{"id":16731,"date":"2013-10-15T12:54:38","date_gmt":"2013-10-15T12:54:38","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=100653"},"modified":"2013-10-15T12:54:38","modified_gmt":"2013-10-15T12:54:38","slug":"os-furacoes-nao-trouxeram-a-fome","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/10\/ultimas-noticias\/os-furacoes-nao-trouxeram-a-fome\/","title":{"rendered":"Os furac\u00f5es n\u00e3o trouxeram a fome"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_100654\" class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"width: 539px\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/producao.jpg\"><img class=\" wp-image-100654 \" alt=\"producao Os furac\u00f5es n\u00e3o trouxeram a fome\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/producao.jpg\" width=\"529\" height=\"319\" title=\"Os furac\u00f5es n\u00e3o trouxeram a fome\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">A produ\u00e7\u00e3o de milho se ressente em v\u00e1rias regi\u00f5es do M\u00e9xico. Espigas em um dep\u00f3sito campon\u00eas de Yaluma, Chiapas. Foto: Mauricio Ramos\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Cidade do M\u00e9xico, M\u00e9xico, 15\/10\/2013 \u2013 Um m\u00eas depois que os furac\u00f5es Ingrid e Manuel causaram no M\u00e9xico a maior destrui\u00e7\u00e3o provocada por um fen\u00f4meno natural em 30 anos, se imp\u00f5e outra: a fome em comunidades supostamente atendidas por um programa rural de abastecimento de alimentos. As hist\u00f3rias se repetem nos 14 munic\u00edpios da serra do Estado de Guerrero, segundo testemunhos de pessoas que chegaram \u00e0s cabeceiras municipais para pedir socorro, como os tr\u00eas homens da comunidade Los Laureles que caminharam tr\u00eas dias e cruzaram rios usando cordas para chegarem a Coyuca.<\/p>\n<p>\u201cPrecisamos de alimentos, porque acabou tudo, n\u00e3o temos o que comer\u201d, contou um deles \u00e0 IPS, Greg\u00f3rio Angulo, que chegou a pedir um helic\u00f3ptero para transportar idosos e gr\u00e1vidas. Guerrero \u00e9 o Estado mais afetado pelo impacto combinado de dois furac\u00f5es quase simult\u00e2neos: Ingrid, no Golfo do M\u00e9xico, no Oceano Atl\u00e2ntico, entre 12 e 17 de setembro, e Manuel, que se formou no dia 13 e se dissipou no dia 20 do mesmo m\u00eas no Pac\u00edfico.<\/p>\n<p>\u201cA fome se instalou\u201d, afirmou o presidente da Confedera\u00e7\u00e3o Nacional dos Conselhos Comunit\u00e1rios de Abasto, Porfirio Gonz\u00e1lez Cort\u00e9s, a um jornal do Estado de Oaxaca, o segundo mais prejudicado. Com dezenas de estradas federais interrompidas, contar com alimentos locais e a baixo pre\u00e7o \u00e9 crucial nesse pa\u00eds de 118 milh\u00f5es de habitantes. Para isso, foi criada na d\u00e9cada de 1970 a empresa estatal Diconsa (Distribuidora Conasupo Sociedade An\u00f4nima).<\/p>\n<p>Por meio de uma rede com pouco mais de 25 mil lojas destinadas a atender comunidades marginalizadas de menos de 2.500 habitantes, a Diconsa deveria oferecer uma cesta b\u00e1sica de 22 produtos, como milho, feij\u00e3o, arroz, a\u00e7\u00facar, \u00f3leo e macarr\u00e3o, a pre\u00e7os subsidiados. Durante anos esse sistema cuidou de regular o mercado nas regi\u00f5es de maior pobreza. Durante as inunda\u00e7\u00f5es de 1999, por exemplo, garantiu o abastecimento das comunidades isoladas.<\/p>\n<p>Contudo, nos \u00faltimos 15 anos foi perdendo capacidade operacional e or\u00e7amento. Uma avalia\u00e7\u00e3o do desempenho da Diconsa, realizada este ano pelo Coneval, um \u00f3rg\u00e3o p\u00fablico e aut\u00f4nomo, encontrou \u201cproblemas de abastecimento regular e permanente nas lojas\u201d. Al\u00e9m disso, em 10% das localidades rurais atendidas, essas lojas eram o \u00fanico lugar onde conseguir alimentos e s\u00f3 um ter\u00e7o de todos os locais contavam com os 22 produtos previstos.<\/p>\n<p>Entre 1998 e 1999, diminuiu pela metade o or\u00e7amento federal para todos os programas alimentares, incluindo Diconsa, Liconsa (sistema de distribui\u00e7\u00e3o de leite) e Fidelist (subs\u00eddio para a tortilha de milho, j\u00e1 desparecido). Em 2000, as autoridades quiseram eliminar completamente o subs\u00eddio \u00e0 Diconsa, mas uma forte mobiliza\u00e7\u00e3o dos conselhos comunit\u00e1rios impediu que isso acontecesse.<\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca j\u00e1 se percebia que o or\u00e7amento, de US$ 41 milh\u00f5es, apenas cobria os custos de opera\u00e7\u00e3o. Este ano foram destinados \u00e0 Diconsa apenas US$ 14 milh\u00f5es, segundo informa\u00e7\u00e3o do Or\u00e7amento de Gastos 2013. Isso cria outros problemas. A cesta subsidiada de 22 produtos custa cerca de 220 pesos (quase US$ 20), enquanto em uma loja qualquer ou supermercado pode ser adquirida por entre 230 e 330 pesos.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m h\u00e1 in\u00fameras den\u00fancias de que as lojas da Diconsa vendem outros produtos, inclusive alimentos \u201cn\u00e3o saud\u00e1veis\u201d, pelo mesmo pre\u00e7o, ou mais caros, que em qualquer outro com\u00e9rcio. O sistema aproveita muito pouco a pequena agricultura local e depende de uma cara distribui\u00e7\u00e3o centralizada nesse extenso pa\u00eds de geografia acidentada. Muitos de seus alimentos s\u00e3o importados. O M\u00e9xico \u00e9 o segundo maior importador de alimentos do mundo, depois do Jap\u00e3o, diz a Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Empresas Comerciantes de Produtores do Campo.<\/p>\n<p>Esse pa\u00eds, que pertence ao exclusivo clube da Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e o Desenvolvimento Econ\u00f4mico, tinha no ano passado 27,4 milh\u00f5es de pessoas com car\u00eancias alimentares, segundo dados oficiais. Quase 14 em cada cem alunos pr\u00e9-escolares t\u00eam baixa estatura para a idade, sinal de desnutri\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica. E, entre os ind\u00edgenas, esse problema afeta 33 em cada cem crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Em Guerrero, Mar\u00eda Natividad economizou at\u00e9 o \u00faltimo centavo em julho e agosto. J\u00e1 tinha uma boa quantia e, como faz todos os anos, gastou tudo em carne, cerveja e Coca-Cola, suficientes para encher duas geladeiras. Mas nada disso era para seu consumo. Com um pouco de sorte, a venda do prolongado fim de semana do Dia da Independ\u00eancia (16 de setembro) lhe renderia o suficiente para aguentar at\u00e9 o Natal. Sua pequena casa de dois andares fica na ribeira do rio Azul, que margeia Santa F\u00e9, o centro tur\u00edstico mais importante de Guerrero.<\/p>\n<p>Na madrugada do dia 15, o Azul transbordou em minutos e chegou quase cem metros terra adentro. A casa de Natividad ficou quase toda submersa, e quando a \u00e1gua baixou, uma mistura de lama e lixo enchia completamente o andar de baixo. Quase um m\u00eas depois, sua \u00fanica fonte de renda desapareceu e, embora o balne\u00e1rio seja o principal sustento de todo o povo, as autoridades n\u00e3o atendem suas peti\u00e7\u00f5es, pois como centro tur\u00edstico figura nos \u00faltimos lugares das urg\u00eancias.<\/p>\n<p>Natividad \u00e9 uma das milhares de pessoas em Guerrero que n\u00e3o recebe ajuda, nem dinheiro, nem comida. \u201cNingu\u00e9m chegou\u201d a Santa F\u00e9, disse \u00e0 IPS. As inunda\u00e7\u00f5es danificaram meio milh\u00e3o de hectares cultivados. A devasta\u00e7\u00e3o trouxe altas s\u00fabitas nos pre\u00e7os de lim\u00e3o, cebola, feij\u00e3o, milho e tomate. Tamb\u00e9m morreram 157 pessoas, h\u00e1 v\u00e1rias dezenas de desaparecidos, meio milh\u00e3o de prejudicados e 1,2 milh\u00e3o de casas danificadas.<\/p>\n<p>Em janeiro de 2007, estourou no M\u00e9xico a crise da tortilha de milho, alimento b\u00e1sico e ancestral, quando o pre\u00e7o completou um ciclo de 40% de aumento em menos de um ano, resultado de opera\u00e7\u00f5es especulativas das empresas intermedi\u00e1rias. Houve protestos e dist\u00farbios.<\/p>\n<p>Pouco depois, uma comiss\u00e3o da C\u00e2mara de Deputados analisou as causas dessa crise para concluir que, em uma d\u00e9cada, o pa\u00eds perdera \u201cum importante segmento de sua soberania alimentar, teve atraso na produ\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica de gr\u00e3os b\u00e1sicos e aumentou sua depend\u00eancia das importa\u00e7\u00f5es para atender seu consumo interno. Al\u00e9m disso, o Estado entregou a comercializa\u00e7\u00e3o e a distribui\u00e7\u00e3o interna e externa de alimentos a empresas estrangeiras transnacionais\u201d.<\/p>\n<p>O informe tamb\u00e9m destacava que, \u201cse o governo federal p\u00f4de agir em defesa dos consumidores de milho em \u00e1reas rurais, foi gra\u00e7as ao fato de ainda operar a rede de abastecimento comunit\u00e1rio da Diconsa\u201d, embora j\u00e1 com car\u00eancias de \u201cinfraestrutura, instrumentos operacionais e log\u00edsticos para regular diretamente o mercado do milho-tortilha, como ocorria anteriormente\u201d. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p><em>* Com colabora\u00e7\u00e3o de Ximena Natera (Coyuca e Santa F\u00e9, Guerrero).<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Cidade do M&eacute;xico, M&eacute;xico, 15\/10\/2013 &ndash; Um m&ecirc;s depois que os furac&otilde;es Ingrid e Manuel causaram no M&eacute;xico a maior destrui&ccedil;&atilde;o provocada por um fen&ocirc;meno natural em 30 anos, se imp&otilde;e outra: a fome em comunidades supostamente atendidas por um programa rural de abastecimento de alimentos. 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