{"id":17136,"date":"2014-02-06T12:28:35","date_gmt":"2014-02-06T12:28:35","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=107449"},"modified":"2014-02-06T12:28:35","modified_gmt":"2014-02-06T12:28:35","slug":"ex-iugoslavos-e-a-verdade-sobre-o-gulag-de-tito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/02\/ultimas-noticias\/ex-iugoslavos-e-a-verdade-sobre-o-gulag-de-tito\/","title":{"rendered":"Ex-iugoslavos e a verdade sobre o gulag de Tito"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_107450\" style=\"width: 539px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/Goli_otok_zatvor-629x472.jpg\"><img class=\" wp-image-107450 \" alt=\"Goli otok zatvor 629x472 Ex iugoslavos e a verdade sobre o gulag de Tito\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/Goli_otok_zatvor-629x472.jpg\" width=\"529\" height=\"372\" title=\"Ex iugoslavos e a verdade sobre o gulag de Tito\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Vista da abandonada pris\u00e3o de Goli Otok. Foto: Pokrajac CC BY-SA 3.0<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Belgrado, S\u00e9rvia, 6\/2\/2014 \u2013 Um dos segredos melhor guardados da desaparecida Iugosl\u00e1via ficou exposto com a divulga\u00e7\u00e3o na internet dos nomes de 16.101 detentos de Goli Otok, ou Ilha Nua, \u00fanico gulag ao estilo sovi\u00e9tico criado pelo regime de Tito, h\u00e1 65 anos. A lista dos que foram levados para esse campo de trabalhos for\u00e7ados, dispon\u00edvel em um site croata, causou rea\u00e7\u00f5es sem precedentes entre os poucos sobreviventes e suas fam\u00edlias em toda a antiga federa\u00e7\u00e3o, que se dissolveu em 1991.<\/p>\n<p>Essas rea\u00e7\u00f5es revelam at\u00e9 que ponto as pen\u00farias de muitos b\u00f3snios, croatas, montenegrinos, maced\u00f4nios, eslovenos e s\u00e9rvios que foram prisioneiros em Goli Otok constitu\u00edram uma carga e uma fonte de vergonha familiar durante gera\u00e7\u00f5es. Agora as fam\u00edlias esperam assumir o traum\u00e1tico passado de seus parentes. \u201cSempre quis saber o que estava mal na vida do meu av\u00f4 materno\u201d, disse \u00e0 IPS Smiljana Stojkovic, professora de 45 anos de Belgrado.<\/p>\n<p>Seu av\u00f4 Stanko costumava contar hist\u00f3rias sobre sua vida como aprendiz de sapateiro antes da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e das batalhas contra os alem\u00e3es durante o conflito, enquanto ele era comunista. Mas a hist\u00f3ria \u201cparava a\u00ed e ficava um vazio at\u00e9 a chegada de outros, seus netos, nos anos 1960. Nos diziam para nunca perguntarmos o que havia acontecido nesse per\u00edodo\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Agora Stojkovic sabe que seu av\u00f4, morto em 2000, esteve detido em Goli Otok durante sete anos. \u201cDeve ter dito que preferia Stalin em lugar de Tito (o l\u00edder iugoslavo Josip Broz), sendo um comunista leal que acreditava na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Agora entendo seu sil\u00eancio\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Goli Otok era uma pequena ilha desabitada, quase deserta, seis quil\u00f4metros ao norte da costa croata no Mar Adri\u00e1tico. Em julho de 1949 se converteu em pris\u00e3o de opositores ao governo da Iugosl\u00e1via, que havia decidido deixar a \u00f3rbita sovi\u00e9tica em junho de 1948. Essa medida se conhece como \u201co \u2018n\u00e3o\u2019 hist\u00f3rico\u201d a Stalin (1879-1953), que na \u00e9poca cobrou dos comunistas iugoslavos que derrubassem o regime de Tito (1892-1980).<\/p>\n<p>Nas palavras de Stalin, Tito se convertera em \u201cum servo do imperialismo\u201d, se referindo aos pa\u00edses capitalistas do Ocidente. Os comunistas sovi\u00e9ticos e iugoslavos foram aliados na luta contra os alem\u00e3es na Segunda Guerra. Contudo, \u201cpara muitos comunistas, era inconceb\u00edvel que Stalin se enganasse\u201d, observou Zoran Asanin, presidente da Associa\u00e7\u00e3o Goli Otok, de Belgrado.<\/p>\n<p>Segundo seu testemunho, e testemunhos e lembran\u00e7as de muitos sobreviventes, durante 1948 nas reuni\u00f5es do partido simplesmente se perguntava aos filiados se preferiam Stalin em lugar de Tito. Se a resposta fosse sim, a pessoa era imediatamente enviada para Goli Otok, sem nenhum processo judicial. E n\u00e3o se informava nem os familiares mais pr\u00f3ximos sobre seu paradeiro.<\/p>\n<p>Os prisioneiros eram enviados para a ilha a partir do porto de Bakar. Em Goli Otok, de 4,7 quil\u00f4metros quadrados, havia quatro acampamentos sem saneamento nem instala\u00e7\u00f5es dignas. A ilha \u00e9 conhecida por seu clima implac\u00e1vel, com ver\u00f5es abrasadores e invernos g\u00e9lidos.<\/p>\n<p>Os presos trabalhavam em um canteiro, e os guardas batiam neles por serem \u201ctraidores\u201d da causa iugoslava. Tamb\u00e9m faziam com que se batessem entre eles. A fome e a sede eram uma realidade cotidiana. A cada prisioneiro eram dados apenas 200 decilitros de \u00e1gua por dia e um peda\u00e7o de p\u00e3o.<\/p>\n<p>A lista de nomes indica 413 mortos nesses campos, por doen\u00e7as como a febre tifoide, problemas card\u00edacos ou suic\u00eddio, entre 1949 e 1956, quando os \u00faltimos presos pol\u00edticos foram levados de volta \u00e0 costa e enviados para pris\u00f5es comuns em toda a Iugosl\u00e1via. Durante anos permaneceram privados de direitos pol\u00edticos, n\u00e3o podiam encontrar emprego e muitos foram rejeitados por vizinhos, amigos e pela pr\u00f3pria fam\u00edlia, expostas ao ass\u00e9dio da pol\u00edcia secreta.<\/p>\n<p>Aos filhos se dizia que os pais haviam sa\u00eddo em \u201cuma viagem de trabalho\u201d que durava anos, contam muitos dos descendentes em seus coment\u00e1rios sob a lista de nomes dispon\u00edvel na internet. \u00c0s mulheres dos presos de Goli Otok era concedido o div\u00f3rcio imediatamente. Mas, \u00e0s vezes isso n\u00e3o era suficiente.<\/p>\n<p>\u201cTive que renunciar publicamente ao meu marido em uma reuni\u00e3o do Partido Comunista para continuar minha carreira como professora universit\u00e1ria\u201d, contou \u00e0 IPS Rada B., de 88 anos. \u201cTive que prometer que ele nunca mais poderia ver minha filha, e cumpri. Ela nunca me perdoou\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>A verdade sobre Goli Otok come\u00e7ou a emergir nos anos 1990, quando as rep\u00fablicas da Iugosl\u00e1via se separaram e muitos segredos dos desaparecidos regimes comunistas vieram \u00e0 luz. Por\u00e9m, as sangrentas guerras de secess\u00e3o dessa d\u00e9cada impediram que fam\u00edlias, v\u00edtimas e sobreviventes fechassem esse cap\u00edtulo de suas vidas. Apenas nos \u00faltimos anos, Cro\u00e1cia, S\u00e9rvia e Eslov\u00eania come\u00e7aram a compensar as v\u00edtimas de Goli Otok, muitas delas inocentes de todo crime ou nem mesmo eram comunistas.<\/p>\n<p>Segundo Asanin, na S\u00e9rvia h\u00e1 cerca de 300 sobreviventes, que reclamam uma reabilita\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e uma compensa\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a. O Estado s\u00e9rvio concordou em indenizar com 700 dinares (US$ 8,5) cada dia passado em Goli Otok. At\u00e9 agora este pa\u00eds pagou mais de US$ 640 mil a sobreviventes ou aos seus herdeiros imediatos.<\/p>\n<p>As rea\u00e7\u00f5es e os coment\u00e1rios, majoritariamente an\u00f4nimos, abaixo da lisa de nomes de presos do gulag, s\u00e3o emotivos e \u00e0s vezes mais reveladoras do que as hist\u00f3rias dos prisioneiros. \u201cEncontrei meu tio, sei que esteve ali porque fazia piadas sobre pol\u00edtica\u201d, disse uma mulher chamada Beba. \u201cMeu av\u00f4 foi parar l\u00e1 s\u00f3 porque disse que as lojas diplom\u00e1ticas (criadas ap\u00f3s a Segunda Guerra para a elite comunista governante) deveriam ser abertas ao p\u00fablico\u201d, escreveu um homem identificado como Bane.<\/p>\n<p>Pessoas de toda a antiga Iugosl\u00e1via trocam e-mails para conhecer detalhes das circunst\u00e2ncias de vida ou morte de seus familiares em Goli Otok. Muitos mencionam anos de sil\u00eancio de seus parentes e citam relatos familiares de homens inocentes que desapareciam da noite para o dia e acabavam na ilha.<\/p>\n<p>\u201cQualquer um podia acabar em Goli Otok simplesmente por ter mais que outros, por brincadeiras ou porque algu\u00e9m desejava sua esposa\u201d, disse Rada B. \u201cMas aqueles eram tempos extraordin\u00e1rios, que pediam medidas extraordin\u00e1rias, e n\u00f3s tivemos que acreditar em nossos l\u00edderes. De outro modo, onde ter\u00edamos terminado?\u201d, perguntou.<\/p>\n<p>A ilha de Goli Otok est\u00e1 deserta desde que deixou de ser gulag, e somente turistas curiosos a visitam de vez em quando para ver os vest\u00edgios dos campos de concentra\u00e7\u00e3o. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Belgrado, S&eacute;rvia, 6\/2\/2014 &ndash; Um dos segredos melhor guardados da desaparecida Iugosl&aacute;via ficou exposto com a divulga&ccedil;&atilde;o na internet dos nomes de 16.101 detentos de Goli Otok, ou Ilha Nua, &uacute;nico gulag ao estilo sovi&eacute;tico criado pelo regime de Tito, h&aacute; 65 anos. 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