{"id":17143,"date":"2014-02-10T13:40:04","date_gmt":"2014-02-10T13:40:04","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=107584"},"modified":"2014-02-10T13:40:04","modified_gmt":"2014-02-10T13:40:04","slug":"terramerica-um-inferno-siderurgico-na-amazonia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/02\/ultimas-noticias\/terramerica-um-inferno-siderurgico-na-amazonia\/","title":{"rendered":"Terram\u00e9rica \u2013 Um inferno sider\u00fargico na Amaz\u00f4nia"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_107585\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/PiquiaDeBaixo1.jpg\"><img class=\"size-full wp-image-107585\" alt=\"PiquiaDeBaixo1 Terram\u00e9rica   Um inferno sider\u00fargico na Amaz\u00f4nia\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/PiquiaDeBaixo1.jpg\" width=\"340\" height=\"255\" title=\"Terram\u00e9rica   Um inferno sider\u00fargico na Amaz\u00f4nia\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Flor\u00eancio de Souza Bezerra aponta com o p\u00e9 um punhado de carv\u00e3o pulverizado, perigosamente inflam\u00e1vel, na sarjeta de uma rua de Piqui\u00e1 de Baixo. Fotos: Mario Osava\/IPS<\/p><\/div>\n<p>Piqui\u00e1 de Baixo, Brasil, 10 de fevereiro de 2014 (Terram\u00e9rica).- \u201cMeu sobrinho tinha oito anos quando pisou na \u2018munha\u2019 (carv\u00e3o pulverizado) e queimou as pernas at\u00e9 os joelhos\u201d, conta Angelita Alves de Oliveira neste peda\u00e7o da Amaz\u00f4nia brasileira transformado em armadilha mortal para seus habitantes. O tratamento em hospitais distantes n\u00e3o conseguiu salvar a crian\u00e7a, porque \u201cseu sangue ficou intoxicado, segundo o m\u00e9dico. Minha irm\u00e3 jamais voltou a ser a mesma mulher. Perdeu seu filho mais novo\u201d, disse a professora Oliveira. Seu marido tamb\u00e9m foi v\u00edtima dessas queimaduras, como comprovam as cicatrizes em suas pernas.<\/p>\n<p>A munha ou \u201cmoinha\u201d, segundo o dicion\u00e1rio sider\u00fargico portugu\u00eas, \u00e9 o p\u00f3 de carv\u00e3o vegetal resultante da produ\u00e7\u00e3o de ferro gusa, material intermedi\u00e1rio na obten\u00e7\u00e3o de a\u00e7o, que fez de Piqui\u00e1 de Baixo, na faixa oriental da Amaz\u00f4nia brasileira, um caso tr\u00e1gico de contamina\u00e7\u00e3o industrial. Trata-se de um bairro da zona rural de A\u00e7ail\u00e2ndia, munic\u00edpio do Maranh\u00e3o, que nasceu com os acampamentos de oper\u00e1rios que se instalaram em 1958 para construir a rodovia Bel\u00e9m-Bras\u00edlia, um eixo centro-norte de desenvolvimento e integra\u00e7\u00e3o do Brasil, que gerou muitos desastres ambientais e sociais.<\/p>\n<p>A ferrovia inaugurada em 1985 para transportar min\u00e9rio de ferro da gigantesca mina na Serra de Caraj\u00e1s, selou o destino de A\u00e7ail\u00e2ncia como entroncamento e polo sider\u00fargico. Piqui\u00e1 de Baixo ficou cercado por cinco unidades produtoras de ferro gusa, pelos trilhos e por grandes armaz\u00e9ns de min\u00e9rios. Enquanto isso, o carv\u00e3o vegetal para alimentar as caldeiras sider\u00fargicas se somava \u00e0 pecu\u00e1ria para fazer de A\u00e7ail\u00e2ncia um foco de desmatamento e trabalho escravo.<\/p>\n<p>Essas chagas diminu\u00edram diante da repress\u00e3o estatal e diferentes press\u00f5es. Mas a contamina\u00e7\u00e3o em Piqui\u00e1 se agravou, segundo testemunhos colhidos para esta reportagem. O res\u00edduo pulverizado de carv\u00e3o continua amea\u00e7ador. A secura o torna inflam\u00e1vel a um ligeiro toque. Isso custou a vida do sobrinho de Angelita em 1993, quando poucos conheciam o quanto \u00e9 letal esse p\u00f3 negro. As pessoas ficaram cautelosas e os acidentes menos frequentes, mas n\u00e3o acabaram. Outra crian\u00e7a, de sete anos, se queimou at\u00e9 a cintura em 1999 e agonizou durante tr\u00eas semanas.<\/p>\n<div id=\"attachment_107586\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/PiquiaDeBaixo2.jpg\"><img class=\"size-full wp-image-107586\" alt=\"PiquiaDeBaixo2 Terram\u00e9rica   Um inferno sider\u00fargico na Amaz\u00f4nia\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/PiquiaDeBaixo2.jpg\" width=\"340\" height=\"255\" title=\"Terram\u00e9rica   Um inferno sider\u00fargico na Amaz\u00f4nia\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Uma fam\u00edlia sorri para a c\u00e2mera enquanto se protege do calor \u00e0 sombra de uma \u00e1rvore. A estrada a separa da ind\u00fastria de ferro gusa, que torna imposs\u00edvel a vida no bairro.<\/p><\/div>\n<p>\u201cVi gado incinerado\u201d, disse Flor\u00eancio de Souza Bezerra, que foi campon\u00eas e agora \u00e9 membro ativo da Associa\u00e7\u00e3o Comunit\u00e1ria de Moradores de Piqui\u00e1, onde vive h\u00e1 dez anos com nove filhos e dois netos, em uma casa grande de madeira e amplo quintal. Os mont\u00edculos de munha podem ser vistos nas ruas por onde passam os caminh\u00f5es das sider\u00fargicas e em pelo menos um dep\u00f3sito a c\u00e9u aberto no qual este rep\u00f3rter entrou sem encontrar nenhum controle.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, a queixa mais frequente dos moradores \u00e9 contra o ar envenenado. \u201cH\u00e1 pouco mais de um ano morreu uma menina com p\u00f3 de ferro nos pulm\u00f5es e c\u00e2ncer, depois de 15 dias na terapia intensiva\u201d, recordou Flor\u00eancio. Na pequena pra\u00e7a do bairro, o ativista vai apontando as casas cujos moradores morreram de doen\u00e7as respirat\u00f3rias. Angelita contou que um \u201cexame mostrou manchas em meus pulm\u00f5es h\u00e1 um ano, e o m\u00e9dico me acusou de fumar quando jovem, mas nunca coloquei um cigarro na boca\u201d.<\/p>\n<p>Ela deseja dar \u201cuma esperan\u00e7a de vida\u201d \u00e0s suas netas, que vivem aqui \u201cingerindo contamina\u00e7\u00e3o 24 horas por dia\u201d. \u201cJ\u00e1 vivi bastante, mas minhas netas n\u00e3o\u201d, afirmou, aos 61 anos de idade, mais de 30 dedicados ao ensino. Sua casa fica ao lado da Gusa Nordeste, uma das cinco unidades produtoras de ferro gusa. A situa\u00e7\u00e3o se agravou \u201ch\u00e1 dois anos\u201d, quando a empresa come\u00e7ou a produzir cimento, segundo ela, lan\u00e7ando um p\u00f3 negro que suja tudo em segundos e, em algumas madrugadas, torna imposs\u00edvel ver sua casa da estrada, a apenas 30 metros de dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Para a empresa foi um avan\u00e7o, porque se trata de aproveitar a esc\u00f3ria do alto forno como mat\u00e9ria-prima, evitando uma volumosa quantidade de dejeto e abastecendo o mercado local da constru\u00e7\u00e3o com um produto que antes era preciso trazer de longe. A Gusa Nordeste destaca sua responsabilidade ambiental porque emprega a munha como combust\u00edvel, economizando carv\u00e3o granulado, e o g\u00e1s derivado da produ\u00e7\u00e3o de ferro gusa \u00e9 usado para gerar toda a energia el\u00e9trica que a empresa precisa.<\/p>\n<div id=\"attachment_107587\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/PiquiaDeBaixo3.jpg\"><img class=\"size-full wp-image-107587\" alt=\"PiquiaDeBaixo3 Terram\u00e9rica   Um inferno sider\u00fargico na Amaz\u00f4nia\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/PiquiaDeBaixo3.jpg\" width=\"340\" height=\"255\" title=\"Terram\u00e9rica   Um inferno sider\u00fargico na Amaz\u00f4nia\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Uma rua de Piqui\u00e1 de Baixo danificada pela eros\u00e3o, e as habituais casas deterioradas. Os moradores esperam por um demorado reassentamento em uma \u00e1rea expropriada pela justi\u00e7a.<\/p><\/div>\n<p>Por\u00e9m, a realidade reconhecida pela justi\u00e7a, por v\u00e1rias autoridades e inclusive pela ind\u00fastria, \u00e9 que a contamina\u00e7\u00e3o do ar, da \u00e1gua e da terra torna invi\u00e1vel manter Piqui\u00e1 de Baixo no local onde nasceu, h\u00e1 mais de 40 anos. J\u00e1 h\u00e1 uma proposta aprovada pela justi\u00e7a e pela c\u00e2mara municipal para reassentar as 312 fam\u00edlias que restam em Piqui\u00e1 de Baixo, em um terreno de 38 hectares a seis quil\u00f4metros da atual.<\/p>\n<p>Em dezembro, a justi\u00e7a ordenou a expropria\u00e7\u00e3o da \u00e1rea e fixou seu valor no equivalente a US$ 450 mil, mas o dono exige quatro vezes essa quantia, e assim se prolonga a agonia para os moradores de Piqui\u00e1. A pr\u00f3pria comunidade elaborou um projeto urban\u00edstico, que inclui casas, escola, pra\u00e7a, lojas e igrejas, explicou Antonio Soffientini, membro da Justi\u00e7a Nos Trilhos, uma rede de dezenas de organiza\u00e7\u00f5es que apoiam a popula\u00e7\u00e3o afetada pelo \u201csistema Caraj\u00e1s\u201d.<\/p>\n<p>Na Serra de Caraj\u00e1s, a empresa Vale, que foi privatizada em 1997, extrai cerca de 110 milh\u00f5es de toneladas anuais de min\u00e9rio de ferro, que percorrem 892 quil\u00f4metros em trem at\u00e9 o porto Ponta da Madeira, em S\u00e3o Luis, capital maranhense, para ser exportado. Uma pequena parte fica em A\u00e7ail\u00e2ncia. Como provedora da ind\u00fastria local de ferro gusa, a Vale tem responsabilidade direta na contamina\u00e7\u00e3o, acusa a organiza\u00e7\u00e3o Justi\u00e7a Nos Trilhos.<\/p>\n<p>\u201cPoderia suspender a entrega do min\u00e9rio at\u00e9 a ind\u00fastria instalar filtros e p\u00f4r fim ao drama de Piqui\u00e1\u201d, opinou Antonio, mission\u00e1rio italiano do movimento cat\u00f3lico comboniano. Isso geraria uma crise de desemprego em A\u00e7ail\u00e2ncia, advertiu Zenaldo Oliveira, diretor global de Opera\u00e7\u00f5es Log\u00edsticas da Vale. Este polo sider\u00fargico j\u00e1 vive uma queda de atividades desde 2008.<\/p>\n<p>Os seis mil empregos que oferecia nessa \u00e9poca ca\u00edram para atuais 3.500 atuais, segundo Jarles Adelino, presidente do Sindicato dos Metal\u00fargicos de A\u00e7ail\u00e2ndia. Ele se queixa dos altos pre\u00e7os que a Vale imp\u00f5e \u00e0 mat\u00e9ria-prima, que representam metade dos custos do ferro gusa. No entanto, isso n\u00e3o se reflete na cidade, que exibe hot\u00e9is e sinais de prosperidade. \u00c9 que v\u00e1rias obras pr\u00f3ximas oferecem trabalho tempor\u00e1rio, explicou Jarles, e cada emprego em uma produtora de ferro gusa gera dez postos indiretos. (Envolverde\/Terram\u00e9rica)<\/p>\n<p><em>* O autor \u00e9 correspondente da IPS.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>LINKS<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/2007\/07\/trabajo-brasil-esclavitud-es-un-mal-dificil-de-extirpar\/\" >A escravid\u00e3o \u00e9 um mal dif\u00edcil de extirpar, em espanhol<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/2007\/07\/derechos-humanos-brasil-una-espanola-libertadora-de-esclavos\/\" >Uma espanhola libertadora de escravos, em espanhol<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/ips\/inter-press-service-reportagens\/ativistas-compram-acoes-da-mineradora-vale-para-serem-ouvidos\/\" >Ativistas compram a\u00e7\u00f5es da mineradora Vale para serem ouvidos<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/ips\/inter-press-service-reportagens\/sobreviventes-de-eldorado-dos-carajas-enfrentam-outra-extincao\/\" >Sobreviventes de Eldorado dos Caraj\u00e1s enfrentam outra extin\u00e7\u00e3o<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/2008\/06\/desarrollo-brasil-maranhao-ejemplo-de-economia-excluyente\/\" >Maranh\u00e3o, exemplo de economia excludente, em espanhol<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/noticias\/proyectos\/la-integracion-y-el-desarrollo-segun-brasil\/\" >A integra\u00e7\u00e3o e o desenvolvimento segundo o Brasil \u2013 Cobertura especial da IPS, em espanhol<\/a><\/p>\n<p><strong>Artigo produzido para o Terram\u00e9rica, projeto de comunica\u00e7\u00e3o apoiado pelo Banco Mundial Latin America and Caribbean, realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribu\u00eddo pela Ag\u00eancia Envolverde.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Piqui&aacute; de Baixo, Brasil, 10 de fevereiro de 2014 (Terram&eacute;rica).- &ldquo;Meu sobrinho tinha oito anos quando pisou na &lsquo;munha&rsquo; (carv&atilde;o pulverizado) e queimou as pernas at&eacute; os joelhos&rdquo;, conta Angelita Alves de Oliveira neste peda&ccedil;o da Amaz&ocirc;nia brasileira transformado em armadilha mortal para seus habitantes. 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