{"id":16978,"date":"2013-12-12T11:00:42","date_gmt":"2013-12-12T11:00:42","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=104800"},"modified":"2013-12-12T11:00:42","modified_gmt":"2013-12-12T11:00:42","slug":"as-mulheres-libias-nao-passam-de-pilhagem-de-guerra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/12\/ultimas-noticias\/as-mulheres-libias-nao-passam-de-pilhagem-de-guerra\/","title":{"rendered":"\u201cAs mulheres l\u00edbias n\u00e3o passam de pilhagem de guerra\u201d"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_104801\" style=\"width: 539px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/Aicha.jpg\"><img class=\" wp-image-104801 \" alt=\"Aicha \u201cAs mulheres l\u00edbias n\u00e3o passam de pilhagem de guerra\u201d\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/Aicha.jpg\" width=\"529\" height=\"252\" title=\"\u201cAs mulheres l\u00edbias n\u00e3o passam de pilhagem de guerra\u201d\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\"><br \/>Aicha Almagrabi, escritora e ativista pelos direitos da mulher na L\u00edbia. Foto: Karlos Zurutuza\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tr\u00edpoli, L\u00edbia, 12\/12\/2013 \u2013 A L\u00edbia estaria se voltando para um modelo \u201cafeg\u00e3o\u201d quanto aos direitos da popula\u00e7\u00e3o feminina, se n\u00e3o forem impostas mudan\u00e7as imediatas, afirmou em entrevista \u00e0 IPS a escritora e ativista feminista Aicha Almagrabi. As mulheres \u201cque reclamam seus direitos s\u00e3o constantemente insultadas, hostilizadas e amea\u00e7adas\u201d, contou essa professora universit\u00e1ria de 57 anos, que tamb\u00e9m preside a Organiza\u00e7\u00e3o para a Defesa da Liberdade de Pensamento, em entrevista concedida em sua resid\u00eancia em Tr\u00edpoli.<\/p>\n<p>Almagrabi, que estudou filosofia em seu pa\u00eds e na Fran\u00e7a, \u00e9 autora de quatro livros de poesia, uma novela e uma obra teatral, publicadas apenas em \u00e1rabe. Atualmente trabalha em outros tr\u00eas livros, tarefa que divide com seu ativismo e as aulas que d\u00e1 de filosofia e artes pl\u00e1sticas.<\/p>\n<p><b>IPS: Em outubro completou dois anos do assassinato de Muammar Gadafi. O que mudou para as mulheres l\u00edbias desde ent\u00e3o?<\/b><\/p>\n<p><b>AICHA ALMAGRABI: <\/b>As coisas, sem d\u00favida, mudaram, mas n\u00e3o para melhor. Perdemos os poucos direitos que t\u00ednhamos. Por exemplo, a bigamia continua habitual na L\u00edbia, mas, pelo menos, o homem precisava da aprova\u00e7\u00e3o de sua mulher para ter um segundo casamento, isso no governo de Gadafi. Agora, isso j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio. Na verdade, Mahmud Jibril (primeiro-ministro do Conselho Nacional de Transi\u00e7\u00e3o em 2011), em seu famoso discurso ap\u00f3s o final da guerra, mencionou a revis\u00e3o da lei sobre a poligamia, inclusive antes de falar da reconstru\u00e7\u00e3o do pa\u00eds e de sua sociedade civil. Mudan\u00e7as? Hoje as mulheres l\u00edbias n\u00e3o s\u00e3o mais do que pilhagem de guerra. Em n\u00edvel de rua, as que reclamam seus direitos s\u00e3o constantemente insultadas, hostilizadas e amea\u00e7adas. Fomos parte da revolu\u00e7\u00e3o, tivemos nossas pr\u00f3prias m\u00e1rtires, mas, ao contr\u00e1rio dos homens, n\u00e3o conseguimos nenhum benef\u00edcio pol\u00edtico de tudo isso.<\/p>\n<p><b>IPS: Mas v\u00e1rios cargos do governo s\u00e3o ocupados por mulheres&#8230;<\/b><\/p>\n<p><b>AA: <\/b>Verdade, mas tamb\u00e9m \u00e9 certo que podem conservar seus cargos apenas porque foram utilizadas como meras propagandas eleitorais. Sem ir mais longe, no chamado Comit\u00ea dos 60 (encarregado de redigir a nova Constitui\u00e7\u00e3o) h\u00e1 apenas seis lugares reservados para mulheres. Inclusive um membro do Congresso Geral da Na\u00e7\u00e3o (legislativo) pediu medidas para evitar que homens e mulheres compartilhem o mesmo espa\u00e7o durante as reuni\u00f5es. Alguns n\u00fameros tamb\u00e9m s\u00e3o eloquentes: 90% dos professores na L\u00edbia s\u00e3o mulheres, mas apenas 2% delas participam da tomada de decis\u00f5es.<\/p>\n<p><b>IPS: N\u00e3o lhe parece que agora na L\u00edbia o grande <i>mufti<\/i> Sadek al Ghariani, a m\u00e1xima autoridade religiosa, tem mais peso do que os dirigentes pol\u00edticos?<\/b><\/p>\n<p><b>AA: <\/b>O <i>mufti<\/i> ostenta a autoridade religiosa, mas na L\u00edbia esta \u00e9 apoiada pelo aparato pol\u00edtico e militar. Busca-se que a <i>shari\u00e1<\/i> (lei isl\u00e2mica) seja o n\u00facleo do c\u00f3digo penal e da futura Constitui\u00e7\u00e3o. O que perseguem \u00e9 institucionalizar sua pr\u00f3pria interpreta\u00e7\u00e3o do Alcor\u00e3o, algo que \u00e9 muito mais perigoso do que esse livro em si mesmo. Al\u00e9m disso, existe um debate sobre a <i>shari\u00e1<\/i>, mas frequentemente esquecemos que h\u00e1 muitas vers\u00f5es da mesma. Queremos a iraniana? Talvez a afeg\u00e3? Ou, ainda, a marroquina? Um de seus objetivos principais \u00e9 controlar as mulheres por meio de sua pr\u00f3pria vis\u00e3o do Alcor\u00e3o. N\u00e3o me canso de insistir que \u00e9 priorit\u00e1rio separar religi\u00e3o e pol\u00edtica. Infelizmente, as meninas na escola j\u00e1 s\u00e3o obrigadas a usar o <i>hijab<\/i> (v\u00e9u isl\u00e2mico), e o <i>mufti<\/i> tamb\u00e9m est\u00e1 fazendo uma campanha para que o restante das mulheres sempre cubra seu cabelo. Sou professora na Universidade de Zaytuna (em Tr\u00edpoli) e sou a \u00fanica que n\u00e3o cobre o cabelo. Todas as minhas colegas usam o <i>hijab<\/i>, ou mesmo o <i>niqab<\/i> (len\u00e7o que cobre o rosto). Seu n\u00famero n\u00e3o aumenta por lei, mas a pr\u00f3pria press\u00e3o do grupo se encarrega disso.<\/p>\n<p><b>IPS: O que sabe sobre os rumores de uma nova <i>fatwa<\/i> (decreto isl\u00e2mico), que entraria em vigor em janeiro proibindo as mulheres de se deslocarem pelo pa\u00eds sem um <i>muharram<\/i> (acompanhante masculino)?<\/b><\/p>\n<p><b>AA: <\/b>N\u00e3o me surpreende, absolutamente. Vivo fora da cidade e no dia 13 de fevereiro fui retida por uma hora e meia por um grupo de homens armados, quando ia para o trabalho, porque n\u00e3o tinha um <i>muharram<\/i> ao meu lado. Levei o caso aos meios de comunica\u00e7\u00e3o, e em 14 de mar\u00e7o fizemos um protesto que chamamos de \u201ca marcha pela dignidade da mulher\u201d. Como de costume, nos insultaram e amea\u00e7aram, e algumas companheiras chegaram a ser golpeadas.<\/p>\n<p><b>IPS: A crescente viol\u00eancia \u00e9 o problema mais grave para as mulheres l\u00edbias?<\/b><\/p>\n<p><b>AA: <\/b>\u00c9 s\u00f3 um entre muitos. As mulheres na L\u00edbia suportam a carga familiar em toda sua dimens\u00e3o, as ruas s\u00e3o inseguras para n\u00f3s e sofremos muitos assaltos e inclusive sequestros. Por outro lado, ainda n\u00e3o h\u00e1 vontade de garantir os direitos das mulheres na pr\u00f3xima Constitui\u00e7\u00e3o. A cada vez menor participa\u00e7\u00e3o na sociedade civil tamb\u00e9m \u00e9 muito preocupante. Come\u00e7amos muito fortes, mas a crescente press\u00e3o fez cair nossa presen\u00e7a, progressivamente. Hoje em dia contemplamos com assombro como tentam transformar nossos ideais de liberdade e justi\u00e7a com <i>fatwas<\/i> e discursos religiosos que t\u00eam uma forte influ\u00eancia nas novas gera\u00e7\u00f5es. At\u00e9 mesmo Gadafi mudou seu discurso para um mais religioso, na d\u00e9cada de 1980, quando se deu conta de que o Isl\u00e3 podia ser uma ferramenta eficaz para obter maior influ\u00eancia sobre o povo. Por\u00e9m, a falta de direitos e liberdades durante seu governo levou muitos a posi\u00e7\u00f5es extremas, como as da Irmandade Mu\u00e7ulmana e dos jihadistas.<\/p>\n<p><b>IPS: O que pode ajudar a desbloquear uma conjuntura t\u00e3o dif\u00edcil para as mulheres l\u00edbias?<\/b><\/p>\n<p><b>AA: <\/b>Inclusive no improv\u00e1vel caso de, finalmente, termos uma Constitui\u00e7\u00e3o baseada nos direitos humanos, ainda ser\u00e1 necess\u00e1rio realizar outra revolu\u00e7\u00e3o para mudar a mentalidade das mulheres l\u00edbias. Mas, antes de redigir a Constitui\u00e7\u00e3o, \u00e9 fundamental acabar com a impunidade das mil\u00edcias, bem como a de todos os grupos armados que atuam \u00e0 margem do ex\u00e9rcito e da pol\u00edcia. N\u00e3o havendo mudan\u00e7as imediatas, nos veremos destinadas a enfrentar um modelo \u201cafeg\u00e3o\u201d no tocante aos direitos da mulher. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Tr&iacute;poli, L&iacute;bia, 12\/12\/2013 &ndash; A L&iacute;bia estaria se voltando para um modelo &ldquo;afeg&atilde;o&rdquo; quanto aos direitos da popula&ccedil;&atilde;o feminina, se n&atilde;o forem impostas mudan&ccedil;as imediatas, afirmou em entrevista &agrave; IPS a escritora e ativista feminista Aicha Almagrabi. 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