{"id":16894,"date":"2013-11-19T07:45:09","date_gmt":"2013-11-19T07:45:09","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=103114"},"modified":"2013-11-19T07:45:09","modified_gmt":"2013-11-19T07:45:09","slug":"o-basta-e-a-esperanca-vao-para-segundo-turno-no-chile","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/11\/ultimas-noticias\/o-basta-e-a-esperanca-vao-para-segundo-turno-no-chile\/","title":{"rendered":"O basta e a esperan\u00e7a v\u00e3o para segundo turno no Chile"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_103115\" style=\"width: 451px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/Chile.jpg\"><img class=\"size-full wp-image-103115\" alt=\"Chile O basta e a esperan\u00e7a v\u00e3o para segundo turno no Chile\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/Chile.jpg\" width=\"441\" height=\"472\" title=\"O basta e a esperan\u00e7a v\u00e3o para segundo turno no Chile\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\"><br \/>Hugo e Daniel Hurtado v\u00e3o contra a corrente no Chile: um assalariado n\u00e3o pode se dar o luxo de enviar o filho \u00e0 universidade. Foto: Marianela Jarroud\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Santiago, Chile, 19\/11\/2013 \u2013 O chileno Hugo Hurtado, de 47 anos, \u00e9 chefe de cozinha. Qualquer um diria que em seu pa\u00eds, o tigre da Am\u00e9rica Latina, essa profiss\u00e3o \u00e9 um seguro de sucesso e at\u00e9 de fama. Mas n\u00e3o para todos. Hurtado trabalha como gar\u00e7om. \u201cEstudei uma profiss\u00e3o muito elitista porque, sem contatos nem restaurante pr\u00f3prio, s\u00f3 poderia por ser cozinheiro, o que significava ganhar US$ 500 ao m\u00eas e trabalhar de oito a dez horas por dia, seis dias na semana\u201d, contou \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>\u201cComo gar\u00e7om o hor\u00e1rio \u00e9 o mesmo, mas entre sal\u00e1rio e gorjeta ganho US$ 700 mensais\u201d, explicou Hurtado. Ele e sua fam\u00edlia s\u00e3o um exemplo desse segmento de chilenos que aguardam, entre fartos e esperan\u00e7osos, o resultado das elei\u00e7\u00f5es presidenciais \u2013 que ter\u00e1 seu segundo turno no dia 15 de dezembro \u2013, para ver se tamb\u00e9m eles ganham o direito de sentir os benef\u00edcios de serem cidad\u00e3os do \u201ctigre\u201d latino-americano.<\/p>\n<p>H\u00e1 o perigo de os fartos estarem aumentando. Nas elei\u00e7\u00f5es gerais do dia 17, metade dos habilitados a votar se abstiveram. A ex-presidente socialista Michelle Bachelet (2006-2010) obteve 47% dos votos e a candidata da direita governante, Evelyn Matthei, 25%. Ambas disputar\u00e3o em dezembro a Presid\u00eancia. Metade dos trabalhadoras recebe menos de US$ 500 neste pa\u00eds de 17 milh\u00f5es de habitantes e com crescimento econ\u00f4mico superior a 6% anuais nos \u00faltimos 20 anos.<\/p>\n<p>Hurtado, separado e pai de tr\u00eas filhos, vive com dois deles na casa em que vive com sua nova companheira em Puente Alto, bairro popular ao sul de Santiago. Daniel, o mais velho e aluno de excelente rendimento acad\u00eamico, pretende estudar medicina. Contudo, seus conhecimentos n\u00e3o bastaram para superar a Prova de Sele\u00e7\u00e3o Universit\u00e1ria (PSU) e os recursos da fam\u00edlia n\u00e3o s\u00e3o suficientes para pagar um curso particular pr\u00e9-universit\u00e1rio, indispens\u00e1vel nesse pa\u00eds onde a forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica gratuita n\u00e3o existe.<\/p>\n<p>Com 18 anos, Daniel ganhou uma bolsa por bom rendimento e situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica vulner\u00e1vel, que lhe permite cursar o primeiro ano de um curso pr\u00e9-universit\u00e1rio em ci\u00eancias na Universidade do Chile. Em dois anos, este caminho o habilitar\u00e1 a se candidatar \u00e0 carreira de medicina sem necessidade de prestar novo PSU. \u201cSe n\u00e3o fosse a bolsa, n\u00e3o poderia estudar na Universidade\u201d, observou seu pai. E as coisas podem mudar se cursar a carreira de seus sonhos.<\/p>\n<p>\u201cMedicina custa entre US$ 900 e US$ 1.400 mensais, mais material, alimenta\u00e7\u00e3o, locomo\u00e7\u00e3o e outros gastos. Ent\u00e3o, estamos pensando que o melhor \u00e9 que v\u00e1 para a Argentina (onde o ensino \u00e9 gratuito) e estude l\u00e1\u201d, explicou Hurtado. Pai e filho se destacam do comum. \u201cEstamos nadando contra a corrente. O normal seria Daniel trabalhar em um <i>cal center<\/i>, como empacotador em algum supermercado, na constru\u00e7\u00e3o ou tamb\u00e9m de gar\u00e7om\u201d, pontuou. \u201cN\u00e3o h\u00e1 bolso de uma fam\u00edlia normal que aguente isso\u201d, completou Daniel.<\/p>\n<p>Bachelet e Matthei s\u00e3o hoje as faces da centro-esquerda e da direita que, desde o fim da ditadura, em 1990, mant\u00eam um <i>statu quo<\/i> social fragmentado e crescentemente desigual. A renda de 5% das fam\u00edlias mais ricas do pa\u00eds \u00e9 270 vezes maior do que a dos 5% mais pobres, segundo dados entregues \u00e0 IPS pela Funda\u00e7\u00e3o Sol, especializada em temas trabalhistas e sociais. \u201cExiste a mem\u00f3ria de um Estado que foi mais inclusivo, que fez parte de um processo de participa\u00e7\u00e3o social, que aceitou a presen\u00e7a popular em sua gest\u00e3o e que foi arrebatado pelos militares\u201d no golpe de Estado de 1973, disse \u00e0 IPS o antrop\u00f3logo Juan Carlos Skewes, da Universidade Alberto Hurtado.<\/p>\n<p>Para o jovem Daniel Hurtado, \u201co Estado deveria cumprir o papel de garantir a educa\u00e7\u00e3o para a sociedade em seu conjunto, e n\u00e3o dar migalhas\u201d. Considera que esse desenvolvimento econ\u00f4mico \u201cse reflete em uns poucos que t\u00eam os meios e s\u00e3o os donos. Esse \u00e9 outro mundo, eles governam, eles progridem. Para a maioria do pa\u00eds resta nadar contra a corrente, recolher as bolsas que nos atiram para podermos estudar\u201d, ressaltou.<\/p>\n<p>O ensino gratuito \u00e9 uma demanda central dos \u00faltimos anos, em particular desde as manifesta\u00e7\u00f5es estudantis de 2011. Nas elei\u00e7\u00f5es do dia 17, quatro ex-dirigentes desse movimento estudantil conseguiram cadeiras no parlamento, alguns com ampla maioria, como a comunista Camila Vallejo. Eles ter\u00e3o que negociar com o pr\u00f3ximo governo, que seguramente ser\u00e1 liderado por Bachelet, os meios para alcan\u00e7ar uma educa\u00e7\u00e3o gratuita.<\/p>\n<p>Bachelet, que em seu primeiro mandato impulsionou uma reforma educacional insuficiente, prometeu alcan\u00e7ar o ensino universit\u00e1rio gratuito em seis anos, algo que ilude Edilia Rojas. \u201cSe ela diz, acredito. Tomara que cumpra. Gostaria que meu neto estudasse, tivesse oportunidades\u201d, acrescentou com humildade. Aos 69 anos, essa aposentada, m\u00e3e de um filho e av\u00f3, trabalha todos os dias como empregada dom\u00e9stica para pagar seus gastos b\u00e1sicos. \u201cTrabalho desde os 16 anos. Pensava que ia parar ao me aposentar, mas, como recebo pouco de aposentadoria (US$ 300), tive que continuar\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>De segunda a sexta-feiras, Rojas faz limpeza em uma casa de fam\u00edlia por um sal\u00e1rio que n\u00e3o chega a US$ 500. \u201cIsso significa que sou escrava do trabalho\u201d, ressaltou. Gra\u00e7as ao seu esfor\u00e7o, seu filho foi \u00e0 universidade e n\u00e3o precisou se endividar para isso. \u201cTodo o sal\u00e1rio que recebia era para pagar seu estudo. Com\u00edamos porque alugava uns c\u00f4modos da minha casa e, al\u00e9m disso, eu almo\u00e7o no trabalho. Minha vida foi um pouco dura, mas tenho sa\u00fade\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Se a vida tivesse sido diferente, Rojas ficaria contente em viver no campo, junto dos dois irm\u00e3os que nem mesmo t\u00eam casa pr\u00f3pria ou alugada. Por isso, diante da pergunta sobre as maiores urg\u00eancias do Chile, n\u00e3o vacila em responder: acesso \u00e0 moradia e uma aposentadoria digna. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Santiago, Chile, 19\/11\/2013 &ndash; O chileno Hugo Hurtado, de 47 anos, &eacute; chefe de cozinha. Qualquer um diria que em seu pa&iacute;s, o tigre da Am&eacute;rica Latina, essa profiss&atilde;o &eacute; um seguro de sucesso e at&eacute; de fama. Mas n&atilde;o para todos. 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