{"id":16851,"date":"2013-11-08T12:16:44","date_gmt":"2013-11-08T12:16:44","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=102363"},"modified":"2013-11-08T12:16:44","modified_gmt":"2013-11-08T12:16:44","slug":"vendi-minha-irma-por-us-300","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/11\/ultimas-noticias\/vendi-minha-irma-por-us-300\/","title":{"rendered":"\u201cVendi minha irm\u00e3 por US$ 300\u201d"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_102365\" style=\"width: 539px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/zaatari640.jpg\"><img class=\" wp-image-102365 \" alt=\"zaatari640 \u201cVendi minha irm\u00e3 por US$ 300\u201d\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/zaatari640.jpg\" width=\"529\" height=\"319\" title=\"\u201cVendi minha irm\u00e3 por US$ 300\u201d\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Esta rua, que atravessa o acampamento de refugiados de Zaatari, na Jord\u00e2nia, recebeu o nome de Campos El\u00edseos. Homens \u00e1rabes se aproximam para comprar virgens. Foto: Liny Mutsaers\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Acampamento de Zaatari, Jord\u00e2nia, 8\/11\/2013 \u2013 Amani acaba de completar 22 anos. H\u00e1 dois meses abandonou sua casa em Damasco para fugir da guerra civil s\u00edria. Ap\u00f3s uma viagem perigosa que demorou toda a noite, chegou a Zaatari, o acampamento de refugiados na fronteira da Jord\u00e2nia, onde j\u00e1 h\u00e1 um ano viviam seus pais e duas irm\u00e3s. Em Damasco, Amani viveu com seu marido e cinco filhos em um apartamento em plena cidade velha. Como muitas s\u00edrias, se casou quando ainda era menina.<\/p>\n<p>Acabava de completar 15 anos quando encontrou o homem de seus sonhos e decidiu casar. \u201cNa S\u00edria as coisas s\u00e3o diferentes\u201d, disse \u00e0 IPS. \u201cAs jovens se casam muito cedo; \u00e9 uma tradi\u00e7\u00e3o. Mas isso n\u00e3o significa que todas se casam com estranhos. Eu escolhi meu marido e ele me escolheu. N\u00e3o poder\u00edamos ter sido mais felizes do que quando est\u00e1vamos juntos\u201d, enfatizou. Depois de ter seus cinco filhos, a guerra civil estourou no pa\u00eds que ama, mas cujas pol\u00edticas considera injustas e cujo governo lhe parece ser corrupto.<\/p>\n<p>Viver na capital, que ainda est\u00e1 sob o controle do presidente Bashar al Assad, n\u00e3o lhe facilitou as coisas. Seu marido pegou em armas desde os primeiros dias da revolta armada e se integrou ao Ex\u00e9rcito Livre S\u00edrio. Logo se converteu em l\u00edder de um dos maiores batalh\u00f5es que combatiam o regime em Damasco. A pr\u00f3pria Amani combatia em fileiras rebeldes, apesar dos cinco filhos para cuidar. \u201cAs mulheres s\u00e3o t\u00e3o fortes quanto os homens, mas \u00e0s vezes somos mais estrat\u00e9gicas. Um n\u00e3o pode funcionar sem o outro\u201d, pontuou.<\/p>\n<p>Contudo, um ataque contra seu apartamento matou seu marido e quatro filhos. Amani escapou e s\u00f3 conseguiu salvar sua filha mais nova. \u201cQuando ouvi que se aproximavam os avi\u00f5es do regime, escondi minha filhinha debaixo da pia da cozinha. Cabia certinho no pequeno espa\u00e7o que havia junto ao lixo. Era apenas um beb\u00ea. As outras crian\u00e7as tinham corrido para o pai em busca de prote\u00e7\u00e3o. E eu, cheia de p\u00e2nico e para ver o que estava ocorrendo, corri para a rua\u201d, contou Amani. \u201cSegundos depois de chegar \u00e0 rua, uma explos\u00e3o destruiu todo apartamento. Entre os escombros s\u00f3 consegui encontrar minha pequena\u201d, completou.<\/p>\n<p>Depois da trag\u00e9dia, Amani fez a perigosa viagem de Damasco at\u00e9 o acampamento de refugiados. Mas a vida em Zaatar absolutamente n\u00e3o foi um al\u00edvio. \u201cEstamos fechados como macacos em jaula. T\u00e3o logo se entra no acampamento, j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 como sair\u201d, ressaltou. O acampamento est\u00e1 superpovoado. Um mar de barracas de campanha ocupa 3,3 quil\u00f4metros quadrados e abriga 150 mil refugiados, tr\u00eas vezes a quantidade para a qual foi constru\u00eddo h\u00e1 quase dois anos.<\/p>\n<p>O assentamento, em meio a um \u00e1rido deserto, sofre tempestades de areia e doen\u00e7as. A pouca ajuda humanit\u00e1ria n\u00e3o chega a todas as pessoas que dela precisam. Os que querem p\u00e3o ou cobertas para se proteger do frio t\u00eam de compr\u00e1-los dos que recebem essa ajuda gratuitamente e depois a vendem ilegalmente. No acampamento se consolidou uma economia clandestina. A luta pelos alimentos \u00e9 feroz, e s\u00f3 uns poucos afortunados ganham dinheiro suficiente para manter uma fam\u00edlia.<\/p>\n<p>\u201cTrabalho sete dias por semana, pelo menos dez horas por dia, para uma organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental que cuida das crian\u00e7as menores do acampamento. Depois de trabalhar uma semana inteira, recebo US$ 3. Com uma m\u00e3e doente, um pai idoso e um beb\u00ea para cuidar, essa vida \u00e9 insustent\u00e1vel\u201d, lamentou Amani. \u201cMinha irm\u00e3 mais velha e seu marido ainda t\u00eam todos os filhos, gra\u00e7as a Deus, mas isso significa cinco bocas a mais para alimentar\u201d, destacou.<\/p>\n<p>Alimentar uma fam\u00edlia de dez integrantes com apenas US$ 3 por semana \u00e9 imposs\u00edvel.\u00a0 Amani trouxe sua irm\u00e3 mais nova, Amara, para que trabalhasse na mesma organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental. Mas duplicar a renda n\u00e3o foi suficiente para manter a todos. Havia apenas uma maneira de obter dinheiro rapidamente, um caminho que muitas fam\u00edlias j\u00e1 haviam seguido antes de Amani: vender uma das mo\u00e7as. Amani vendeu sua irm\u00e3 Amara, de 14 anos, para uma esp\u00e9cie de casamento.<\/p>\n<p>Trata-se, nem mais nem menos, da venda de mulheres virgens. \u201cNa S\u00edria n\u00e3o \u00e9 raro se casar aos 16 anos. A maioria dos homens \u00e1rabes sabe disso e frequentemente viajam \u00e0 S\u00edria em busca de uma noiva jovem. Nesses dias v\u00eam busc\u00e1-las nos acampamentos, onde quase todos est\u00e3o desesperados para partir\u201d, apontou. \u201cVi jordanianos, eg\u00edpcios e sauditas passando pelas barracas em busca de uma virgem para levar consigo. Pagam US$ 300 e obt\u00eam a menina de seus sonhos\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Amani alega que n\u00e3o teve op\u00e7\u00e3o. \u201cEu sabia que ela n\u00e3o estava namorando, mas tamb\u00e9m sabia que ele cuidaria dela. Teria vendido a mim mesma, mas Amara era a \u00fanica virgem em nossa fam\u00edlia. Tivemos que vend\u00ea-la para que o restante da fam\u00edlia sobrevivesse. O que mais podia fazer?\u201d, perguntou.<\/p>\n<p>Foi assim que Amara se casou com um saudita que passou por sua barraca e pediu sua m\u00e3o ao seu pai. Isso foi depois de ter conhecido Amani, que lhe falou do desespero financeiro da fam\u00edlia e de sua irm\u00e3 mais nova, que ainda n\u00e3o haviam casado. Com esse matrim\u00f4nio, Amani obteve uma quantia vital para manter sua fam\u00edlia, pelo menos por agora. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Acampamento de Zaatari, Jord&acirc;nia, 8\/11\/2013 &ndash; Amani acaba de completar 22 anos. H&aacute; dois meses abandonou sua casa em Damasco para fugir da guerra civil s&iacute;ria. 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