{"id":16892,"date":"2013-11-19T08:15:12","date_gmt":"2013-11-19T08:15:12","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=103125"},"modified":"2013-11-19T08:15:12","modified_gmt":"2013-11-19T08:15:12","slug":"a-palma-quebra-tradicoes-camponesas-na-amazonia-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/11\/ultimas-noticias\/a-palma-quebra-tradicoes-camponesas-na-amazonia-brasileira\/","title":{"rendered":"A palma quebra tradi\u00e7\u00f5es camponesas na Amaz\u00f4nia brasileira"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_103126\" style=\"width: 539px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/Antonio.jpg\"><img class=\" wp-image-103126 \" alt=\"Antonio A palma quebra tradi\u00e7\u00f5es camponesas na Amaz\u00f4nia brasileira\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/Antonio.jpg\" width=\"529\" height=\"372\" title=\"A palma quebra tradi\u00e7\u00f5es camponesas na Amaz\u00f4nia brasileira\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\"><br \/>Ant\u00f4nio de Oliveira na \u00e1rea de secagem de sua propriedade de urucum, um de seus cultivos tradicionais que agora convivem com a palma. Foto: Fabiana Frayssinet\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Conc\u00f3rdia do Par\u00e1, Moju e Acar\u00e1, Brasil, 19\/11\/2013 \u2013 Milhares de fam\u00edlias camponesas do Par\u00e1, no nordeste da Amaz\u00f4nia, apostam na palma africana e se associam com empresas do setor de biocombust\u00edveis. \u201cUm bicho raro\u201d, com desafios econ\u00f4micos e culturais. A propriedade de Ant\u00f4nio de Oliveira tem cheiro de uma mistura de laranjas, pimenta negra e urucum (<em>Bixa orellana<\/em>), um colorante natural do tr\u00f3pico americano, que tinge de vermelho toda a pequena fazenda.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o sabia nada sobre palma&#8230; \u00c9 muito diferente trabalhar com isso, \u00e9 um bicho raro e complicado\u201d, comentou Oliveira, associado \u00e0 empresa Biopalma h\u00e1 tr\u00eas anos para plantar a palma <i>Ealeis guineensis<\/i>, no Brasil chamada de dendezeiro. A Biopalma pertence ao grupo de minera\u00e7\u00e3o Vale e tem 60 mil hectares pr\u00f3prios de dend\u00ea, uma esp\u00e9cie alheia ao bioma amaz\u00f4nico. Mediante seu Programa de Agricultura Familiar tamb\u00e9m se associa a pequenos produtores para comprar sua produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A empresa utilizar\u00e1 o \u00f3leo de palma como mat\u00e9ria-prima de biodiesel para mover os ve\u00edculos e as m\u00e1quinas de sua atividade mineradora. \u201cN\u00e3o estava preparado para o dend\u00ea. N\u00e3o gosto de ficar contando quantas plantas tenho ou fazer um quadrado para seme\u00e1-las. Fiz aqui e ali\u201d, disse \u00e0 IPS o campon\u00eas de 65 anos, que antes sobrevivia vendendo pimenta, laranja e urucum. Ele come\u00e7ou a trabalhar aos dez anos, \u201cde sol a sol\u201d como diarista, e sua falta de estudo o persegue.<\/p>\n<p>\u201cQuando escrevo alguma coisa, minha mulher diz que faltam muitas letras\u201d, contou Oliveira, entre sorrisos. Fazer contas aprendeu por necessidade, como, por exemplo, a de calcular o rendimento que ter\u00e1 o dendezeiro, cujas plantas demoram cinco anos para produzir plenamente. Atualmente, colhe cerca de oito toneladas por quinzena e ganha em torno de US$ 120 por tonelada. Isso d\u00e1 apenas para \u201ccobrir gastos\u201d, porque precisa pagar quatro ajudantes.<\/p>\n<p>Contudo, diferente da pimenta que d\u00e1 uma colheita ao ano, o dendezeiro produz uma a cada 15 dias. Por isso espera poder comprar logo uma caminhonete \u201cde luxo\u201d para transportar seus produtos e levar a fam\u00edlia para passear. \u201cMeu sonho \u00e9 conhecer o Rio Grande do Sul. Mas no calor, com frio n\u00e3o vou\u201d, brincou Oliveira, homem acostumado ao clima quente amaz\u00f4nico.<\/p>\n<p>\u201cOs agricultores associados t\u00eam problemas com a gest\u00e3o de seus empreendimentos. Oliveira j\u00e1 trabalha com v\u00e1rios produtos e na pr\u00e1tica \u00e9 um pequeno empres\u00e1rio. Precisa saber quanto entra e sai, quanto gasta em cada cultivo\u201d, explicou \u00e0 IPS o t\u00e9cnico da Biopalma, Charles Vilarino. A empresa \u00e9 s\u00f3cia de 350 fam\u00edlias e, at\u00e9 2015, pretende incorporar mais 1.650, que no total v\u00e3o explorar 20 mil hectares.<\/p>\n<p>Os agricultores recebem cr\u00e9ditos do governo federal para entrar no programa e, em troca de dedicar um m\u00e1ximo de dez hectares \u00e0 palmeira, t\u00eam assist\u00eancia t\u00e9cnica e garantia de compra de seu produto por 30 anos. Por\u00e9m, as dificuldades s\u00e3o grandes. No norte do Par\u00e1 muitos produtores carecem de transporte e n\u00e3o se acostumam a criar cooperativas para resolver coletivamente seus problemas. \u201cMe disseram que logo teremos que levar o fruto da palmeira at\u00e9 a empresa (no munic\u00edpio de Moju) e n\u00e3o tenho caminh\u00e3o. Como farei?\u201d, se preocupa Oliveira.<\/p>\n<p>A Biopalma serve de intermedi\u00e1ria para que institui\u00e7\u00f5es como o Servi\u00e7o Brasileiro de Apoio \u00e0s Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) deem cursos de gest\u00e3o e cooperativismo para os agricultores. \u201cN\u00e3o podemos obrig\u00e1-los a se organizarem em cooperativas. Isso deve surgir de nossos s\u00f3cios. Trouxemos o Sebrae porque eles se interessaram\u201d, explicou \u00e0 IPS o analista de comunica\u00e7\u00e3o e projetos sociais da empresa, Sauer Teles.<\/p>\n<p>Um informe de junho do Centro de Monitoramento de Agrocombust\u00edveis, da organiza\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica e de investiga\u00e7\u00e3o Rep\u00f3rter Brasil, indaga sobre as incompatibilidades da cultura do dendezeiro na agricultura familiar do Par\u00e1. A pesquisa alerta que o programa governamental Eco Dend\u00ea, que apoia a dedica\u00e7\u00e3o camponesa ao cultivo com linhas de cr\u00e9dito, \u201cpode n\u00e3o representar o futuro promissor t\u00e3o sonhado pelos agricultores familiares\u201d, e suas \u201cpromessas de ganhos\u201d podem acabar sendo falsas.<\/p>\n<p>\u201cMuito se prometeu e pouco se discutiu sobre seus impactos no modo de vida tradicional\u201d dessas comunidades, diz o juiz Marcus Barberino, especialista em rela\u00e7\u00f5es no campo, citado no documento. A Bel\u00e9m Bioenergia, uma empresa de risco compartilhado entre a Petrobras e a portuguesa Galp, tamb\u00e9m incentiva o dend\u00ea para biodiesel. A companhia tem acordos com 280 fam\u00edlias e projeta 600 no total.<\/p>\n<p>No caminho para entrevistar um desses agricultores, a IPS encontrou a propriedade de uma fam\u00edlia camponesa alheia \u00e0 nova cultura do dend\u00ea. De seus oito integrantes, apenas o beb\u00ea de um ano n\u00e3o trabalhava naquele momento. O pai, Reginaldo Dias, cozinhava a farinha de mandioca em um forno \u00e0 lenha. Os idosos e as crian\u00e7as descascavam a raiz e a esposa a ralava. \u00c9 uma forma de sobreviv\u00eancia, mas tamb\u00e9m um ritual cultural. O excedente de farinha para consumo familiar, eles vendem no mercado para comprar \u201co que falta: a\u00e7\u00facar, feij\u00e3o e arroz\u201d, contou Dias \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>A poucos quil\u00f4metros vive Jos\u00e9 Ribamar Silva, um dos s\u00f3cios da Bel\u00e9m Bioenergia. H\u00e1 um ano e meio, plantou dend\u00ea em dez hectares de sua propriedade, e nos 15 restantes continua colhendo abacaxi, urucum, pimenta, mandioca e feij\u00e3o, junto com cultivos pr\u00f3prios amaz\u00f4nicos. \u201cA agricultura em nossa regi\u00e3o \u00e9 mais de mandioca e pimenta. Houve uma \u00e9poca em que a pimenta dava muito lucro, mas agora n\u00e3o, \u00e9 muito trabalho para pouco dinheiro, por isso quando chegou o dendezeiro decidi por ele\u201d, contou Silva \u00e0 IPS. Ele espera que a palmeira lhe permita \u201ccolocar os filhos na escola\u201d e explica que o futuro deles \u201c\u00e9 o mais importante para mim\u201d.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o se chega a um modelo verde sem abordar a quest\u00e3o social\u201d, pontuou Jo\u00e3o Meireles, diretor do Instituto Peabiru, que assessora empresas vinculadas com a palmeira em temas socioambientais. Quando as grandes companhias chegam com suas exig\u00eancias de regula\u00e7\u00f5es ou de legalidade, \u201cpode ocorrer um choque em uma regi\u00e3o com outro contexto social e de propriedade da terra, com quest\u00f5es b\u00e1sicas sem resolver\u201d, explicou \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>No Par\u00e1 a renda mensal n\u00e3o chega a US$ 50 por pessoa. Apenas 4% dos camponeses t\u00eam t\u00edtulos de propriedade e entre 40% e 50% da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 analfabeta. Al\u00e9m disso, se mant\u00e9m o h\u00e1bito de queimar a floresta para semear. Os ritos agr\u00edcolas n\u00e3o mudam \u201cda noite para o dia\u201d, apontou Meirelles. A seu ver, o desenvolvimento da palmeira na Amaz\u00f4nia, \u201cbaseado em megaempresas com excel\u00eancia, \u00e9 de certa fora incompat\u00edvel com a agricultura tradicional familiar\u201d. Entretanto, essas empresas podem ter \u201cum papel de transforma\u00e7\u00e3o\u201d, fortalecendo a sociedade das comunidades camponesas do Par\u00e1, ressaltou. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Conc&oacute;rdia do Par&aacute;, Moju e Acar&aacute;, Brasil, 19\/11\/2013 &ndash; Milhares de fam&iacute;lias camponesas do Par&aacute;, no nordeste da Amaz&ocirc;nia, apostam na palma africana e se associam com empresas do setor de biocombust&iacute;veis. &ldquo;Um bicho raro&rdquo;, com desafios econ&ocirc;micos e culturais. 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