{"id":16831,"date":"2013-11-05T14:59:59","date_gmt":"2013-11-05T14:59:59","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=102117"},"modified":"2013-11-05T14:59:59","modified_gmt":"2013-11-05T14:59:59","slug":"de-celeiro-a-grande-canteiro-de-obras-para-o-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/11\/ultimas-noticias\/de-celeiro-a-grande-canteiro-de-obras-para-o-mundo\/","title":{"rendered":"De celeiro a grande canteiro de obras para o mundo"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_102119\" class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"width: 539px\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/Belem.jpg\"><img class=\" wp-image-102119 \" alt=\"Belem De celeiro a grande canteiro de obras para o mundo\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/Belem.jpg\" width=\"529\" height=\"372\" title=\"De celeiro a grande canteiro de obras para o mundo\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Bel\u00e9m do Par\u00e1, vista desde o rio Guam\u00e1, \u00e9 o epicentro de v\u00e1rios megaprojetos amaz\u00f4nicos. Foto: Diana Cariboni\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Bel\u00e9m, Brasil, 5\/11\/2013 \u2013 De celeiro do mundo, no s\u00e9culo passado, a grande canteiro de megaprojetos internacionais de infraestrutura, energia e minera\u00e7\u00e3o, a Am\u00e9rica do Sul enfrenta um novo dilema: impulsionar sua economia com a promessa de reduzir a desigualdade, ao pre\u00e7o de custos sociais e ambientais que j\u00e1 apresentam a conta. O velho modelo desenvolvimentista se repete. A Am\u00e9rica do Sul cresceu e com isso suas demandas por energia, pontes, estradas, insumos de minera\u00e7\u00e3o. E tamb\u00e9m as de outros pa\u00edses emergentes do Sul, que hoje veem nessa regi\u00e3o a nova fronteira de mat\u00e9rias-primas estrat\u00e9gicas.<\/p>\n<p>A Am\u00e9rica Latina \u201ctem dificuldades em digerir seu pr\u00f3prio desenvolvimento, quais s\u00e3o as armadilhas, quais as alternativas?\u201d, perguntou em entrevista \u00e0 IPS a secret\u00e1ria adjunta de Ind\u00fastria, Com\u00e9rcio e Minera\u00e7\u00e3o do Par\u00e1, Maria Am\u00e9lia Enriquez. O Par\u00e1, no extremo nordeste do Brasil, faz parte da Amaz\u00f4nia, que \u00e9 compartilhada por Brasil, Col\u00f4mbia, Bol\u00edvia, Equador, Peru, Guiana, Venezuela e Suriname, onde est\u00e3o planejadas 320 grandes obras para os pr\u00f3ximos 20 anos, segundo Jo\u00e3o Meirelles, diretor do n\u00e3o governamental Instituto Peabiru, que prop\u00f5e valorizar a diversidade cultural e ambiental da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>As hidrel\u00e9tricas representam mais de um ter\u00e7o. Na bacia do rio Tapaj\u00f3s, caudaloso afluente do Amazonas que atravessa os Estados do Par\u00e1, Amazonas e Mato Grosso, est\u00e3o previstas cerca de 42, cinco delas de grande magnitude. \u201cEstamos falando de investimento anual de pelo menos R$ 50 bilh\u00f5es, dominado por menos de dez empresas, entre outras as brasileiras Camargo Corr\u00eaa e Odebrecht\u201d, detalhou Meirelles. A explos\u00e3o de megaprojetos se repete na regi\u00e3o: portos, estradas e hidrovias, neg\u00f3cios de minera\u00e7\u00e3o, agroind\u00fastria e metalurgia.<\/p>\n<p>\u201cO velho n\u00e3o morreu e o novo n\u00e3o nasceu\u201d, observou Alfredo Wagner, coordenador do Projeto Nova Cartografia Social da Amaz\u00f4nia, ao se referir a um modelo econ\u00f4mico inspirado \u201cnos anos 1930\u201d e hoje voltado ao \u201cmercado internacional de commodities\u201d. Esses temas estiveram em discuss\u00e3o entre 26 e 28 de outubro em Bel\u00e9m, capital paraense, durante o Encontro de Jornalistas Sobre Megaprojetos, organizado pela ag\u00eancia IPS e pela Mott Foundation, dos Estados Unidos.<\/p>\n<div id=\"attachment_102120\" class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"width: 550px\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/homens.jpg\"><img class=\" wp-image-102120 \" alt=\"homens De celeiro a grande canteiro de obras para o mundo\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/homens.jpg\" width=\"540\" height=\"380\" title=\"De celeiro a grande canteiro de obras para o mundo\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Homens descascando mandioca no mercado Ver-o-Peso de Bel\u00e9m. Foto: Diana Cariboni\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Com financiamento p\u00fablico e privado, especialmente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Social (BNDES), o processo \u00e9 protagonizado tamb\u00e9m pelas novas grandes multinacionais da regi\u00e3o, como a brasileira Odebrecht. Na Venezuela, essa empresa est\u00e1 encarregada de tr\u00eas grandes projetos de infraestrutura. A represa de Tocoma \u00e9 a \u00faltima das quatro grandes centrais planejadas para aproveitar as \u00e1guas do rio Caron\u00ed, o segundo mais importante, no sul.<\/p>\n<p>A ponte suspensa Nigale, prevista para 2018 sobre o lago Maracaibo, ser\u00e1 a terceira mais longa da Am\u00e9rica Latina e inclui constru\u00e7\u00e3o de estradas e ferrovias de 10,8 quil\u00f4metros e tr\u00eas ilhas artificiais. A ponte Mercosul (terceira sobre o rio Orenoco) \u00e9 planejada para 2015, a fim de unir o sul e o centro da Venezuela, e seria a segunda maior ponte da Am\u00e9rica Latina. No total, segundo o governo venezuelano, est\u00e3o em constru\u00e7\u00e3o 30 grandes obras do Plano da P\u00e1tria 2013-2019, com investimentos totais de US$ 80 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p>Estamos diante de uma \u201cevolu\u00e7\u00e3o de capitalismo tardia?\u201d, questionou Wagner. Na Amaz\u00f4nia brasileira, o megaprojeto mais emblem\u00e1tico e pol\u00eamico tamb\u00e9m fica no Par\u00e1: a central hidrel\u00e9trica de Belo Monte, que inundar\u00e1 516 quil\u00f4metros quadrados de selva e for\u00e7ar\u00e1 o deslocamento de mais de 16 mil pessoas. A hidrel\u00e9trica, no rio Xingu, ter\u00e1 capacidade de gera\u00e7\u00e3o de 11.233 megawatts e \u00e9 considerada essencial pelo governo para o fornecimento el\u00e9trico.<\/p>\n<p>Grande parte dessa energia seria consumida pelas ind\u00fastrias instaladas na regi\u00e3o. V\u00e1rias delas t\u00eam, inclusive, interesse em investir em mais desenvolvimentos hidrel\u00e9tricos, segundo Meirelles, como a corpora\u00e7\u00e3o norte-americana do alum\u00ednio Alcoa e o grupo brasileiro Votorantim, da \u00e1rea de cimento, minera\u00e7\u00e3o, metalurgia, siderurgia e celulose para papel. A pergunta \u00e9 \u201cquem fica com a riqueza natural extra\u00edda da Amaz\u00f4nia\u201d e a quem esses projetos beneficiam, segundo Gilberto Souza, professor de economia da Universidade Federal do Par\u00e1 (UFPA).<\/p>\n<p>A amplia\u00e7\u00e3o do porto de Vila do Conde, no munic\u00edpio paraense de Barcarena, servir\u00e1 para melhorar a entrada e sa\u00edda de alum\u00ednio e suas mat\u00e9rias-primas, e a exporta\u00e7\u00e3o de gr\u00e3os que chegam do centro do Brasil. Contudo, deslocar\u00e1 alguns bairros ribeirinhos. Com as novas hidrel\u00e9tricas, o Par\u00e1 produzir\u00e1 metade da energia consumida no pa\u00eds. Esse Estado, rico em minerais mas com os piores \u00edndices de desenvolvimento do pa\u00eds, destina grande parte de sua produ\u00e7\u00e3o para pa\u00edses como China, principal consumidor de ferro, destacou Souza.<\/p>\n<p>Altamira, a cidade mais pr\u00f3xima das obras de Belo Monte, teve crescimento populacional de 50% em dois anos, e, como consequ\u00eancia, agravou-se o d\u00e9ficit de sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e moradia, e dispararam a viol\u00eancia e a prostitui\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m do desmatamento, na regi\u00e3o j\u00e1 se nota a deteriora\u00e7\u00e3o da qualidade da \u00e1gua e a redu\u00e7\u00e3o de peixes, que s\u00e3o a base da alimenta\u00e7\u00e3o de suas comunidades.<\/p>\n<p>Ironicamente, a regi\u00e3o que fornecer\u00e1 eletricidade para meio Brasil sofre frequentes cortes de luz, disse \u00e0 IPS o jovem professor Fabiano de Oliveira, do Movimento dos Afetados pelas Represas de Altamira. Ele e outros membros de comunidades afetadas por megaprojetos se queixam de n\u00e3o serem devidamente consultados. Os movimentos de resist\u00eancia crescem, mas enfrentam uma de suas \u201cmaiores contradi\u00e7\u00f5es: muitos dos desalojados s\u00e3o, ao mesmo tempo, empregados\u201d de Belo Monte, explicou Oliveira.<\/p>\n<p>No Chile, duas grandes obras geraram resist\u00eancias semelhantes. O projeto HidroAys\u00e9n, na Patag\u00f4nia chilena, \u00e9 formado por cinco grandes hidrel\u00e9tricas que implicam danificar a \u00e1rea de maior biodiversidade desse pa\u00eds. A extensa linha de transmiss\u00e3o exigida para atender a demanda da minera\u00e7\u00e3o no norte, de dois mil quil\u00f4metros, atravessar\u00e1 oito regi\u00f5es, mas em nenhuma entregar\u00e1 eletricidade. Essa obra est\u00e1 suspensa devido a demandas judiciais.<\/p>\n<p>Mais ao norte, a mina binacional de ouro e prata Pascua Lama, da canadense Barrick Gold, fica na Cordilheira dos Andes, entre Chile e Argentina. Reiteradas den\u00fancias sobre contamina\u00e7\u00e3o de \u00e1gua e destrui\u00e7\u00e3o de duas geleiras levaram, em abril, \u00e0 decis\u00e3o judicial de suspender temporariamente sua constru\u00e7\u00e3o. A empresa acaba de anunciar que, por problemas econ\u00f4micos vinculados \u00e0 cota\u00e7\u00e3o do outro, decidiu suspender a obra.<\/p>\n<p>Na regi\u00e3o amaz\u00f4nica boliviana do rio Beni, os povos ind\u00edgenas aguardam informa\u00e7\u00e3o sobre os impactos da constru\u00e7\u00e3o do projeto hidrel\u00e9trico de Cachuela Esperanza, com capacidade de 990 megawatts e custo de US$ 2 bilh\u00f5es, para exportar energia para o Brasil. Ambientalistas alertam que provocar\u00e1 um desequil\u00edbrio na natureza pela inunda\u00e7\u00e3o de aproximadamente mil quil\u00f4metros quadrados de terras habitadas.<\/p>\n<p>De volta ao Par\u00e1, o gerente de Meio Ambiente, Seguran\u00e7a e Sa\u00fade da corpora\u00e7\u00e3o do alum\u00ednio Albras, Jos\u00e9 Etrusco, considera que grandes hidrel\u00e9tricas, como Belo Monte, representam a melhor rela\u00e7\u00e3o custo-benef\u00edcio, embora deixem desalojadas comunidades nativas. \u201cTemos que fazer isso ou ficaremos \u00e0s escuras\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Na Col\u00f4mbia, a constru\u00e7\u00e3o de um complexo de t\u00faneis no Alto de La L\u00ednea, em plena Cordilheira Central, gera outro tipo de problema. Os t\u00faneis s\u00e3o fundamentais para habilitar a liga\u00e7\u00e3o rodovi\u00e1ria leste-oeste, desde a Venezuela, passando por Bogot\u00e1 e terminando em Boaventura, \u00fanico porto colombiano no Oceano Pac\u00edfico. Trata-se da coluna vertebral do com\u00e9rcio internacional colombiano e uma via crucial para a sa\u00edda da Venezuela para o Pac\u00edfico.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, enquanto \u00e9 conclu\u00eddo o primeiro trecho, ambientalistas afirmam que o Servi\u00e7o Geol\u00f3gico Nacional vem alertando, desde 1999, sobre o perigo de erup\u00e7\u00e3o do vulc\u00e3o Mach\u00edn, que fica pr\u00f3ximo da obra, um dado que nem mesmo consta do estudo de impacto ambiental.<\/p>\n<p>Para o engenheiro florestal Paulo Barreto, do instituto brasileiro Imazon, o que est\u00e1 em quest\u00e3o \u00e9 \u201co custo verdadeiro\u201d destas obras: os ambientais, como o agravamento da mudan\u00e7a clim\u00e1tica, os socioecon\u00f4micos, como a concentra\u00e7\u00e3o da propriedade agr\u00e1ria, e os problemas sociais nas novas \u00e1reas urbanizadas. \u201cQuem vai pagar a conta?\u201d, questiona Barreto.<\/p>\n<p>O professor de direito agr\u00e1rio da UFPA, Jos\u00e9 Benatti, pergunta por outro custo: quem absorver\u00e1 a m\u00e3o de obra migrante que ficar desempregada quando forem conclu\u00eddos os megaprojetos? Pedro Bara, da organiza\u00e7\u00e3o conservacionista WWF Brasil, prop\u00f4s uma metodologia para analisar no longo prazo os impactos das grandes obras \u201cem seu conjunto\u201d e \u201cprojeto a projeto\u201d.<\/p>\n<p>Como base para essa an\u00e1lise, a Iniciativa Amaz\u00f4nia Viva do WWF fez um exaustivo estudo dos diferentes ecossistemas amaz\u00f4nicos que s\u00e3o necess\u00e1rios conservar para que o bioma n\u00e3o desapare\u00e7a. Essa vis\u00e3o de conjunto, pontuou Bara, deveria incluir um planejamento regional, especialmente em \u00e1reas sens\u00edveis e compartilhadas como a Amaz\u00f4nia. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p><em>* Com colabora\u00e7\u00f5es de Estrella Guti\u00e9rrez (Venezuela), Constanza Vieira (Col\u00f4mbia), Marianela Jarroud (Chile), Franz Ch\u00e1vez (Bol\u00edvia).<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Bel&eacute;m, Brasil, 5\/11\/2013 &ndash; De celeiro do mundo, no s&eacute;culo passado, a grande canteiro de megaprojetos internacionais de infraestrutura, energia e minera&ccedil;&atilde;o, a Am&eacute;rica do Sul enfrenta um novo dilema: impulsionar sua economia com a promessa de reduzir a desigualdade, ao pre&ccedil;o de custos sociais e ambientais que j&aacute; apresentam a conta. 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