{"id":16843,"date":"2013-11-07T13:55:48","date_gmt":"2013-11-07T13:55:48","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=102286"},"modified":"2013-11-07T13:55:48","modified_gmt":"2013-11-07T13:55:48","slug":"as-criancas-trans-existem-e-querem-ser-felizes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/11\/ultimas-noticias\/as-criancas-trans-existem-e-querem-ser-felizes\/","title":{"rendered":"As crian\u00e7as trans existem e querem ser felizes"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_102287\" style=\"width: 463px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/criancas.jpg\"><img class=\"size-full wp-image-102287\" alt=\"criancas As crian\u00e7as trans existem e querem ser felizes\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/criancas.jpg\" width=\"453\" height=\"472\" title=\"As crian\u00e7as trans existem e querem ser felizes\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">\u201cMeio homem, meio mulher\u201d: desenho de uma menina de oito anos, de Arag\u00f3n, que mostra seu conflito antes que sua fam\u00edlia aceitasse sua identidade feminina. \u201cA parte do homem tem o cora\u00e7\u00e3o partido\u201d, disse a menina, que nasceu homem, \u00e0 sua m\u00e3e. Foto: Cortesia Associa\u00e7\u00e3o Chrysalis<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>M\u00e1laga, Espanha e Buenos Aires, Argentina, 7\/11\/2013 \u2013 Enquanto em v\u00e1rios lugares do planeta a inclina\u00e7\u00e3o sexual pode ser punida com a morte, em outros o direito de escolher a identidade de g\u00eanero se conquista na primeira inf\u00e2ncia, abrindo, assim, todo um novo campo de desafios. Gabi nasceu h\u00e1 seis anos com genitais masculinos, mas sempre se vestiu de princesa, usou colares e simulou tran\u00e7as para que todos vissem nela uma menina.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o s\u00e3o crian\u00e7as presas em um corpo errado, mas crian\u00e7as que nascem com genitais contr\u00e1rios ao g\u00eanero com o qual se identificam\u201d, disse \u00e0 IPS a m\u00e3e de Gabi, Pilar S\u00e1nchez, em sua casa na cidade espanhola de M\u00e1laga. Em um arm\u00e1rio guarda, desde setembro, sem usar, a saia verde do uniforme feminino da escola frequentada por Gabi e seus dois irm\u00e3os, de oito e 13 anos. A escola n\u00e3o permite que se vista como as demais meninas, contrariando as diretrizes fixadas pelo governo da comunidade de Andaluzia.<\/p>\n<p>Junto \u00e0 m\u00e3e de Gabi, outras duas fam\u00edlias de meninos transexuais de oito e nove anos, matriculados em escolas de M\u00e1laga, solicitaram ao governo andaluz que seus filhos fossem chamados em aula com o nome do g\u00eanero com o qual se identificam, pudessem vestir roupa ou uniforme segundo sua identidade sexual e escolher o banheiro que usariam.<\/p>\n<p>Duas escolas acataram a decis\u00e3o do governo, favor\u00e1vel \u00e0s fam\u00edlias. N\u00e3o a de Gabi. Nessa escola, uma centena de m\u00e3es e pais tacham a medida de \u201carbitr\u00e1ria\u201d e garantem que \u201cn\u00e3o se pensa nos efeitos adversos que pode provocar no normal desenvolvimento social e psicol\u00f3gico dos demais alunos\u201d, segundo uma carta que assinaram e enviaram ao governo da comunidade.<\/p>\n<p>\u201cIsso n\u00e3o \u00e9 um capricho infantil. As crian\u00e7as transexuais s\u00e3o uma realidade que est\u00e1 ofuscada pelos preconceitos\u201d, ressaltou S\u00e1nchez. Ela reconhece que vive um \u201cpesadelo\u201d, porque sou \u201ca louca do col\u00e9gio, quando s\u00f3 o que quero \u00e9 ver meu filho feliz\u201d. \u201cT\u00eam direito de ser felizes, serem quem s\u00e3o. Negar isso \u00e9 uma crueldade e um crime\u201d, afirmou Mar Cambroll\u00e9, a presidente da Associa\u00e7\u00e3o de Transexuais de Andaluzia durante algumas jornadas contra a discrimina\u00e7\u00e3o e os crimes de \u00f3dio realizadas no dia 24 de outubro em M\u00e1laga.<\/p>\n<p>\u201cEm um Estado aconfessional devem prevalecer as leis e o direito sobre as ideologias e a religi\u00e3o\u201d, destacou Cambroll\u00e9 sobre a atitude do col\u00e9gio de Gabi, gerido por uma funda\u00e7\u00e3o da Igreja Cat\u00f3lica e subvencionado em parte com dinheiro p\u00fablico. O princ\u00edpio de igualdade e de n\u00e3o discrimina\u00e7\u00e3o por raz\u00e3o de sexo consta do Artigo 14 da Constitui\u00e7\u00e3o espanhola.<\/p>\n<p>Enquanto enrola a fieira em um pi\u00e3o, Carlos Mart\u00edn, de nove anos, cabelo curto e pele morena, diz \u00e0 IPS que est\u00e1 animado em sua nova escola de M\u00e1laga, onde \u00e9 tratado como o menino que se sente, apesar de ter nascido menina. \u201cSe portaram mal com meu menino desde que tinha sete anos\u201d, lamenta sua m\u00e3e, Mar\u00eda Gracia Garc\u00eda, se referindo ao col\u00e9gio anterior, \u201cum inferno\u201d onde o chamavam de \u201ctravesti\u201d e o submetiam a \u201cmaus tratos\u201d.<\/p>\n<p>Os centros educacionais espanh\u00f3is n\u00e3o contam com protocolos de atua\u00e7\u00e3o para casos de menores transexuais. \u201cS\u00e3o crian\u00e7as que t\u00eam pesadelos, que n\u00e3o podem se concentrar, que n\u00e3o querem ir \u00e0 escola. Trat\u00e1-los de acordo com o g\u00eanero com o qual se identificam \u00e9 devolver-lhes a felicidade\u201d, afirmou Cambroll\u00e9. Segundo ela, a identidade de g\u00eanero \u201c\u00e9 um sentimento inato e imut\u00e1vel que se estabiliza entre dois e cinco anos de idade\u201d.<\/p>\n<p>Eva Witt, m\u00e3e de David, que nasceu menina h\u00e1 oito anos, destaca que as crian\u00e7as, \u201cdesde que come\u00e7am a se expressar, reclamam sua identidade de forma persistente. Desenham a si mesmos de acordo com o g\u00eanero em que se sentem e assumem esse papel nas brincadeiras\u201d. Aos seis anos, David obteve um documento de identidade com seu nome masculino, um dos tr\u00eas concedidos at\u00e9 agora na Espanha para menores transg\u00eanero, segundo Witt, presidente da Associa\u00e7\u00e3o Chrysalis, com meia centena de fam\u00edlias espanholas com meninas e meninos transexuais.<\/p>\n<p>Na Argentina se foi mais al\u00e9m. Luana, de seis anos, que nasceu menino junto com seu irm\u00e3o g\u00eameo, j\u00e1 figura como sendo do g\u00eanero feminino em seu documento de identidade e na retificada certid\u00e3o de nascimento. Para a fam\u00edlia, a hist\u00f3ria foi muito dram\u00e1tica e a levou a consultar m\u00e9dicos e psic\u00f3logos, contou \u00e0 IPS sua m\u00e3e, Gabriela. O processo foi doloroso, mas ela diz que agora a menina \u00e9 feliz. A psic\u00f3loga de Luana, Valeria Pav\u00e1n, acrescentou que \u201cn\u00e3o h\u00e1 patologia nem d\u00e9ficit de nenhum tipo. Ela simplesmente constr\u00f3i sua identidade de maneira diferente, e n\u00f3s profissionais devemos refletir sobre como isso incide em nossa pr\u00e1tica\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 a primeira vez que um Estado interv\u00e9m no reconhecimento de uma identidade transexual de forma t\u00e3o precoce e sem exigir um processo judicial, segundo a Comunidade Homossexual Argentina. \u201cDe repente, voc\u00ea entende tudo, todas as pe\u00e7as se encaixam. Se d\u00e1 conta de que n\u00e3o estava permitindo sua filha de ser quem era\u201d, disse \u00e0 IPS a m\u00e3e de uma menina de nove anos de Arag\u00f3n (nordeste da Espanha) que nasceu com corpo de homem. Desde que foi reconhecida como g\u00eanero feminino \u201c\u00e9 muito feliz\u201d e quer ir \u00e0 rua com seu cabelo sem cortar e seus vestidos.<\/p>\n<p>Mas as fam\u00edlias ouvidas pela IPS n\u00e3o podem deixar de olhar o futuro e se preocupam com o que acontecer\u00e1 quando seus filhos e filhas chegarem \u00e0 puberdade. Na Espanha n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel recorrer a cirurgias de mudan\u00e7a de sexo at\u00e9 a maioridade. Mas \u00e9 poss\u00edvel iniciar um tratamento revers\u00edvel com bloqueadores hormonais, que ajudam a evitar o sofrimento de adolescentes \u201cque prendem os seios\u201d para esconder as mudan\u00e7as f\u00edsicas que a biologia imp\u00f5e, afirmou Witt.<\/p>\n<p><b>Leis trans<\/b><\/p>\n<p>A Argentina reconhece por lei o direito das pessoas serem definidas em seus documentos com a identidade de g\u00eanero com a qual se autopercebem inclusive na inf\u00e2ncia, se seus pais est\u00e3o de acordo, para o qual s\u00f3 falta um tr\u00e2mite administrativo.<\/p>\n<p>Em Andaluzia, grupos transexuais conseguiram, no dia 6, que fosse desbloqueado o tr\u00e2mite parlamentar do projeto de Lei Integral de Transexualidade, prometido desde 2009, e suspenderam, portanto, uma greve de fome que planejavam iniciar hoje. Essa iniciativa estabelece a livre autodetermina\u00e7\u00e3o do g\u00eanero e a descentraliza\u00e7\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o sanit\u00e1ria, e p\u00f5e fim ao tratamento da transexualidade como uma patologia.<\/p>\n<p>No momento, uma pessoa transexual que necessite de aten\u00e7\u00e3o sanit\u00e1ria p\u00fablica em Andaluzia deve ir at\u00e9 \u00e0 Unidade de Transexualidade e Identidade de G\u00eanero, do hospital provincial de M\u00e1laga. Nesse local s\u00e3o feitos exames psicol\u00f3gicos que determinam, para o sistema de sa\u00fade, se a pessoa \u00e9 transexual e tem direito, portanto, a tratamentos com horm\u00f4nios ou cirurgia. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p><em>* Com colabora\u00e7\u00e3o de Marcela Valente (Buenos Aires).<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; M&aacute;laga, Espanha e Buenos Aires, Argentina, 7\/11\/2013 &ndash; Enquanto em v&aacute;rios lugares do planeta a inclina&ccedil;&atilde;o sexual pode ser punida com a morte, em outros o direito de escolher a identidade de g&ecirc;nero se conquista na primeira inf&acirc;ncia, abrindo, assim, todo um novo campo de desafios. 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