{"id":17037,"date":"2014-01-13T14:20:43","date_gmt":"2014-01-13T14:20:43","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=105855"},"modified":"2014-01-13T14:20:43","modified_gmt":"2014-01-13T14:20:43","slug":"desenvolvimento-apos-devastacao-causada-por-represa-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/01\/ultimas-noticias\/desenvolvimento-apos-devastacao-causada-por-represa-no-brasil\/","title":{"rendered":"Desenvolvimento ap\u00f3s devasta\u00e7\u00e3o causada por represa no Brasil"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_105857\" style=\"width: 539px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/agricultor1.jpg\"><img class=\" wp-image-105857 \" alt=\"agricultor1 Desenvolvimento ap\u00f3s devasta\u00e7\u00e3o causada por represa no Brasil\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/agricultor1.jpg\" width=\"529\" height=\"372\" title=\"Desenvolvimento ap\u00f3s devasta\u00e7\u00e3o causada por represa no Brasil\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Agricultor mostra, orgulhoso, sua colheita de melancias, em um reassentamento no munic\u00edpio de Gl\u00f3ria, Estado da Bahia. Foto: Mario Osava\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Petrol\u00e2ndia, Brasil, 13\/1\/2014 \u2013 Valdenor de Melo espera h\u00e1 27 anos a terra e a indeniza\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria que lhe cabem porque sua antiga propriedade ficou debaixo da \u00e1gua da represa da hidrel\u00e9trica de Itaparica, no rio S\u00e3o Francisco, no nordeste do pa\u00eds. \u201cVou receber, tenho f\u00e9\u201d, assegurou \u00e0 IPS, embora ache que antes se aposentar\u00e1 como agricultor. Aos 60 anos, ao menos tem uma s\u00f3lida casa de alvenaria, na aldeia rural de resid\u00eancias semelhantes, onde vive com parte de sua fam\u00edlia.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia Melo \u00e9 uma das 10.500 deslocadas, segundo dados oficiais, pelas \u00e1guas represadas para gerar eletricidade a partir de 1988, com capacidade para 1.480 megawatts (MW). Mas o n\u00famero real de deslocados \u00e9 quase o dobro. S\u00e3o cerca de 80 mil pessoas, afirma o antrop\u00f3logo norte-americano Russell Parry Scott em seu livro <em>Negocia\u00e7\u00f5es e Resist\u00eancias Persistentes<\/em>, baseado em estudos do N\u00facleo de Fam\u00edlia, G\u00eanero e Sexualidade da Universidade Federal de Pernambuco, onde \u00e9 professor.<\/p>\n<p>A longeva esperan\u00e7a de Melo se baseia no processo iniciado com a constru\u00e7\u00e3o da represa de 828 quil\u00f4metros quadrados, cujas \u00e1guas engoliram quatro cidades e campos ribeirinhos ao longo de 150 quil\u00f4metros, na fronteira dos Estados da Bahia e de Pernambuco. Ao contr\u00e1rio das outras hidrel\u00e9tricas brasileiras, a de Itaparica gerou uma mobiliza\u00e7\u00e3o organizada e de sucesso por parte dos camponeses afetados.<\/p>\n<p>Sindicatos de 13 munic\u00edpios vizinhos uniram-se no Polo Sindical dos Trabalhadores Rurais do Subm\u00e9dio S\u00e3o Francisco e promoveram uma s\u00e9rie de protestos desde o in\u00edcio da constru\u00e7\u00e3o, em 1979. As concentra\u00e7\u00f5es reuniram at\u00e9 cinco mil manifestantes, ocuparam cidades que seriam inundadas, sedes da construtora, estradas e canteiros da obra por v\u00e1rias vezes, em alguns casos por v\u00e1rios dias, enfrentando uma dura repress\u00e3o policial.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s batalhar sete anos, a Companhia Hidrel\u00e9trica do S\u00e3o Francisco, abastecedora da regi\u00e3o nordestina e com 15 centrais, se rendeu e assinou o Acordo de 1986, para reassentar as fam\u00edlias camponesas, indeniz\u00e1-las por bens afetados e pagar-lhes uma quantia mensal at\u00e9 sua primeira colheita nas novas terras. Tamb\u00e9m acertou-se que o reassentamento de 6.187 fam\u00edlias rurais compreenderia terras de at\u00e9 seis hectares irrigadas e outra \u00e1rea mais extensa e seca para cada uma. O tamanho variava segundo a for\u00e7a de trabalho familiar e o valor das mulheres conta 60% do referente aos homens.<\/p>\n<p>O Polo Sindical participou da elabora\u00e7\u00e3o do plano de reassentamento e continuou com sua press\u00e3o sobre a empresa e o governo diante dos atrasos no programa. A vit\u00f3ria camponesa foi favorecida pelo processo de redemocratiza\u00e7\u00e3o no Brasil, que em 1985 p\u00f4s fim \u00e0 ditadura militar instalada 21 anos antes e que empoderou os movimentos sociais.<\/p>\n<p>A tenacidade dos camponeses se alimentou da experi\u00eancia. Buscavam impedir a repeti\u00e7\u00e3o dos atropelos da d\u00e9cada anterior, quando milhares de cidad\u00e3os foram expulsos de suas terras e cidades, com minguadas indeniza\u00e7\u00f5es, para dar lugar a outras centrais na mesma bacia do S\u00e3o Francisco. As fam\u00edlias rurais que optaram pelo reassentamento \u2013 85% das deslocadas, segundo Scott \u2013 foram alojadas em 126 agrovilas dispersas por v\u00e1rios munic\u00edpios, cada uma com 50 fam\u00edlias, em m\u00e9dia.<\/p>\n<p>\u201cConseguimos assentar uma parte, mas muitos partiram, n\u00e3o acreditavam em nosso movimento, preferiram a indeniza\u00e7\u00e3o\u201d e se somaram \u00e0s periferias pobres das cidades, contou \u00e0 IPS o coordenador geral do Polo Sindical, Adimilson Nunis. As agrovilas foram constru\u00eddas com a infraestrutura necess\u00e1ria, escolas, sedes administrativas, fornecimento de energia e \u00e1gua, acrescentou.<\/p>\n<p>Os povoados foram localizados ao redor dos chamados per\u00edmetros de irriga\u00e7\u00e3o, onde cada fam\u00edlia ganhou terra mais produtiva. Mas a morosidade na implanta\u00e7\u00e3o dos 12 per\u00edmetros desgastou a conquista sindical. As planta\u00e7\u00f5es irrigadas s\u00f3 puderam come\u00e7ar em 1993, quatro anos depois do previsto, e em apenas tr\u00eas per\u00edmetros. Outros seis come\u00e7aram nos cinco anos seguintes.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia Melo teve a m\u00e1 sorte de ser reassentada no Projeto Jusante (\u00e1guas abaixo), no munic\u00edpio de Gl\u00f3ria, um dos tr\u00eas ainda \u201cem constru\u00e7\u00e3o\u201d. A maioria de seus vizinhos desistiu. \u201cNa agrovila 5 s\u00f3 ficou uma fam\u00edlia e na de n\u00famero 9 outras tr\u00eas\u201d, \u00e0 espera da \u00e1rea irrigada, explicou Maria de F\u00e1tima Melo, filha de Valdenor, que espera continuar a voca\u00e7\u00e3o agr\u00edcola paterna. Contudo, por via das d\u00favidas, se tornou funcion\u00e1ria municipal como enfermeira, contou \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>Os nove projetos operacionais desde a d\u00e9cada de 1990 beneficiam com maiores rendas e avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos 4.910 fam\u00edlias, segundo a Companhia de Desenvolvimento das Bacias do S\u00e3o Francisco e Parna\u00edba, encarregada da gest\u00e3o dos sistemas de irriga\u00e7\u00e3o e da assist\u00eancia t\u00e9cnica. A cidade de Gl\u00f3ria se converteu em um polo produtor de melancias e para isso contribuiu o projeto implantado em 1993, com 123 fam\u00edlias assentadas em tr\u00eas agrovilas e um centro experimental, disse \u00e0 IPS o agricultor Dorgival Araujo Melo, vereador pelo Partido Verde.<\/p>\n<p>\u201cA irriga\u00e7\u00e3o \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o para o Nordeste, mas com tecnologias que economizem \u00e1gua\u201d, para adequa\u00e7\u00e3o ao clima semi\u00e1rido da regi\u00e3o, opinou o vereador. Seu orgulho \u00e9 ter conseguido, em seu per\u00edmetro, substituir a irriga\u00e7\u00e3o de aspers\u00e3o, que desperdi\u00e7a \u00e1gua, pelo gotejamento, sistema de tubula\u00e7\u00f5es com buracos apenas onde \u00e9 preciso molhar.<\/p>\n<p>\u201cA vida melhorou com a casa nova, a escola perto e a terra irrigada\u201d, mas era melhor viver sem vizinhos pr\u00f3ximos, com um quintal \u201conde criar cabras e galinhas\u201d e plantar hortali\u00e7as, disse Ana de Souza Xavier, enquanto seu marido n\u00e3o gosta do isolamento rural.<\/p>\n<p>O casal, com tr\u00eas filhos j\u00e1 independentes e curso superior, foi assentado em uma agrovila perto de Petrol\u00e2ndia, cidade constru\u00edda para substituir outra inundada pela represa. Com tr\u00eas hectares irrigados e 22 secos em produ\u00e7\u00e3o h\u00e1 20 anos, a fam\u00edlia prosperou cultivando coco. \u201cAntes, sofr\u00edamos com o fracasso da planta\u00e7\u00e3o de feij\u00e3o e melancia\u201d, disse \u00e0 IPS o marido de Ana, Oswaldo Xavier.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia da hidrel\u00e9trica de Itaparica, com cerca de 20 mil hectares irrigados em m\u00e3os de agricultores familiares, promove uma op\u00e7\u00e3o de desenvolvimento agr\u00edcola distinta da escolhida pela companhia el\u00e9trica. Esta prioriza a grande produ\u00e7\u00e3o, inclusive para exporta\u00e7\u00e3o, exigindo grandes investimentos e tecnologias inacess\u00edveis aos pequenos produtores.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 dif\u00edcil que Itaparica inspire solu\u00e7\u00f5es semelhantes para conflitos gerados por outros megaprojetos atuais, como a pol\u00eamica hidrel\u00e9trica de Belo Monte, na Amaz\u00f4nia. O custo de seu programa de reassentamento rural somava, em 2010, o equivalente a 85% do total investido para construir a central e chegou a 100% em 2014, segundo um documento do Tribunal de Contas da Uni\u00e3o. Assentar cada fam\u00edlia de Itaparica custou quatro vezes mais do que em outros projetos p\u00fablicos de irriga\u00e7\u00e3o, acrescenta o informe. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Petrol&acirc;ndia, Brasil, 13\/1\/2014 &ndash; Valdenor de Melo espera h&aacute; 27 anos a terra e a indeniza&ccedil;&atilde;o monet&aacute;ria que lhe cabem porque sua antiga propriedade ficou debaixo da &aacute;gua da represa da hidrel&eacute;trica de Itaparica, no rio S&atilde;o Francisco, no nordeste do pa&iacute;s. &ldquo;Vou receber, tenho f&eacute;&rdquo;, assegurou &agrave; IPS, embora ache que antes se [&hellip;] <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/01\/ultimas-noticias\/desenvolvimento-apos-devastacao-causada-por-represa-no-brasil\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":131,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8,12,10,1],"tags":[27,1986,1853,989,3178,1987,3179,1988,1989],"class_list":["post-17037","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiente","category-desenvolvimento","category-energia","category-ultimas-noticias","tag-brasil","tag-devastacao","tag-hidreletrica","tag-inter-press-service-reportagens","tag-ips","tag-itaparica","tag-mario-osava","tag-represa","tag-rio-sao-francisco"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17037","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/131"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17037"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17037\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17038,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17037\/revisions\/17038"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17037"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17037"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17037"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}