{"id":17008,"date":"2013-12-30T13:58:17","date_gmt":"2013-12-30T13:58:17","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=105417"},"modified":"2013-12-30T13:58:17","modified_gmt":"2013-12-30T13:58:17","slug":"terramerica-melhor-do-que-ouro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2013\/12\/ultimas-noticias\/terramerica-melhor-do-que-ouro\/","title":{"rendered":"TERRAM\u00c9RICA \u2013 Melhor do que ouro"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_105418\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/ArgentinaColheitaVagem1-2.jpg\"><img class=\"size-full wp-image-105418\" alt=\"ArgentinaColheitaVagem1 2 TERRAM\u00c9RICA   Melhor do que ouro\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/ArgentinaColheitaVagem1-2.jpg\" width=\"340\" height=\"343\" title=\"TERRAM\u00c9RICA   Melhor do que ouro\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Teolinda Coronel coleta vagem de alfarroba com sua neta em San Ger\u00f3nimo, Santiago del Estero, na Argentina.<\/p><\/div>\n<p>Guanaco Sombriana, Argentina, 30 de dezembro de 2013 (Terram\u00e9rica).- Cansadas de verem a seca levar seus homens e matar seus animais, as mulheres de Guanaco Sombriana, um povoado do norte da Argentina, lutam por seu destino aproveitando uma \u00e1rvore que at\u00e9 agora dava apenas sombra nessas paisagens \u00e1ridas. O campo de futebol \u00e9 um s\u00edmbolo dessa regi\u00e3o semi\u00e1rida do departamento de Atamisqui, 120 quil\u00f4metros ao sul de Santiago del Estero, capital da prov\u00edncia de mesmo nome.<\/p>\n<p>Dois arcos de ramas secas marcam a vegeta\u00e7\u00e3o rala de cactos e arbustos baixos sobre o solo branco e salitroso que se estende pelo distrito de aproximadamente dez mil habitantes. O campo de futebol vazio tem um significado igualmente desolador: os jogadores, maridos, irm\u00e3os, filhos e pais, voaram como trabalhadores \u201candorinhas\u201d, desta vez para a colheita de milho e de mirtilo no sul do pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u201cCheguei a ficar sozinha com meus sete filhos at\u00e9 oito meses por ano. Para sobreviver criava vacas, cabritos, leit\u00f5es e galinhas. Vend\u00edamos e um pouco era para nosso consumo. Mas, como h\u00e1 dois anos enfrentamos uma seca, muitos animais morreram\u201d, contou Graciela Sauco. Dizem que \u00e9 a pior seca dos \u00faltimos dez anos. N\u00e3o h\u00e1 dinheiro para forragem e os animais morrem diante da impot\u00eancia de seus donos. S\u00e3o camponeses pobres, com terras de at\u00e9 50 hectares, herdadas de seus antepassados e sem t\u00edtulo de propriedade. Tampouco se pode, como antes, plantar ab\u00f3bora e milho para os animais.<\/p>\n<p>\u201cGostaria que meus filhos tivessem um trabalho melhor, para n\u00e3o terem de ir para t\u00e3o longe\u201d, disse Sauco, entre solu\u00e7os. \u201cO \u00faltimo filho foi hoje para a desflorada (de milho) em Buenos Aires. Vivem em pequenas casas pr\u00e9-fabricadas, passam calor, dormem em catres\u201d, lamentou Eleuteria Ledesma. Para as festas de fim de ano, \u201cn\u00e3o tiveram permiss\u00e3o para viajar\u201d, o que entristece mais as mulheres de Guanaco Sombriana.<\/p>\n<div id=\"attachment_105419\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/ArgentinaAPPSA-2.jpg\"><img class=\"size-full wp-image-105419\" alt=\"ArgentinaAPPSA 2 TERRAM\u00c9RICA   Melhor do que ouro\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/ArgentinaAPPSA-2.jpg\" width=\"340\" height=\"255\" title=\"TERRAM\u00c9RICA   Melhor do que ouro\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Os muros de adobe da APPSA se recortam na paisagem semi\u00e1rida.<\/p><\/div>\n<p>Entretanto, agora t\u00eam uma esperan\u00e7a. H\u00e1 uma d\u00e9cada se organizaram na Associa\u00e7\u00e3o de Pequenos Produtores das Salinas Atamisquenhas (APPSA Guanaco), hoje integrada por 80 fam\u00edlias dessa aldeia de 566 habitantes. O come\u00e7o foi dif\u00edcil, recordou Lastenio Casta\u00f1o, assessor t\u00e9cnico da Subsecretaria de Agricultura Familiar do Minist\u00e9rio de Agricultura, Pecu\u00e1ria e Pesca da Argentina.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o h\u00e1 \u00e1gua, \u00e0s vezes nem para consumo das pessoas, menos ainda para os animais ou cultivos. Aqui s\u00f3 o que sobrevive \u00e9 o gado caprino\u201d, explicou Casta\u00f1o. Contudo, \u201capesar de ser um animal muito aguerrido, nesses \u00faltimos anos houve muita mortalidade\u201d. A biodiversidade do monte (bosque de arbustos baixos) tampouco ajuda para se \u201cempreender alguma quest\u00e3o produtiva. H\u00e1 pouqu\u00edssima variedade de esp\u00e9cies\u201d, detalhou ao Terram\u00e9rica.<\/p>\n<p>Os camponeses tinham a ilus\u00e3o de que o galp\u00e3o de adobe que constru\u00edram fosse \u201cum lugar para armazenar frutos do monte e gr\u00e3os para fazer um alimento balanceado para seus animais\u201d, pontuou Casta\u00f1o. A APPSA, com apoio da Subsecretaria e da Unidade para a Mudan\u00e7a Rural (Ucar), tamb\u00e9m tem um pequeno moinho para extrair farinha das vagens de alfarroba branca (<i>Prosopis alba<\/i>) e negra (<i>Prosopis nigra<\/i>), t\u00edpicas da regi\u00e3o e presentes at\u00e9 nas can\u00e7\u00f5es de folclore santiaguinas. As vagens s\u00e3o usadas em Guanaco Sombriana como alimento do gado em \u00e9pocas cr\u00edticas.<\/p>\n<p>A Associa\u00e7\u00e3o recebeu cursos de produ\u00e7\u00e3o de farinha de alfarroba e alimentos panificados, em moda nas lojas naturalistas e feiras org\u00e2nicas. A farinha \u00e9 arom\u00e1tica e doce, com sabor semelhante ao do cacau, rica em fibras, prote\u00ednas, f\u00f3sforo, pot\u00e1ssio, c\u00e1lcio, ferro, pectina, v\u00e1rias vitaminas e taninos. \u201cAntes, mo\u00edamos as vagens com pil\u00e3o. Com o novo moinho moemos uma grande quantidade em pouco tempo. N\u00e3o apenas vagens, mas tudo o que queremos, tamb\u00e9m o milho\u201d, afirmou Lili Far\u00edas.<\/p>\n<p>O Terram\u00e9rica chegou \u00e0 sede da APPSA em um dia de dezembro de trabalho febril, em plena \u00e9poca da colheita. Uma caminhonete carregada de sacas com vagens estaciona \u00e0 porta. A Associa\u00e7\u00e3o agora tem recursos para comprar colheita de outros povoados. As mulheres pesam as sacas e marcam tudo em uma caderneta. Outras moem, em uma corrida contra o tempo. A temperatura chega a 50 graus nessa \u00e9poca do ano e as vagens podem \u201cbichar\u201d, explicam.<\/p>\n<p>Para fazerem suas contas usam a calculadora dos telefones celulares, que \u201cs\u00f3 servem para isso e para tirar fotos, porque n\u00e3o temos sinal\u201d, se queixou Marcela Leguizam\u00f3n. Cada s\u00f3cia contribui com uma garrafa de \u00e1gua. Tomam mate, a t\u00edpica infus\u00e3o de erva-mate, e festejam cerca de duas toneladas de farinha. \u201cEsse \u00e9 um passo muito importante para a Associa\u00e7\u00e3o, que cresceu e est\u00e1 mais independente. Temos fundos para manejar. Antes nos vir\u00e1vamos com as cotas dos s\u00f3cios ou rifas. Agora, com a venda da farinha temos lucro\u201d, apontou Claudia Rojas.<\/p>\n<div id=\"attachment_105420\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/ArgentinaColheitaVagem2-2.jpg\"><img class=\"size-full wp-image-105420\" alt=\"ArgentinaColheitaVagem2 2 TERRAM\u00c9RICA   Melhor do que ouro\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/ArgentinaColheitaVagem2-2.jpg\" width=\"340\" height=\"255\" title=\"TERRAM\u00c9RICA   Melhor do que ouro\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Um menino observa a colheita de vagem.<\/p><\/div>\n<p>Casta\u00f1o acrescentou que \u00e9 preciso melhorar a distribui\u00e7\u00e3o comercial, o transporte e os servi\u00e7os b\u00e1sicos como eletricidade e \u00e1gua. Por\u00e9m, a APPSA se converteu em um interlocutor mais forte para apresentar suas demandas \u00e0s autoridades. Com um fundo rotat\u00f3rio de aproximadamente US$ 21 mil para esta e outras comunidades, a APPSA pode comprar alimentos para o gado e conceder microcr\u00e9ditos para a constru\u00e7\u00e3o de cercas nos currais e de cisternas, entre outras necessidades.<\/p>\n<p>Esse fundo \u00e9 financiado pelo Programa de Desenvolvimento de \u00c1reas Rurais da Ucar, que tem alcance nacional e se destina a \u201ccontribuir para a coes\u00e3o social e produtiva\u201d dos camponeses, com \u00eanfase nas economias regionais. As associadas da APPSA sonham com computadores \u201cpara terem um registro de tudo\u201d, porque os \u201cpapeizinhos, \u00e0s vezes, perdemos\u201d, observou Leguizam\u00f3n. A renda de cada fam\u00edlia come\u00e7a a melhorar. O dinheiro \u00e9 usado em comida, roupas ou motocicletas, o meio de transporte por excel\u00eancia nessa regi\u00e3o de caminhos \u00e0s vezes intransit\u00e1veis.<\/p>\n<p>\u201cEstamos tentando fazer com que jovens que partem como andorinhas fiquem aqui trabalhando com os frutos do monte. Para que trabalhar em outras terras podendo aproveitar o que temos aqui?\u201d, enfatizou Far\u00edas. Estima-se que 75% da superf\u00edcie argentina \u00e9 de terra seca e 40% dessa \u00e1rea j\u00e1 apresenta sintomas de desertifica\u00e7\u00e3o. O governo quer estender o projeto para outras regi\u00f5es com alfarroba aut\u00f3ctone. Em San Ger\u00f3nimo, no vizinho departamento de Loreto, j\u00e1 \u00e9 realizada uma experi\u00eancia semelhante.<\/p>\n<p>Teolinda Coronel, sua filha, sua sobrinha e uma neta v\u00e3o ao monte colher vagens de alfarroba \u00e0s 6h30. \u201cTrazemos a garrafa t\u00e9rmica, tomamos mate e retornamos ao meio-dia. Nesse per\u00edodo cada uma colhe 35 quilos, ou mais\u201d, acrescentou. A colheita recome\u00e7a \u00e0s 17h, quando baixa o sol lacerante. Ela espera que os filhos voltem. Com o que ganham como andorinhas \u201cn\u00e3o podem nem pagar suas contas\u201d e com as vagens podem comprar roupa, sapato ou ajudar suas m\u00e3es.<\/p>\n<p>A viagem por essas regi\u00f5es onde a vagem da alfarroba se tornou ouro acaba em uma mesa com <i>alfajores<\/i>, pudins e torta doce, acompanhados da bebida aloja (\u00e1gua, mel e especiarias) e do doce suco de cha\u00f1ar, outra \u00e1rvore leguminosa da regi\u00e3o. Esses frutos tamb\u00e9m representam ganhos que n\u00e3o s\u00e3o anotados nas cadernetas.<\/p>\n<p>\u201cAntes, ficava em casa estressada, pensando em como fazer algum dinheirinho, e agora v\u00eam \u00e0 minha casa comprar meus produtos, conhe\u00e7o outros lugares, outras pessoas\u201d, contou Graciela Ardiles, produtroa da localidade de Arraga, que antes trabalhava como faxineira. \u201cAgora tenho minha carreira profissional independente. E meus filhos poder\u00e3o estudar, como eu n\u00e3o pude\u201d, ressaltou. Envolverde\/Terram\u00e9rica<\/p>\n<p><em>* A autora \u00e9 correspondente da IPS.<\/em><\/p>\n<p><strong>LINKS<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/2012\/02\/argentina-el-reto-de-producir-alimentos-en-tierras-secas\/\" >O desafio de produzir alimentos em terras secas \u2013 2012, em espanhol<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/noticias\/outra-vez-a-ameaca-da-seca-na-argentina\/\" >Outra vez a amea\u00e7a da seca na Argentina \u2013 2012<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/2011\/09\/argentina-el-sueno-de-la-fabrica-mundial-de-alimentos\/\" >O sonho da f\u00e1brica mundial de alimentos \u2013 2011, em espanhol<\/a><\/p>\n<p><strong>Artigo produzido para o Terram\u00e9rica, projeto de comunica\u00e7\u00e3o apoiado pelo Banco Mundial Latin America and Caribbean, realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribu\u00eddo pela Ag\u00eancia Envolverde.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Guanaco Sombriana, Argentina, 30 de dezembro de 2013 (Terram&eacute;rica).- Cansadas de verem a seca levar seus homens e matar seus animais, as mulheres de Guanaco Sombriana, um povoado do norte da Argentina, lutam por seu destino aproveitando uma &aacute;rvore que at&eacute; agora dava apenas sombra nessas paisagens &aacute;ridas. 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