{"id":17142,"date":"2014-02-10T13:36:05","date_gmt":"2014-02-10T13:36:05","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=107591"},"modified":"2014-02-10T13:36:05","modified_gmt":"2014-02-10T13:36:05","slug":"terramerica-egito-diante-da-batalha-da-agua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/02\/ultimas-noticias\/terramerica-egito-diante-da-batalha-da-agua\/","title":{"rendered":"Terram\u00e9rica \u2013 Egito diante da batalha da \u00e1gua"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_107592\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/Egito.jpg\"><img class=\"size-full wp-image-107592\" alt=\"Egito Terram\u00e9rica   Egito diante da batalha da \u00e1gua\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/Egito.jpg\" width=\"340\" height=\"218\" title=\"Terram\u00e9rica   Egito diante da batalha da \u00e1gua\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Tr\u00eas jovens observam Cairo. A demanda por \u00e1gua e a crescente popula\u00e7\u00e3o eg\u00edpcia est\u00e3o esgotando os recursos h\u00eddricos a uma velocidade alarmante. Foto: Shelly Kittleson\/IPS<\/p><\/div>\n<p>Cairo, Egito, 10 de fevereiro de 2014 (Terram\u00e9rica).- Enquanto o mundo se concentra em criticar a m\u00e3o dura que os ditadores do Egito aplicam a qualquer sinal de oposi\u00e7\u00e3o, pouqu\u00edssimos prestam aten\u00e7\u00e3o a um drama que o futuro presidente, civil ou militar, ter\u00e1 de enfrentar: a falta de \u00e1gua. Entre os assuntos mais urgentes est\u00e3o a excessiva depend\u00eancia de cultivos que consomem grande quantidade de \u00e1gua, o projeto de uma enorme represa corrente acima na bacia do rio Nilo, e a eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel das camadas subterr\u00e2neas, que colocam em risco as bases de monumentos da era fara\u00f4nica.<\/p>\n<p>Em um contexto de crise pol\u00edtica e repress\u00e3o, passou quase ignorada a advert\u00eancia feita no final de janeiro pelo Minist\u00e9rio de Irriga\u00e7\u00e3o e Recursos H\u00eddricos: a atual disponibilidade anual de \u00e1gua por pessoa \u00e9 de 640 metros c\u00fabicos, enquanto o recomendado internacionalmente \u00e9 de mil metros c\u00fabicos por pessoa. O ministro Mohammad Abdel Muttalib apontou que essa disponibilidade cair\u00e1 para 370 metros c\u00fabicos at\u00e9 2050 devido ao veloz aumento de uma popula\u00e7\u00e3o que hoje \u00e9 de 84 milh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n<p>Um cientista que trabalha no setor dos recursos h\u00eddricos afirmou ao Terram\u00e9rica que \u201cos militares s\u00e3o uma das poucas institui\u00e7\u00f5es que podem conseguir que as coisas sejam feitas\u201d. Mas, reconheceu, \u201cestiveram no poder por muito tempo e nada fizeram\u201d. Melhorar as pr\u00e1ticas de irriga\u00e7\u00e3o e deter a explos\u00e3o demogr\u00e1fica s\u00e3o duas medidas comumente cobradas para abordar o problema. Al\u00e9m disso, reduzir o uso de agroqu\u00edmicos e tamb\u00e9m melhorar os sistemas de saneamento e disposi\u00e7\u00e3o do lixo pode impedir que se contamine a pouca \u00e1gua dispon\u00edvel.<\/p>\n<p>O setor agr\u00edcola consome muito mais de 80% dos recursos h\u00eddricos anuais. A cana-de-a\u00e7\u00facar leva uma grande parte, junto com o arroz e o algod\u00e3o. As autoridades proibiram o cultivo de arroz em algumas regi\u00f5es, por sua grande necessidade de \u00e1gua, e isto apesar de seu alto pre\u00e7o internacional, de ser um alimento b\u00e1sico da popula\u00e7\u00e3o e de, em certas quantidades, os arrozais ajudarem a controlar a salinidade do solo e limitar a entrada de \u00e1gua salgada no delta do Nilo.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m seria positivo reduzir o consumo de a\u00e7\u00facar, e n\u00e3o apenas por toda \u00e1gua que a cana absorve. Em qualquer esquina do pa\u00eds se vende o apreciado suco extra\u00eddo da cana-de-a\u00e7\u00facar, a garapa. As pessoas que o consomem est\u00e3o convencidas de suas propriedades para \u201cpurificar os rins\u201d. O onipresente ch\u00e1 e o caf\u00e9 s\u00e3o bebidos com muito a\u00e7\u00facar. A incid\u00eancia de diabetes aumentou 83% nos \u00faltimos anos, segundo dados epidemiol\u00f3gicos, mas h\u00e1 escassas tentativas de informar o p\u00fablico sobre os riscos para a sa\u00fade do consumo excessivo de a\u00e7\u00facar, ou de quanto os canaviais s\u00e3o sedentos.<\/p>\n<p>Um problema grave \u00e9 que as antigas pr\u00e1ticas de irriga\u00e7\u00e3o continuam em vigor, pontuou ao Terram\u00e9rica o especialista em hidrologia Hussein Jeffrey John Gawad, que trabalha como consultor. \u201cComo a \u00e1gua sempre foi abundante, os agricultores continuam inundando suas terras como antes. Muita gente deve come\u00e7ar a medir quanta \u00e1gua usa, mas aqui \u00e9 duro romper as tradi\u00e7\u00f5es\u201d, ressaltou.<\/p>\n<p>Em certas \u00e1reas, \u00e9 o excesso de \u00e1gua que causa problemas. O rosto mais famoso do Egito no mundo \u2013 e \u00edm\u00e3 para o turismo que at\u00e9 o levante de 2011 representava um d\u00e9cimo do produto interno bruto nacional \u2013 tamb\u00e9m corre risco porque est\u00e1 subindo a \u00e1gua subterr\u00e2nea em torno de v\u00e1rios monumentos da antiguidade fara\u00f4nica, advertiu Gawad. A agricultura vai se expandindo e ignorando zonas arqueol\u00f3gicas. Levando junto canais de irriga\u00e7\u00e3o artificiais, aos quais se somam fertilizantes.<\/p>\n<p>Esses l\u00edquidos penetram no solo, elevam a salinidade do len\u00e7ol fre\u00e1tico e molham as bases de rocha calc\u00e1ria de templos e pir\u00e2mides, enfraquecendo-os. O aumento do len\u00e7ol fre\u00e1tico em torno da tumba de Os\u00edris, a \u00fanica vis\u00edvel que resta em Abidos, um dos s\u00edtios arqueol\u00f3gicos mais importantes, a deixou quase inacess\u00edvel por causa de uma inunda\u00e7\u00e3o de areia e \u00e1gua. Em certo momento o governo tentou instalar um sistema de drenagem, \u201cmas agora a aten\u00e7\u00e3o das autoridades para este problema \u00e9 zero\u201d, observou Gawad. Em alguns s\u00edtios foram instaladas bombas e tubula\u00e7\u00f5es para drenar, com resultado variado.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1960, uma opera\u00e7\u00e3o internacional encabe\u00e7ada pela Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Educa\u00e7\u00e3o, a Ci\u00eancia e a Cultura (Unesco) salvou os enormes blocos dos templos de Abu Simbel de ficarem submersos na represa de Asuan, recolocando-os em uma colina artificial. Entretanto, o enfraquecimento, gradual mas permanente, das bases dos templos e a cont\u00ednua eros\u00e3o de antigos relevos e pinturas n\u00e3o despertam o mesmo interesse.<\/p>\n<p>Enquanto isso, a decis\u00e3o da Eti\u00f3pia de desviar o rio Nilo Azul, tribut\u00e1rio do Nilo, para construir a represa do Grande Renascimento, pode ter um peso decisivo no futuro fornecimento h\u00eddrico do Egito. Segundo os acordos de tempos coloniais, o Egito manteve o controle de uma vasta maioria das \u00e1guas da bacia do Nilo. Contudo, em meados de 2010, quatro pa\u00edses \u00e1guas acima \u2013 Eti\u00f3pia, Qu\u00eania, Ruanda e Tanz\u00e2nia \u2013, aos quais somou-se Burundi no ano seguinte, assinaram um tratado para compartilhar os recursos da represa. O projeto come\u00e7ou formalmente em abril de 2012.<\/p>\n<p>\u201cA Eti\u00f3pia tem o direito de usar a \u00e1gua que corre por seu territ\u00f3rio\u201d, opinou Gawad. \u201cMas o governo do Egito se prende aos acordos coloniais quando lhe conv\u00e9m e os joga fora quando n\u00e3o\u201d, acrescentou. Um estudo do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agr\u00edcola indicava, em 2005, que 98% da agricultura eg\u00edpcia era regada com \u00e1gua do Nilo ou de aqu\u00edferos cuja recarga tamb\u00e9m depende do fluxo desse grande rio.<\/p>\n<p>Durante o curto mandato do deposto Mohammad Morsi (2012-2013), se falava em \u201cir \u00e0 guerra\u201d se a represa fosse concretizada. Depois da sua queda, as autoridades esclareceram que tal op\u00e7\u00e3o est\u00e1 descartada.<\/p>\n<p>Na Eti\u00f3pia, perguntar pelos m\u00e9ritos e financiamento da represa pode representar risco de pris\u00e3o para os jornalistas. E seu governo n\u00e3o mostra nenhuma vontade de considerar alternativas. Foram feitos pouqu\u00edssimos estudos confi\u00e1veis sobre poss\u00edveis efeitos do projeto. Mas a redu\u00e7\u00e3o do caudal do Nilo, que corre \u00e1guas abaixo pelo territ\u00f3rio do Egito, trar\u00e1, sem d\u00favida, novos perigos para sua economia e, portanto, para sua estabilidade. (Envolverde\/Terram\u00e9rica)<\/p>\n<p><em>* A autora \u00e9 correspondente da IPS.<\/em><\/p>\n<p><strong>LINKS<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/ips\/inter-press-service-reportagens\/o-delta-nilo-prestes-desaparecer-sob-o-mar\/\" >O delta do Nilo prestes a desaparecer sob o mar<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/ambiente\/estados-unidos-e-gra-bretanha-acusados-de-ignorar-abusos-na-etiopia\/\" >Estados Unidos e Gr\u00e3-Bretanha acusados de ignorar abusos na Eti\u00f3pia<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/ips\/inter-press-service-reportagens\/biodiversidade-pesqueira-diminui-no-inospito-nilo\/\" >Biodiversidade pesqueira diminui no in\u00f3spito Nilo<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/2002\/11\/desarrollo-africa-egipto-dispuesto-a-compartir-el-nilo-2\/\" >Egito disposto a compartilhar o Nilo \u2013 2002, em espanhol <\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Artigo produzido para o Terram\u00e9rica, projeto de comunica\u00e7\u00e3o apoiado pelo Banco Mundial Latin America and Caribbean, realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribu\u00eddo pela Ag\u00eancia Envolverde.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cairo, Egito, 10 de fevereiro de 2014 (Terram&eacute;rica).- Enquanto o mundo se concentra em criticar a m&atilde;o dura que os ditadores do Egito aplicam a qualquer sinal de oposi&ccedil;&atilde;o, pouqu&iacute;ssimos prestam aten&ccedil;&atilde;o a um drama que o futuro presidente, civil ou militar, ter&aacute; de enfrentar: a falta de &aacute;gua. 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