{"id":16931,"date":"2013-12-02T12:24:43","date_gmt":"2013-12-02T12:24:43","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=104000"},"modified":"2013-12-02T12:24:43","modified_gmt":"2013-12-02T12:24:43","slug":"teramerica-argentinos-versus-monsanto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/12\/ultimas-noticias\/teramerica-argentinos-versus-monsanto\/","title":{"rendered":"TERAM\u00c9RICA \u2013 Argentinos versus Monsanto"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_104001\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/ArgentinaMarchaMonsanto.jpg\"><img class=\" wp-image-104001 \" alt=\"ArgentinaMarchaMonsanto TERAM\u00c9RICA   Argentinos versus Monsanto\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/ArgentinaMarchaMonsanto.jpg\" width=\"340\" height=\"255\" title=\"TERAM\u00c9RICA   Argentinos versus Monsanto\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Menino participa da marcha que seguiu da pra\u00e7a central de Malvinas Argentinas at\u00e9 o pr\u00e9dio bloqueado onde a Monsanto tenta construir uma unidade. Foto: Fabiana Frayssinet\/IPS<\/p><\/div>\n<p>Malvinas Argentinas, Argentina, 2 de dezembro de 2013 (Terram\u00e9rica).- Havia uma vez donas de casa, comerciantes e funcion\u00e1rios municipais de um tranquilo povoado no centro da Argentina. At\u00e9 que chegou a Monsanto, a corpora\u00e7\u00e3o norte-americana de biotecnologia. Inventora do herbicida glifosato e uma das principais fabricantes de sementes geneticamente modificadas do mundo, a Monsanto constr\u00f3i uma de suas \u201cmaiores\u201d unidades para acondicionar sementes de milho em Malvinas Argentinas, munic\u00edpio de 15 mil habitantes que fica 17 quil\u00f4metros a leste da capital da prov\u00edncia de C\u00f3rdoba.<\/p>\n<p>A unidade come\u00e7aria a funcionar e mar\u00e7o de 2014, mas a obra foi paralisada em outubro em meio a protestos e demandas judiciais dos moradores, que desde 18 de setembro mant\u00eam bloqueado o acesso ao recinto. No dia 30 de novembro de manh\u00e3, a guarda de infantaria chegou ao lugar, como mostra <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/photo.php?v=1411014679135569\" >v\u00eddeo publicado no Facebook<\/a>, e escoltou a sa\u00edda de v\u00e1rios caminh\u00f5es que haviam entrado \u00e0 for\u00e7a no dia 28, quando membros do sindicato da constru\u00e7\u00e3o irromperam no acampamento de moradores tentando vencer o bloqueio, o que deixou mais de 20 feridos.<\/p>\n<p>Os moradores n\u00e3o gostam de serem definidos como ambientalistas nem que lhes atribuam bandeiras partid\u00e1rias. Na maioria s\u00e3o mulheres. Em Malvinas Argentinas todos conhecem algu\u00e9m com problemas respirat\u00f3rios ou alergias que coincidem com fumiga\u00e7\u00f5es sobre os campos de C\u00f3rdoba, uma das maiores produtoras de soja transg\u00eanica deste pa\u00eds. As den\u00fancias de m\u00e9dicos tamb\u00e9m citam casos crescentes de c\u00e2ncer e malforma\u00e7\u00f5es cong\u00eanitas. Por\u00e9m, tudo era suportado com estoicismo at\u00e9 que chegou a Monsanto.<\/p>\n<p>\u201cParticipo por medo da doen\u00e7a e da morte\u201d, explicou ao Terram\u00e9rica Mar\u00eda Torres. \u201cMeu filho j\u00e1 est\u00e1 doente e se vier a Monsanto ser\u00e1 pior\u201d, acrescentou enquanto caminhava em meio a uma manifesta\u00e7\u00e3o que esta jornalista acompanhou em meados de novembro. Seu filho, de 13 anos, ficou em casa com sinusite e hemorragia nasal. \u201cMalvinas \u00e9 um povoado com muita gente com os mesmos sintomas\u201d, lamentou.<\/p>\n<p>A maioria das fumiga\u00e7\u00f5es \u00e9 feita com Roundup, marca comercial do glifosato produzido pela Monsanto. Segundo a Rede Universit\u00e1ria de Meio Ambiente e Sa\u00fade \u2013 M\u00e9dicos de Povoados Fumigados, a fumiga\u00e7\u00e3o atinge quase 22 milh\u00f5es de hectares plantados com soja, milho e outros cultivos transg\u00eanicos em 12 prov\u00edncias argentinas em cujos povoados vivem cerca de 12 milh\u00f5es de pessoas. Eli Leiria tamb\u00e9m participa do protesto. Ela sofre problemas como perda de peso. Os m\u00e9dicos encontraram glifosato em seu sangue. \u201cDizem que \u00e9 como se um tornado tivesse passado pelo meu corpo\u201d, contou.<\/p>\n<p>O bi\u00f3logo Ra\u00fal Montenegro, da Universidade Nacional de C\u00f3rdoba e premiado em 2004 com o Right Livelihood Award (Pr\u00eamio Nobel Alternativo), disse ao Terram\u00e9rica que n\u00e3o h\u00e1 monitoramentos oficiais de morbidade e mortalidade para comprovar se as crescentes enfermidades observadas pelos m\u00e9dicos s\u00e3o efeito dos praguicidas. Tampouco existe controle adequado da presen\u00e7a de praguicidas no sangue, e nem um monitoramento ambiental que detecte esses res\u00edduos em caixas de \u00e1gua, por exemplo, acrescentou Montenegro, presidente da Funda\u00e7\u00e3o para a Defesa do Meio Ambiente.<\/p>\n<p>Essas circunst\u00e2ncias convertem a Argentina, e, \u201cao seu modo, tamb\u00e9m o Brasil\u201d, em \u201cpara\u00edso\u201d para empresas como a Monsanto, afirmou Montenegro. As entidades do Estado que autorizam o uso de praguicidas se apoiam \u201cem sua maior parte em aspectos t\u00e9cnicos fornecidos pelas pr\u00f3prias empresas\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>A presidente da Argentina, Cristina Fern\u00e1ndez, criou em 2009 a Comiss\u00e3o Nacional de Investiga\u00e7\u00e3o sobre Agroqu\u00edmicos, para investigar, prevenir e tratar seus efeitos na sa\u00fade humana e ambiental. Mas o pa\u00eds tamb\u00e9m \u00e9 um \u201cpara\u00edso\u201d dos transg\u00eanicos, cuja autoriza\u00e7\u00e3o depende de \u201cinforma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica fornecida principalmente pelas corpora\u00e7\u00f5es biotecnol\u00f3gicas\u201d, ressaltou Montenegro.<\/p>\n<p>Uma unidade produtora de transg\u00eanico \u201cn\u00e3o \u00e9 uma f\u00e1brica de p\u00e3o&#8230; fabrica veneno\u201d, disse o professor Mat\u00edas Marizza, da Assembleia Malvinas Luta pela Vida. Montenegro questiona o fato de a Secretaria de Meio Ambiente de C\u00f3rdoba autorizar a constru\u00e7\u00e3o sem ter contemplado a an\u00e1lise de uma comiss\u00e3o interdisciplinar independente. O processo dos transg\u00eanicos envolve \u201cpraguicidas externos\u201d, como os que s\u00e3o fumigados, e praguicidas que \u201csaem de dentro\u201d das sementes, como a prote\u00edna a inseticida CrylIAb produzida pelo pr\u00f3prio milho MON 810, explicou o bi\u00f3logo.<\/p>\n<p>Cada gr\u00e3o desse milho tem entre 190 e 390 nanogramas desse componente, cujos impactos na sa\u00fade e na biodiversidade n\u00e3o est\u00e3o claros. \u201cNo Canad\u00e1 foram registradas mulheres gr\u00e1vidas e n\u00e3o gr\u00e1vidas que tinham prote\u00edna inseticida no sangue\u201d, destacou Montenegro, o que contradiz a explica\u00e7\u00e3o da Monsanto: que essas prote\u00ednas s\u00e3o anuladas no aparelho digestivo.<\/p>\n<p>Segundo um documento da Rede Universit\u00e1ria, as sementes da unidade de Malvinas Argentinas ser\u00e3o impregnadas de subst\u00e2ncias como propoxur, deltametrina, pirimfos, tryfloxistrobin, ipconazole, metalaxyl e, sobretudo, clotianidina, um inseticida proibido na Uni\u00e3o Europeia. At\u00e9 agora, as instala\u00e7\u00f5es est\u00e3o bloqueadas por cinco acampamentos, onde homens e mulheres \u2013 algumas com seus filhos \u2013 se alternam para impedir a entrada de caminh\u00f5es.<\/p>\n<p>Daniela P\u00e9rez, m\u00e3e de cinco filhos, contou ao Terram\u00e9rica que este \u201cera um povoado tranquilo\u201d, onde as pessoas se queixavam apenas de problemas como falta de pavimenta\u00e7\u00e3o. \u201cAgora, o que est\u00e1 em jogo \u00e9 a sa\u00fade das crian\u00e7as. Nos d\u00e1 uma impot\u00eancia, n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m que nos defenda\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Soledade Escobar tem quatro filhos que v\u00e3o a uma escola localizada perto da planta\u00e7\u00e3o da unidade da Monsanto. \u201cMe preocupam os silos e os produtos qu\u00edmicos que usam. Com a mudan\u00e7a de clima em C\u00f3rdoba temos vento o ano todo e o col\u00e9gio est\u00e1 ao lado, eu moro em frente\u201d, afirmou. \u201cN\u00e3o \u00e9 certo o que dizem a televis\u00e3o e os jornais de que h\u00e1 partidos pol\u00edticos entre n\u00f3s&#8230; a maioria \u00e9 de m\u00e3es que t\u00eam medo por seus filhos\u201d, acrescentou Beba Figueroa.<\/p>\n<p>Elas asseguram que muitos moradores n\u00e3o participam por medo de perder seus empregos municipais e ajudas sociais. A manifesta\u00e7\u00e3o que o Terram\u00e9rica acompanhou desde a pra\u00e7a do povo at\u00e9 o acampamento tinha clima festivo, ao ritmo de refr\u00f5es do carnaval rioplatense, muito diferente da tens\u00e3o e da viol\u00eancia que aconteceriam dias depois. Como outros moradores deste bairro oper\u00e1rio, Mat\u00edas Mansilla, sua mulher e seu beb\u00ea saem \u00e0 porta de uma casa humilde para ver \u201co carnaval pela vida\u201d. Mansilla n\u00e3o participa, mas apoia a causa \u201cpelas doen\u00e7as que h\u00e1 em outros cantos\u201d.<\/p>\n<p>Uma pesquisa feita por duas universidades e pelo Conselho Nacional de Pesquisas Cient\u00edficas e T\u00e9cnicas revelou que 87% dos entrevistados do povoado querem uma consulta popular para decidir e 58% recha\u00e7am a unidade da Monsanto. Nem o governo da prov\u00edncia nem a empresa responderam ao pedido de entrevista do Terram\u00e9rica.<\/p>\n<p>Em v\u00e1rios textos publicados em seu portal, a Monsanto se diz comprometida com a \u201cagricultura sustent\u00e1vel\u201d. Um comunicado divulgado em setembro afirma que a obra conta com as \u201caprova\u00e7\u00f5es correspondentes\u201d do Conselho Deliberante de Malvinas Argentinas, e que o Estudo de Impacto Ambiental est\u00e1 em an\u00e1lise no governo provincial. A Monsanto repudiou as \u201ccampanhas sujas que manipulam a informa\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica para criar medo\u201d e \u201cas mentiras, em nome do ambientalismo, que mascaram interesses esp\u00farios\u201d.<\/p>\n<p>Em abril, o Tribunal Superior de Justi\u00e7a provincial desqualificou um pedido de medida cautelar apresentado pelos moradores para suspender a obra. E nos dois \u00faltimos meses a repress\u00e3o policial n\u00e3o faltou, e tampouco as amea\u00e7as. Malvinas Argentinas \u00e9 parte de um movimento que cresce em diferentes lugares do mundo contra a Monsanto. Nesse povoado os protestos chegaram a reunir oito mil pessoas, segundo Marizza. N\u00e3o \u00e9 para menos, afirmou: \u201cTemos o monstro em cima\u201d. (Envolverde\/Terram\u00e9rica)<\/p>\n<p><em>* A autora \u00e9 correspondente da IPS. Publicado pela rede latino-americana de jornais Terram\u00e9rica.\u00a0<\/em><\/p>\n<p><strong>Artigo produzido para o Terram\u00e9rica, projeto de comunica\u00e7\u00e3o apoiado pelo Banco Mundial Latin America and Caribbean, realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribu\u00eddo pela Ag\u00eancia Envolverde.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Malvinas Argentinas, Argentina, 2 de dezembro de 2013 (Terram&eacute;rica).- Havia uma vez donas de casa, comerciantes e funcion&aacute;rios municipais de um tranquilo povoado no centro da Argentina. At&eacute; que chegou a Monsanto, a corpora&ccedil;&atilde;o norte-americana de biotecnologia. 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