{"id":1684,"date":"2006-04-13T00:00:00","date_gmt":"2006-04-13T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=1684"},"modified":"2006-04-13T00:00:00","modified_gmt":"2006-04-13T00:00:00","slug":"infancia-licenca-para-maltratar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/04\/mundo\/infancia-licenca-para-maltratar\/","title":{"rendered":"Inf\u00e2ncia: Licen\u00e7a para maltratar"},"content":{"rendered":"<p>Lisboa, 13\/04\/2006 &ndash; Em uma decis\u00e3o que deixou at\u00f4nitas as organiza\u00e7\u00f5es defensoras dos direitos humanos e da inf\u00e2ncia, o pr\u00f3prio Col\u00e9gio de Advogados e os principais analistas de Portugal, o Supremo Tribunal de Justi\u00e7a decidiu a favor da pedagogia do castigo f\u00edsico contra crian\u00e7as portadoras de necessidades especiais. <!--more--> O primeiro a levantar sua voz foi o presidente da Associa\u00e7\u00e3o Portuguesa de Deficientes (APD), Humberto Santos, ao afirmar, nesta quarta-feira, que considera &quot;preocupante e indigno&quot; que o m\u00e1ximo tribunal do pa\u00eds defenda os maus-tratos f\u00edsicos contra meninas e meninos com problemas de desenvolvimento mental.            <\/p>\n<p>Esta linha de conduta &quot;j\u00e1 \u00e9 uma agress\u00e3o inqualific\u00e1vel por parte de quem a pratica, e muito mais preocupante e profundamente repugnante quando defendida por um tribunal&quot;, acrescentou Santos. O Supremo considerou &quot;l\u00edcitos e aceit\u00e1veis&quot; castigos f\u00edsicos como palmadas e bofetadas, segundo consta em uma senten\u00e7a sobre o recurso apresentado pela respons\u00e1vel por um abrigo infantil em Set\u00fabal, 40 quil\u00f4metros ao sul de Lisboa, condenada em primeira inst\u00e2ncia por maltrato de crian\u00e7as, incluindo agress\u00f5es f\u00edsicas e deix\u00e1-las trancadas em quartos escuros.<\/p>\n<p>As agress\u00f5es aconteceram entre 1990 e 2000, mas o caso foi julgado no final do ano passado, quando o Tribunal de Set\u00fabal considerou provado que a acusada costumava trancar na despensa e no escuro um menor de sete anos que sofria de psicose infantil muito grave, enquanto outro era habitualmente amarrado a sua cama. Este tribunal condenou a acusada a 18 meses de pris\u00e3o, acreditando, assim, encerrar um caso que comoveu a opini\u00e3o p\u00fablica pela crueldade contra crian\u00e7as com problemas mentais. No entanto, em sua senten\u00e7a, noticiada nesta quarta-feira pelo jornal lisboeta P\u00fablico, o STJ afirma o contr\u00e1rio e deixa a mulher em liberdade.<\/p>\n<p>Trancar crian\u00e7as em salas escuras \u00e9 um castigo normal de &quot;um bom pai de fam\u00edlia&quot;. J\u00e1 as bofetadas e palmadas, se n\u00e3o fossem aplicadas, poderiam, inclusive, configurar &quot;neglig\u00eancia educacional&quot;, afirmou o jornal citando a senten\u00e7a judicial. Segundo Santos, a decis\u00e3o do STJ se inscreve em &quot;um quadro descritivo da Idade M\u00e9dia?, o que coloca a Justi\u00e7a portuguesa &quot;em uma grotesca viola\u00e7\u00e3o dos direitos humanos&quot;, criando um precedente para que &quot;outros que agem de maneira semelhante continuem com as agress\u00f5es&quot;. O presidente da APD acrescentou que este caso, por sua gravidade, deveria ser levado ao Tribunal Europeu de Direitos Humanos.<\/p>\n<p>Ana Filgueiras, presidente da Associa\u00e7\u00e3o Cidad\u00e3os do Mundo, dedicada \u00e0 defesa da inf\u00e2ncia vulner\u00e1vel, disse \u00e0 IPS que &quot;esta senten\u00e7a indigna tem como efeito o fato de um cidad\u00e3o simplesmente n\u00e3o poder acreditar na Justi\u00e7a que n\u00e3o reconhece uma crian\u00e7a, com a agravante de ser deficiente. Nem sequer o direito de n\u00e3o apanhar&quot;, acrescentou. Durante sua resid\u00eancia no Brasil, entre 1975 e 1990, Filgueiras foi uma destacada dirigente do Centro de Defesa dos Direitos da Crian\u00e7a e do Adolescente, onde ganhou v\u00e1rias batalhas contra autoridades civis, judiciais e militares empenhadas em &quot;limpar&quot; de crian\u00e7as as ruas do Rio de Janeiro. &quot;Uma experi\u00eancia muito dif\u00edcil de repetir em Portugal, onde a sociedade civil \u00e9 instrumentalizada pelo Estado&quot;, explica a ativista com des\u00e2nimo.<\/p>\n<p>Filgueiras conclui dizendo que &quot;em qualquer pa\u00eds civilizado, diante de uma senten\u00e7a indecente como esta, surgiria uma onda de indigna\u00e7\u00e3o tamanha que o STJ se veria em s\u00e9rios apertos para justificar o injustific\u00e1vel&quot;. Opini\u00f5es semelhantes foram expressas pelo Col\u00e9gio de Advogados (CA), ao qualificar de &quot;&#039;perigosa&quot; a senten\u00e7a do Supremo Tribunal de Justi\u00e7a. Carlos Antunes, membro da Comiss\u00e3o de Direitos Humanos da entidade disse que, ao considerar &quot;l\u00edcitos&quot; os castigos corporais a crian\u00e7as deficientes, a senten\u00e7a do STJ \u00e9 &quot;impr\u00f3pria&quot; e &quot;muito grave?, porque &quot;abre um p\u00e9ssimo precedente e transmite uma mensagem muito perigosa, que n\u00e3o parte de qualquer tribunal, mas do tribunal superior&quot;.<\/p>\n<p>O especialista revelou que a Comiss\u00e3o aguarda para conhecer na \u00edntegra a senten\u00e7a para &quot;tomar uma posi\u00e7\u00e3o formal e dura&quot; sobre o caso que mereceu uma senten\u00e7a &quot;muito preocupante, por permitir um crime de maus-tratos&quot;. Consultado sobre se a decis\u00e3o do STJ pode criar jurisprud\u00eancia, Antunes disse n\u00e3o ter &quot;nenhuma d\u00favida de que no futuro esta senten\u00e7a poder\u00e1 ser invocada em outros casos para atenuar a culpa de quem vier a cometer maus-tratos contra crian\u00e7as&quot;. A decis\u00e3o &quot;beira o incompreens\u00edvel e \u00e9 completamente absurda&quot;, afirmou. Em termos semelhantes se expressou Pedro Biscaia, tamb\u00e9m membro da Comiss\u00e3o. &quot;Isto \u00e9 abrir uma porta \u00e0 impunidade para uma s\u00e9rie de comportamentos que s\u00e3o absolutamente evit\u00e1veis em nossa sociedade, onde em nossos dias se vivem problemas de agress\u00f5es a menores em institui\u00e7\u00f5es e em situa\u00e7\u00f5es de pobreza e mis\u00e9ria&quot;, afirmou.<\/p>\n<p>Por sua vez, Frederico Marques, da Associa\u00e7\u00e3o Portuguesa de Apoio \u00e0s V\u00edtimas (Apav), qualificou de &quot;insensata&quot; a decis\u00e3o do STJ. Marques n\u00e3o quis comentar a senten\u00e7a em termos concretos, por n\u00e3o conhecer todo o processo, mas, mesmo assim, recordou a respeito da acusada, que por princ\u00edpio a Apav &quot;repudia este tipo de comportamento&quot;. Al\u00e9m disso, considerou que a decis\u00e3o parece muito insensata, devido ao clima de inquieta\u00e7\u00e3o que se vive em rela\u00e7\u00e3o aos direitos da inf\u00e2ncia&quot;.<\/p>\n<p>Mais cautelosos, os respons\u00e1veis governamentais ainda n\u00e3o emitiram ju\u00edzo sobre a ins\u00f3lita decis\u00e3o dos mais altos magistrados da na\u00e7\u00e3o. Acossado pelos jornalistas, o ministro do Bem-Estar Social, Jos\u00e9 Vieira da Silva, se limitou a indicar que nos abrigos para crian\u00e7as que dependem de sua pasta &quot;\u00e9 rigidamente proibido a aplica\u00e7\u00e3o de castigo f\u00edsico, sem nenhuma exce\u00e7\u00e3o&quot;. Manuel Coutinho, do estatal Instituto de Apoio \u00e0 Inf\u00e2ncia, evitou comentar a senten\u00e7a explicando que ainda n\u00e3o teve acesso ao processo. Limitou-se a recordar que &quot;todos os adultos que aplicam maus-tratos a crian\u00e7as podem incorrer em uma pena que se traduz em pris\u00e3o efetiva de um a cinco anos&quot;.<\/p>\n<p>A senten\u00e7a do STJ tamb\u00e9m desafia as obriga\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas internacionais de Portugal, que no dia 21 de setembro de 1990 ratificou a Conven\u00e7\u00e3o sobre os Direitos da Crian\u00e7a, adotada unanimemente pela Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas em 20 de novembro de 1989. A Conven\u00e7\u00e3o cria um v\u00ednculo jur\u00eddico que obriga os pa\u00edses signat\u00e1rios a cumprir um amplo conjunto de direitos aplicados \u00e0 inf\u00e2ncia. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lisboa, 13\/04\/2006 &ndash; Em uma decis\u00e3o que deixou at\u00f4nitas as organiza\u00e7\u00f5es defensoras dos direitos humanos e da inf\u00e2ncia, o pr\u00f3prio Col\u00e9gio de Advogados e os principais analistas de Portugal, o Supremo Tribunal de Justi\u00e7a decidiu a favor da pedagogia do castigo f\u00edsico contra crian\u00e7as portadoras de necessidades especiais. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/04\/mundo\/infancia-licenca-para-maltratar\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":256,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6,4],"tags":[21],"class_list":["post-1684","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-direitos-humanos","category-mundo","tag-metas-do-milenio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1684","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/256"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1684"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1684\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1684"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1684"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1684"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}