{"id":16816,"date":"2013-11-01T11:46:50","date_gmt":"2013-11-01T11:46:50","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=101844"},"modified":"2013-11-01T11:46:50","modified_gmt":"2013-11-01T11:46:50","slug":"o-mundo-sem-os-estados-unidos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/11\/ultimas-noticias\/o-mundo-sem-os-estados-unidos\/","title":{"rendered":"O mundo sem os Estados Unidos"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_101845\" class=\"wp-caption alignleft\" style=\"width: 327px\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/ilustra.jpg\"><img class=\" wp-image-101845 \" alt=\"ilustra O mundo sem os Estados Unidos\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/ilustra.jpg\" width=\"317\" height=\"372\" title=\"O mundo sem os Estados Unidos\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o de 1920 na qual James Montgomery Flagg retrata a situa\u00e7\u00e3o posterior \u00e0 Primeira Guerra Mundial, embora a imagem de um Tesouro esgotado seja bastante atual. Foto: Dom\u00ednio p\u00fablico<\/p><\/div>\n<p>Washington, 30\/10\/2013 \u2013 Em seu livro <i>The World Without Us<\/i> (O Mundo Sem N\u00f3s), um sucesso de vendas de 2007, o jornalista Alan Weisman imagina o planeta Terra se regenerando ap\u00f3s o desaparecimento dos seres humanos.<\/p>\n<p>Os arranha-c\u00e9us desabam e as pontes se quebram nos rios, mas prevalecem as florestas primitivas e os b\u00fafalos voltam a perambular.<\/p>\n<p>\u00c9 uma vis\u00e3o otimista do futuro&#8230; No caso de ser um b\u00fafalo ou um golfinho ou uma barata. N\u00e3o h\u00e1 mais guardas-florestais. N\u00e3o h\u00e1 mais enormes redes de arrasto ou pesticida d-Con.<\/p>\n<p>Contudo, n\u00e3o \u00e9 um futuro t\u00e3o grandioso para o ser humano. Em sua perspectiva desapaixonada e n\u00e3o centrada nas pessoas, o livro de Weisman est\u00e1 desenhado para nos sacudir em nossa ing\u00eanua pretens\u00e3o de que sempre existiremos, independente das amea\u00e7as existenciais que cobrem nossos ombros qual t\u00fanica de Neso.<\/p>\n<p>Por algum motivo, a evolu\u00e7\u00e3o nos fez incapazes de enfrentar nosso pr\u00f3prio desaparecimento. \u00c9 quase como se nunca pud\u00e9ssemos equilibrar nosso tal\u00e3o de cheques ou planejar nossas f\u00e9rias, a menos que consideremos as armas nucleares, a mudan\u00e7a clim\u00e1tica e as pandemias simplesmente como outra s\u00e9rie de \u201cfantasmas\u201d que nos deixam com o cora\u00e7\u00e3o na boca, mas que sempre desaparecem com a luz da manh\u00e3.<\/p>\n<p>Agora passemos do existencial ao geopol\u00edtico. Como seria o mundo sem os Estados Unidos?<\/p>\n<p>O recente fechamento das reparti\u00e7\u00f5es do governo fez com que muitos pensassem em um mundo no qual os Estados Unidos n\u00e3o chegassem a desaparecer, mas que sofressem um colapso sobre si mesmo. Centrado nas quest\u00f5es internas, Washington cancelaria a Pax americana \u2013 ou Pox (s\u00edfilis) Americana, como gostam de dizer os anti-imperialistas \u2013 e renunciasse ao seu papel de pol\u00edcia e tesouraria do mundo.<\/p>\n<p>Estaria o mundo economicamente melhor? Como ocorre no universo hipot\u00e9tico de Weismnan, responder a essa pergunta depende em grande parte do que se trata. N\u00f3s, os norte-americanos, sem d\u00favidas, nos beneficiamos da hegemonia econ\u00f4mica e militar de nosso pa\u00eds: nossa pegada de carbono, nosso produto interno bruto por pessoa, nosso poderoso d\u00f3lar, nossa depend\u00eancia do ingl\u00eas como idioma do mundo por defeito.<\/p>\n<p>Damos tudo isso como certo. No entanto, os que n\u00e3o s\u00e3o norte-americanos podem sentir de maneira um pouco diferente. Como o b\u00fafalo, os golfinhos ou as baratas em um mundo sem seres humanos, fora dos Estados Unidos todos podem muito bem aplaudir o fim do superpoderio norte-americano.<\/p>\n<p>No auge da recente crise pol\u00edtica em Washington, um artigo de opini\u00e3o publicado em ingl\u00eas pela ag\u00eancia chinesa de not\u00edcias Xinhua fez uma exorta\u00e7\u00e3o para que \u201co ofuscado mundo comece a considerar construir um mundo \u2018desestadunizado\u2019\u201d.<\/p>\n<p>O texto reitera muitos argumentos que soam conhecidos. Os Estados Unidos \u201cabusam de seu <i>status<\/i> de superpot\u00eancia e semeiam ainda mais caos no mundo, desviando os riscos financeiros para o exterior, instigando as tens\u00f5es regionais em meio a disputas territoriais e travando guerras injustificadas sob a fachada de mentiras descaradas\u201d.<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o, segundo esse artigo, \u00e9 fortalecer a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), criar um substituto para o d\u00f3lar como divisa global e dar mais poder \u00e0s economias emergentes nas institui\u00e7\u00f5es financeiras internacionais. Todas essas sugest\u00f5es parecem sensatas.<\/p>\n<p>No entanto, como destacam v\u00e1rios analistas norte-americanos, esse provocativo ensaio n\u00e3o necessariamente reflete a opini\u00e3o do governo chin\u00eas. Pequim continua dependendo do poderio econ\u00f4mico dos Estados Unidos, seja sob a forma de consumidores norte-americanos ou de liquidez de Wall Street.<\/p>\n<p>E, na medida em que os Estados Unidos combatem o terrorismo, controla as rotas mar\u00edtimas do mundo e continua limitando em maior ou menor medida as ambi\u00e7\u00f5es de seus principais aliados na \u00c1sia Pac\u00edfico, a China tamb\u00e9m depende do poderio militar norte-americano.<\/p>\n<p>As autoridades chinesas valorizam a estabilidade interna, regional e internacional. Em outras palavras, querem preservar um entorno no qual possam perseguir seu objetivo principal: o crescimento econ\u00f4mico interno. Se conseguir uma carona gratuita no todo-terreno norte-americano, blindado e devorador de combust\u00edvel, a China subir\u00e1 a bordo alegremente.<\/p>\n<p>Mas se o todo-terreno come\u00e7ar a interferir com seu crescimento econ\u00f4mico, sua estabilidade pol\u00edtica e seus interesses internacionais, descer\u00e1. No momento, depois que um acordo legislativo evitou a suspens\u00e3o de pagamentos (<i>default<\/i>) e p\u00f4s fim ao fechamento de reparti\u00e7\u00f5es governamentais, as reclama\u00e7\u00f5es chinesas de \u201cdesestaduniza\u00e7\u00e3o\u201d se aplacaram.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, a paralisa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que vive Washington de modo algum terminou. E os problemas estruturais que na \u00faltima d\u00e9cada estiveram na raiz do declive dos Estados Unidos continuam vigentes.<\/p>\n<p>A maioria dos observadores desse declive, desde Paul Kennedy at\u00e9 Fareed Zakaria, compartilha, em geral, a mesma ambival\u00eancia que a China. Consideram que a deteriora\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos \u00e9 relativa e gradual, e que \u00e9 preciso haver um duelo por eles na falta de uma alternativa vi\u00e1vel.<\/p>\n<p>O mesmo se poderia dizer das na\u00e7\u00f5es latino-americanas, que durante muito tempo condenaram o imperialismo norte-americano. Os \u00faltimos sinais desse conflito tiveram a ver com o caso Edward Snowden e as revela\u00e7\u00f5es de que a Ag\u00eancia de Seguran\u00e7a Nacional vigiava as comunica\u00e7\u00f5es al\u00e9m de suas fronteiras.<\/p>\n<p>No entanto, como a China, a Am\u00e9rica Latina depende muito do com\u00e9rcio com os Estados Unidos, por isso tamb\u00e9m seja ambivalente em rela\u00e7\u00e3o ao declive dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Alguns dos que participam desse debate, naturalmente, n\u00e3o t\u00eam nenhuma ambival\u00eancia em absoluto. O document\u00e1rio <i>O Mundo Sem os Estados Unidos<\/i>, dirigido por Mitch Anderson em 2008, descreve o estado de anarquia que reinaria se no futuro um presidente progressista reduzisse o or\u00e7amento militar e retirasse soldados de todo o mundo.<\/p>\n<p>O filme se baseia particularmente nas elogiosas avalia\u00e7\u00f5es que o historiador brit\u00e2nico Niall Ferguson faz da hegemonia norte-americana. A certa altura, Ferguson sugere que uma retirada militar dos Estados Unidos provavelmente colocaria o mundo no mesmo caminho de destrui\u00e7\u00e3o que experimentou a Iugosl\u00e1via nos anos 1990.<\/p>\n<p>A Uni\u00e3o Europeia foi irrespons\u00e1vel na \u00e9poca, e continua sendo hoje. N\u00e3o foi oferecida nenhuma outra garantia de paz. S\u00f3 a China se avizinha no horizonte, e o filme termina com imagens de explos\u00f5es nucleares no Jap\u00e3o, em Taiwan e na Coreia do Sul, presumivelmente causadas por m\u00edsseis chineses lan\u00e7ados ap\u00f3s a partida das for\u00e7as norte-americanas da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>No livro de Alan Weisman, a floresta original prevalece sobre o mundo antes civilizado. No filme de Mitch Anderson as for\u00e7as primatas da anarquia dominam um mundo que antes a presen\u00e7a militar dos Estados Unidos tornava est\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u00c9, em muitos sentidos, um filme perigosamente bobo. Os Estados Unidos apoiaram muitos ditadores em nome da estabilidade. Geramos uma instabilidade consider\u00e1vel \u2013 no Afeganist\u00e3o, no Iraque \u2013 cada vez que isso foi funcional para nossos interesses. Nossa estabilidade \u00e9 frequentemente injusta: nossa instabilidade \u00e9 devastadora.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, reduzimos nossa presen\u00e7a militar na Am\u00e9rica Latina e a regi\u00e3o prosperou. Reduzimos a presen\u00e7a de nossos soldados na Coreia do Sul, legend\u00e1rio detonador de conflitos, e na pen\u00ednsula n\u00e3o se desatou a anarquia. Finalmente, estamos fechando muitas bases da era da Guerra Fria na Europa, e a Europa est\u00e1 calma.<\/p>\n<p>Lembrem-se: a mensagem real do livro de Weisman \u00e9 que ainda h\u00e1 coisas que podemos fazer, como seres humanos, para cooperar mais com a natureza e impedir o Apocalipse. De modo semelhante, os Estados Unidos podem tomar medidas positivas para evitar que o cen\u00e1rio mundial se \u201cbalcanize\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 quest\u00e3o de designar um sucessor como guardi\u00e3o mundial ou de enfrentar a China para impedir que Pequim pare<b> <\/b>em nossos sapatos. N\u00e3o se trata de nos fecharmos e fazer cara feia porque o mundo j\u00e1 n\u00e3o quer cumprir nossas ordens.<\/p>\n<p>Estamos no mundo, n\u00e3o h\u00e1 como escapar disso. Assim com os seres humanos devem reconfigurar sua rela\u00e7\u00e3o com a natureza, os Estados Unidos devem reconfigurar sua rela\u00e7\u00e3o com o mundo. Nos dois piores cen\u00e1rios, as \u00fanicas ganhadoras ser\u00e3o as baratas. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p><i>* <\/i><b><i>John Feffer <\/i><\/b><i>\u00e9 codiretor do Foreign Policy In Focus.<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Washington, 30\/10\/2013 &ndash; Em seu livro The World Without Us (O Mundo Sem N&oacute;s), um sucesso de vendas de 2007, o jornalista Alan Weisman imagina o planeta Terra se regenerando ap&oacute;s o desaparecimento dos seres humanos. 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