{"id":17269,"date":"2014-03-19T15:19:45","date_gmt":"2014-03-19T15:19:45","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=109708"},"modified":"2014-03-19T15:19:45","modified_gmt":"2014-03-19T15:19:45","slug":"o-imperativo-de-atender-as-tarefas-de-cuidado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/03\/ultimas-noticias\/o-imperativo-de-atender-as-tarefas-de-cuidado\/","title":{"rendered":"O imperativo de atender as tarefas de cuidado"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_66482\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/mulheres.png\"><img class=\"size-medium wp-image-66482\" alt=\"mulheres 300x199 O imperativo de atender as tarefas de cuidado\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/mulheres-300x199.png\" width=\"300\" height=\"199\" title=\"O imperativo de atender as tarefas de cuidado\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">No Mali, mulheres participam do projeto Cotton-4, desenvolvido com apoio do PNUD Brasil. Foto: Ferdy Garc\u00eas\/PNUD Brasil.<\/p><\/div>\n<p>Na\u00e7\u00f5es Unidas, mar\u00e7o\/2014 \u2013 Nas discuss\u00f5es realizadas na Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), sobre uma agenda de desenvolvimento mundial que em 2015 possa suceder os Objetivos de Desenvolvimento do Mil\u00eanio (ODM), parece existir acordo quanto a igualdade de g\u00eanero e empoderamento das mulheres serem componentes essenciais.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma ampla evid\u00eancia de que, nos pa\u00edses onde se conseguiu uma igualdade de g\u00eanero maior no emprego e na educa\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m existem \u00edndices maiores de desenvolvimento humano e crescimento econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m h\u00e1 consenso em que o empoderamento das mulheres \u00e9 essencial para reduzir a pobreza e melhorar os resultados em mat\u00e9ria de sa\u00fade p\u00fablica.<\/p>\n<p>Muitos defensores da igualdade de g\u00eanero promovem a inclus\u00e3o de objetivos relativos a um maior acesso das mulheres \u00e0s oportunidades de trabalho e \u00e0 iniciativa empresarial, bem como um aumento na participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das mulheres.<\/p>\n<p>Em nossos esfor\u00e7os para conseguir um desenvolvimento equitativo e sustent\u00e1vel, n\u00e3o podemos afastar o olhar das mulheres na cozinha, junto \u00e0 cama dos enfermos e pegando \u00e1gua no po\u00e7o.<\/p>\n<p>Sem preju\u00edzo de que esses s\u00e3o objetivos louv\u00e1veis que deveriam ser inclu\u00eddos, com frequ\u00eancia essas iniciativas n\u00e3o levam em conta um fator estrutural da desigualdade de g\u00eanero: a esmagadora carga de trabalho n\u00e3o remunerado que as mulheres assumem em casa e nas comunidades de todo o mundo.<\/p>\n<p>Trata-se do trabalho que realizam cozinhando, limpando e cuidando dos outros, e que em muitos pa\u00edses em desenvolvimento tamb\u00e9m inclui coletar \u00e1gua e combust\u00edvel para o consumo da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Esse tipo de trabalho, que \u00e9 um dos pilares das nossas sociedades, exige delas uma enorme quantidade de tempo. Na \u00c1frica subsaariana, por exemplo, mulheres e meninas dedicam 40 bilh\u00f5es de horas por ano coletando \u00e1gua, o equivale a um ano de trabalho de toda a for\u00e7a trabalhista da Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Essa desigual distribui\u00e7\u00e3o do trabalho de cuidado \u00e9 conseq\u00fc\u00eancia dos fortes estere\u00f3tipos de g\u00eanero que persistem em nossas sociedades e representa um enorme obst\u00e1culo para conseguir igualdade de g\u00eanero e de condi\u00e7\u00f5es entre homens e mulheres no gozo de direitos ao trabalho decente, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, \u00e0 sa\u00fade e de participar da vida p\u00fablica.<\/p>\n<p>O cuidado n\u00e3o remunerado frequentemente impede que as mulheres possam buscar um trabalho fora de casa. Por exemplo, um estudo realizado na Am\u00e9rica Latina e no Caribe mostra que mais da metade das mulheres entre 20 e 24 anos n\u00e3o busca emprego devido \u00e0 carga de trabalho que t\u00eam com as tarefas dom\u00e9sticas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, quando as mulheres t\u00eam acesso a um trabalho remunerado, este pode n\u00e3o ser suficiente para empoder\u00e1-las se continuam sendo as principais respons\u00e1veis pelas tarefas de cuidado, o que significa um \u201csegundo turno de trabalho\u201d em suas casas depois de encerrada a jornada de trabalho remunerado.<\/p>\n<p>A desproporcional carga com cuidados tamb\u00e9m limita as oportunidades das mulheres para avan\u00e7ar em suas profiss\u00f5es e seus sal\u00e1rios e aumenta as possibilidades de que acabem em um trabalho prec\u00e1rio e informal.<\/p>\n<p>Os estere\u00f3tipos de g\u00eanero que situam as mulheres como \u00fanicas respons\u00e1veis pelas tarefas de cuidado tamb\u00e9m t\u00eam impacto negativo nos homens, que sofrem a press\u00e3o social de precisarem ser os \u201cprovedores\u201d financeiros de sua fam\u00edlia em lugar de cuidar dela mais diretamente.<\/p>\n<p>O direito das meninas \u00e0 educa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 prejudicado. Nos casos mais extremos, estas s\u00e3o obrigadas a deixar a escola para ajudar nas tarefas dom\u00e9sticas, no cuidado com as crian\u00e7as menores ou com outros membros da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Com frequ\u00eancia, as meninas veem limitadas suas op\u00e7\u00f5es de conseguir igualdade na educa\u00e7\u00e3o, porque suas responsabilidades dom\u00e9sticas deixam menos tempo para elas do que para os homens para estudar, estabelecer redes ou realizar atividades extracurriculares.<\/p>\n<p>Sem igualdade de oportunidades educacionais, as mulheres e as meninas se veem impedidas de terem acesso a trabalho remunerado e emprego decente, que lhes permita fugir da pobreza.<\/p>\n<p>Em \u00faltima inst\u00e2ncia, a distribui\u00e7\u00e3o desigual do cuidado prejudica os esfor\u00e7os para o desenvolvimento. As mulheres que vivem em situa\u00e7\u00e3o de pobreza n\u00e3o t\u00eam acesso \u00e0 tecnologia que poderia aliviar seu trabalho e frequentemente vivem em lugares sem infraestrutura adequada, como \u00e1gua corrente ou eletricidade. Assim, seu trabalho de cuidado n\u00e3o remunerado \u00e9 especialmente intenso e dif\u00edcil.<\/p>\n<p>A falta de tempo tamb\u00e9m afeta o empoderamento pol\u00edtico e social da mulher. Como esperar que participe de reuni\u00f5es comunit\u00e1rias ou de forma\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7as se n\u00e3o tem mais ningu\u00e9m para cuidar de seus filhos ou de familiares enfermos em casa?<\/p>\n<p>O cuidado \u00e9 um bem social positivo e insubstitu\u00edvel, \u00e9 a coluna vertebral de todas as sociedades. Proporcionar cuidado pode trazer grandes recompensas e satisfa\u00e7\u00f5es. Por\u00e9m, para milh\u00f5es de mulheres, a pobreza \u00e9 sua \u00fanica recompensa por uma vida dedicada a cuidar dos outros.<\/p>\n<p>O cuidado n\u00e3o remunerado \u00e9 o elo que falta nos debates sobre empoderamento, direitos das mulheres e igualdade de g\u00eanero. Se n\u00e3o forem adotadas a\u00e7\u00f5es concretas para reconhecer, apoiar e compartilhar o cuidado n\u00e3o remunerado, as mulheres pobres n\u00e3o poder\u00e3o desfrutar de seus direitos humanos nem dos benef\u00edcios do desenvolvimento.<\/p>\n<p>Deve-se reconhecer que essa distribui\u00e7\u00e3o desigual n\u00e3o \u00e9 natural, \u00e9 evit\u00e1vel e traz consequ\u00eancias negativas para nossas sociedades.<\/p>\n<p>Avan\u00e7ar no cuidado exige uma mudan\u00e7a cultural de longo prazo. Mas a agenda de desenvolvimento p\u00f3s-2015 pode dar uma contribui\u00e7\u00e3o importante se reconhecer o trabalho de cuidado como uma responsabilidade social e coletiva, como um tema importante de direitos humanos, e como um elemento essencial para a redu\u00e7\u00e3o da pobreza.<\/p>\n<p>Os Estados e demais atores de desenvolvimento devem tomar medidas melhorando os servi\u00e7os p\u00fablicos e a infraestrutura em \u00e1reas mais desfavorecidas, investindo em tecnologias de uso dom\u00e9stico acess\u00edveis, proporcionando servi\u00e7os de apoio como de cuidado infantil (creches e ber\u00e7\u00e1rios) e estabelecendo incentivos para que os homens tenham um papel mais ativo nessas tarefas.<\/p>\n<p>Hoje, mais do que nunca, nosso progresso depende de reconhecer, reduzir e redistribuir o cuidado n\u00e3o remunerado. A formula\u00e7\u00e3o da nova agenda de desenvolvimento p\u00f3s-2015 \u00e9 um bom lugar para come\u00e7ar. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p><em>* <strong>Magdalena Sep\u00falveda Carmona<\/strong> \u00e9 relatora especial da ONU para os Direitos Humanos e a Extrema Pobreza, e John Hendra \u00e9 subsecret\u00e1rio-geral da ONU e diretor-executivo adjunto da ONU Mulheres.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na&ccedil;&otilde;es Unidas, mar&ccedil;o\/2014 &ndash; Nas discuss&otilde;es realizadas na Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas (ONU), sobre uma agenda de desenvolvimento mundial que em 2015 possa suceder os Objetivos de Desenvolvimento do Mil&ecirc;nio (ODM), parece existir acordo quanto a igualdade de g&ecirc;nero e empoderamento das mulheres serem componentes essenciais. H&aacute; uma ampla evid&ecirc;ncia de que, nos pa&iacute;ses onde [&hellip;] <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/03\/ultimas-noticias\/o-imperativo-de-atender-as-tarefas-de-cuidado\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":2350,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[2181,1009,3178,24,2115,1010],"class_list":["post-17269","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ultimas-noticias","tag-empoderamento","tag-inter-press-service-colunistas","tag-ips","tag-mulheres","tag-odm","tag-sociedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17269","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2350"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17269"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17269\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17269"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17269"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17269"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}