{"id":16725,"date":"2013-10-14T13:08:35","date_gmt":"2013-10-14T13:08:35","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=100555"},"modified":"2013-10-14T13:08:35","modified_gmt":"2013-10-14T13:08:35","slug":"este-nao-e-o-mundo-proposto-por-samuel-huntington","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/10\/ultimas-noticias\/este-nao-e-o-mundo-proposto-por-samuel-huntington\/","title":{"rendered":"\u201cEste n\u00e3o \u00e9 o mundo proposto por Samuel Huntington\u201d"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_100556\" class=\"wp-caption alignleft\" style=\"width: 235px\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/Harald_M%C3%BCller_cortes%C3%ADa-del-entrevistado-225x300.jpg\"><img class=\"size-full wp-image-100556\" alt=\"Harald M\u00fcller cortes\u00eda del entrevistado 225x300 \u201cEste n\u00e3o \u00e9 o mundo proposto por Samuel Huntington\u201d\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/Harald_M%C3%BCller_cortes%C3%ADa-del-entrevistado-225x300.jpg\" width=\"225\" height=\"300\" title=\"\u201cEste n\u00e3o \u00e9 o mundo proposto por Samuel Huntington\u201d\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Harald M\u00fcller. Foto: Cortesia do entrevistado<\/p><\/div>\n<p>Na\u00e7\u00f5es Unidas, 14\/10\/2013 \u2013 A pol\u00eamica teoria do \u201cchoque de civiliza\u00e7\u00f5es\u201d, que est\u00e1 completando 20 anos, explica as rela\u00e7\u00f5es internacionais e os conflitos violentos segundo uma l\u00f3gica de bons e maus, apontou o especialista alem\u00e3o Harald M\u00fcller. \u201c\u00c9 err\u00f4nea, mas satisfaz as necessidades b\u00e1sicas\u201d, afirmou M\u00fcller, diretor-executivo do Instituto de Pesquisas para a Paz de Frankfurt (Prif).<\/p>\n<p>Em 1993, Samuel Huntington, ent\u00e3o professor na Universidade de Harvard, escreveu um artigo para a revista <em>Foreign Affairs<\/em>, que depois se converteu no livro O Choque de Civiliza\u00e7\u00f5es e a Reconfigura\u00e7\u00e3o da Ordem Mundial. Nele dividiu o mundo em oito civiliza\u00e7\u00f5es, \u201cdefinidas tanto por elementos objetivos comuns, como idioma, hist\u00f3ria, religi\u00e3o, costumes e institui\u00e7\u00f5es, como pela autoidentifica\u00e7\u00e3o subjetiva das pessoas\u201d.<\/p>\n<p>Segundo Huntington, depois da Guerra Fria as diferen\u00e7as culturais seriam o principal motor de conflagra\u00e7\u00f5es e conflitos. Em entrevista \u00e0 IPS, M\u00fcller explicou o motivo pelo qual a teoria de Huntington ganhou tanta for\u00e7a, apesar de ser inadmiss\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>IPS: A introdu\u00e7\u00e3o da edi\u00e7\u00e3o especial da Foreign Affairs pelo 20\u00ba anivers\u00e1rio da obra de Huntington afirma que o poder de uma teoria \u00e9 sua escala, intensidade e qualidade do debate que gera. E diz que o livro \u00e9 uma das contribui\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas mais poderosas das \u00faltimas gera\u00e7\u00f5es. Em sua opini\u00e3o, o que determina uma boa teoria pol\u00edtica?<\/strong><\/p>\n<p><strong>HARALD M\u00dcLLER:<\/strong> Obviamente, h\u00e1 diferen\u00e7a entre uma \u201cteoria poderosa\u201d e uma academicamente \u201cboa\u201d. Uma teoria \u00e9 \u201cpoderosa\u201d quando toca a sensibilidade p\u00fablica sobre um assunto de grande destaque no momento de sua publica\u00e7\u00e3o. Se \u00e9 f\u00e1cil de ser captada, suficientemente simples para ser entendida por uma grande quantidade de pessoas, e se vem acompanhada de um bom trabalho de venda, pode ganhar uma for\u00e7a consider\u00e1vel. Por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 necessariamente uma boa teoria. O darwinismo social foi muito poderoso no final do s\u00e9culo 19 e no come\u00e7o do 20, mas do ponto de vista cient\u00edfico foi uma teoria bastante ruim.<\/p>\n<p><b style=\"font-size: 13px; line-height: 19px;\">IPS: Muitos analistas afirmam que as reflex\u00f5es e os postulados de Huntington tocaram um tema sens\u00edvel.<\/b><\/p>\n<p><b>HM: <\/b>Ele tocou um tema sens\u00edvel porque apresentou uma teoria simples e abrangente da pol\u00edtica mundial no momento em que os povos do Ocidente haviam perdido as coordenadas estabelecidas pela estrutura simples, bipolar e antag\u00f4nica da Guerra Fria. Ele voltou a dizer a esses povos quem eram (ocidente) e quem era o inimigo (a imponente coaliz\u00e3o sino-isl\u00e2mica). Na verdade, sua conjectura foi um reflexo da Guerra Fria, ao projetar uma coaliz\u00e3o contr\u00e1ria a esse inimigo, na qual as culturas \u201chindu\u00edsta\u201d, \u201cortodoxa\u201d e \u201clatina\u201d se somariam em massa ao Ocidente, porque o gigante sino-isl\u00e2mico parecia muito mais amea\u00e7ador.<\/p>\n<p><b>IPS: Huntington sugeriu que os conflitos mais importantes se manifestariam a partir das divis\u00f5es existentes entre essas civiliza\u00e7\u00f5es. Ao olhar os conflitos mundiais da atualidade, em que medida acredita que importam as vari\u00e1veis culturais?<\/b><\/p>\n<p><b>HM: <\/b>Como muitos observadores j\u00e1 apontaram, muitos conflitos ocorrem dentro das \u201cciviliza\u00e7\u00f5es\u201d de Huntington, principalmente dentro do Isl\u00e3: xiitas <i>versus<\/i> sunitas, sunitas <i>versus<\/i> alauitas, os cl\u00e3s na Som\u00e1lia, etc. Em outros conflitos, a causa b\u00e1sica n\u00e3o \u00e9 cultural, como as quest\u00f5es clim\u00e1ticas que ocorrem no Sahel e que colocam em confronto pastores n\u00f4mades e agricultores, ou em conflitos territoriais cl\u00e1ssicos \u2013 Israel <i>versus<\/i> Palestina, \u00cdndia <i>versus<\/i> Paquist\u00e3o \u2013, que n\u00e3o estouraram entre grupos que j\u00e1 eram culturalmente distintos enquanto a quest\u00e3o territorial n\u00e3o era o mais importante, por exemplo, durante os imp\u00e9rios otomano e brit\u00e2nico. Em termos gerais, os fatores culturais \u2013 religi\u00e3o e condi\u00e7\u00e3o \u00e9tnica \u2013 exacerbam conflitos existentes por diferentes motivos. Raramente s\u00e3o a causa desses conflitos.<\/p>\n<p><b>IPS: Em seu livro <i>Coexist\u00eancia de Civiliza\u00e7\u00f5es: As Ant\u00edpodas de Huntington<\/i>, o senhor avalia se a teoria do choque \u00e9 coerente e cient\u00edfica.<\/b><\/p>\n<p><b>HM: <\/b>Nem a hist\u00f3ria nem a maioria das obras sobre civiliza\u00e7\u00e3o e cultura apoiam a ideia de civiliza\u00e7\u00e3o de Huntington. Sua descri\u00e7\u00e3o do Isl\u00e3 como uma cultura desproporcionalmente violenta ignora que a maioria dos pa\u00edses mu\u00e7ulmanos est\u00e1 rodeada por muitas outras \u201cciviliza\u00e7\u00f5es\u201d e t\u00eam, portanto, muito mais ocasi\u00f5es de \u201cse chocar\u201d do que o restante. \u00c9 um simples caso de \u201ccontrolar fronteiras\u201d, na linguagem estat\u00edstica. Ele deprecia os mecanismos pol\u00edticos de seguran\u00e7a nacional, pelos quais os pa\u00edses que aspiram construir hegemonias regionais costumam ser vistos com desconfian\u00e7a por seus vizinhos, que ent\u00e3o buscam aliados extrarregionais como contrapeso. Tamb\u00e9m ignora que, quanto mais central se torna a religi\u00e3o na forma\u00e7\u00e3o da identidade pol\u00edtica, mais fortes ser\u00e3o as consequ\u00eancias da cis\u00e3o e mais prov\u00e1veis e frequentes os choques intraculturais, com o de sunitas e xiitas. Al\u00e9m do mais, Huntington seleciona apenas as for\u00e7as divis\u00f3rias da diversidade, e esquece as for\u00e7as vinculantes da globaliza\u00e7\u00e3o. Em conjunto, \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o parcial e viciada, que desatende as contribui\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria, da antropologia, da etnologia, da sociologia e de algumas outras disciplinas.<\/p>\n<p><b>IPS: A partir das experi\u00eancias de conflitos recentes, v\u00ea algum motivo para reconsiderar sua an\u00e1lise?<\/b><\/p>\n<p><b>HM: <\/b>N\u00e3o. Sinto-me bastante c\u00f4modo com o que escrevi. Inclusive o pr\u00f3prio Huntington negou que o 11 de setembro (de 2001, data dos atentados em Nova York e Washington, com mais de tr\u00eas mil mortos) tenha sido um caso de \u201cchoque de civiliza\u00e7\u00f5es\u201d. A maioria das v\u00edtimas da Al Qaeda \u00e9 de mu\u00e7ulmanos, e a coaliz\u00e3o anti-Al Qaeda \u00e9 uma impressionante cole\u00e7\u00e3o de todas as culturas do mundo. Seria ainda mais impressionante sem a extraordin\u00e1ria inaptid\u00e3o e vis\u00e3o pequena do governo (de George W. Bush, 2001-2009), que n\u00e3o aproveitou a onda de empatia gerada pela como\u00e7\u00e3o em Nova York e Washington, e afastou boa parte da popula\u00e7\u00e3o mundial que inicialmente demonstrou solidariedade aos Estados Unidos. Uma grande rivalidade de poderes volta a estar em cena como for\u00e7a que molda a pol\u00edtica mundial. A democracia segue seu avan\u00e7o lento, mas aparentemente irresist\u00edvel, que, no entanto, n\u00e3o nos leva a uma \u201cliga de democracias\u201d, pois os Estados democr\u00e1ticos no Sul global mant\u00eam suas identidades de ex-col\u00f4nias, com vis\u00edvel desconfian\u00e7a diante das inten\u00e7\u00f5es e dos objetivos dos antigos poderes coloniais. Em lugar de uma converg\u00eancia de dois blocos civilizat\u00f3rios, vemos mais alinhamentos vacilantes e diversos do que antes. Esse n\u00e3o \u00e9 o mundo de Huntington. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na&ccedil;&otilde;es Unidas, 14\/10\/2013 &ndash; A pol&ecirc;mica teoria do &ldquo;choque de civiliza&ccedil;&otilde;es&rdquo;, que est&aacute; completando 20 anos, explica as rela&ccedil;&otilde;es internacionais e os conflitos violentos segundo uma l&oacute;gica de bons e maus, apontou o especialista alem&atilde;o Harald M&uuml;ller. &ldquo;&Eacute; err&ocirc;nea, mas satisfaz as necessidades b&aacute;sicas&rdquo;, afirmou M&uuml;ller, diretor-executivo do Instituto de Pesquisas para a Paz de [&hellip;] <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/10\/ultimas-noticias\/este-nao-e-o-mundo-proposto-por-samuel-huntington\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":477,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[1694,1270,1077,1695,989,3178,1696],"class_list":["post-16725","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ultimas-noticias","tag-choque-de-civilizacoes","tag-conflitos","tag-entrevista","tag-harald-muller","tag-inter-press-service-reportagens","tag-ips","tag-relacoes-internacionais"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16725","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/477"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16725"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16725\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16725"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16725"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16725"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}