{"id":17280,"date":"2014-03-21T14:00:39","date_gmt":"2014-03-21T14:00:39","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=109902"},"modified":"2014-03-21T14:00:39","modified_gmt":"2014-03-21T14:00:39","slug":"desenvolvimento-portuario-gera-progresso-e-vitimas-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/03\/ultimas-noticias\/desenvolvimento-portuario-gera-progresso-e-vitimas-no-brasil\/","title":{"rendered":"Desenvolvimento portu\u00e1rio gera progresso e v\u00edtimas no Brasil"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_109904\" style=\"width: 539px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/Brasil-chica-629x472.jpg\"><img class=\" wp-image-109904 \" alt=\"Brasil chica 629x472 Desenvolvimento portu\u00e1rio gera progresso e v\u00edtimas no Brasil\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/Brasil-chica-629x472.jpg\" width=\"529\" height=\"372\" title=\"Desenvolvimento portu\u00e1rio gera progresso e v\u00edtimas no Brasil\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Parte do porto Ponta da Madeira, no nordeste do Brasil, de onde saem os navios carregados com o ferro de Caraj\u00e1s, inclu\u00eddos os meganavios Valemax. Foto: Mario Osava\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"line-height: 1.5em;\">S\u00e3o Lu\u00eds, Brasil, 21\/3\/2014 \u2013 \u201cSomos v\u00edtimas do progresso\u201d, lamenta Osmar Santos Coelho, conhecido como Santico. Sua comunidade pesqueira desapareceu, desalojada para a constru\u00e7\u00e3o de um porto na ba\u00eda de S\u00e3o Marcos, na parte ocidental da capital do Estado do Maranh\u00e3o, S\u00e3o Lu\u00eds, no Nordeste do pa\u00eds. O terminal mar\u00edtimo de Ponta da Madeira, em opera\u00e7\u00e3o desde 1986, fortificou a influ\u00eancia de sua propriet\u00e1ria, a mineradora Vale, na cidade de S\u00e3o Lu\u00eds.<\/span><\/p>\n<p>Por esse terminal s\u00e3o exportados atualmente mais de 110 milh\u00f5es de toneladas anuais de min\u00e9rio de ferro, consolidando um corredor log\u00edstico decisivo para o desenvolvimento econ\u00f4mico local. Ali chegam os trens da companhia. A fun\u00e7\u00e3o primordial do porto \u00e9 transportar a produ\u00e7\u00e3o de Caraj\u00e1s, gigantesca prov\u00edncia mineral da Amaz\u00f4nia oriental que converteu a Vale em l\u00edder mundial em ferro. Dali tamb\u00e9m sai boa parte da soja colhida no centro-norte do Brasil. Ao lado, uma unidade da Vale transforma em pelotas parte do min\u00e9rio.<\/p>\n<p>Essas atividades geram milhares de empregos, especialmente em sua \u00e1rea de influ\u00eancia direta, Itaqui-Bacanga, um conjunto de 58 bairros no sudoeste da capital maranhense. Os jovens sonham com a transnacional Vale pela boa remunera\u00e7\u00e3o e por sua pol\u00edtica de recursos humanos, herdada de sua longa vida como empresa p\u00fablica (1942-1997), que assegura estabilidade aos seus trabalhadores. Um empregado \u201cs\u00f3 \u00e9 demitido se fizer muitas bobagens\u201d, disse um executivo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a empresa multiplicou a oferta de empregos tempor\u00e1rios na amplia\u00e7\u00e3o do porto e duplica\u00e7\u00e3o da ferrovia, para dobrar as exporta\u00e7\u00f5es minerais a partir de 2018. Por esses e outros projetos locais, a economia do conjunto de bairros vizinhos est\u00e1 em auge, disse George Pereira, secret\u00e1rio da Associa\u00e7\u00e3o Comunit\u00e1ria Itaqui-Bacanga (Acib). Entre outras iniciativas, est\u00e3o sendo instaladas aqui tr\u00eas f\u00e1bricas \u2013 de cimento, celulose e fertilizantes \u2013, junto com uma central termoel\u00e9trica movida a carv\u00e3o.<\/p>\n<p>A 55 quil\u00f4metros ao sul, a Petrobras construir\u00e1, no munic\u00edpio de Bacabeira, a Refinaria Premium I, que, quando for inaugurada em 2018, ser\u00e1 a maior do Brasil. A obra ser\u00e1 licitada em abril e em seu apogeu empregar\u00e1 25 mil trabalhadores, segundo a companhia.<\/p>\n<p>O auge de empregos ativa o consumo, o com\u00e9rcio e os servi\u00e7os, \u201cmas n\u00e3o \u00e9 o desenvolvimento que queremos, com mais dinheiro no bolso, mas sem \u00e1gua para beber, por causa dos rios contaminados\u201d, ressaltou Pereira. Faltam saneamento, \u00e1gua pot\u00e1vel, transporte, professores e m\u00e9dicos, enquanto sobram viol\u00eancia, drogas e prostitui\u00e7\u00e3o nos bairros, cuja popula\u00e7\u00e3o aumentou rapidamente, acrescentou, lembrando que j\u00e1 s\u00e3o cerca de 200 mil habitantes, e que ser\u00e3o mais com dois novos bairros em constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Diante dessa realidade, a Vale \u201cfaz boas a\u00e7\u00f5es, mas isoladas, sem programas transformadores de desenvolvimento territorial\u201d, criticou Pereira. As prioridades s\u00e3o educa\u00e7\u00e3o e saneamento, afirmou.<\/p>\n<p>Ironicamente, a associa\u00e7\u00e3o que critica e pressiona a Vale \u00e9 sua cria\u00e7\u00e3o. Surgiu por um investimento social da empresa, exigida pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Social (BNDES) como condi\u00e7\u00e3o para financiar as unidades de pelotas. A Acib, dirigida por representantes dos cinco setores que comp\u00f5em Itaqui-Bacanga, foi criada h\u00e1 dez anos para mobilizar a popula\u00e7\u00e3o em favor de um projeto de limpeza urbana. Seu funcionamento e sua sede, um pr\u00e9dio de dois andares, s\u00e3o financiados com contribui\u00e7\u00f5es da Vale, explicou Pereira.<\/p>\n<p>Entre as numerosas a\u00e7\u00f5es sociais da companhia, algumas se destacam por seus efeitos, como a amplia\u00e7\u00e3o do Centro de Educa\u00e7\u00e3o Profissional de Itaqui-Bacanga, uma escola do Servi\u00e7o Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai). Este ano o centro d\u00e1 educa\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica a dez mil alunos, o dobro de 2013, e cinco vezes mais do que em 2010, gra\u00e7as a 14 novas salas de aula e cinco laborat\u00f3rios.<\/p>\n<p>Uma associa\u00e7\u00e3o semelhante entre Vale e Senai sustenta outros tr\u00eas centros ao longo do corredor entre Caraj\u00e1s e S\u00e3o Lu\u00eds, disse \u00e0 IPS a gerente de recursos humanos da mineradora, Jana\u00edna Pinheiro. Em 2013, o Senai capacitou 65 mil alunos no Maranh\u00e3o, contra dez mil h\u00e1 uma d\u00e9cada, disse \u00e0 IPS seu diretor estadual, Marco Moura.<\/p>\n<p>Em S\u00e3o Lu\u00eds, a industrializa\u00e7\u00e3o se concentra em torno dos portos da ba\u00eda de S\u00e3o Marcos. Vizinho de Ponta da Madeira, opera, desde a d\u00e9cada de 1970, Itaqui, um porto estatal para todo tipo de carga, que este ano acrescentar\u00e1 seu Terminal de Gr\u00e3os para exporta\u00e7\u00e3o de soja e milho produzidos nas novas fronteiras agr\u00edcolas do centro e do norte.<\/p>\n<p>Alguns novos portos brasileiros nasceram com voca\u00e7\u00e3o de polos industriais. Assim ocorre com Suape e Pec\u00e9m, respectivamente em Pernambuco e Cear\u00e1, planejados como complexos portu\u00e1rio-industriais e que impulsionam a economia local desde a \u00faltima d\u00e9cada. Em ambos h\u00e1 refinarias da Petrobras, al\u00e9m de uma unidade petroqu\u00edmica e oito estaleiros, isto em Suape, e uma sider\u00fargica e centrais el\u00e9tricas, em Pec\u00e9m. Al\u00e9m disso, muitas empresas est\u00e3o se instalando nas imensas zonas industriais atr\u00e1s dos portos.<\/p>\n<div id=\"attachment_109905\" style=\"width: 550px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/Brasil-chica-2.jpg\"><img class=\" wp-image-109905 \" alt=\"Brasil chica 2 Desenvolvimento portu\u00e1rio gera progresso e v\u00edtimas no Brasil\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/Brasil-chica-2.jpg\" width=\"540\" height=\"380\" title=\"Desenvolvimento portu\u00e1rio gera progresso e v\u00edtimas no Brasil\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Osmar Santos Coelho, o Santico, diante da cabana onde guarda suas redes e outros equipamentos de pesca, em uma estreita praia que escapou da invas\u00e3o do terminal portu\u00e1rio da mineradora Vale, em S\u00e3o Luis, Estado do Maranh\u00e3o, na regi\u00e3o Nordeste do Brasil. Foto: Mario Osava\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em S\u00e3o Lu\u00eds, os portos surgiram alheios a essa onda de industrializa\u00e7\u00e3o, por ficarem na regi\u00e3o brasileira mais atrasada em rela\u00e7\u00e3o a outros polos do Nordeste. A grande profundidade de suas \u00e1guas, apta para navios de grande calado, sua localiza\u00e7\u00e3o voltada para o Atl\u00e2ntico norte e a conex\u00e3o com a ferrovia Caraj\u00e1s foram vantagens para instalar o terminal.<\/p>\n<p>Mas, por tr\u00e1s h\u00e1 v\u00edtimas, recordou Santico \u00e0 IPS. Por exemplo, \u201centre 80 e cem\u201d pescadores artesanais de Boqueir\u00e3o, que foram expulsos de sua praia e reassentados em diferentes bairros. Alguns anos depois, muitos deles voltaram a pescar em S\u00e3o Marcos, apesar da proibi\u00e7\u00e3o, e usam como base uma ponta de praia n\u00e3o ocupada pelo porto, explicou.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o t\u00ednhamos outro of\u00edcio e pass\u00e1vamos fome\u201d, afirmou Santico. Terminaram por construir nesse lugar oito prec\u00e1rias cabanas de paus e folha de palmeira, umas poucas para resid\u00eancia e outras apenas para as tralhas de pesca. Santico, de 73 anos, tem sua casa em um bairro pr\u00f3ximo e uma cabana na praia, para suas espor\u00e1dicas pescas noturnas.<\/p>\n<p>\u201cOs peixes quase acabaram, restaram uns poucos camar\u00f5es\u201d, depois da constru\u00e7\u00e3o de novos molhes, contou Santico. Por isso negociaram com a Vale, tr\u00eas anos atr\u00e1s, conseguiram uma canasta de alimentos para 52 pescadores, de entre US$ 308 e US$ 725 d\u00f3lares. \u201cCom isso sobrevivemos\u201d, reconheceu.<\/p>\n<p>Milhares de outras fam\u00edlias tamb\u00e9m foram desalojadas para a constru\u00e7\u00e3o de atracadouros e instala\u00e7\u00f5es portu\u00e1rias. Itaqui, na verdade, era o nome de um bairro desaparecido. E agora mais bairros est\u00e3o amea\u00e7ados pela zona industrial, em constru\u00e7\u00e3o \u00e0 margem da estrada. Vila Maranh\u00e3o teme sua extin\u00e7\u00e3o, cercada pela ferrovia e pelo novo polo, e a poucos quil\u00f4metros de uma central el\u00e9trica a carv\u00e3o, uma grande ind\u00fastria de alum\u00ednio e dep\u00f3sitos minerais.<\/p>\n<p>\u201cAinda n\u00e3o h\u00e1 nada oficial, mas \u00e9 quest\u00e3o de tempo nos tirarem daqui\u201d, afirmou Lamartine de Moura, diretor da Acib, de 71 anos, 23 deles em Vila Maranh\u00e3o. \u201cSe eles n\u00e3o nos tirarem de nossas casas, a contamina\u00e7\u00e3o o far\u00e1\u201d, disse \u00e0 IPS. Um estudo universit\u00e1rio identificou metais pesados no riacho local, e o p\u00f3 mineral do ar suja as casas e dissemina enfermidades respirat\u00f3rias, explicou.<\/p>\n<p><b>Navios muito grandes para a China<\/b><\/p>\n<p>Os 23 metros de profundidade de Ponta da Madeira permitem fundear os Valemax, os maiores navios mineraleiros do mundo, com capacidade para 400 mil toneladas, em opera\u00e7\u00e3o desde 2011. A China, principal cliente do ferro da Vale, seria o principal destino dessas megaembarca\u00e7\u00f5es, mas as proibiu em seus portos por excesso de tamanho. Isso apesar de um estaleiro chin\u00eas estar construindo 12 desses navios para o l\u00edder mundial em extra\u00e7\u00e3o de ferro. A Coreia f\u00e1brica outros sete.<\/p>\n<p>A meta da Vale \u00e9 ter 35 Valemax, 16 alugados. Sua grande escala barateia custos e ajuda a competir com a Austr\u00e1lia, outra pot\u00eancia em minera\u00e7\u00e3o e mais perto do grande mercado asi\u00e1tico. Al\u00e9m disso, esses navios gigantes reduzem em 35% a emiss\u00e3o de gases-estufa para cada tonelada de min\u00e9rio transportado, destaca a segunda transnacional da minera\u00e7\u00e3o do mundo.<\/p>\n<p>Para enfrentar a proibi\u00e7\u00e3o chinesa, a Vale usa esta\u00e7\u00f5es de transfer\u00eancia nas Filipinas e logo contar\u00e1 com um centro de distribui\u00e7\u00e3o na Mal\u00e1sia, de transbordo para navios menores. Dois portos brasileiros e seis estrangeiros recebem os Valemax atualmente. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; S&atilde;o Lu&iacute;s, Brasil, 21\/3\/2014 &ndash; &ldquo;Somos v&iacute;timas do progresso&rdquo;, lamenta Osmar Santos Coelho, conhecido como Santico. Sua comunidade pesqueira desapareceu, desalojada para a constru&ccedil;&atilde;o de um porto na ba&iacute;a de S&atilde;o Marcos, na parte ocidental da capital do Estado do Maranh&atilde;o, S&atilde;o Lu&iacute;s, no Nordeste do pa&iacute;s. 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