{"id":17100,"date":"2014-01-28T14:00:43","date_gmt":"2014-01-28T14:00:43","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=106850"},"modified":"2014-01-28T14:00:43","modified_gmt":"2014-01-28T14:00:43","slug":"carregadoras-marroquinas-heroinas-e-vitimas-da-fronteira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/01\/ultimas-noticias\/carregadoras-marroquinas-heroinas-e-vitimas-da-fronteira\/","title":{"rendered":"Carregadoras marroquinas, hero\u00ednas e v\u00edtimas da fronteira"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_106851\" style=\"width: 539px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/porteadoras-paso-Barrio-Chino-Melilla-629x417.jpg\"><img class=\" wp-image-106851 \" alt=\"porteadoras paso Barrio Chino Melilla 629x417 Carregadoras marroquinas, hero\u00ednas e v\u00edtimas da fronteira\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/porteadoras-paso-Barrio-Chino-Melilla-629x417.jpg\" width=\"529\" height=\"317\" title=\"Carregadoras marroquinas, hero\u00ednas e v\u00edtimas da fronteira\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Carregadoras marroquinas esperam, suportando grandes fardos, na passagem do Bairro Chin\u00eas, na cidade aut\u00f4noma espanhola de Melilla, no norte da \u00c1frica. Foto: Cortesia de Jos\u00e9 Palaz\u00f3n\/Associa\u00e7\u00e3o Pr\u00f3-Direitos Humanos da Inf\u00e2ncia<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>M\u00e1laga, Espanha, 28\/1\/2014 \u2013 O Sol ainda n\u00e3o havia surgido quando uma mulher marroquina esperava sua vez na passagem fronteiri\u00e7a de pedestres que separa seu pa\u00eds da cidade espanhola de Melilla. Ap\u00f3s horas esperando, cruza a fronteira carregando em suas costas um fardo de 80 quilos de mercadorias e desanda seus passos entregando-o em seu territ\u00f3rio em troca de menos de US$ 6.<\/p>\n<p>Diariamente, ela e outras milhares de mulheres atravessam os postos de fronteira entre Marrocos e as cidades de Melilla e Ceuta, enclaves espanh\u00f3is no norte da \u00c1frica, para se abastecer de produtos, condicionados em pesados volumes e transport\u00e1-los atrav\u00e9s da fronteira a p\u00e9, em uma atividade comercial que movimenta milh\u00f5es de euros e do qual se beneficiam comerciantes dos dois territ\u00f3rios.<\/p>\n<p>Os empres\u00e1rios de Melilla \u201cvivem desse contrabando\u201d, que torna poss\u00edvel \u00e0s milhares de mulheres carregadoras \u201csobreviver e dar de comer aos seus filhos\u201d, contou \u00e0 IPS o fundador da Associa\u00e7\u00e3o Pr\u00f3-Direitos Humanos da Inf\u00e2ncia, Jos\u00e9 Palaz\u00f3n, que vive na cidade h\u00e1 14 anos. \u201cS\u00e3o m\u00e3es solteiras, vi\u00favas, maltratadas, com maridos inv\u00e1lidos, mulheres exclu\u00eddas da sociedade, que lan\u00e7am m\u00e3o do contrabando para poderem seguir em frente\u201d, detalhou \u00e0 IPS o dirigente sindical Abdelkader El-Founti, da Central Geral de Trabalhadores de Melilla.<\/p>\n<p>\u00c0s nove horas abre o posto de fronteira em Melilla no Bairro Chin\u00eas, a carregadora mostra o passaporte e se dirige para uma explanada onde v\u00e1rios furg\u00f5es deixaram bem cedo no ch\u00e3o os fardos preparados para o carregamento. Amarra com cordas o volume sobre suas costas e anda em sentido contr\u00e1rio mais de 200 metros, vencendo a multid\u00e3o que se amontoa no estreito lugar, para entregar rapidamente a carga no lado marroquino e voltar para fazer mais transportes, antes do fechamento da passagem \u00e0s 13 horas.<\/p>\n<p>Os moradores de Melilla e Ceuta chamam essa atividade de \u201ccom\u00e9rcio at\u00edpico\u201d e os marroquinos o tratam como contrabando tolerado. Nas altas grades de ferro da estreita passagem do Bairro Chin\u00eas est\u00e3o pendurados cartazes com siluetas de carregadores e carregadoras indicando a entrada.<\/p>\n<p>As mulheres recebem quando entregam o fardo no lado marroquino, onde h\u00e1 homens com carrinhos de m\u00e3o ou ve\u00edculos esperando para transport\u00e1-lo. A quantia depende dos quilos que carregam. \u201cO m\u00e1ximo \u00e9 10 euros (US$ 13) por dia. Para cada viagem recebem de tr\u00eas a cinco euros\u201d (US$ 4 a US$ 6), explicou El-Founti.<\/p>\n<p>O peso que carregam \u00e9 acrescido de \u201ctodo tipo de vexames que sofrem por parte das pol\u00edcias espanhola e marroquina\u201d, denunciou El-Founti. \u201cO tratamento dado aos carregadores \u00e9 humilhante. H\u00e1 maus tratos por parte da pol\u00edcia nos dois lados da fronteira. Basta ficar cinco minutos ali para perceber\u201d, pontuou \u00e0 IPS o marroquino Amin Souissi, da Associa\u00e7\u00e3o Pr\u00f3-Direitos Humanos de Andaluzia na cidade espanhola de C\u00e1diz.<\/p>\n<p>Souissi recordou a morte, em setembro de 2013, de um jovem carregador da cidade marroquina de Tetu\u00e1n que, \u201cfarto de tanta humilha\u00e7\u00e3o\u201d ateou fogo ao corpo, como um monge, na passagem de fronteira El Tarajal de Ceuta, depois que as autoridades de seu pa\u00eds confiscaram a mercadoria que carregava.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o queremos que percam seu meio de vida, e pedimos respeito aos direitos humanos dessas pessoas nas fronteiras de Ceuta e Melilla\u201d, declarou Suoissi, que viu policiais empurrando marroquinos que cobram propina com seus cassetetes, bem como a arbitrariedade imperante na hora de permitir que os carregadores cruzem a fronteira, \u201cque depende do funcion\u00e1rio de servi\u00e7o\u201d.<\/p>\n<p>Nos enormes fardos s\u00e3o transportados todo tipo de objetos, como cobertores, pneus usados, alimentos e fraldas. A imensa maioria dos carregadores \u00e9 de mulheres, mas tamb\u00e9m h\u00e1 homens, sobretudo os jovens sem recursos. Muitas mulheres cruzam a fronteira com pacotes menores. Outras trabalham como empregadas dom\u00e9sticas em resid\u00eancias de Melilla e Ceuta e, na \u00faltima hora, voltam para dormir no Marrocos.<\/p>\n<p>Das cerca de 40 mil pessoas que circulam diariamente entre a localidade marroquina de Beni Enzar e Melilla, apenas 10% o fazem com visto, pontuou El-Founti. Os carregadores devem apresentar seu passaporte e o restante conta com uma autoriza\u00e7\u00e3o especial, acordada entre os governos espanhol e marroquino, para trabalhar durante o dia em Melilla e voltar para dormir em suas casas em territ\u00f3rio marroquino.<\/p>\n<p>\u201cS\u00e3o trabalhadores da constru\u00e7\u00e3o civil, empregados dom\u00e9sticos e do setor de hotelaria que trabalham dez a 12 horas por menos de 200 euros (US$ 270) mensais e sem direitos\u201d, denunciou El-Founti. O sindicalista lamentou que os empres\u00e1rios de Melilla se aproveitem do medo dos \u201cempregados transfronteiri\u00e7os\u201d de perder seu trabalho e da sua situa\u00e7\u00e3o de necessidade. \u201cMuitas das mulheres marroquinas empregadas dom\u00e9sticas em Melilla s\u00e3o analfabetas e desconhecem seus direitos trabalhistas\u201d, destacou.<\/p>\n<p>O trabalho das carregadoras \u201cmovimenta muit\u00edssimo dinheiro dos dois lados da fronteira\u201d, enfatizou Palaz\u00f3n, que considera \u201cmuito dif\u00edcil\u201d acabar com essa situa\u00e7\u00e3o, mas pede que seja dignificado seu trabalho e melhoradas as instala\u00e7\u00f5es fronteiri\u00e7as por onde passam diariamente. \u201cN\u00e3o h\u00e1 uma torneira para beber \u00e1gua\u201d, apontou Souissi sobre a passagem El Tarajal de Ceuta, que, \u201cmais do que uma passagem de pedestres, parece uma jaula\u201d com corredores muito estreitos onde as carregadoras quase n\u00e3o cabem.<\/p>\n<p>Esse com\u00e9rcio significa 1,4 bilh\u00e3o de euros anuais (US$ 1,8 bilh\u00e3o) nos dois lados da fronteira e tamb\u00e9m um ter\u00e7o da economia das duas cidades aut\u00f4nomas espanholas. Da atividade vivem diretamente 45 mil pessoas e 400 mil indiretamente, segundo a C\u00e2mara Americana de Com\u00e9rcio em Casablanca, no Marrocos, citados na Declara\u00e7\u00e3o de Tetu\u00e1n, assinada ali por quase 30 organiza\u00e7\u00f5es, em abril de 2012. Nessa declara\u00e7\u00e3o alerta-se para \u201ca importante quantidade de renda obtida por meio do suborno\u201d, 90 milh\u00f5es de euros por ano (US$ 121 milh\u00f5es), de acordo com dados do seman\u00e1rio independente marroquino <i>Al Ayam<\/i>.<\/p>\n<p>As condi\u00e7\u00f5es de passagem pelos postos fronteiri\u00e7os, onde se amontoam milhares de pessoas, j\u00e1 causou mortes. Em novembro de 2008, Zafia Azizi morreu sufocada em Melilla e no dia 25 de maio de 2009 faleceram as marroquinas Busrha e Zhora em uma avalanche na passagem de Biutz, em Ceuta. Ativistas ouvidos pela IPS afirmaram que a Uni\u00e3o Europeia (UE) n\u00e3o atende devidamente as vulnerabilidades dos direitos humanos que as carregadoras marroquinas sofrem.<\/p>\n<p>Ceuta e Melilla t\u00eam um regime fiscal especial com importantes redu\u00e7\u00f5es de impostos e s\u00e3o alheias \u00e0 Uni\u00e3o Aduaneira do bloco, o que permite \u00e0s duas cidades importar com tarifas alfandeg\u00e1rias inferiores \u00e0s da UE e vender aos cidad\u00e3os marroquinos esses produtos, para sua posterior entrada irregular no Marrocos para serem revendidos. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; M&aacute;laga, Espanha, 28\/1\/2014 &ndash; O Sol ainda n&atilde;o havia surgido quando uma mulher marroquina esperava sua vez na passagem fronteiri&ccedil;a de pedestres que separa seu pa&iacute;s da cidade espanhola de Melilla. 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