{"id":17084,"date":"2014-01-22T12:15:55","date_gmt":"2014-01-22T12:15:55","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=106510"},"modified":"2014-01-22T12:15:55","modified_gmt":"2014-01-22T12:15:55","slug":"indigenas-brasileiros-convivem-mal-com-as-aguas-represadas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/01\/ultimas-noticias\/indigenas-brasileiros-convivem-mal-com-as-aguas-represadas\/","title":{"rendered":"Ind\u00edgenas brasileiros convivem mal com as \u00e1guas represadas"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_106511\" style=\"width: 539px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/cacique-B%C3%A1-629x472.jpg\"><img class=\" wp-image-106511 \" alt=\"cacique B\u00e1 629x472 Ind\u00edgenas brasileiros convivem mal com as \u00e1guas represadas\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/cacique-B%C3%A1-629x472.jpg\" width=\"529\" height=\"372\" title=\"Ind\u00edgenas brasileiros convivem mal com as \u00e1guas represadas\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">O jovem cacique xok\u00f3 Lucim\u00e1rio Apol\u00f4nio Lima busca novas formas de sustento para seu povo, depois que a represa de Itaparica cortou suas atividades tradicionais de agricultura e pesca, dependentes das \u00e1guas do rio S\u00e3o Francisco. Foto: Mario Osava\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Foz do Igua\u00e7u e Paulo Afonso, Brasil, 22\/1\/2014 \u2013 A hidrel\u00e9trica de Itaparica ocupou territ\u00f3rio dos ind\u00edgenas pankararu, mas enquanto outros foram compensados, a eles coube apenas perder suas terras e o acesso ao rio S\u00e3o Francisco, queixam-se l\u00edderes desse povo do Nordeste do Brasil. \u201cJ\u00e1 n\u00e3o comemos pescado como antes, mas o maior dano foi a perda da cascata sagrada, onde realiz\u00e1vamos nossos ritos religiosos\u201d, lamentou \u00e0 IPS o cacique Jos\u00e9 Auto dos Santos.<\/p>\n<p>Quase 200 quil\u00f4metros rio abaixo, a comunidade ind\u00edgena xok\u00f3 sofre a diminui\u00e7\u00e3o de \u00e1gua, contida acima por grandes represas que suprimiram as cheias estacionais e regulares do S\u00e3o Francisco, inviabilizando os arrozais de aluvi\u00e3o e reduzindo drasticamente a pesca. Efeitos semelhantes s\u00e3o temidos no rio Xingu, na Amaz\u00f4nia, onde a constru\u00e7\u00e3o da central de Belo Monte desviar\u00e1 parte das \u00e1guas do trecho conhecido como Volta Grande, o que afetar\u00e1 os povos juruna e arara.<\/p>\n<p>Cerca de 2.500 quil\u00f4metros ao sul, os av\u00e1-guarani assentados \u00e0s margens da represa de Itaipu, na fronteira com o Paraguai, se dedicaram \u00e0 piscicultura para manter seu alto consumo tradicional de pescado, em uma popula\u00e7\u00e3o crescente e com escassa terra para cultivar. Nos anos 1970 e 1980, emergiu no Brasil uma gera\u00e7\u00e3o de ind\u00edgenas de \u00e1guas paradas, quando o pa\u00eds construiu numerosas centrais hidrel\u00e9tricas, algumas gigantescas como Itaipu, compartilhada com o Paraguai, e Tucuru\u00ed, na Amaz\u00f4nia oriental, ambas inauguradas em 1984.<\/p>\n<p>No S\u00e3o Francisco, cujo maior trecho cruza terras semi\u00e1ridas, foram instaladas cinco centrais, que alteraram seu fluxo fluvial. Uma delas, Sobradinho, exigiu uma represa de 4.214 quil\u00f4metros quadrados, um dos maiores lagos artificiais do mundo, segundo sua operadora, a estatal Companhia Hidrel\u00e9trica do S\u00e3o Francisco, que tem outras 13 centrais na regi\u00e3o nordestina. A abertura de Sobradinho, em 1982, acabou com a planta\u00e7\u00e3o de arroz em terras inund\u00e1veis do territ\u00f3rio xok\u00f3, cerca de 630 quil\u00f4metros rio abaixo, contaram \u00e0 IPS seus moradores.<\/p>\n<p>O ciclo anual de cheias praticamente desapareceu no Baixo S\u00e3o Francisco desde 1986, quando foi criada em Pernambuco a represa de Itaparica, de 828 quil\u00f4metros quadrados, que regula o fluxo auxiliar de Sobradinho. Assim, se p\u00f4s fim ao aluvi\u00e3o, que fertilizava os arrozais e enchia ciclicamente de peixes os lagos conectados ao rio por um canal.<\/p>\n<p>\u201cSem corrente, o rio perde for\u00e7a, \u00e9 um prato plano que se cruza a p\u00e9\u201d, descreveu Apol\u00f4nio Lima, o cacique xok\u00f3, com uma juventude incomum entre l\u00edderes ind\u00edgenas. Com 30 anos, explicou \u00e0 IPS que busca para sua gente, pouco mais de 400 pessoas, um futuro sustent\u00e1vel. Para isso, estimula a apicultura e outras produ\u00e7\u00f5es alternativas, luta pela revitaliza\u00e7\u00e3o do S\u00e3o Francisco e se op\u00f5e \u00e0 transposi\u00e7\u00e3o de suas \u00e1guas para combater secas no norte, um megaprojeto do governo federal.<\/p>\n<p>\u201cAntes de fazer isso, \u00e9 preciso dar vida ao rio, os doentes n\u00e3o doam sangue para transfus\u00f5es\u201d, afirmou o cacique. \u201cMeus av\u00f3s j\u00e1 asseguravam que as margens do S\u00e3o Francisco morreriam. Eu n\u00e3o, mas meus netos o ver\u00e3o\u201d, profetizou \u00e0 IPS o xam\u00e3 Raimundo Xok\u00f3, de 78 anos.<\/p>\n<p>Para os pankararu, estabelecidos a cinco quil\u00f4metros da muralha que represa as \u00e1guas em Itaparica, as ribeiras fluviais s\u00e3o coisa do passado. Seus l\u00edderes se sentem roubados. \u201cN\u00e3o temos onde pescar, a empresa tomou nossa terra, desconhecendo nosso direito legal at\u00e9 a margem\u201d, explicou \u00e0 IPS o xam\u00e3 Jos\u00e9 Jo\u00e3o dos Santos, mais conhecido como Z\u00e9 Branco.<\/p>\n<p>O ex-cacique Jurandir Freire, apelidado de Z\u00e9 \u00cdndio, luta por indeniza\u00e7\u00f5es milion\u00e1rias, porque os ind\u00edgenas foram exclu\u00eddos das compensa\u00e7\u00f5es por sua terra inundada, ao contr\u00e1rio dos munic\u00edpios, cujas prefeituras recebem benef\u00edcios, e os camponeses assentados nas chamadas agrovilas com \u00e1reas irrigadas. Z\u00e9 \u00cdndio esteve preso e perdeu seu cargo por liderar, em 2001, um protesto que danificou linhas de transmiss\u00e3o el\u00e9trica da central, que passam por montanhas do territ\u00f3rio pankararu sem compensa\u00e7\u00e3o alguma.<\/p>\n<p>A terra f\u00e9rtil, em um vale e ladeiras montanhosas que favorecem uma umidade que contrasta com a semiaridez \u00e0 sua volta, \u00e9 outra fonte de conflitos. Desde a demarca\u00e7\u00e3o da Reserva Pankararu, em 1987, os ind\u00edgenas pressionam o governo para retirar os agricultores brancos que ocupam a melhor parte.<\/p>\n<p>\u201cMinha av\u00f3 nasceu ali e morreu aos 91 anos, isso h\u00e1 cinco\u201d, disse Isabel da Silva para defender que sua fam\u00edlia e outras vizinhas pertencem ao territ\u00f3rio pankararu h\u00e1 mais de um s\u00e9culo. \u201cSegundo a lei, temos que sair, mas fazer isso seria uma injusti\u00e7a\u201d, disse \u00e0 IPS esta funcion\u00e1ria do Polo Sindical de Trabalhadores Rurais do Subm\u00e9dio S\u00e3o Francisco, que conseguiu o reassentamento de quase seis mil fam\u00edlias camponesas afetadas pela central de Itaparica.<\/p>\n<p>H\u00e1 435 fam\u00edlias amea\u00e7adas de expuls\u00e3o h\u00e1 duas d\u00e9cadas, em uma medida que demora por falta de terra para reassent\u00e1-las, justificam as autoridades. O povo pankararu vive em uma reserva de 8.376 hectares e em 2003 contava com 5.584 integrantes, segundo a Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio (Funai), respons\u00e1vel pela prote\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es origin\u00e1rias. Mas outros milhares emigraram para as cidades, especialmente S\u00e3o Paulo, onde mant\u00eam sua identidade e se re\u00fanem em ritos religiosos e festas ind\u00edgenas. Com terra menos escassa, muitos regressariam, espera Z\u00e9 \u00cdndio.<\/p>\n<p>A escassez de terra tamb\u00e9m impacta os ocoy, situados nas margens da represa de Itaipu. S\u00e3o 160 fam\u00edlias, cerca de 700 pessoas, que sobrevivem em apenas 250 hectares, a maioria de florestas protegidas, vedada \u00e0 agricultura. A piscicultura, impulsionada pela empresa Itaipu Binacional, surgiu como alternativa para completar sua alimenta\u00e7\u00e3o, diante da queda da pesca tradicional e das limita\u00e7\u00f5es agr\u00edcolas.<\/p>\n<p>Os ind\u00edgenas se destacaram entre os 850 pescadores que se somaram \u00e0 iniciativa, \u201ctalvez por sua cultura, vinculada \u00e0 \u00e1gua\u201d, destacou \u00e0 IPS o diretor de coordena\u00e7\u00e3o e meio ambiente da companhia, Nelton Friedrich. Com 40 tanques rede, a comunidade ocoy obt\u00e9m quase seis toneladas de pescado por ano, segundo o vice-cacique Silvino Vass.<\/p>\n<p>No entanto, esta n\u00e3o \u00e9 sua maior fonte alimentar e poucos participam diretamente da atividade, segundo pesquisa acad\u00eamica realizada em 2011 por Magali Stempniak Orsi. Al\u00e9m disso, os ind\u00edgenas dependem muito da empresa, que lhes fornece os alevinos e a alimenta\u00e7\u00e3o para os peixes, disse a pesquisadora, segundo a qual o projeto deve promover maior participa\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Os ocoy precisam de assist\u00eancia alimentar para completar suas necessidades, ao contr\u00e1rio de duas vizinhas comunidades av\u00e1-guarani, que contam com mais terras doadas pela Itaipu Binacional e mais produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola.<\/p>\n<p>Em todo caso, o apoio de Itaipu aos ind\u00edgenas locais \u00e9 uma exce\u00e7\u00e3o entre as centrais hidrel\u00e9tricas. Al\u00e9m de buscar alternativas de desenvolvimento para eles, cuida da sustentabilidade de toda sua sub-bacia, com o Programa Cultivando \u00c1gua Boa, um conjunto de 65 a\u00e7\u00f5es ambientais, sociais e produtivas. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Foz do Igua&ccedil;u e Paulo Afonso, Brasil, 22\/1\/2014 &ndash; A hidrel&eacute;trica de Itaparica ocupou territ&oacute;rio dos ind&iacute;genas pankararu, mas enquanto outros foram compensados, a eles coube apenas perder suas terras e o acesso ao rio S&atilde;o Francisco, queixam-se l&iacute;deres desse povo do Nordeste do Brasil. &ldquo;J&aacute; n&atilde;o comemos pescado como antes, mas o maior [&hellip;] <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/01\/ultimas-noticias\/indigenas-brasileiros-convivem-mal-com-as-aguas-represadas\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":131,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[2016,1535,1501,2017,989,3178,3179,1010],"class_list":["post-17084","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ultimas-noticias","tag-aguas-represadas","tag-hidreletricas","tag-indigenas","tag-indigenas-brasileiros","tag-inter-press-service-reportagens","tag-ips","tag-mario-osava","tag-sociedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17084","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/131"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17084"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17084\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17084"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17084"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17084"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}