{"id":17117,"date":"2014-02-03T12:38:34","date_gmt":"2014-02-03T12:38:34","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=107177"},"modified":"2014-02-03T12:38:34","modified_gmt":"2014-02-03T12:38:34","slug":"refugiados-em-mali-regressam-ao-nada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/02\/ultimas-noticias\/refugiados-em-mali-regressam-ao-nada\/","title":{"rendered":"Refugiados em Mali regressam ao nada"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_107178\" style=\"width: 539px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/Mali-629x419.jpg\"><img class=\" wp-image-107178 \" alt=\"Mali 629x419 Refugiados em Mali regressam ao nada\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/Mali-629x419.jpg\" width=\"529\" height=\"319\" title=\"Refugiados em Mali regressam ao nada\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Agaichetou Toure fugiu de Gao em mar\u00e7o de 2012. Foto: Marc-Andre Boisvert\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Bamako, Mali, 3\/2\/2014 \u2013 Com sua tradicional vestimenta cor laranja, Agaichetou Toure est\u00e1 tranquilamente sentada na sala de espera de um centro para refugiados em Kalaban-Koura, popular bairro na periferia da capital do Mali. Ela demorou quase dois anos para se registrar como refugiada, porque desconhecia a exist\u00eancia deste tipo de centro que proporciona ajuda.<\/p>\n<p>Toure fugiu com seus tr\u00eas filhos de Gao, capital da regi\u00e3o malin\u00eas de mesmo nome, um dia ap\u00f3s os isl\u00e2micos tomarem o controle da cidade, em mar\u00e7o de 2012. Ela pegou uma canoa e cruzou o rio N\u00edger quando ainda ouvia disparos atr\u00e1s dela. Seus dois filhos mais velhos se refugiaram em N\u00edger com uma tia. Toure e sua filha de oito anos tomaram um \u00f4nibus que em quatro dias as levou a Bamako, cerca de 1.200 quil\u00f4metros ao sul de Gao. Uma vez na capital, ela se refugiou na casa de seu irm\u00e3o.<\/p>\n<p>Quase dois anos depois, suas condi\u00e7\u00f5es de vida continuam dif\u00edceis. O irm\u00e3o tem duas mulheres e oito filhos em uma casa com apenas dois quartos. Cada noite, dependendo de qual esposa dormir\u00e1 com o irm\u00e3o Toure deve mudar de quarto. \u201cEstou parada em Bamako. N\u00e3o me agrada. Mas preciso ficar\u201d, contou esta mulher de 42 anos, uma das oito que aguardavam para se registrar no centro de refugiados. Sua cidade, Gao, foi cen\u00e1rio de combates h\u00e1 poucos dias.<\/p>\n<p>J\u00e1 passou um ano desde que o governo de Mali recuperou o controle do norte, e seis meses desde a realiza\u00e7\u00e3o de elei\u00e7\u00f5es pac\u00edficas. Em janeiro de 2012, uma rebeli\u00e3o tuaregue desencadeou uma s\u00e9rie de acontecimentos que levaram \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o de quase dois ter\u00e7os do territ\u00f3rio malin\u00eas. Os tuaregues foram rapidamente expulsos por movimentos isl\u00e2micos, v\u00e1rios vinculados \u00e0 rede Al Qaeda.<\/p>\n<p>Mas as interven\u00e7\u00f5es militares internacionais, primeiro da Fran\u00e7a e depois da Uni\u00e3o Africana, libertaram completamente o norte em janeiro de 2013 e permitiram a realiza\u00e7\u00e3o de elei\u00e7\u00f5es em julho do mesmo ano. Contudo, centenas de refugiados ainda n\u00e3o regressaram. A Organiza\u00e7\u00e3o Internacional para as Migra\u00e7\u00f5es (OIM) calcula em 217.811 os refugiados em Mali at\u00e9 o m\u00eas passado, na maioria do sul e de Bamako. Isto representa uma queda em rela\u00e7\u00e3o a junho de 2013, quando eram 353.455. Al\u00e9m disso, 167 mil malineses est\u00e3o refugiados em pa\u00edses vizinhos.<\/p>\n<p>Em um austero e novo escrit\u00f3rio em Kalaban-Koura, Mahamane Allassa Assofar\u00e9 recebe diariamente cerca de 20 refugiados, que querem se registrar nesse centro, um dos cinco administrados pela organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental Ag\u00eancia para a Coopera\u00e7\u00e3o T\u00e9cnica e o Desenvolvimento (ACTED), com sede em Paris, em colabora\u00e7\u00e3o com a OIM.<\/p>\n<p>Assofar\u00e9 documenta a hist\u00f3ria de cada refugiado que cruza a porta. \u00c9 o primeiro passo para receberem ajuda, servi\u00e7os b\u00e1sicos, capacita\u00e7\u00e3o profissional, dinheiro e atendimento m\u00e9dico. \u201cSofrem muitos problemas. O custo de vida \u00e9 muito maior em Bamako do que em seus lugares de proced\u00eancia. H\u00e1 problemas de sa\u00fade, alimenta\u00e7\u00e3o e moradia\u201d, pontuou \u00e0 IPS, enquanto entrega um question\u00e1rio a um refugiado. A OIM estima que cerca de 57% dos 353.455 refugiados registrados em junho de 2013 regressaram \u00e0s suas casas, dos quais 78% decidiram faz\u00ea-lo por considerarem que melhorou a seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Niamoye Alidji \u00e9 uma refugiada ouvida pela IPS h\u00e1 dois anos. Foi uma das primeiras a voltar para casa em Timbuktu, norte de Mali, reconhecida como patrim\u00f4nio universal pela Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Educa\u00e7\u00e3o, a Ci\u00eancia e a Cultura (Unesco). \u201cAs pessoas est\u00e3o voltando lentamente, os com\u00e9rcios reabrem, as escolas tamb\u00e9m. Em Timbuktu, as coisas est\u00e3o melhores. Estamos seguros, afirmou \u00e0 IPS em conversa por telefone.<\/p>\n<p>Embora Timbuktu esteja em paz, v\u00e1rias regi\u00f5es ainda est\u00e3o longe de serem seguras. A cidade de Gao foi atacada na terceira semana de janeiro e na \u00faltima do m\u00eas foi a vez de Kidal, no norte do pa\u00eds. Em algumas \u00e1reas, a situa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a continua sendo fr\u00e1gil. \u201cNossa postura \u00e9 de n\u00e3o estimular regressos em massa\u201d, esclareceu Olivier Beer, dp Alto Comissariado das Na\u00e7\u00f5es Unidas para os Refugiados (Acnur). \u201cA\u00a0 seguran\u00e7a n\u00e3o \u00e9 tudo\u201d, destacou \u00e0 IPS. O funcion\u00e1rio explica que as condi\u00e7\u00f5es humanit\u00e1rias e a aus\u00eancia de instala\u00e7\u00f5es estatais s\u00e3o as raz\u00f5es pelas quais n\u00e3o \u00e9 conveniente uma repatria\u00e7\u00e3o em massa.<\/p>\n<p>Com ele concorda Almahady Cisse, da Cri de Coeur, coletivo malinense criado para apoiar as v\u00edtimas da crise no norte. \u201cFaltam medidas de acompanhamento. Muitos deslocados t\u00eam medo de regressar, sobretudo funcion\u00e1rios p\u00fablicos, o que atrasa o apoio do Estado\u201d, contou \u00e0 IPS. \u201cPoucas escolas reabriram. Ainda h\u00e1 poucos centros de sa\u00fade. A prote\u00e7\u00e3o para os residentes \u00e9 m\u00ednima. Basicamente, agora as popula\u00e7\u00f5es est\u00e3o abandonadas \u00e0 pr\u00f3pria sorte\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Abdoulaye Haidara, de 50 anos, origin\u00e1rio de uma aldeia perto de Bourem, na regi\u00e3o de Goa, que vive em Bamako h\u00e1 quase dois anos. Resiste a regressar. \u201cFalo com minha fam\u00edlia em Bourem. Parece que a situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 melhor. Gostaria de voltar, mas ali n\u00e3o tem nada. Tudo que havia desapareceu. N\u00e3o tenho como alimentar meus quatro filhos. N\u00e3o tem prop\u00f3sito algum voltar\u201d, afirmou \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>Assofar\u00e9 afirma que, devido \u00e0 falta de servi\u00e7os e infraestrutura no norte, muitos refugiados que voltaram para suas casas depois da viol\u00eancia optaram por ir a Bamako. \u201cPerderam tudo no saque e a economia vai muito mal\u201d, ressaltou. Enquanto isso, se mant\u00e9m um fluxo de novos refugiados rumo ao sul do pa\u00eds. A situa\u00e7\u00e3o dos refugiados ainda \u00e9 delicada. \u201cFizemos uma profunda investiga\u00e7\u00e3o e sua situa\u00e7\u00e3o leva a uma lenta precariedade das fam\u00edlias que os recebem\u201d, disse \u00e0 IPS o diretor da ACTED para Mali, Nicolas Robe.<\/p>\n<p>Muitos refugiados se mudaram para casas de familiares, sobrecarregando esses lares. A situa\u00e7\u00e3o fica insustent\u00e1vel para alguns deles, a ponto de pedirem ajuda. A OIM estima que muitos precisar\u00e3o de ajuda alimentar ao regressarem. Cerca de 800 mil pessoas exigir\u00e3o ajuda imediata, enquanto cerca de tr\u00eas milh\u00f5es dos 14,8 milh\u00f5es de habitantes do pa\u00eds correm risco de passar fome nos pr\u00f3ximos tr\u00eas meses.<\/p>\n<p>Assim, n\u00e3o surpreende que Cisse, da Cri de Coeur, pense que n\u00e3o se deve estimular a volta dos refugiados. \u201cUm retorno n\u00e3o deve ser prematuro. Quem perdeu tudo precisa de apoio, de tempo para organizar o melhor regresso poss\u00edvel. E, at\u00e9 agora, ainda estamos nesse processo\u201d, enfatizou. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Bamako, Mali, 3\/2\/2014 &ndash; Com sua tradicional vestimenta cor laranja, Agaichetou Toure est&aacute; tranquilamente sentada na sala de espera de um centro para refugiados em Kalaban-Koura, popular bairro na periferia da capital do Mali. 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