{"id":16732,"date":"2013-10-15T12:47:08","date_gmt":"2013-10-15T12:47:08","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=100649"},"modified":"2013-10-15T12:47:08","modified_gmt":"2013-10-15T12:47:08","slug":"ajuda-alimentar-eterniza-a-fome-haitiana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/10\/ultimas-noticias\/ajuda-alimentar-eterniza-a-fome-haitiana\/","title":{"rendered":"Ajuda alimentar eterniza a fome haitiana"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_100650\" class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"width: 500px\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/Entregadearroz_SchindlerSaintVal_HGW.jpg\"><img class=\" wp-image-100650 \" alt=\"Entregadearroz SchindlerSaintVal HGW Ajuda alimentar eterniza a fome haitiana\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/Entregadearroz_SchindlerSaintVal_HGW.jpg\" width=\"490\" height=\"372\" title=\"Ajuda alimentar eterniza a fome haitiana\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">O arroz norte-americano invade o Haiti. Foto: Marc Schindler Saint-Val\/HRW<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Porto Pr\u00edncipe, Haiti, 15\/10\/2013 (Haiti Grassroots Watch) &#8211; H\u00e1 meio s\u00e9culo o Haiti recebe ajuda alimentar, e s\u00f3 dos Estados Unidos chegaram mais de 1,5 milh\u00e3o de toneladas de alimentos nas duas \u00faltimas d\u00e9cadas. Por\u00e9m, ag\u00eancias internacionais acabam de lan\u00e7ar um alerta: cerca de dois ter\u00e7os dos haitianos, quase sete milh\u00f5es de pessoas, passam fome. E aproximadamente 1,5 milh\u00e3o \u2013 o dobro do ano passado \u2013 enfrentam \u201csevera\u201d ou \u201caguda\u201d inseguran\u00e7a alimentar. Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>Uma nova s\u00e9rie de cinco investiga\u00e7\u00f5es se dedica a lan\u00e7ar luz sobre esse problema, suas causas estruturais, as inefici\u00eancias e o que um funcion\u00e1rio definiu como \u201cos efeitos perversos\u201d da assist\u00eancia alimentar. O setor agr\u00edcola haitiano est\u00e1 paralisado h\u00e1 tempos, ignorado por sucessivos governos e doadores internacionais. A agricultura representa cerca de 25% do produto interno bruto, e at\u00e9 h\u00e1 pouco tempo empregava, direta ou indiretamente, mais de dois ter\u00e7os da popula\u00e7\u00e3o. No entanto, por v\u00e1rias d\u00e9cadas houve pouco investimento.<\/p>\n<p>O Minist\u00e9rio da Agricultura recebe menos de 5% do or\u00e7amento nacional, e, n\u00e3o faz muito tempo, o financiamento externo da ajuda alimentar superava, \u00e0s vezes mais que o dobro, o destinado ao desenvolvimento agr\u00edcola. Em 2009, uma miss\u00e3o da Equipe de Tarefas de Alto N\u00edvel da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre a Crise Alimentar Mundial deplorou \u201co abandono do setor agr\u00edcola e da produ\u00e7\u00e3o nacional nas tr\u00eas \u00faltimas d\u00e9cadas\u201d. Esse grupo tamb\u00e9m criticou o governo haitiano, outros pa\u00edses e ag\u00eancias n\u00e3o governamentais pela \u201cmultiplicidade de estrat\u00e9gias e programas, muitas vezes contradit\u00f3rios\u201d, bem como pelas \u201cintermin\u00e1veis confer\u00eancias que n\u00e3o apresentam nenhum resultado concreto\u201d.<\/p>\n<p>Outros problemas, como o inadequado sistema de posse de terras, o desmatamento, a degrada\u00e7\u00e3o ambiental e a falta de sementes, fertilizantes e estradas, t\u00eam sua parte no colapso da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola. Mas o setor tamb\u00e9m tem que lidar com a inunda\u00e7\u00e3o de produtos importados, mais baratos porque muitas vezes s\u00e3o subsidiados, especialmente o arroz norte-americano. Esse fen\u00f4meno se agravou a partir de 1995, quando Porto Pr\u00edncipe reduziu as tarifas alfandeg\u00e1rias sob press\u00e3o de Washington e das institui\u00e7\u00f5es financeiras internacionais.<\/p>\n<p>No come\u00e7o da d\u00e9cada de 1980, o Haiti importava menos de 20% de seus alimentos, e agora compra mais de 55% no exterior, sobretudo dos Estados Unidos e da Rep\u00fablica Dominicana. Desde o terremoto de 2010, o governo e os doadores estrangeiros lan\u00e7aram uma s\u00e9rie de programas para resolver essa situa\u00e7\u00e3o, refazendo estradas, dragando canais e ajudando a melhorar a produtividade agr\u00edcola.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, em Grande Asne, uma das prov\u00edncias mais verdes e produtivas do pa\u00eds, os agr\u00f4nomos est\u00e3o preocupados. \u201cGrande Asne era o celeiro para outras prov\u00edncias\u201d, disse V\u00e9riel Auguste. \u201cMas n\u00e3o \u00e9 mais. Estamos perdendo esse potencial\u201d. Auguste tem uma horta onde cultiva \u00e1rvores, cereais e tub\u00e9rculos, com os quais procura entusiasmar outros integrantes da cooperativa que integra. No entanto, as hortas pr\u00f3ximas est\u00e3o vazias, contou.<\/p>\n<p>\u201cAs pessoas deixaram a terra\u201d por falta de apoio t\u00e9cnico e porque seus cultivos n\u00e3o podem competir com os alimentos mais baratos que chegam do exterior, acrescentou Auguste. \u201cN\u00e3o longe daqui, h\u00e1 uma s\u00e9rie de belos campos com boa terra. Mas est\u00e3o fechados. As pessoas foram embora\u201d, ressaltou. Durante a maior parte de 2012, e at\u00e9 come\u00e7o deste ano, perto das terras de Auguste eram in\u00fameros os cartazes sobre um programa de ajuda alimentar que, segundo ele e v\u00e1rios especialistas, contribuiu para expulsar os agricultores de suas terras.<\/p>\n<p>Embora s\u00f3 tenha fornecido alimentos para 18 mil fam\u00edlias neste pa\u00eds de dez milh\u00f5es de habitantes, o programa administrado pela organiza\u00e7\u00e3o internacional contra a pobreza Care, aprovado por Porto Pr\u00edncipe, demonstrou que a ajuda alimentar pode ser uma arma de dois gumes. Com financiamento da Ag\u00eancia dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid), o programa Tik\u00e8 Manje (Cupom de Alimentos) distribu\u00eda vales para compra de produtos como arroz, \u00f3leo e feij\u00e3o at\u00e9 agosto deste ano, a maioria norte-americanos.<\/p>\n<p>A iniciativa estava desenhada originalmente para ajudar as v\u00edtimas do furac\u00e3o Tom\u00e1s, que em novembro de 2010 afetou severamente planta\u00e7\u00f5es haitianas. Mas foi lan\u00e7ado 11 meses depois e s\u00f3 entrou em funcionamento em 2012, mais de um ano ap\u00f3s a tempestade. No come\u00e7o, beneficiaria 12 mil pessoas, mas foi estendido para 18 mil depois que outro furac\u00e3o, o Sandy, atingiu o pa\u00eds.<\/p>\n<p>A demora, provavelmente, foi causada pelo fato de a zona danificada pelo Tom\u00e1s \u201cj\u00e1 ter come\u00e7ado a se recuperar\u201d, opinou Jean Robert Brutus, diretor de outra iniciativa de ajuda, desta vez governamental, chamada Aba Grangou (Acabemos Com a Fome), que se associou ao programa Tik\u00e8 Mange. Contudo, segundo Brutus, \u201ccomo j\u00e1 estava aprovado, o governo dos Estados Unidos decidiu implant\u00e1-lo\u201d.<\/p>\n<p>O escrit\u00f3rio da Care no Haiti apresentou outro motivo. O programa foi uma esp\u00e9cie de \u201censaio\u201d de um novo sistema de cupons para compra de alimentos, no qual a companhia de telefonia Digicel, com sede na Jamaica, transfere dinheiro aos benefici\u00e1rios. A Digicel e o governo haitiano ficam com uma porcentagem cada vez que \u00e9 feita uma dessas transfer\u00eancias de dinheiro.<\/p>\n<p>Foi \u201csimplesmente um teste em certas regi\u00f5es para ver se podemos implement\u00e1-lo no resto do pa\u00eds\u201d, explicou sua coordenadora, Tamara Shukakidze, em entrevista concedida em mar\u00e7o deste ano, quando o Tik\u00e8 Manje ainda estava em andamento. Na \u00e9poca, a Care esperava participar de um novo projeto de US$ 20 milh\u00f5es, financiado pela Usaid, para criar uma \u201crede de seguran\u00e7a social\u201d que incluiria vale para alimentos, segundo o porta-voz dessa organiza\u00e7\u00e3o, Pierre Seneq.<\/p>\n<p>Agricultores e agr\u00f4nomos como Auguste ainda se indignam com o programa de cupons, pois os benefici\u00e1rios s\u00f3 podiam adquirir produtos norte-americanos e n\u00e3o os locais. \u201cChamam o programa de Derrotemos a Fome, mas, para mim, \u00e9 Longa Vida \u00e0 Fome\u201d, opinou Auguste. Dejoie Dadignac, coordenadora da Rede de Produtores Agr\u00edcolas de Dame Marie, garante que a federa\u00e7\u00e3o de 26 organiza\u00e7\u00f5es que dirige estava consternada.<\/p>\n<p>\u201cEm cada um dos pequenos neg\u00f3cios que visitamos, mesmo os que antes vendiam cimento ou chapas de alum\u00ednio, v\u00edamos um cartaz que dizia: Usaid\u201d, contou Dadignac em uma entrevista de dezembro de 2011. \u201cUma publicidade na r\u00e1dio local dizia que eram distribu\u00eddos bananas e fruta-p\u00e3o \u00e0s pessoas, mas n\u00e3o v\u00edamos isso. Vimos arroz, espaguete e \u00f3leo, enquanto nossos produtos ficavam de lado\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Consultado a respeito, Seneq respondeu que os futuros programas utilizar\u00e3o produtos locais e, portanto, \u201ccontribuir\u00e3o com a economia em lugar de promover os alimentos estrangeiros\u201d. No dia 27 de setembro, a Usaid anunciou que a Care havia obtido contrato para um novo programa de cupons de alimentos para 250 mil pessoas. Quando perguntado como seriam distribu\u00eddos os vales, e se estes serviriam para adquirir produtos locais, Seneq prometeu dar detalhes, mas nunca cumpriu sua palavra.<\/p>\n<p>O novo esquema \u00e9 financiado em parte por um fundo de ajuda alimentar da Usaid, o Food for Peace (Comida Pela Paz), que exige que a maior parte do dinheiro seja usada para comprar produtos norte-americanos. Nenhum outro plano de ajuda alimentar no mundo tem requisitos semelhantes. O governo de Barack Obama prop\u00f4s uma s\u00e9rie de mudan\u00e7as nesses requisitos, ao apresentar seu projeto de Lei Agr\u00edcola 2013, que inclui ajuda alimentar, cupons e subs\u00eddios, mas o texto ainda n\u00e3o foi aprovado pelo Congresso.<\/p>\n<p>Merilus Derius, de 71 anos, acredita que os jovens n\u00e3o se dedicam \u00e0 agricultura por n\u00e3o terem meios de enfrentar a degrada\u00e7\u00e3o ambiental e competir com os produtos estrangeiros, que agora s\u00e3o mais procurados pela popula\u00e7\u00e3o. \u201cAntes, os agricultores plantavam sorgo e o mo\u00edam. Cultivavam ervilha, plantavam batata, mandioca. Em uma manh\u00e3 como esta, um produtor podia fazer seu caf\u00e9 e depois mo\u00eda a cana-de-a\u00e7\u00facar e a fervia na \u00e1gua, e comia p\u00e3o de mandioca, e tinha boa sa\u00fade. Quando viv\u00edamos de nossa horta, \u00e9ramos independentes\u201d, lembrou Derius.<\/p>\n<p>Na meseta central do Haiti alguns dizem que outro programa alimentar est\u00e1 causando uma explos\u00e3o demogr\u00e1fica. Como parte de seu plano de assist\u00eancia agr\u00edcola e de luta contra a inseguran\u00e7a alimentar, a organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental World Vision distribui produtos norte-americanos para mulheres gr\u00e1vidas e m\u00e3es precoces. \u00c0s vezes citada como \u201cprograma de mil dias\u201d, a iniciativa tamb\u00e9m procura conseguir que as mulheres recebam cuidados m\u00e9dicos, tenham acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e se integram a \u201cclubes de m\u00e3es\u201d, al\u00e9m de, em alguns casos, obter sementes para cultivar.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 por isso que h\u00e1 mais crian\u00e7as por a\u00ed\u201d, observou Carm\u00e8ne Louis, uma das benefici\u00e1rias. \u201cPara entrar no programa precisa estar gr\u00e1vida. Agora se v\u00ea meninas gr\u00e1vidas aos 12 ou 15 anos. Creio que isso \u00e9 um verdadeiro problema para Savanette\u201d, pontuou. Pesquisadores n\u00e3o puderam confirmar isso devido \u00e0 falta de registros, mas um informe da Usaid deste ano aponta um \u201caumento no n\u00famero de gr\u00e1vidas em uma \u00e1rea rural, e a possibilidade de esse fen\u00f4meno estar vinculado com as percep\u00e7\u00f5es p\u00fablicas sobre o programa de mil dias\u201d.<\/p>\n<p>Consultado sobre o poss\u00edvel aumento de gravidezes, o secret\u00e1rio de Estado para o Renascimento da Agricultura, Fresner Dorcin, disse n\u00e3o estar familiarizado com o caso e que n\u00e3o podia descart\u00e1-lo. \u201cTrabalhei na meseta central por 15 anos\u201d, disse. \u201cSe contasse sobre os efeitos perversos dos programas que vi pessoalmente&#8230; H\u00e1 muitos\u201d, destacou. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p><em>* <strong>A Haiti Grassroots Watch<\/strong> \u00e9 uma associa\u00e7\u00e3o entre AlterPresse, Sociedade de Anima\u00e7\u00e3o e Comunica\u00e7\u00e3o social (Saks), Rede de Mulheres de R\u00e1dios Comunit\u00e1rias (Refraka), r\u00e1dios comunit\u00e1rias da Associa\u00e7\u00e3o de Meios Comunit\u00e1rios Haitianos e estudantes do Laborat\u00f3rio de Jornalismo da Universidade do Estado do Haiti.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Porto Pr&iacute;ncipe, Haiti, 15\/10\/2013 (Haiti Grassroots Watch) &ndash; H&aacute; meio s&eacute;culo o Haiti recebe ajuda alimentar, e s&oacute; dos Estados Unidos chegaram mais de 1,5 milh&atilde;o de toneladas de alimentos nas duas &uacute;ltimas d&eacute;cadas. 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