{"id":16941,"date":"2013-12-03T11:58:32","date_gmt":"2013-12-03T11:58:32","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=104113"},"modified":"2013-12-03T11:58:32","modified_gmt":"2013-12-03T11:58:32","slug":"onde-fica-lampedusa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/12\/ultimas-noticias\/onde-fica-lampedusa\/","title":{"rendered":"Onde fica Lampedusa?"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_104114\" style=\"width: 539px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/imigrantes.jpg\"><img class=\" wp-image-104114 \" alt=\"imigrantes Onde fica Lampedusa?\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/imigrantes.jpg\" width=\"529\" height=\"252\" title=\"Onde fica Lampedusa?\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Imigrantes subsaarianos esperam por trabalho debaixo da ponte de Gargaresh, no oeste de Tr\u00edpoli. Foto: Karlos Zurutuza\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tr\u00edpoli, L\u00edbia, 3\/12\/2013 \u2013 Youssef cruzou o Deserto do Saara com uma mapa escolar da Europa dobrado no bolso. \u201cPoderia indicar onde est\u00e1 Lampedusa? N\u00e3o a encontro\u201d, disse esse nigeriano de 28 anos, na capital da L\u00edbia. A pequena ilha italiana de Lampedusa est\u00e1 onde sempre esteve: no Mar Mediterr\u00e2neo, 600 quil\u00f4metros a noroeste de Tr\u00edpoli. Mas chegar a ela se converteu em sonho imposs\u00edvel de imigrantes e refugiados africanos.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o h\u00e1 voos diretos de Abuja (capital da Nig\u00e9ria) para Tr\u00edpoli, por isso tive que vir por terra. Paguei 800 euros (US$ 1.087) por uma viagem de cinco dias atrav\u00e9s do deserto, na carroceria de um caminh\u00e3o carregado com todo tipo de mercadoria. O motorista disse que me amarraria com uma corda, porque n\u00e3o ia parar se algu\u00e9m ca\u00edsse\u201d contou o jovem \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>Sempre segurando um peda\u00e7o de pau com um rolo de pintar na ponta, Youssef se destaca entre as dezenas de subsaarianos que se re\u00fanem diariamente sob a ponte de Gagaresh, oeste de Tr\u00edpoli. Esperam que algu\u00e9m os procure para um dia de trabalho. O pagamento gira em torno de 20 dinares l\u00edbios, cerca de US$ 16, mas n\u00e3o se pode falar de um padr\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cNa semana passada, trabalhei durante dez horas seguidas em uma obra e n\u00e3o quiseram me pagar. Quando quis reclamar, colocaram uma pistola na minha cabe\u00e7a e me mandaram embora, ou atirariam\u201d, recordou Suleyman, do Mali, que n\u00e3o v\u00ea a hora de deixar Tr\u00edpoli \u201cpara sempre\u201d. \u201cIsso n\u00e3o \u00e9 vida para ningu\u00e9m. Os enfrentamentos entre as mil\u00edcias s\u00e3o constantes e frequentemente me assediam s\u00f3 por ser negro\u201d, lamentou esse jovem de 23 anos. \u201cQuando juntar o dinheiro, embarcarei para Lampedusa antes que seja muito tarde\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>No momento o trabalho \u00e9 escasso e mal remunerado, e a competi\u00e7\u00e3o fica cada vez maior. Um lugar em uma das balsas est\u00e1 em torno dos US$ 1 mil, quantia inalcan\u00e7\u00e1vel para muitos. E o econ\u00f4mico n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico fator a considerar. \u201cA maioria dos barcos deixa de sair antes de novembro por causa das condi\u00e7\u00f5es do mar, mas pode ser que ainda tenhamos alguma oportunidade antes do final do ano\u201d, observou outro jovem, Christian. Segundo esse nigeriano de 27 anos, os recentes confrontos na capital l\u00edbia e a crescente instabilidade desse pa\u00eds est\u00e3o empurrando muitos a tentarem chegar a Lampedusa \u201ca todo custo\u201d.<\/p>\n<p>No regime de Muammar Gadafi (1969-2011), a L\u00edbia se converteu em importante centro de imigrantes africanos enquanto o ent\u00e3o governante pedia dinheiro aos pa\u00edses europeus para evitar uma \u201cEuropa negra\u201d. Mas, desde 2011, o n\u00famero dos que fogem para o norte aumentou, principalmente porque a falta de seguran\u00e7a permite aos contrabandistas de pessoas trabalhar com maior liberdade.<\/p>\n<p>Em uma entrevista exclusiva, um deles garantiu \u00e0 IPS que \u201co governo atual est\u00e1 muito ocupado em vigiar a costa devido aos n\u00edveis de viol\u00eancia que sofre o pa\u00eds. Hoje, nosso principal obst\u00e1culo s\u00e3o as ondas\u201d. Esse contrabandista, que pediu para n\u00e3o ser identificado, admitiu que ganha cerca de US$ 27 mil para cada viagem com sucesso rumo a Lampedusa. Os pagamentos, garantiu, s\u00f3 s\u00e3o aceitos \u201cap\u00f3s os viajantes colocarem o p\u00e9 em terra\u201d, e por meio de um intermedi\u00e1rio em Tr\u00edpoli.<\/p>\n<p>O certo \u00e9 que h\u00e1 poucos meses a costa estava muito mais vigiada. Imran, de 21 anos, chegou procedente de sua Caxemira natal \u2013 no norte do subcontinente indiano \u2013, para acabar navegando sem rumo em um barco durante tr\u00eas horas at\u00e9 ser capturado pela guarda costeira. \u201cO capit\u00e3o simplesmente n\u00e3o conhecia a rota e navegamos em c\u00edrculo\u201d, lembrou esse jovem que pagou com tr\u00eas meses de pris\u00e3o sua primeira e \u00fanica tentativa de chegar a Lampedusa.<\/p>\n<p>Apesar das duras condi\u00e7\u00f5es do centro de deten\u00e7\u00e3o l\u00edbio, ainda afirma que teve sorte. \u201c\u00c9ramos cerca de 50 na mesma cela, mas, pelo menos os guardas nunca me tocaram. Para os negros era completamente diferente. Apanhavam e eram torturados da forma mais brutal, e praticamente todos os dias\u201d, contou Imran. As mulheres eram obrigadas a oferecer sexo em troca de liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Seu testemunho \u00e9 corroborado pelo informe que a Anistia Internacional divulgou em junho, no qual essa organiza\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria pede ao governo l\u00edbio o fim da \u201cdeten\u00e7\u00e3o arbitr\u00e1ria e indefinida de refugiados, solicitantes de asilo e emigrantes, inclu\u00eddas as crian\u00e7as, unicamente por raz\u00f5es migrat\u00f3rias\u201d. A Anistia tamb\u00e9m documentou v\u00e1rios casos de presos, incluindo mulheres, que denunciaram ter sofrido \u201csurras brutais aplicadas com canos de \u00e1gua e cabos el\u00e9tricos\u201d.<\/p>\n<p>\u201cPaguei apenas 500 dinares (US$ 400). Os botes mais baratos, na maioria deles geridos por somalianos, s\u00e3o os que nunca chegam. Na pr\u00f3xima vez tentarei com um gerenciado por s\u00edrios. S\u00e3o muito mais caros, mas dizem que os s\u00edrios sempre chegam a Lampedusa\u201d, disse Imran no hotel onde trabalha como faxineiro. Elias, seu companheiro de trabalho, admite que considera a possibilidade de se unir a Imran em sua pr\u00f3xima tentativa.<\/p>\n<p>At\u00e9 agora, s\u00f3 uma coisa impede dar esse \u00faltimo passo. \u201cMesmo pagando os US$ 1 mil por um bom barco, n\u00e3o se pode v\u00ea-lo at\u00e9 o momento de partir. E chegando nesse ponto n\u00e3o permitem que ningu\u00e9m fique para tr\u00e1s\u201d, disse esse homem de 28 anos natural de Arlit, norte de N\u00edger. \u201cMeu primo passou duas semanas em uma \u2018casa de espera\u2019 at\u00e9 que o tempo melhorou para embarcar. Finalmente conseguiu chegar \u00e0 Europa, mas nem todo mundo tem sorte\u201d, opinou.<\/p>\n<p>De volta para baixo da ponte de Gargaresh, Youssef continua esperando um trabalho que lhe permita pagar a passagem para essa ilha que acaba de apontar com uma caneta esferogr\u00e1fica em seu mapa. Por\u00e9m, est\u00e1 plenamente consciente de que a viagem a esse ponto diminuto pode ser \u201cde ida e volta\u201d. Os pescadores locais sabem muito bem. \u201cFrequentemente encontro cad\u00e1veres presos nas minhas redes\u201d, contou Abdalah Gheryani no pequeno porto pesqueiro de Gargaresh, a apenas 200 metros da ponte. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Tr&iacute;poli, L&iacute;bia, 3\/12\/2013 &ndash; Youssef cruzou o Deserto do Saara com uma mapa escolar da Europa dobrado no bolso. &ldquo;Poderia indicar onde est&aacute; Lampedusa? N&atilde;o a encontro&rdquo;, disse esse nigeriano de 28 anos, na capital da L&iacute;bia. 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