{"id":17245,"date":"2014-03-11T13:20:09","date_gmt":"2014-03-11T13:20:09","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=109236"},"modified":"2014-03-11T13:20:09","modified_gmt":"2014-03-11T13:20:09","slug":"a-licao-que-as-criancas-soldado-ensinam","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/03\/ultimas-noticias\/a-licao-que-as-criancas-soldado-ensinam\/","title":{"rendered":"A li\u00e7\u00e3o que as crian\u00e7as-soldado ensinam"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_109237\" style=\"width: 539px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/menino.jpg\"><img class=\" wp-image-109237 \" alt=\"menino A li\u00e7\u00e3o que as crian\u00e7as soldado ensinam\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/menino.jpg\" width=\"529\" height=\"318\" title=\"A li\u00e7\u00e3o que as crian\u00e7as soldado ensinam\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Menino que foi recrutado pelo grupo terrorista Al Shabaab, capturado pela Miss\u00e3o da Uni\u00e3o Africana na Som\u00e1lia e entregue ao Unicef. Foto: UN Photo\/Tobin Jones<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na\u00e7\u00f5es Unidas, 11\/3\/2014 \u2013 O ugandense Moses Otiti tinha 15 anos, e caminhava com seu pai e outras pessoas, quando insurgentes do Ex\u00e9rcito de Resist\u00eancia do Senhor (LRA) os emboscaram em 2003. Por ser crian\u00e7a, foi o \u00fanico que sobreviveu. Durante os 12 meses seguintes, foi obrigado a engrossar as fileiras do LRA e combater contra o governo de Uganda. \u201cN\u00e3o me mataram porque buscavam gente jovem, para incorporar na luta contra o governo\u201d, contou Otiti \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>Muitas guerras atuais s\u00e3o travadas dentro das fronteiras de um Estado, e isso facilita que se imponha a inquietante tend\u00eancia de fazer as crian\u00e7as guerrearem. Nos conflitos onde esse fen\u00f4meno est\u00e1 presente h\u00e1 mais probabilidades de serem cometidas atrocidades, afirmam pesquisadores.<\/p>\n<p>\u201cAs crian\u00e7as n\u00e3o t\u00eam a mesma capacidade de um adulto para tomar decis\u00f5es ou para entender o certo e o errado\u201d, ponderou \u00e0 IPS Shelly Whitman, diretora da Iniciativa Rom\u00e9o Dallaire sobre Crian\u00e7as-Soldado. \u201cEst\u00e3o em uma fase na qual s\u00e3o muito impression\u00e1veis, e ainda est\u00e3o formando sua identidade e sua orienta\u00e7\u00e3o moral\u201d, ressaltou.<\/p>\n<p>Segundo Whitman, \u201ctamb\u00e9m \u00e9 importante observar a economia, o desenvolvimento e a din\u00e2mica social\u201d. Quando se chega ao grau de recrutar menores \u00e9 \u201cporque h\u00e1 uma grande quantidade de problemas, e \u00e9 poss\u00edvel que permitir que isso ocorra aprofunde ainda mais a degrada\u00e7\u00e3o social\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Otiti descreve a viol\u00eancia como um aspecto crucial do recrutamento. Os rebeldes do LRA amea\u00e7aram mat\u00e1-lo, como ao seu pai, se n\u00e3o se unisse a eles. \u201cEles batem at\u00e9 a gente quase morrer, e se voc\u00ea sobrevive significa que pode ser um soldado. Mas, se morre, significa que n\u00e3o teria sido um bom combatente, e esse, no final, teria sido seu fim de todo modo\u201d, contou \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>Os chefes preferem os menores porque \u00e9 mais f\u00e1cil manipular sua psicologia para que participem de atrocidades em massa. A consequ\u00eancia disso \u00e9 que as crian\u00e7as-soldado no Camboja do Khmer Vermelho (1975-1979) se comportaram mais desapiedadamente com os civis do que com os combatentes adultos, disseram Jo Boyden e Sara Gibbs em seu livro <i>Children of War<\/i> (As Crian\u00e7as da Guerra).<\/p>\n<p>\u201cAs crian\u00e7as s\u00e3o particularmente afetadas pela viol\u00eancia excessiva porque se manifesta em uma etapa crucial do desenvolvimento do ser humano\u201d, disse \u00e0 IPS Marie Lamensch, assistente do diretor do Instituto de Montreal para os Estudos sobre Genoc\u00eddio e Direitos Humanos (MIGS). \u201cO contexto em que cresce uma crian\u00e7a afeta seu desenvolvimento cognitivo e afetivo. Os meninos-soldado, matem ou n\u00e3o, est\u00e3o expostos \u00e0 viol\u00eancia f\u00edsica e verbal, e submetidos ao temor e \u00e0 falta de defesa. Esse trauma influir\u00e1 na maneira como reagir\u00e1 ao seu entorno, agora e no futuro\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o significa que as crian\u00e7as care\u00e7am de moral. As crian\u00e7as recrutadas pela for\u00e7a \u201cconservam seus princ\u00edpios morais nas primeiras semanas ap\u00f3s o sequestro e sabem que o que est\u00e3o fazendo \u00e9 errado, mas, quanto mais matam e mais violam, sua consci\u00eancia vai se desligando\u201d, pontuou \u00e0 IPS Moses Makasa, diretor de desenvolvimento na Watoto, uma organiza\u00e7\u00e3o ugandense que ajuda a reabilitar crian\u00e7as-soldado como Otiti.<\/p>\n<p>Otiti recordou que passou por um processo semelhante. \u201cNo primeiro m\u00eas, eu n\u00e3o estava c\u00f4modo com as coisas que estavam acontecendo, mas ent\u00e3o cheguei a uma situa\u00e7\u00e3o onde tudo se tornou praticamente normal\u201d, afirmou. \u201cQuando me uni ao LRA, realmente senti que o que eles faziam n\u00e3o era certo, mas depois esse pensamento foi desaparecendo da minha mente. Mas nunca me agradou\u201d, contou. E foi essa vol\u00e1til distin\u00e7\u00e3o entre o bem e o mal que fez com que a vida no LRA fosse mais suport\u00e1vel, acrescentou.<\/p>\n<p>V\u00e1rios conflitos atuais mostram a rela\u00e7\u00e3o direta entre recrutamento de menores e potencial de crimes de lesa humanidade. No Sud\u00e3o do Sul e na Rep\u00fablica Centro-Africana \u201cest\u00e3o ocorrendo graves viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos e h\u00e1 grande perigo de atrocidades em massa\u201d, disse o secret\u00e1rio-geral da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), Ban Ki-moon, em uma reuni\u00e3o da Assembleia Geral, no dia 17 de janeiro. No dia 4 de fevereiro, a ONU publicou um informe especial sobre o uso de crian\u00e7as na guerra civil da S\u00edria.<\/p>\n<p>As crian\u00e7as-soldado s\u00e3o \u201ca ferramenta de alerta (de atrocidades em massa) mais facilmente identific\u00e1vel\u201d, disse o senador canadense Rom\u00e9o Dallaire, que em 1994 comandou a miss\u00e3o de paz da ONU em Ruanda e \u00e9 fundador da iniciativa que leva seu nome. Em 2002 entraram em vigor o Protocolo Facultativo da Conven\u00e7\u00e3o sobre os Direitos da Crian\u00e7a relativo \u00e0 participa\u00e7\u00e3o infantil nos conflitos armados e o Estatuto de Roma, que estabeleceu o Tribunal Penal Internacional.<\/p>\n<p>Os dois instrumentos colocam na ilegalidade a participa\u00e7\u00e3o de menores de 18 anos em hostilidades e tipificam como crime de guerra o alistamento, recrutamento ou uso de menores de 15 anos em hostilidades. Em 2004, o Conselho de Seguran\u00e7a da ONU tamb\u00e9m condenou por unanimidade o uso de crian\u00e7as-soldado.<\/p>\n<p>Desde que Otiti escapou do LRA, durante um confronto armado com as for\u00e7as do governo, trabalha para reconstruir sua vida, e agora estuda medicina. \u201cQuando ainda estava no LRA, havia certas coisas que eles faziam, como matar pessoas, e assim era como eu entendia as coisas. Mas quando voltei para casa realmente mudou o valor que dava \u00e0s vidas das outras pessoas. Cada vida \u00e9 muito importante\u201d, enfatizou \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>\u201cEssas crian\u00e7as que tanto sofrem hoje s\u00e3o os que v\u00e3o sanar suas sociedades ou repetir a viol\u00eancia dessas sociedades na pr\u00f3xima gera\u00e7\u00e3o\u201d, destacou, em fevereiro, Anthony Lake, diretor-executivo do Fundo das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Inf\u00e2ncia (Unicef). Se o mundo n\u00e3o abordar seriamente a educa\u00e7\u00e3o e a reabilita\u00e7\u00e3o dessas crian\u00e7as \u201cperderemos gera\u00e7\u00f5es\u201d, alertou. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Na&ccedil;&otilde;es Unidas, 11\/3\/2014 &ndash; O ugandense Moses Otiti tinha 15 anos, e caminhava com seu pai e outras pessoas, quando insurgentes do Ex&eacute;rcito de Resist&ecirc;ncia do Senhor (LRA) os emboscaram em 2003. Por ser crian&ccedil;a, foi o &uacute;nico que sobreviveu. 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