{"id":1722,"date":"2006-04-26T00:00:00","date_gmt":"2006-04-26T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=1722"},"modified":"2006-04-26T00:00:00","modified_gmt":"2006-04-26T00:00:00","slug":"direitos-humanos-muros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/04\/mundo\/direitos-humanos-muros\/","title":{"rendered":"Direitos Humanos: Muros"},"content":{"rendered":"<p>Montevid\u00e9u, 26\/04\/2006 &ndash; O Muro de Berlim era not\u00edcia diariamente. De manh\u00e3 a noite l\u00edamos, v\u00edamos, escut\u00e1vamos: o Muro da Vergonha, o Muro da Inf\u00e2mia, a Cortina de Ferro&#8230; Por fim, esse muro, que merecia cair, caiu. Mas outros muros surgiram, continuam surgindo no mundo e, embora sejam muito maiores do que o de Berlim, deles pouco, ou nada, se fala. <!--more--> Pouco se fala do muro que os Estados Unidos est\u00e3o erguendo na fronteira mexicana, e pouco se fala dos alambrados de Ceuta e Melilla. Quase nada se fala do Muro da Cisjord\u00e2nia, que perpetua a ocupa\u00e7\u00e3o israelense de terras palestinas e daqui a pouco ser\u00e1 15 vezes mais comprido do que o Muro de Berlim. E nada, nada de nada, se fala do Muro do Marrocos, que h\u00e1 20 anos perpetua a ocupa\u00e7\u00e3o marroquina do Saara ocidental. Este muro, minado de ponta a ponta e de ponta a ponta vigiado por milhares de soldados, mede 60 vezes mais do que o Muro de Berlim.<\/p>\n<p>Por que ser\u00e1 que h\u00e1 muros t\u00e3o altissonantes e muros mudos? Ser\u00e1 por causa dos muros da falta de comunica\u00e7\u00e3o, que os grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o constroem a cada dia?<\/p>\n<p>Em julho de 2004, a Corte Internacional de Justi\u00e7a de Haia determinou que o Muro da Cisjord\u00e2nia violava o direito internacional e mandou que fosse demolido. At\u00e9 agora, Israel n\u00e3o fez nada. Em outubro de 1975, a mesma Corte havia determinado: &quot;N\u00e3o se estabelece a exist\u00eancia de v\u00ednculo algum de soberania entre o Saara Ocidental e o Marrocos&quot;. Ficamos aqu\u00e9m se dissermos que o Marrocos foi surdo. Foi pior: no dia seguinte ao desta resolu\u00e7\u00e3o, desatou a invas\u00e3o, a chamada Marcha Verde, e pouco depois se apoderou a sangue e fogo dessas vastas terras alheias e expulsou a maioria da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E por a\u00ed vai.<\/p>\n<p>Mil e uma resolu\u00e7\u00f5es das Na\u00e7\u00f5es Unidas confirmam o direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o do povo saaraui. De que serviram essas resolu\u00e7\u00f5es? Seria realizado um plebiscito, para que a popula\u00e7\u00e3o decidisse seu destino. Para garantir a vit\u00f3ria, o monarca do Marrocos encheu de marroquinos o territ\u00f3rio invadido. Pouco depois, nem mesmo os marroquinos foram dignos de sua confian\u00e7a. E o rei, que havia dito sim, disse quem sabe. E depois de um ano disse n\u00e3o, e agora seu filho, herdeiro do trono, tamb\u00e9m diz n\u00e3o. A negativa equivale a uma confiss\u00e3o. Negando o direito de voto, o Marrocos confessa que roubou um pa\u00eds.<\/p>\n<p>Continuaremos aceitando tal coisa? Aceitando que na democracia universal os s\u00faditos s\u00f3 podem exercer o direito de obedi\u00eancia? De que serviram as mil e uma resolu\u00e7\u00f5es das Na\u00e7\u00f5es Unidas contra a ocupa\u00e7\u00e3o israelense dos territ\u00f3rios palestinos? E as mil e uma resolu\u00e7\u00f5es contra o bloqueio de Cuba? O velho prov\u00e9rbio ensina: a hipocrisia \u00e9 o imposto que o v\u00edcio paga \u00e0 virtude.<\/p>\n<p>O patriotismo \u00e9, hoje, um privil\u00e9gio das na\u00e7\u00f5es dominantes. Quando praticado por na\u00e7\u00f5es dominadas, o patriotismo se torna suspeito de populismo ou terrorismo, ou simplesmente n\u00e3o merece a menor aten\u00e7\u00e3o. Os patriotas saarauis, que h\u00e1 30 anos lutam para recuperar seu lugar no mundo, conseguiram o reconhecimento diplom\u00e1tico de 82 pa\u00edses. Entre eles, meu pa\u00eds, o Uruguai, que recentemente somou-se \u00e0 grande maioria dos pa\u00edses latino-americanos e africanos.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, a Europa n\u00e3o. Nenhum pa\u00eds europeu reconheceu a Rep\u00fablica Saaraui. A Espanha tampouco. Este \u00e9 um grave caso de irresponsabilidade, ou, talvez, de amn\u00e9sia, ou, pelo menos, de desamor. At\u00e9 30 anos atr\u00e1s, o Saara era col\u00f4nia da Espanha, e a Espanha tinha o dever legal e moral de amparar sua independ\u00eancia.<\/p>\n<p>O que deixou ali o dom\u00ednio imperial? Ap\u00f3s um s\u00e9culo, quantos universit\u00e1rios formou? No total, tr\u00eas: um m\u00e9dico, um advogado e um perito mercantil. S\u00f3 isso. E deixou uma trai\u00e7\u00e3o. A Espanha serviu de bandeja essa terra e essa gente para que fossem devoradas pelo reino do Marrocos.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, o Saara \u00e9 a \u00faltima col\u00f4nia da \u00c1frica. Teve usurpada sua independ\u00eancia.<\/p>\n<p>Por que ser\u00e1 que os olhos se negam a ver o que est\u00e1 diante deles? Ser\u00e1 por serem os saarauis uma moeda de troca, oferecida por empresas e pa\u00edses que compram do Marrocos o que o Marrocos vende, embora n\u00e3o seja seu? H\u00e1 dois anos, Javier Corcuera entrevistou, em um hospital de Bagd\u00e1, uma v\u00edtima dos bombardeios contra o Iraque. Uma bomba havia destro\u00e7ado um de seus bra\u00e7os. E ela, que tinha oito anos de idade e havia sofrido 11 cirurgias, disse: &quot;Tomara n\u00e3o tiv\u00e9ssemos petr\u00f3leo&quot;.<\/p>\n<p>Talvez o povo do Saara seja culpado porque em seu longo litoral reside o maior tesouro pesqueiro do Oceano Atl\u00e2ntico e porque sob a imensidade de areia, que parece t\u00e3o vazia, exista a maior reserva mundial de fosfatos e, talvez, tamb\u00e9m de petr\u00f3leo, g\u00e1s e ur\u00e2nio.<\/p>\n<p>No Alcor\u00e3o poderia estar escrito, embora n\u00e3o esteja, esta profecia: as riquezas naturais ser\u00e3o a maldi\u00e7\u00e3o das pessoas.<\/p>\n<p>Os acampamentos de refugiados, ao sul da Arg\u00e9lia, est\u00e3o no mais deserto dos desertos. \u00c9 um vast\u00edssimo nada, cercado de nada, onde s\u00f3 crescem as pedras. E mesmo assim, nessa aridez, e nas zonas liberadas, que n\u00e3o s\u00e3o muito melhores, os saarauis foram capazes de criar a sociedade mais aberta, e a menos machista, do mundo mu\u00e7ulmano.<\/p>\n<p>Este milagre dos saarauis, que s\u00e3o muito pobres e muito poucos, n\u00e3o s\u00f3 se explica por sua firme vontade de serem livres, algo que sobra nesses lugares onde tudo falta: tamb\u00e9m se explica, em grande parte, pela solidariedade internacional.<\/p>\n<p>E a maior parte da ajuda prov\u00e9m dos povos da Espanha. Sua energia solid\u00e1ria, mem\u00f3ria e fonte de dignidade, \u00e9 muito mais poderosa do que o vai-e-vem dos governos e dos mesquinhos c\u00e1lculos das empresas. Digo solidariedade, n\u00e3o caridade. A caridade humilha. N\u00e3o se equivoca o prov\u00e9rbio africano que diz: a m\u00e3o que recebe est\u00e1 sempre por baixo da m\u00e3o que d\u00e1.<\/p>\n<p>Os saarauis esperam. Est\u00e3o condenados \u00e0s penas da ang\u00fastia perp\u00e9tua e da perp\u00e9tua nostalgia. Os acampamentos de refugiados levam os nomes de suas cidades seq\u00fcestradas, seus perdidos lugares de encontro, suas quer\u00eancias: El Aai\u00fan, Smara&#8230;<\/p>\n<p>Eles se chamam filhos das nuvens, porque desde sempre perseguem a chuva. H\u00e1 mais de 30 anos perseguem, tamb\u00e9m, a Justi\u00e7a, que no mundo de nosso tempo parece mais esquiva do que a \u00e1gua no deserto. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n<p>(*) Eduardo Galeano \u00e9 escritor e jornalista uruguaio, autor de As Veias Abertas da Am\u00e9rica Latina e Mem\u00f3rias do Fogo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Montevid\u00e9u, 26\/04\/2006 &ndash; O Muro de Berlim era not\u00edcia diariamente. De manh\u00e3 a noite l\u00edamos, v\u00edamos, escut\u00e1vamos: o Muro da Vergonha, o Muro da Inf\u00e2mia, a Cortina de Ferro&#8230; Por fim, esse muro, que merecia cair, caiu. Mas outros muros surgiram, continuam surgindo no mundo e, embora sejam muito maiores do que o de Berlim, deles pouco, ou nada, se fala. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/04\/mundo\/direitos-humanos-muros\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":276,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13,4,11],"tags":[],"class_list":["post-1722","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-colunistas","category-mundo","category-politica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1722","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/276"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1722"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1722\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1722"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1722"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1722"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}