{"id":16950,"date":"2013-12-06T14:08:34","date_gmt":"2013-12-06T14:08:34","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=104418"},"modified":"2013-12-06T14:08:34","modified_gmt":"2013-12-06T14:08:34","slug":"na-argentina-crescem-sinais-de-uma-guerra-pela-agua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/12\/ultimas-noticias\/na-argentina-crescem-sinais-de-uma-guerra-pela-agua\/","title":{"rendered":"Na Argentina crescem sinais de uma guerra pela \u00e1gua"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_104419\" style=\"width: 539px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/Dique-La-Quebrada.jpg\"><img class=\" wp-image-104419 \" alt=\"Dique La Quebrada Na Argentina crescem sinais de uma guerra pela \u00e1gua\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/Dique-La-Quebrada.jpg\" width=\"529\" height=\"372\" title=\"Na Argentina crescem sinais de uma guerra pela \u00e1gua\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">O Dique La Quebrada, a sete quil\u00f4metros de R\u00edo Ceballos, com a represa no n\u00edvel hist\u00f3rico mais baixo de \u00e1gua. Foto: Fabiana Frayssinet\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>R\u00edo Ceballos, Argentina, 6\/12\/2013 \u2013 Com poucas perspectivas de solu\u00e7\u00e3o no curto prazo, a prov\u00edncia argentina de C\u00f3rdoba come\u00e7a a viver o que parece um enredo futurista: falta de \u00e1gua nas torneiras, racionamentos, den\u00fancias entre vizinhos e esperar que chova. O problema se estende por toda a prov\u00edncia, mas \u00e9 mais evidente em sua \u00e1rea mais habitada, a capital de mesmo nome, a regi\u00e3o de Sierras Chicas e o sul de Punilla.<\/p>\n<p>Ali, quando as chuvas escasseiam, baixa o n\u00edvel das represas que fornecem \u00e1gua. Alguns munic\u00edpios serranos apelam para o racionamento, como R\u00edo Ceballos, localidade de 30 mil habitantes, 30 quil\u00f4metros ao norte da capital. A represa do Dique La Quebrada, que a abastece, atingiu seu menor n\u00edvel hist\u00f3rico, com 13,5 metros abaixo da cota de des\u00e1gue. A prefeitura estabeleceu cortes programados de fornecimento de 12 horas, duas vezes por semana.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 algo que se podia esperar\u201d, disse \u00e0 IPS um dos moradores, Omar Vergara, que tem uma cole\u00e7\u00e3o de baldes espalhados pelo quintal de sua casa para coletar \u00e1gua de chuva e us\u00e1-la para regar as plantas e limpar o ch\u00e3o. Como outros, lava seu autom\u00f3vel \u201cs\u00f3 com baldes\u201d e reutiliza a \u00e1gua \u201cmenos suja\u201d de sua lavadora e deixa a pot\u00e1vel para beber e cozinhar.<\/p>\n<p>Lavar a cal\u00e7ada com mangueira provoca den\u00fancias entre vizinhos. A \u00e1gua \u00e9 mais cara para consumo maior. Mas, ainda assim n\u00e3o \u00e9 bem visto, por exemplo, encher as piscinas dessa pequena e apraz\u00edvel cidade, onde vieram viver muitos antigos moradores da pr\u00f3xima C\u00f3rdoba, por seu ar puro e melhor qualidade de vida. Uma linha telef\u00f4nica recebe den\u00fancias de \u201cdesperd\u00edcio de \u00e1gua\u201d 24 horas por dia.<\/p>\n<p>A Cooperativa de Obras e Servi\u00e7os R\u00edo Ceballos distribui a \u00e1gua residencial e tamb\u00e9m ajuda a conscientizar sobre sua economia. Seu gerente, Miguel Martinesi, contou \u00e0 IPS que o consumo por pessoa caiu de 270 para 170 litros di\u00e1rios, enquanto na capital da prov\u00edncia \u00e9 de 400 litros por habitante. \u201cH\u00e1 um controle permanente. Os moradores se vigiam: n\u00e3o regue, n\u00e3o lave o carro, n\u00e3o lave a cal\u00e7ada\u201d, pontuou.<\/p>\n<p>\u201cVivemos uma situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia\u201d desde 2005, disse \u00e0 IPS o intendente (prefeito) de R\u00edo Ceballos, Sergio Spicogna, que atribui a crise de \u00e1gua \u00e0 redu\u00e7\u00e3o das chuvas e a um crescimento explosivo da popula\u00e7\u00e3o, ap\u00f3s a constru\u00e7\u00e3o de uma nova rodovia que une o munic\u00edpio a C\u00f3rdoba. Antes, esse dique a apenas sete quil\u00f4metros da localidade abastecia tamb\u00e9m dois munic\u00edpios vizinhos, Unquillo e Mendiolaza, com 40 mil habitantes em conjunto, \u201cO que tornava muito mais problem\u00e1tica a situa\u00e7\u00e3o\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Mas, foi feita um transvase desde a represa que abastece a capital, o Dique San Roque, e desde ali as duas localidades recebem \u00e1gua, mediante o aqueduto de 30 quil\u00f4metros, que se planeja estender at\u00e9 R\u00edo Ceballos. As autoridades provinciais projetam outras alternativas de abastecimento para a capital de C\u00f3rdoba, para que o excedente de San Roque flua para Sierras Chicas. Por\u00e9m, segundo Spicogna, s\u00e3o planos muito caros e dependem de uma \u201csinergia\u201d entre os munic\u00edpios, a prov\u00edncia e a na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, segundo o diretor da organiza\u00e7\u00e3o ambientalista Projeto de Conserva\u00e7\u00e3o e Reflorestamento das Serras de C\u00f3rdoba, Ricardo Su\u00e1rez, o quebra-cabe\u00e7a dos transvases n\u00e3o \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o. \u201cTrazer \u00e1gua do Dique San Roque \u00e9 um problema, porque, apesar de maior do que o de La Quebrada, tamb\u00e9m est\u00e1 abaixo de sua cota normal e com uma popula\u00e7\u00e3o para abastecer muito maior, e que continuar\u00e1 crescendo\u201d, destacou. \u201cAs obras sempre foram feitas tardiamente, o consumo cresce em ritmo muito maior do que o das obras que se faz, e a natureza tem um limite\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Na prov\u00edncia de C\u00f3rdoba, a segunda mais povoada da Argentina, a m\u00e9dia anual de chuva \u00e9 de 779 mil\u00edmetros e a redu\u00e7\u00e3o da floresta nativa aumentou a evapora\u00e7\u00e3o da \u00e1gua de chuva, por falta de massa florestal que a retenha. Aos poucos, \u201cesse sistema semi\u00e1rido se transformou quase em \u00e1rido, com a tend\u00eancia a se transformar em deserto. Sabemos muito bem que uma das caracter\u00edsticas do deserto \u00e9 carecer de \u00e1gua\u201d, alertou Su\u00e1rez.<\/p>\n<p>C\u00f3rdoba tem o maior desmatamento da Argentina. S\u00f3 restam 5% dos 12 milh\u00f5es de hectares de floresta nativa que a prov\u00edncia tinha no come\u00e7o do s\u00e9culo 20. Os inc\u00eandios ocorridos entre agosto e setembro devoraram 40 mil hectares, a maioria em florestas e pastagens serranas. \u201cEntre 1998 e 2002, se desmatou em C\u00f3rdoba o equivalente a 67 campos de futebol por dia, um n\u00famero aterrador\u201d, enfatizou \u00e0 IPS o presidente da Funda\u00e7\u00e3o para a Defesa do Meio Ambiente, Ra\u00fal Montenegro.<\/p>\n<p>O fogo e o desmatamento indiscriminado pioraram o funcionamento de suas principais bacias h\u00eddricas. \u201cEntraram em colapso as f\u00e1bricas de \u00e1gua\u201d, resumiu o bi\u00f3logo. A \u201cacelera\u00e7\u00e3o mais violenta\u201d do desmatamento ocorreu na d\u00e9cada de 1990 e coincidiu com a introdu\u00e7\u00e3o de cultivos transg\u00eanicos de soja, milho e algod\u00e3o, entre outros, que tamb\u00e9m impulsionaram o consumo de \u00e1gua, detalhou Montenegro. \u201cPara produzir um quilo de gr\u00e3o de soja s\u00e3o necess\u00e1rios entre 1,5 e dois mil litros de \u00e1gua, e em terras \u00e1ridas uma quantidade maior\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>\u201cMuitos acreditam que a maior parte da superf\u00edcie da prov\u00edncia pode dedicar-se a agricultura, pecu\u00e1ria e plantio de \u00e1rvores estrangeiras, e que os diminutos parques e reservas criados pelos governos s\u00e3o suficientes para conservar nossos ambientes nativos\u201d, comentou Montenegro. \u201c\u00c9 dramaticamente falso. N\u00e3o h\u00e1 futuro nem estabilidade ambiental sem a coexist\u00eancia equilibrada de ambientes naturais e produtivos\u201d, concluiu.<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o de condom\u00ednios, ind\u00fastrias e grandes complexos tur\u00edsticos tamb\u00e9m impulsiona o desmatamento da prov\u00edncia, que contribui com 8% do produto bruto argentino. Por isso, para Su\u00e1rez, a solu\u00e7\u00e3o \u00e9 um agressivo plano de reflorestamento e n\u00e3o apenas novas obras. \u201cO Dique La Quebrada vai secar, \u00e9 irrevers\u00edvel, porque a bacia est\u00e1 85% desmatada. Os solos est\u00e3o quase totalmente expostos\u201d, ressaltou.<\/p>\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o de Su\u00e1rez reflorestou, com volunt\u00e1rios e quase sem recursos, 40 hectares de floresta nativa, o que demorou 14 anos. \u201cSe os planos de reflorestamento fossem sistem\u00e1ticos, hoje a serra seria uma grande floresta nativa\u201d, opinou. Martinesi apresentou outras solu\u00e7\u00f5es: \u201cTemos que definir quais zonas queremos que cres\u00e7am, para poder lhes dar a infraestrutura necess\u00e1ria, e quais n\u00e3o queremos deixar crescer\u201d, sugeriu. Do contr\u00e1rio, \u201co problema ser\u00e1 grave\u201d no m\u00e9dio prazo, alertou.<\/p>\n<p>O respons\u00e1vel pelo fornecimento de \u00e1gua para R\u00edo Ceballos considera que as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas incidiram na crise h\u00eddrica, com prolongadas secas, agravadas pela degrada\u00e7\u00e3o do ecossistema. \u201cEntretanto, dever\u00edamos resolver o tema da infraestrutura, ordenar o crescimento, aproveitar bem as fontes, para ent\u00e3o poder dizer que estamos complicados pela falta de chuvas. Esperar que uma regi\u00e3o cres\u00e7a dependendo das chuvas \u00e9 irresponsabilidade\u201d, destacou. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; R&iacute;o Ceballos, Argentina, 6\/12\/2013 &ndash; Com poucas perspectivas de solu&ccedil;&atilde;o no curto prazo, a prov&iacute;ncia argentina de C&oacute;rdoba come&ccedil;a a viver o que parece um enredo futurista: falta de &aacute;gua nas torneiras, racionamentos, den&uacute;ncias entre vizinhos e esperar que chova. 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