milh\u00f5es \u2013 optaram por uma \u201cterceira\u201d via: nem com o presidente Bashar al Assad nem com a oposi\u00e7\u00e3o \u00e1rabe. Em julho de 2012, conseguiram assumir o controle das zonas onde habitam, no norte e noroeste do pa\u00eds. Por\u00e9m, sua neutralidade original passa por constantes enfrentamentos com os dois lados.<\/p>\n<p>Os mais inflamados combatem, desde meados de julho, com grupos afinados com a rede Al Qaeda, supostamente apoiados pela Turquia, pa\u00eds que n\u00e3o v\u00ea com bons olhos a cria\u00e7\u00e3o de uma nova entidade pol\u00edtica curda em suas fronteiras. No momento, nem Bagd\u00e1 nem Damasco t\u00eam algum registro sobre o tr\u00e1fego de bens e pessoas que acontece diariamente aqui h\u00e1 mais de um ano.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o controle na fronteira iraquiana, os membros do cortejo f\u00fanebre recebem um papel com seu nome que permite que embarquem em uma das duas barca\u00e7as que fazem o trajeto atrav\u00e9s do rio Jabur. A comitiva que acompanha Gulnaz cuida de colocar o caix\u00e3o na barca. Alguns dos homens dentro de seus <i>shal-e-sapik<\/i> (a vestimenta tradicional curda) tentam conter as l\u00e1grimas, enquanto duas mulheres se expressam por meio do <i>serkeftim<\/i>, um grito sincopado que serve para expressar desde a alegria absoluta at\u00e9 a dor mais profunda.<\/p>\n<p>Gulnaz cobre seu rosto com as duas m\u00e3os enquanto \u00e9 guiada at\u00e9 a embarca\u00e7\u00e3o entre choros. \u201cTudo isso ser\u00e1 muito mais f\u00e1cil quando acabar a constru\u00e7\u00e3o da ponte sobre o rio\u201d, disse Sherwan, o piloto da barca, apontando para duas escavadoras amarelas que j\u00e1 trabalham na margem s\u00edria. A ponte provis\u00f3ria, constru\u00edda \u00e0 nossa esquerda, \u00e9 reservada para os ve\u00edculos. Mas, cerca de 30 mil pessoas a atravessaram em agosto vindas da S\u00edria durante uma fuga em massa, segundo o Alto Comissariado das Na\u00e7\u00f5es Unidas para os Refugiados (Acnur). Essa ag\u00eancia estima em 200 mil os refugiados em solo iraquiano.<\/p>\n<p>S\u00e3o apenas cinco minutos de travessia sobre as tranquilas \u00e1guas do Jabur. Os familiares de Gulnaz esperam na margem s\u00edria para descarregar o caix\u00e3o. Pouco depois, as bagagens dos rec\u00e9m-chegados ser\u00e3o revistadas por dois jovens usando uniforme da Asayish, a rec\u00e9m-criada pol\u00edcia curda da S\u00edria.<\/p>\n<p>Hasim Mohammad, comandante em chefe dessa for\u00e7a, disse \u00e0 IPS que se trata de um corpo formado por quatro mil volunt\u00e1rios, que se somam aos 40 mil integrantes dos Comit\u00eas de Resist\u00eancia Populares (YPG), um aut\u00eantico ex\u00e9rcito que, no momento, est\u00e1 sendo capaz de conter o avan\u00e7o de extremistas isl\u00e2micos na regi\u00e3o. Parte de seu financiamento depende do tr\u00e1fego por esta fronteira, j\u00e1 que cada passageiro deve pagar a taxa de mil libras s\u00edrias (quase US$ 7) na guarita levantada a poucos metros da margem.<\/p>\n<p>Aqueles que desejarem repor as for\u00e7as, antes de entrar em um dos t\u00e1xis que esperam do outro lado da barreira, podem faz\u00ea-lo no improvisado restaurante instalado em um barrac\u00e3o anexo. A pressa para realizar o funeral leva a comitiva a desaparecer imediatamente na dire\u00e7\u00e3o oeste, mas Massoud Hamid se senta para tomar um ch\u00e1 antes de seguir para Qamishli, sua cidade natal, 600 quil\u00f4metros a nordeste de Damasco.<\/p>\n<p>Hamid \u00e9 quem leva adiante o jornal <i>N\u00fb Denm<\/i> (Novo Tempo), o primeiro escrito em curdo e \u00e1rabe da S\u00edria. Precisamente, viaja de volta com a tiragem integral que mandou imprimir em Erbil. \u201cNo Curdist\u00e3o S\u00edrio ainda n\u00e3o temos gr\u00e1ficas, mas tudo chegar\u00e1\u201d, disse \u00e0 IPS este homem de 33 anos, que passou tr\u00eas na pris\u00e3o por publicar fotos de crian\u00e7as curdas se manifestando diante da sede do Fundo das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Inf\u00e2ncia em Damasco.<\/p>\n<p>A coragem de Hamid foi reconhecida em 2005 pela organiza\u00e7\u00e3o Rep\u00f3rteres Sem Fronteiras. Ap\u00f3s ser libertado, se refugiou na Fran\u00e7a at\u00e9 que as condi\u00e7\u00f5es lhe permitiram voltar \u00e0 sua S\u00edria natal onde, segundo disse, nada voltar\u00e1 a ser como antes. \u201cHoje temos que passar por todo o processo burocr\u00e1tico aduaneiro, mas o certo \u00e9 que as duas margens s\u00e3o curdas\u201d, opinou. \u201cNa realidade, essa \u00e9 mais uma das provas mais evidentes das mudan\u00e7as que se avizinham no Oriente M\u00e9dio no curto prazo\u201d, ressaltou. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Derik, S&iacute;ria, 3\/10\/2013 &ndash; Ap&oacute;s fugir da guerra h&aacute; tr&ecirc;s meses, Gulnaz voltou &agrave; S&iacute;ria para enterrar seu irm&atilde;o no prazo de 24 horas estipulado pelo Isl&atilde;. Mas, n&atilde;o &eacute; tarefa f&aacute;cil trasladar o caix&atilde;o desde a margem iraquiana atrav&eacute;s do rio Jabur. Situada 460 quil&ocirc;metros a noroeste de Bagd&aacute;, a pequena localidade curda [&hellip;] <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/10\/ultimas-noticias\/nao-sao-apenas-os-mortos-que-voltam-a-siria\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":514,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[1279,1571,989,3178,1325],"class_list":["post-16684","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ultimas-noticias","tag-crise-politica","tag-guerra","tag-inter-press-service-reportagens","tag-ips","tag-siria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16684","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/514"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16684"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16684\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16684"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16684"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16684"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}