{"id":17082,"date":"2014-01-22T12:06:03","date_gmt":"2014-01-22T12:06:03","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=106504"},"modified":"2014-01-22T12:06:03","modified_gmt":"2014-01-22T12:06:03","slug":"esperando-um-teto-quatro-anos-depois-do-terremoto-no-haiti","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/01\/ultimas-noticias\/esperando-um-teto-quatro-anos-depois-do-terremoto-no-haiti\/","title":{"rendered":"Esperando um teto quatro anos depois do terremoto no Haiti"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_106505\" style=\"width: 539px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/haiti640.jpg\"><img class=\" wp-image-106505 \" alt=\"haiti640 Esperando um teto quatro anos depois do terremoto no Haiti\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/haiti640.jpg\" width=\"529\" height=\"372\" title=\"Esperando um teto quatro anos depois do terremoto no Haiti\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">A haitiana Mimose G\u00e9rard, de 57 anos, lava roupas e coleta garrafas de pl\u00e1stico para sobreviver. Quatro anos depois do terremoto, ainda reside em um acampamento. Foto: Milo Milfort\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Carrefour, Haiti, 22\/1\/2014 \u2013 Mimose G\u00e9rard se senta em sua barraca no acampamento Gaston Margron, perto da capital do Haiti, rodeada por grandes sacos cheios de garrafas de pl\u00e1stico. Ganha apenas alguns centavos por cada uma, mas \u00e9 melhor do que nada. \u201cVivo no acampamento desde 13 de janeiro de 2010, quando me instalei em uma barraca. Tem sido uma exist\u00eancia dolorosa\u201d, contou \u00e0 IPS. \u201cSou apenas uma pessoa comum neste terreno. N\u00e3o tenho nenhum lugar para ir\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>A coleta de garrafas para reciclar \u00e9 o meio de sustento de pelo menos uma dezena de moradores desse acampamento que cerca de 800 fam\u00edlias chamam de lar, instalado em Carrefour, na fronteira sul de Porto Pr\u00edncipe. Quatro anos depois do terremoto de 12 de janeiro de 2010, ainda h\u00e1 cerca de 300 acampamentos dispersos pela regi\u00e3o da capital, e em uma nova grande favela sobre as ladeiras des\u00e9rticas da periferia da cidade.<\/p>\n<p>G\u00e9rard tem 57 anos e 11 filhos. Tamb\u00e9m se dedica a lavar roupa para ganhar alguns centavos a mais. Suas m\u00e3os est\u00e3o \u00e1speras e rachadas. \u201cAs condi\u00e7\u00f5es s\u00e3o desumanas, mas n\u00e3o temos para onde ir. Os que tiveram ajuda de suas fam\u00edlias partiram. Mas n\u00e3o conto com isso, por isso vou ficando\u201d, contou a mulher. Ela acrescentou que os habitantes do lugar tamb\u00e9m s\u00e3o obrigados a consumir \u00e1gua sem tratar, em um pa\u00eds assediado por uma epidemia de c\u00f3lera.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o temos latrina. \u00c9 aqui que as pessoas jogam seu saco de material fecal\u201d, disse G\u00e9rard, apontando para uma \u00e1rea de mato onde os habitantes do lugar esvaziam os pequenos sacos pl\u00e1sticos usados como \u201clatrinas port\u00e1teis\u201d durante a noite, quando \u00e9 perigoso sair das barracas. Al\u00e9m dos ladr\u00f5es, os residentes t\u00eam de lidar com a pol\u00edcia e com homens armados que trabalham para os latifundi\u00e1rios.<\/p>\n<p>\u201cA pol\u00edcia tenta nos for\u00e7ar a abandonar o acampamento\u201d, explicou G\u00e9rard. Os policiais aparecem e disparam para cima, para assustar os habitantes do lugar. \u201cO pr\u00f3prio dono veio tr\u00eas vezes\u201d, contou. Segundo a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), os residentes de aproximadamente um ter\u00e7o dos cerca de 300 acampamentos correm risco de serem desalojados.<\/p>\n<p>No dia 11 deste m\u00eas, um dia antes do quarto anivers\u00e1rio do terremoto, um inferno desabou sobre uma centena de barracas e cho\u00e7as de um acampamento em Delmas, perto do centro de Porto Pr\u00edncipe. Uma mulher de 38 anos e tr\u00eas crian\u00e7as pequenas morreram queimadas e dezenas ficaram feridas. Al\u00e9m de levar algumas v\u00edtimas para o hospital p\u00fablico e entregar colch\u00f5es, as autoridades municipais e nacionais n\u00e3o fizeram declara\u00e7\u00f5es, nem investigaram o inc\u00eandio, que muitos suspeitam ter sido intencional. A terra \u00e9 propriedade de uma gr\u00e1fica haitiana.<\/p>\n<p>\u201cTodos os abrigos improvisados das 108 fam\u00edlias que viviam no acampamento ficaram destru\u00eddos pelas chamas, junto com seus pertences pessoais\u201d, declarou a Anistia Internacional no dia 17. Segundo Sanon Renel, l\u00edder da Frente de Reflex\u00e3o e A\u00e7\u00e3o Pela Moradia, a voracidade do fogo e a falta de resposta oficial n\u00e3o fazem prever nada de bom.<\/p>\n<p>\u201cO setor privado parece que est\u00e1 intensificando seus despejos\u201d, afirmou Renel. \u201cPercebem que o governo praticamente apoia suas a\u00e7\u00f5es e por isso podem fazer o que querem. \u00c9 repugnante ver como as autoridades tratam as pessoas pelo simples fato de serem pobres. N\u00e3o as consideram seres humanos. Penso que as veem como animais\u201d, lamentou.<\/p>\n<p>Bastaram 35 segundos. Em 12 de janeiro de 2010 um terremoto de sete graus de magnitude no Haiti matou quase 25 mil pessoas, destruiu 500 mil edifica\u00e7\u00f5es \u2013 deixando 1,5 milh\u00e3o sem casas \u2013 e desatou a destrui\u00e7\u00e3o generalizada. O custo estimado dos danos s\u00f3 no setor habitacional chegou quase a US$ 2,5 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p>Quatro anos depois, aproximadamente 200 mil pessoas como G\u00e9rard ainda est\u00e3o perdias nos acampamentos. Foram constru\u00eddas apenas 7.515 novas moradias permanentes, enquanto foram reparadas 27 mil e cerca de 55 mil fam\u00edlias receberam um \u00fanico pagamento de cerca de US$ 500 para deixarem os acampamentos. Mas agora essas fam\u00edlias \u201cenfrentam outra crise habitacional, pois seu subs\u00eddio de moradia se esgota\u201d, afirma um estudo do Instituto para a Justi\u00e7a e a Democracia no Haiti, com sede em Washington.<\/p>\n<p>Um plano do governo dos Estados Unidos para construir 15 mil novas moradias reduziu seus objetivos em cerca de 80%, segundo o Centro de Pesquisa em Economia e Pol\u00edtica. Agora, o plano \u00e9 construir apenas 2.500. Embora a Ag\u00eancia dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid) tenha constru\u00eddo cerca de 900 casas no Haiti, decidiu n\u00e3o continuar com essa atividade.<\/p>\n<p>Em geral, dos US$ 6,43 bilh\u00f5es desembolsados por doadores bilaterais e multilaterais para o Haiti entre 2010 e 2012, apenas 9% passaram pelo governo haitiano. O restante foi diretamente para empreiteiros estrangeiros. \u201cRealmente \u00e9 um neg\u00f3cio rent\u00e1vel para empreiteiros norte-americanos ganharem dinheiro com esse desastre\u201d, afirmou \u00e0 IPS Dan Beeton, do Centro de Pesquisa em Economia e Pol\u00edtica. \u201cEssa foi uma oportunidade de transformar um desastre em algo que poderia beneficiar os haitianos, reconstruindo seu pr\u00f3prio pa\u00eds, mas simplesmente passaram por cima\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Marie Ilien, de 45 anos, tamb\u00e9m vive no acampamento de Gaston Margron. Lava garrafas para se manter com dois de seus quatro filhos que vivem com ela. \u201cRecolho embalagens na rua e consigo entre 20 e 25 gourdes\u201d (US$ 0,46 a US$ 0,57). A cada manh\u00e3, quando acordamos, recolhemos sacos de fezes e vamos jog\u00e1-los em um buraco. O mau cheiro nos impede de cozinhar\u201d, contou.<\/p>\n<p>Como G\u00e9rarde, Ilien lamenta a falta de \u00e1gua pot\u00e1vel. \u201cQuando o acampamento foi constru\u00eddo t\u00ednhamos \u00e1gua para beber, mas agora n\u00e3o. A \u00e1gua que bebemos n\u00e3o \u00e9 boa\u201d, pontuou. N\u00e3o surpreende que ela e outros residentes do acampamento tenham medo de contrair alguma das v\u00e1rias doen\u00e7as originadas na m\u00e1 qualidade da \u00e1gua que afetam o Haiti, particularmente o c\u00f3lera.<\/p>\n<p>Estudos feitos por v\u00e1rias autoridades, inclu\u00eddos os Centros para o Controle e a Preven\u00e7\u00e3o de Enfermidades dos Estados Unidos, afirmam que a bact\u00e9ria entrou em territ\u00f3rio haitiano com os soldados nepaleses que integram a Miss\u00e3o de Estabiliza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas no Haiti (Minustah), de 9.500 efetivos.<\/p>\n<p>Introduzida no pa\u00eds em outubro de 2010, at\u00e9 agora essa doen\u00e7a infectou quase 700 mil pessoas, matando cerca de 8.500. Segundo os Centros para o Controle de Enfermidades, ainda hoje duas pessoas morrem por dia v\u00edtimas do c\u00f3lera. Embora ag\u00eancias da ONU considerem que se trate de uma epidemia e de uma crise humanit\u00e1ria, at\u00e9 agora t\u00eam rejeitado os pedidos de compensa\u00e7\u00e3o. \u201cO c\u00f3lera e a moradia s\u00e3o ignorados, mas seguem juntos\u201d, pontuou Beeton. \u201cN\u00e3o h\u00e1 \u00e1gua limpa, por isso a doen\u00e7a se propaga. A n\u00e3o erradica\u00e7\u00e3o do c\u00f3lera tamb\u00e9m acontece por falta de vontade pol\u00edtica\u201d, ressaltou.<\/p>\n<p>A ONU tem 18 entidades, inclu\u00edda a Minustah, operando atualmente no Haiti. Elas colaboram com cerca de 43 grandes organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais, mais Banco Mundial, Fundo Monet\u00e1rio Internacional, o governo e centenas de ag\u00eancias menores. Por\u00e9m, o financiamento reduzido afetou a ajuda humanit\u00e1ria, embora o or\u00e7amento da Minustah continue sendo alto, de quase US$ 557 milh\u00f5es para o per\u00edodo de julho de 2013 a junho de 2014.<\/p>\n<p>\u201cA Minustah \u00e9 um desperd\u00edcio de dinheiro, porque no Haiti n\u00e3o h\u00e1 nenhum conflito armado e, por outro lado, o dinheiro poderia ser gasto para acabar com a epidemia de c\u00f3lera iniciada por seus soldados\u201d, opinou Beeton.<\/p>\n<p>ONU Habitat afirma que, j\u00e1 antes do terremoto, o Haiti tinha um imenso d\u00e9ficit de moradias adequadas, e que muitos j\u00e1 viviam em \u00e1reas faveladas. \u201cClaramente, estamos fora da fase de emerg\u00eancia e permitiremos que o pa\u00eds cuide de si mesmo, mas isso n\u00e3o poder\u00e1 avan\u00e7ar a menos que haja meios\u201d, declarou \u00e0 IPS um porta-voz dessa ag\u00eancia. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p><i>* Com colabora\u00e7\u00e3o de Lorraine Farquharson na Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU).<\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Carrefour, Haiti, 22\/1\/2014 &ndash; Mimose G&eacute;rard se senta em sua barraca no acampamento Gaston Margron, perto da capital do Haiti, rodeada por grandes sacos cheios de garrafas de pl&aacute;stico. 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