{"id":16852,"date":"2013-11-08T12:08:06","date_gmt":"2013-11-08T12:08:06","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=102359"},"modified":"2013-11-08T12:08:06","modified_gmt":"2013-11-08T12:08:06","slug":"os-ciganos-bode-expiatorio-da-uniao-europeia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/11\/ultimas-noticias\/os-ciganos-bode-expiatorio-da-uniao-europeia\/","title":{"rendered":"Os ciganos, bode expiat\u00f3rio da Uni\u00e3o Europeia"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 13px; line-height: 19px;\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/UE.jpg\"><img class=\"alignleft size-full wp-image-102361\" alt=\"UE Os ciganos, bode expiat\u00f3rio da Uni\u00e3o Europeia\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/UE.jpg\" width=\"212\" height=\"209\" title=\"Os ciganos, bode expiat\u00f3rio da Uni\u00e3o Europeia\" \/><\/a><\/span><\/p>\n<p>Miami, Estados Unidos, novembro\/2013 \u2013 Continua a tr\u00e1gica avalanche imigrat\u00f3ria para territ\u00f3rio europeu no Mar Mediterr\u00e2neo. Continuam as mortes. Continuam os sepultamentos de homens, mulheres, crian\u00e7as. Continua a dispers\u00e3o de seus cad\u00e1veres em caix\u00f5es ultrapassando as reduzidas dimens\u00f5es de Lampedusa, derramando-se pela Sic\u00edlia.<\/p>\n<p>E continuam certos seres humanos tragados nas entranhas do \u201cMare Nostrum\u201d. \u00c9 um curioso nome romano para um espa\u00e7o que resiste a ser dominado desde o cora\u00e7\u00e3o da Europa.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 que no pr\u00f3prio epicentro da regi\u00e3o mais rica do planeta os pr\u00f3prios Estados se sentem impotentes para impor ordem interna e recorrem \u00e0 for\u00e7a para decidir quem tem direito a viver e residir e quem deve partir, por bem ou por mal.<\/p>\n<p>As trag\u00e9dias marinhas ficaram ainda mais dram\u00e1ticas pelo pen\u00faltimo incidente da intermin\u00e1vel s\u00e9rie de r\u00e1pidas e contraproducentes decis\u00f5es governamentais.<\/p>\n<p>Dessa vez foi a vergonhosa expuls\u00e3o da Fran\u00e7a de uma menina de vaga origem kosovar (embora nascida na It\u00e1lia). Leonarda Dibrani, de 15 anos, foi sumariamente detida durante uma viagem cultural de sua escola, junto com sua m\u00e3e e seus irm\u00e3os. Em bloco foram rapidamente enviados por via a\u00e9rea \u00e0 localidade de Mitrovica, onde sua fam\u00edlia cigana viveu no passado.<\/p>\n<p>Tecnicamente ap\u00e1trida, o comportamento de seu pai n\u00e3o encaixava com as regras sociais francesas. Assim, o ministro do Interior, Manuel Valls, decretou a deporta\u00e7\u00e3o, gerando vivos protestos generalizados.<\/p>\n<p>Depois, cedo ou tarde, ro\u00e7ando a desautoriza\u00e7\u00e3o de seu ministro, o presidente Fran\u00e7ois Hollande hipocritamente ofereceu a Leonarda regressar \u00e0 Fran\u00e7a, mas sem sua fam\u00edlia, esmola que foi recha\u00e7ada: todos ou nenhum, disse a menina.<\/p>\n<p>Este novo cap\u00edtulo de aplica\u00e7\u00e3o das leis nacionais dos pa\u00edses da Uni\u00e3o Europeia (UE) recorda as s\u00e9rias tens\u00f5es das sociedades que atribuem a diversas dimens\u00f5es da imigra\u00e7\u00e3o (legal e ilegal) as causas dos problemas econ\u00f4micos e de \u00edndole criminosa.<\/p>\n<p>Em abril de 2011, durante o mandato de Nicolas Sarkozy, o governo franc\u00eas ordenou o fechamento da fronteira com a It\u00e1lia, violando o acordo de Schengen, para deter o \u00eaxodo de imigrantes do norte da \u00c1frica que utilizariam o solo italiano como simples zona de passagem, para se unirem \u00e0s comunidades oriundas do Magreb firmemente estabelecidas em territ\u00f3rio da Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Essa decis\u00e3o provocou a firme advert\u00eancia da UE, que recordava a anterior recrimina\u00e7\u00e3o quando o mesmo Sarkozy, em agosto de 2010, ordenou a deporta\u00e7\u00e3o em massa de ciganos, sem importar que fossem cidad\u00e3os romenos e, portanto, livres para morar e circular em todo o territ\u00f3rio da UE.<\/p>\n<p>Bruxelas se contentou com uma promessa de melhor comportamento no futuro por parte do governo franc\u00eas. Agora Paris apertou ainda mais as normas e vetou a entrada de Rom\u00eania e Bulg\u00e1ria em Schengen, para assim evitar a circula\u00e7\u00e3o de seus cidad\u00e3os no cora\u00e7\u00e3o da Europa.<\/p>\n<p>Conv\u00e9m notar que o desmantelamento de assentamentos ciganos e a expuls\u00e3o de grupos da mesma origem v\u00eam sendo frequentes nos \u00faltimos anos, sob a justificativa de raz\u00f5es de ordem p\u00fablica e sanit\u00e1rias, al\u00e9m de limita\u00e7\u00f5es de resid\u00eancia sujeitas a contar com fontes de financiamento com empregos est\u00e1veis.<\/p>\n<p>Mas nos casos em que a legisla\u00e7\u00e3o da UE pode ter sido violada, os avisos \u00e0 Fran\u00e7a por parte da Comiss\u00e3o Europeia pouco serviram.<\/p>\n<p>O balan\u00e7o \u00e9 que o governo franc\u00eas se sente amea\u00e7ado pelos votos do setor conservador e centrista que oscilam para a ultradireita de Jean-Marie e Marine Le Pen. Est\u00e1 sendo enviada uma mensagem preocupante de centrar-se em grupos desprotegidos e culp\u00e1-los pelos problemas econ\u00f4micos e sociais.<\/p>\n<p>A l\u00f3gica apresentada \u00e9 que se deve deter a imigra\u00e7\u00e3o e seu consequente custo econ\u00f4mico-social nos servi\u00e7os p\u00fablicos e nas dimens\u00f5es do Estado de bem-estar.<\/p>\n<p>Falta ver se alguns governos europeus continuar\u00e3o caindo na armadilha de aplacar o racismo e a discrimina\u00e7\u00e3o com medidas populistas mais pr\u00f3prias dos anos 1930, em plena \u00e9poca de p\u00e2nico social, eros\u00e3o das classes m\u00e9dias e prel\u00fadio da Segunda Guerra Mundial, que produziu a cat\u00e1strofe que depois aconselhou a funda\u00e7\u00e3o da UE.<\/p>\n<p>Nesse contexto de incerteza e temor nada tem de estranho o Conselho Europeu decidir adiar decis\u00f5es dr\u00e1sticas e a aprova\u00e7\u00e3o de um plano estrat\u00e9gico para enfrentar o desafio da imigra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de tratar prudentemente o esc\u00e2ndalo da revela\u00e7\u00e3o de espionagem dos Estados Unidos sobre as comunica\u00e7\u00f5es europeias (outra mostra da debilidade institucional da UE), decidiu-se esperar at\u00e9 depois das elei\u00e7\u00f5es europeias de mar\u00e7o de 2014 para conseguir um acordo sobre imigra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os Estados membros pretendem, dessa forma, n\u00e3o abrir mais a caixa de Pandora e alimentar as campanhas dos partidos de ultradireita que amea\u00e7am fazer cair alguns governos conservadores ou em coaliz\u00e3o, que est\u00e3o optando por medidas duras contra os imigrantes e os \u201ceuropeus errantes\u201d, como \u00e9 o caso not\u00f3rio dos ciganos da Europa do leste.<\/p>\n<p>No entanto, mais do mesmo: chegada tenaz \u00e0 Lampedusa e Malta de embarca\u00e7\u00f5es repletas de desesperados ansiosos por se refugiarem no \u201csonho europeu\u201d.<\/p>\n<p>O anterior, lido em um contexto conservador dos Estados Unidos, onde um setor not\u00e1vel de legisladores est\u00e1 amea\u00e7ado de perder suas cadeiras para agentes do Tea Party, n\u00e3o serve nem mesmo de consolo.<\/p>\n<p>Os que no momento pagam pior o espet\u00e1culo do congelamento do Congresso e a precariedade da reforma do sistema de sa\u00fade do presidente Barack Obama s\u00e3o os desprotegidos, os imigrantes ilegais e desempregados. Tudo confirma, simplesmente, que a onda populista \u00e9, na realidade, a amea\u00e7a mais imponente e preocupante. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p><i>* <b>Joaqu\u00edn Roy <\/b>\u00e9 catedr\u00e1tico Jean Monnet <\/i>ad personam<i> e diretor do Centro da Uni\u00e3o Europeia da Universidade de Miami (jroy@Miami.edu).<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miami, Estados Unidos, novembro\/2013 &ndash; Continua a tr&aacute;gica avalanche imigrat&oacute;ria para territ&oacute;rio europeu no Mar Mediterr&acirc;neo. Continuam as mortes. Continuam os sepultamentos de homens, mulheres, crian&ccedil;as. Continua a dispers&atilde;o de seus cad&aacute;veres em caix&otilde;es ultrapassando as reduzidas dimens&otilde;es de Lampedusa, derramando-se pela Sic&iacute;lia. 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