{"id":16890,"date":"2013-11-18T12:28:35","date_gmt":"2013-11-18T12:28:35","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=102981"},"modified":"2013-11-18T12:28:35","modified_gmt":"2013-11-18T12:28:35","slug":"camponeses-de-las-pavas-conseguem-um-milagre-de-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/11\/ultimas-noticias\/camponeses-de-las-pavas-conseguem-um-milagre-de-deus\/","title":{"rendered":"Camponeses de Las Pavas conseguem um milagre de Deus"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_102982\" style=\"width: 539px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/Carmem.jpg\"><img class=\" wp-image-102982 \" alt=\"Carmem Camponeses de Las Pavas conseguem um milagre de Deus\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/Carmem.jpg\" width=\"529\" height=\"319\" title=\"Camponeses de Las Pavas conseguem um milagre de Deus\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Carmen Moreno na cozinha da comunidade de Las Pavas. Foto: Gerald Berm\u00fadez\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Las Pavas\/Bogot\u00e1, Col\u00f4mbia, 18\/11\/2013 \u2013 A comunidade camponesa de Las Pavas recebeu, no dia 13, o Pr\u00eamio Nacional de Paz 2013, em reconhecimento \u00e0 sua luta pac\u00edfica por uma propriedade que disputa com uma empresa de palma de \u00f3leo e que se converteu em emblema do conflito agr\u00e1rio na Col\u00f4mbia. Um dia antes, os membros da comunidade, organizados na Associa\u00e7\u00e3o Camponesa de Buenos Aires (Asocab), foram reconhecidos como v\u00edtimas de deslocamento for\u00e7ado em um ato na sede da estatal Unidade para Aten\u00e7\u00e3o e Reparo Integral \u00e0s V\u00edtimas, em Bogot\u00e1.<\/p>\n<p>A inclus\u00e3o no Registro \u00danico de V\u00edtimas fortalece a Asocab em sua luta legal contra a empresa com a qual disputa essas terras, a Aportes San Isidro S.A. Nesse registro figuravam, em 1\u00ba de outubro, 5.087.092 deslocados for\u00e7ados, do total de 5.845.002 v\u00edtimas de crimes cometidos desde 1985 na guerra civil colombiana, de quase meio s\u00e9culo.<\/p>\n<p>Vizinha \u00e0 fazenda Las Pavas, de 1.338 hectares, Buenos Aires \u00e9 uma vila do munic\u00edpio El Pe\u00f1on, no departamento de Bol\u00edvar, 270 quil\u00f4metros a sudeste de sua capital, Cartagena de \u00cdndias. Com uma \u00fanica rua, fica na ilha fluvial Papayal, entre o bra\u00e7o do mesmo nome e o rio Magdalena, que percorre a Col\u00f4mbia de sul a norte. Nesse lugar, as pessoas vivem em vilas como Buenos Aires e trabalha na pesca, agricultura e pastoreio.<\/p>\n<p>Por interm\u00e9dio da Unidade de V\u00edtimas, o Estado retifica sua atitude anterior e reconhece que os camponeses foram deslocados ao menos duas vezes de Las Pavas, cuja terra trabalharam. Admite-se que \u201chavia uma m\u00e1 compreens\u00e3o jur\u00eddica\u201d, pois \u201cn\u00e3o se entendia que essa comunidade tivesse sido deslocada de sua explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, e n\u00e3o de sua resid\u00eancia\u201d em Buenos Aires, disse Juan Felipe Garc\u00eda, da Cl\u00ednica Jur\u00eddica sobre Direito e Territ\u00f3rio da Pontif\u00edcia Universidade Javeriana, que assessora a Asocab. \u201cHoje vamos comemorar porque a verdade triunfou\u201d, afirmou \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>A decis\u00e3o beneficia 464 pessoas das 124 fam\u00edlias da Asocab. Contudo, n\u00e3o implica o reconhecimento da propriedade da terra, outro processo que est\u00e1 no Conselho de Estado e que pode demorar dez anos, indicou \u00e0 IPS o diretor da Cl\u00ednica Jur\u00eddica, Roberto Vidal. Agora \u201c\u00e9 trabalhar com a comunidade para definir quais medidas querem priorizar, fazer todos os acordos e as coordena\u00e7\u00f5es institucionais necess\u00e1rios e levar adiante o plano de repara\u00e7\u00e3o que desejam\u201d, disse \u00e0 IPS a diretora da Unidade de V\u00edtimas, Paula Gaviria.<\/p>\n<p>\u201cResta esperar que as autoridades cumpram, para concretiza\u00e7\u00e3o de nosso sonho, que \u00e9 permanecer em Las Pavas\u201d, ressaltou o l\u00edder da Asocab, Misael Payares. A fazenda foi centro do pulso da terra no m\u00e9dio Magdalena, regi\u00e3o que foi muito apreciada pelos chefes do narcotr\u00e1fico, por sua beleza e localiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica, importante na log\u00edstica do tr\u00e1fico a\u00e9reo de coca\u00edna. Em uma fazenda similar, Rancho Lindo, aterrissavam e decolavam avi\u00f5es at\u00e9 1983. \u201cEmbarcavam lenha, mandioca, inhame, o qu\u00ea?\u201d, perguntou Payares.<\/p>\n<p>Desde esse ano, como dono de Las Pavas figurou Jes\u00fas Emilio Escobar Fern\u00e1ndez, primo e testa-de-ferro do famoso chefe do tr\u00e1fico Pablo Escobar (1949-1993). At\u00e9 1963 foram terras do governo. A fazenda ficou abandonada desde 1992, diante da persegui\u00e7\u00e3o ao Cartel de Medell\u00edn de Escobar. Uma enorme \u00e1rvore que cresce em uma piscina testemunha o abandono.<\/p>\n<p>As moradoras de Buenos Aires, muitas analfabetas e com grande n\u00famero de filhos, decidiram, ent\u00e3o, plantar em parte de Las Cavas e formaram a Associa\u00e7\u00e3o de Mulheres Camponesas de Buenos Aires. Depois souberam que, segundo o Artigo 52 de uma lei de 1994, a propriedade privada de uma \u00e1rea rural se extingue se foi usada para o narcotr\u00e1fico, ou se permanecer abandonada por tr\u00eas anos consecutivos. Assim, ocuparam Las Pavas, e nasceu a Asocab, em 1997, para plantar cacau, banana e carvalho.<\/p>\n<p>As guerrilhas de esquerda (surgidas em 1964) costumavam passar ao largo de Buenos Aires, rumo a um morro pr\u00f3ximo com planta\u00e7\u00f5es de coca, atraentes para muitos colhedores tempor\u00e1rios. \u00c0s vezes cobravam tributos dos camponeses de Las Pavas: uma galinha, um porco. Certa vez fuzilaram um homem acusado de ser informante do ex\u00e9rcito. Quando os paramilitares de ultradireita (formados em 1981) entraram at\u00e9 1998 pelo Papayal e ali se instalaram, 20 minutos a p\u00e9 de Buenos Aires, a guerrilha se foi.<\/p>\n<p>Os paramilitares \u201ccome\u00e7aram a matar gente\u201d, disse \u00e0 IPS uma das fundadoras da associa\u00e7\u00e3o feminina, Carmen Moreno, que tem um irm\u00e3o desaparecido. Diante de Buenos Aires desciam pelo rio corpos sem cabe\u00e7a ou sem pernas. \u201cAt\u00e9 as crian\u00e7as viam. E gritavam: mam\u00e3e, ali vai uma perna&#8230; \u00e9 de mulher, porque as unhas est\u00e3o pintadas\u201d, contou.<\/p>\n<p>Todos esses anos a fome empurrava uma e outra vez as pessoas a superarem o p\u00e2nico e o confinamento em Buenos Aires para voltar a plantar em Las Pavas. Em 2006, entraram com pedido de instaura\u00e7\u00e3o de um processo de extin\u00e7\u00e3o de dom\u00ednio. Inclusive, pediram e obtiveram cr\u00e9ditos agr\u00e1rios estatais.<\/p>\n<p>Entretanto, em 2007, o testa-de-ferro Escobar Fern\u00e1ndez havia vendido Las Pavas \u00e0s empresas Aportes San Isidro e CI Tequendama, esta \u00faltima do grupo Daabon. Essas companhias dizem que nenhuma autoridade as informou que o dom\u00ednio privado da fazenda era questionado, o que impedia qualquer compra e venda, e montaram um projeto de produ\u00e7\u00e3o de palma, secando mangues, desviando e bloqueando caminhos.<\/p>\n<p>O presidente Andr\u00e9s Pastrana (1998-2002) fixou como principal estrat\u00e9gia agroindustrial a planta\u00e7\u00e3o de palma africana, e seu sucessor, \u00c1lvaro Uribe (2002-2010) continuou essa pol\u00edtica. O governo decidiu que em Papayal fossem plantados 66 mil hectares de palma, e constru\u00edda uma refinaria de \u00f3leo para produzir agrocombust\u00edvel<\/p>\n<p>A palma \u00e9 o terceiro cultivo da Col\u00f4mbia, com mais de 400 mil hectares plantados e mais de 130 mil trabalhadores, segundo a organiza\u00e7\u00e3o internacional Solidariedade, que promove uma produ\u00e7\u00e3o equilibrada e sustent\u00e1vel de alimentos, combust\u00edvel alternativo aos f\u00f3sseis e outros produtos b\u00e1sicos. A palma tem grande potencial produtivo em rela\u00e7\u00e3o a outras oleaginosas. Por isso, seu uso aumenta nas ind\u00fastrias de alimentos, higiene e cosm\u00e9ticos e, tamb\u00e9m, no emergente setor do biodiesel.<\/p>\n<p>No entanto, em Las Pavas ainda n\u00e3o se produz \u00f3leo e a batalha legal continua. Em 2009, as empresas promoveram o despejo policial dos camponeses. O epis\u00f3dio custou \u00e0 Daabon seu contrato como fornecedora da rede de cosm\u00e9ticos The Body Sph, do Grupo L\u2019Oreal. A Daabon preferiu se retirar do projeto antes de negociar com a Asocab, como pedia The Body Shop.<\/p>\n<p>Os camponeses retornaram a Las Pavas em 2011, e desde ent\u00e3o vivem ali, alguns por per\u00edodos, em um povoado de duas ruas e casebres de pl\u00e1stico negro. Na casa da fazenda h\u00e1 homens armados da Aportes San Isidro, sem autoriza\u00e7\u00e3o oficial. S\u00e3o frequentes as den\u00fancias de intimida\u00e7\u00e3o, destrui\u00e7\u00e3o de cultivos, disparos contra o trator da Asocab, roubo de animais, inc\u00eandio de \u00e1rvores e sementes, e ataques com artefatos incendi\u00e1rios sobre as casas de pl\u00e1stico.<\/p>\n<p>\u201cO controle j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 de um grupo \u00e0 margem da lei, mas de algumas empresas\u201d, disse Payares. \u201cAinda n\u00e3o tivemos a primeira v\u00edtima humana, por nossa sabedoria em evit\u00e1-las\u201d, afirmou Efra\u00edn Alvear, historiador da comunidade. Isso \u00e9 \u201cConquista sem fuzil\u201d, disse \u00e0 IPS em refer\u00eancia a um livro sobre a hist\u00f3ria da Asocab, que escreve \u00e0 m\u00e3o h\u00e1 v\u00e1rios anos. Ap\u00f3s sua inclus\u00e3o no Registro \u00danico de V\u00edtimas e do Pr\u00eamio Nacional de Paz, os camponeses querem mudar o nome de Las Pavas. \u201cEsse nome nos marcou muito\u201d, segundo Payares. Daqui em diante se chamar\u00e1 Milagre de Deus. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Las Pavas\/Bogot&aacute;, Col&ocirc;mbia, 18\/11\/2013 &ndash; A comunidade camponesa de Las Pavas recebeu, no dia 13, o Pr&ecirc;mio Nacional de Paz 2013, em reconhecimento &agrave; sua luta pac&iacute;fica por uma propriedade que disputa com uma empresa de palma de &oacute;leo e que se converteu em emblema do conflito agr&aacute;rio na Col&ocirc;mbia. 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